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A hesitação movida a hélio, o megafone para a fotografia e uma tenda móvel. Como funcionam as máquinas de campanha em Lisboa

O Observador acompanhou de perto as campanhas dos principais candidatos à câmara de Lisboa. A equipa, as estratégias, as hesitações e os detalhes discretos da corrida autárquica à capital.

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Carlos Moedas hesitou em participar no programa de Ricardo Araújo Pereira, mas lá acabou por ir movido a hélio. Na rua, uma exposição mais prolongada aos jornalistas deu em ralhete à agência de comunicação, ou não fosse uma campanha inspirada em Napoleão. Alexandra Leitão utilizou um megafone só para a fotografia, mas agitou cravos com convicção ao som de uma versão de “Oh Laurindinha” inventada pelo parceiro Livre. João Ferreira comprovou que o programa de Guilherme Geirinhas “não é a praia” dele. Apesar de dar, literalmente, a cara pela campanha da CDU, fica desconfortável quando lhe elogiam os atributos físicos. Bruno Mascarenhas não se importa de estar à sombra de uma tenda nómada, devidamente decorada com o rosto de Ventura. Seguindo as estruturas mais ou menos amadoras dos partidos, o Observador acompanhou durante duas semanas o outro lado (o menos conhecido) da campanha na capital.

Moedas. Uma campanha napoleónica, de risco zero e de sentido único

Quem assiste à cena, no estúdio ou a partir de casa, é incapaz de adivinhar que ele não queria verdadeiramente estar ali. Parece descontraído e genuinamente bem disposto. Ainda nem tinham passado três minutos e, na primeira intervenção que faz, logo a definir o tom do programa, entrega à adversária uma botija rosa de hélio, numa referência à caricatura que Ricardo Araújo Pereira costuma fazer dele. Desafia-a a experimentar. Alexandra Leitão, assumidamente constipada e a transpirar visivelmente, ri-se, mas recusa alinhar na brincadeira.

Aliás, a socialista manter-se-ia sempre levemente hostil até ao fim. Dinheiro em caixa para ele — nestas coisas, o sentido de fair-play é tudo. Carlos Moedas tinha conseguido protagonizar o momento mais alto de um programa em que esteve muito perto de não participar. Só aceitou depois de muita insistência e só depois de a adversária ter confirmado a presença. A alternativa — faltar a um programa de grande audiência — seria muito pior.

No fundo, Carlos Moedas não queria correr um risco desnecessário. E sujeitar-se ao sentido de humor de Ricardo Araújo Pereira, mesmo num ambiente altamente controlado (os ‘entrevistados’ sabem de antemão a que provocações terão de responder), seria sempre um risco desnecessário. Aliás, toda a campanha do social-democrata (aquela que existiu à vista de todos, pelo menos) foi pensada com base nesse racional: uma mensagem (Alexandra Leitão é radical), zero riscos, máximo conforto.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Ainda que os homens de Moedas acreditem que a vantagem é muito superior àquela que as sondagens indicam, numa corrida aparentemente tão renhida, cometer erros nunca foi uma opção. E mesmo com todas as tensões e pressões internas para que Moedas aparecesse mais, falasse mais e atacasse mais, mesmo perante a estupefação da direção nacional do partido — o Observador sabe que alguns dos elementos mais próximos de Montenegro não ficaram nada felizes — a estratégia, pensada sobretudo por António Valle, diretor da campanha e ex-chefe de gabinete do presidente, não sofreu grandes variações. Houve rigor até nos mais pequenos pormenores.

Passam pouco mais de 20 minutos das 10 da manhã. É quarta-feira e Carlos Moedas tinha reservado a manhã para passear pelas ruas de Campo de Ourique. Fez-se acompanhar por Hugo Soares, secretário-geral do PSD e braço-direito de Luís Montenegro. O prato forte do dia são os mais recentes desenvolvimentos do caso “Spinumviva”. Rodeado pela comunicação social, Moedas fala sobre o tema e defende o primeiro-ministro. Depois, fala finalmente sobre Lisboa.

Repete essencialmente todos os ataques que vem fazendo a Alexandra Leitão. Está a cumprir o guião, sem escorregar. Mas a cena prolonga-se e as perguntas repetem-se. O risco aumenta. António Valle impacienta-se. Era suposto Hugo Soares já ter falado para dar como terminadas as declarações. Quando a bolha se desfaz, Valle distancia-se, puxa à parte um dos assessores da Cunha Vaz, agência que está a ajudar à campanha, e repreende-o por ter permitido que o candidato falasse tanto tempo e respondesse a tantas perguntas. Não deveria ter acontecido.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Moedas nunca saiu verdadeiramente desta zona de conforto. É certo que na viragem da primeira para a segunda semana de campanha se deu mais à rua e se prestou a algum escrutínio da comunicação social — os primeiros cinco dias úteis foram verdadeiramente uma não-campanha. Ferreira Leite, Portas, Gonçalo Matias, Bugalho, Hugo Soares e Montenegro foram personagens coadjuvantes muito competentes. O Elevador da Glória quase não foi tema na bolha em que se movia o candidato. Na rua, as interações correram-lhe bem — ninguém lhe foi verdadeiramente hostil. Mas houve sempre uma camada protetora em torno do candidato, numa campanha de exposição mínima e, essencialmente, pensada para as redes sociais, com direito a participação especial do cantor Toy mesmo a terminar.

No fundo, Carlos Moedas fez uma campanha napoleónica. Não no sentido mais beligerante ou triunfal, porque isso não aconteceu, mas porque toda ela foi pensada a partir de uma máxima do antigo imperador francês: nunca interrompas o teu adversário quando ele está a cometer a um erro. Para os homens do social-democrata, o PS cometeu um erro capital quando escolheu Alexandra Leitão como candidata a Lisboa e afundou-se ainda mais quando decidiu fazer uma grande frente de esquerda, ainda para mais privada do PCP. Lançados os dados, a narrativa da campanha fez-se sozinha: Alexandra Leitão, a grande aliada de Pedro Nuno Santos, a número dois de um PS que caiu para terceira força política, fez-se refém de uma “esquerda radical” que se move apenas pelo “ódio”.

Durante os meses de preparação e, em particular, nos últimos quinze dias de campanha, a equipa de Moedas alimentou a profunda convicção de que o projeto encabeçado por Alexandra Leitão repele mais eleitores do que aqueles que conquista. Ainda para mais se contasse com a participação ativa de Mariana Mortágua, como acabou por acontecer. ‘Leitão mais Mortágua’ é uma equação que afunila, não que alarga. O candidato social-democrata só precisava de convencer os eleitores moderados e insistir até ao fim na mesma mensagem: a candidatura da socialista é uma barriga de aluguer do Bloco de Esquerda.

Depois, foi acrescentado umas camadas de dramatismo. Leitão está contra os polícias, Leitão está contra a regulação da imigração, Leitão está contra uma cidade mais limpa. A determinada altura, na segunda semana de campanha, chegou mesmo a dizer que só uma vitória da coligação por ele liderada evitaria a cidade de mergulhar num “caos”. No fundo, uma importação da fórmula de Isabel Díaz Ayuso, presidente da Comunidade de Madrid, inspiração assumida de Moedas e convidada de honra do primeiro dia de campanha do social-democrata. “Socialismo ou liberdade.”

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

“A Alexandra Leitão é o nosso maior ativo eleitoral”, chegou a ouvir o Observador de um dos apoiantes mais próximos de Carlos Moedas, durante a reta final da campanha. Não sendo exatamente uma novidade — há muito que se reconhece que se o PS tivesse apresentado alguém com outras características a reeleição seria bem mais difícil —, este tipo de comentários não deixa de demonstrar uma sensação de algum alívio. Porque até os mais indefetíveis apoiantes do presidente da Câmara Municipal de Lisboa reconhecem o óbvio: os últimos quatro anos não foram a viragem de página que a campanha de 2021 prometeu.

Aliás, a forma como Manuela Ferreira Leite, naquele que deveria ter sido um dos momentos nobres da campanha, defendeu o legado de Moedas não deixou de provocar uns quantos sorrisos amarelos. Na segunda-feira, 6 de outubro, no Lumiar, rodeada de jornalistas e apoiantes do candidato, a antiga líder do PSD foi desafiada a dizer se considera que Lisboa está melhor na era Moedas. “Pelo menos, debaixo do solo, está de certeza”, começou por dizer Ferreira Leite, referindo-se ao plano de drenagem (que também merece uma menção no hino do cantor Toy). “O jardim pode estar estragado, as pedras da calçada podem não estar muito bem, pode o lixo andar algumas vezes pouco condicionado, mas de uma coisa estou certa: se houver alguma catástrofe, Lisboa está segura”, completou. Não era exatamente o cartão de visita mais entusiasmante.

“Há muita gente que votou em nós que está descontente ou desiludida. Isso é verdade”, desabafa com o Observador um elemento social-democrata, admitindo que esta campanha mobilizou menos os potenciais eleitores. “Mas o outro lado também não parece ter conseguido mobilizar”, acrescenta de imediato a mesma fonte. Ou, recorrendo a uma imagem menos simpática de outra fonte da candidatura, “Carlos Moedas arrisca-se a ganhar sem ter feito nada por isso”.

Curiosamente, contam-se pelos dedos de uma mão as referências de Carlos Moedas ao Chega e ao candidato Bruno Mascarenhas. Das poucas vezes que falou do tema foi apenas para recordar que o adversário à direita apresentou uma moção de censura contra ele na Assembleia Municipal. Sem mais. Esta omissão presta-se a duas conclusões: em primeiro lugar, os sociais-democratas perceberam que há um eleitorado de direita que não conseguem disputar, logo não valia a pena o esforço; e, em segundo lugar, mesmo não o assumindo, André Ventura é um aliado natural de Moedas na disputa contra a frente de esquerda de Leitão — a forma como o líder do Chega se demitiu de participar ativamente na campanha de Lisboa foi assinalada e celebrada por alguns dos homens da campanha de Moedas.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

A ideia de que a reeleição está em risco — hipótese de que os mais próximos de Moedas sempre afastaram nas conversas mais informais — ajudou a imprimir à campanha um estado de alerta que não existia. No fundo, e tal como aconteceu a Fernando Medina há quatro anos, o social-democrata concorre contra ele próprio nestas eleições: contra aquilo que fez e aquilo que não fez ao longo do mandato, contra as expectativas que não cumpriu e contra as frustrações que acumulou junto de quem votou nele.

Há quatro anos, um das causas da vitória de Carlos Moedas foi, precisamente, a forte desmobilização dos eleitores de Fernando Medina. Aliás, o socialista perdeu mais votos do que aqueles que a coligação de direita conseguiu ganhar face às autárquicas de 2017, 25 mil votos contra os quase 3 mil que Moedas conseguiu somar face ao resultado anterior de Teresa Leal Coelho. Era esse efeito de desmobilização que o social-democrata pretendia, a todo custo, evitar.

Nesse sentido, as sondagens que tanto animaram Alexandra Leitão serviram os propósitos da candidatura de Carlos Moedas, que estava com dificuldades evidentes em dar alguma chama à campanha. Mas terá servido apenas para isso mesmo. Mesmo sem nunca confirmarem a existência de sondagens internas, e apesar do empate técnico que os estudos de opinião públicos garantem existir, a partir da segunda metade da campanha, a grande confiança da equipa de Moedas era uma evidência.

Mesmo assim, ninguém se comprometeu com um número mágico ou com a maioria absoluta; mas já ninguém duvidava de uma vitória por números bem redondos. Mesmo ao cair do pano, no penúltimo dia de campanha, Montenegro apareceu em cena a pedir claramente a “maioria absoluta“ para Moedas. A pressão não podia ser maior. O domingo eleitoral logo dirá se Moedas vai conseguir ou não estar à altura.

Alexandra Leitão. Um porta a porta discreto, quase a solo (no PS) mas coordenado a quatro

Pelas 18 horas de terça-feira, o parque infantil do jardim Constantino até está agitado, pena é que a população de palmo e meio não conta para domingo. O responsável operacional da caravana já vem desde a Almirante Reis de megafone na mão. Todos — menos o diretor de campanha que já viu o cenário — acham boa ideia pôr a candidata a discursar através do tal aparelho para dar ideia de que só assim consegue ser ouvida pela multidão. Mas não há propriamente uma multidão e também não há assim tantos potenciais eleitores à vista. “É para a fotografia”, conclui Alexandra Leitão que lá se dispõe para o boneco.

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Mesmo sem grande convicção, nesta parte mais cénica a candidata vai cumprindo disciplinadamente o que lhe pedem para fazer. Diz que do que mais tem gostado na campanha é do contacto de rua, mas acaba por ter um estilo contido e pouco à vontade na abordagem direta dos eleitores. Prefere que outra pessoa vá à frente. Não chega a ser “sisuda”, como descreveu ao Observador a imagem que pensa que os outros têm de si mesma, mas procura não ser invasiva. Só estende a mão quando vê disponibilidade do outro lado e apresenta-se de imediato: “Olá, eu sou a Alexandra.”

É a primeira campanha que protagoniza. Até aqui tinha sido cabeça de lista pelo distrito de Santarém em legislativas, o que não se compara a ter a cara espalhada em cartazes por toda a cidade de Lisboa. Não foi o suficiente, porque ainda esta quinta-feira surpreendeu uma senhora no bairro da Boavista, em Benfica: “Não é do Chega, pois não? Isso é que não queremos cá”. Via a candidata ali ao vivo e conferia que era a mesma cara que estava no panfleto que acabara de receber das suas mãos. “Sou eu. E aqui atrás tem o boletim de voto”, explicou Leitão.

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O reconhecimento pelas pessoas “foi crescendo”, garante-se na caravana. Leitão já anda há meses na rua a bater freguesias para tentar dar-se a conhecer, mas neste período oficial nem sempre resultou imediato esse reconhecimento nas ruas. E, nas freguesias onde leva ao lado o presidente de junta em funções, acaba por ser ela, muitas vezes, a apresentada aos munícipes. Em Benfica, no domingo e depois novamente na quinta-feira, o presidente da junta Ricardo Marques ia fazendo as honras: “Vizinha, deixe-me apresentar-lhe a Drª Alexandra que vai ser a próxima presidente da Câmara de Lisboa”.

Andou nesta campanha muito a solo, com alguns membros da lista, como o número dois Sérgio Cintra ou o número um da lista à Assembleia Municipal, André Moz Caldas . De resto, no grupo mais permanente iam entrando e saindo presidentes de Junta, quando os havia, ou candidatos a Juntas das Freguesias que percorria. Nada de figuras do PS, ex-governantes ou ex-autarcas, por exemplo. “O objetivo foi sempre dar visibilidade à candidata e aos presidentes de Junta”, diz a candidatura.

Alguns socialistas com quem o Observador foi falando neste dias estranharam a estratégia de uma candidata sozinha na rua, confirmam que não foram recebidos propriamente convites para participações em ações de campanha diárias com a candidata e surge o aviso: “Corra bem ou mal, terá toda a responsabilidade“.

É certo que, na segunda-feira à noite, no jantar-comício, o único grande momento da campanha, não faltaram figuras — e de todos os partidos da coligação que junta PS/Livre/BE/PAN, de José Luís Carneiro, a Rui Tavares, passando por Inês Sousa Real e um sem número de altas figuras do PS, como Ana Catarina Mendes, Mariana Vieira da Silva, Eduardo Cabrita, António Mendonça Mendes, José António Vieira da Silva, Edite Estrela, o mandatário António Vitorino e até o ex-colega de Governo, o independente Pedro Siza Vieira.

Mas em ações de rua estiveram pouco envolvidos, só se viu Mariana Vieira da Silva, na descida da Morais Soares, o ex-presidente da CML Fernando Medina, no bairro da Boavista e pouco mais. Mas foi uma opção assumida pela candidatura, com a candidata a fazer mais questão de se fazer acompanhar por representantes da sua lista, sobretudo dos vários parceiros de coligação. E também dos líderes desse partidos, tanto que na fase da campanha oficial, Rui Tavares apareceu com mais frequência do que José Luís Carneiro, o líder do PS. Já Mariana Mortágua, coordenadora do BE, esteve na flotilha humanitária grande parte do tempo da campanha oficial e só regressou no último domingo, tendo entrado na campanha, ao lado de Leitão, só na quarta-feira. São esperados todos juntos na descida do Chiado, esta sexta-feira.

Mas foi notório, nestes dias, o esforço que Leitão teve para não deixar que esta parecesse uma candidatura só do PS — coisa que José Luís Carneiro quase estragou na noite de terça-feira quando, embalado no discurso, falava na candidatura do PS, tendo de corrigir logo de seguida com a referências aos parceiros, ali sentados mesmo na mesa à frente do palco de onde ele próprio saído para intervir no comício.

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O receio da esquerdização também sobrevoa o PS — e não surgiu só na cabeça de Carlos Moedas e no “papão” do Bloco que agitou durante a campanha para assustar o centro político. Leitão tratou o assunto com cautela, evitando passos em falso (como deixar entrar a questão palestiniana, pela mão de Mortágua, na sua campanha) e mantendo-se fiel à cartilha que definiu de início: apresentar as suas propostas e não ir às dobras das críticas que viessem do adversário, sobretudo quando esse era visivelmente o objetivo de Carlos Moedas. “Evitar o bate-boca“, como se resume na candidatura.

Mas na quarta-feira passada, depois de ouvir o adversário dizer que teria um projeto de “ódio”, foi ao confronto e terminou a campanha oficial precisamente no bate-boca que procurou evitar. Tinha acabado de descer a Avenida de Roma, de ramo de cravos vermelhos na mão que ia agitando ao som de uma versão do “Oh Laurimdinha” inventada pelo Livre, quando se juntou a Rui Tavares, que já falava aos jornalistas, tinha alguma coisa para dizer. Queria “abrir uma exceção” para responder a Moedas: “Quem faz uma afirmação dessas só pode estar de cabeça perdida”.

A partir daí não largou mais essa linha. Voltou a abrir outra “exceção”, até com mais detalhe, um quilómetro mais à frente na Almirante Reis, já junto a Mariana Mortágua, que a secundou acrescentando “desespero” à catalogação de Moedas — lá atrás, Jorge Costa, do BE, ia acenando afirmativamente com a cabeça às investidas de uma e de outra. No dia seguinte, a socialista voltou à carga, ao lado de Fernando Medina, no bairro da Boavista, também com a ajuda do ex-autarca.

O despique, de resto, foi estando sempre numa campanha que procurou bipolarizar esta luta, mas só focou exclusivamente em Moedas nesta recta final. A dada altura, a candidatura viu fugir-lhe o pé para um ataque cerrado ao PCP que até começou na própria cabeça de lista que sugeria desde início que João Ferreira contava “meias verdades” sobre a composição dos executivos camarários, ao misturar vereadores com pelouro e vereadores sem pelouro. Aos dar a entender, na sugestão de Leitão, que seria possível compor uma maioria para governar a Câmara, quando em autárquicas quem fica à frente ganha a presidência.

A ausência do PCP da coligação foi um dos temas em destaque no jantar-comício de segunda-feira, num apelo ao voto útil que apareceu sempre de forma mais vincada no lado socialista. Os parceiros são menos dados a esse pedido que os prejudica quando não vão em coligações desta natureza. O apelo à concentração do voto à esquerda manteve-se, mas menos focado na nega comunista a embarcar na desejada frente de esquerda e mais na repetição de que Alexandra Leitão “é a única alternativa” a Moedas.

A articulação entre as quatro partes, PS/Livre/BE/PAN foi-se fazendo ao longo da campanha e na candidatura garante-se que não houve contratempos e que o período mais complexo até terá sido o da elaboração das listas, confirmam várias fontes com que o Observador falou, das várias frentes. Na direção de campanha, liderada pelo socialista Pedro Vaz, existia uma comissão executiva com representantes dos vários partidos para fazer a coordenação da agenda e da mensagem. Além do assessor de imprensa, David Damião, do presidente do PS-Lisboa, Davide Amado, e de Sérgio Cintra, estavam também Carolina Serrão e Ricardo Moreira, do BE, Patrícia Robalo e Carlos Teixeira (do Livre) e Helena Chaves e António Morgado, do PAN. Isto além da própria candidata e de André Moz Caldas, que coordenou o programa.

O plano macro da campanha estava pré-determinado de início, as freguesias a visitar e a mensagem política a passar. Poucas iniciativas diárias, duas ou três, pouca gente e pouco barulho (só por duas vezes se ouviram bombos a chamar a atenção dos contactos de rua da candidata). Por outro lado, muitos bairros municipais (e o problema da manutenção de elevadores), imóveis em Lisboa que o Estado quer vender e podiam ser habitação, centros sociais, com contatos com idosos, vários pontos de higiene urbana e até um percurso por Alvalade a seguir o rasto dos aviões, para dar nota do aumento dos movimentos aéreos e o barulho que isso traz ao bairro.

Foi mais uma tentativa de porta a porta do programa eleitoral da coligação e menos um desfile de força partidária (ou forças partidárias), mas nem por isso sem medir forças e esforço de agenda com o que Moedas ia fazendo do outro lado. Alexandra Leitão termina a campanha a acreditar que pode estar perto de dar a volta ao resultado, que está mesmo taco-a-taco — as sondagens do empate técnico deram alento. Sábado vai poder refletir sobre as suas hipóteses, num jantar de 30 anos de curso ao lado da sua colega de faculdade, Ana Mendes Godinho, candidata a Sintra. Trinta anos depois será como véspera de exame, mas não chegará uma nota assim-assim: é passar ou chumbar.

João Ferreira. O indivíduo que se destaca do coletivo e dispensa assessores

O candidato de há quatro anos mantém-se e a forma de organizar uma campanha também. Mais uma vez, a equipa que torna possível a campanha da CDU em Lisboa senta-se à mesa com o Observador. Um fotógrafo, uma responsável pelas redes sociais, dois motoristas que ajudam na logística e um assessor, Jaime Rocha, que é responsável pela “articulação no terreno” da caravana da CDU.

Este último explica que não é um verdadeiro diretor de campanha, como existe noutros partidos. “A campanha é dirigida, como é apanágio do PCP, pela direção do partido na cidade de Lisboa”, diz. Sendo os líderes da concelhia os arquitetos, Jaime Rocha seria o engenheiro. Contudo, estamos nos bastidores do partido comunista e aqui garante-se que “as decisões são todas coletivas”.

LUSA

No entanto, com quatro candidaturas à presidência da Câmara de Lisboa, começa a ser difícil distinguir entre a figura de João Ferreira e aquilo que é a CDU na capital. Sem permitir que a individualidade do candidato suplante a força do coletivo, reconhece-se esse estatuto e popularidade arrecadada, dentro e fora do partido. “Não fechamos só no João, mas há um protagonismo especial”, concede Jaime Rocha.

Isso é visível nos cartazes e panfletos da CDU para esta eleição, que contam com a cara de João Ferreira em grande plano. Essa aposta na imagem de alguém que já carrega às costas uma candidatura à Presidência assim como mais de uma década como eurodeputado é feita ainda que produza alguns danos colaterais. Isto porque nas ruas a cara de João Ferreira estimula muitos elogios à sua aparência física, algo que deixa o candidato algo constrangido, como admitem os seus mais próximos.

“Falar de aspetos que são mais da vida pessoal incomodam-no muito”, admite a equipa de João Ferreira ao Observador. Isso faz-se notar nos contactos com a população na rua, sendo visível alguma relutância em fazer números para as câmaras de televisão ou em distribuir afetos por potenciais eleitores. Outro exemplo disso foi a presença no programa do Bom Partido do humorista Guilherme Geirinhas, em que os candidatos são convidados a falar de tudo menos de política. “Deu para perceber que não é a praia dele, ele mantém-se sempre fiel a quem é”, comenta um dos organizadores da campanha. “Depois das campanhas às europeias, tem melhorado muito. Nota-se o maior à vontade”, acrescenta Jaime Rocha.

Mas essa presença no programa de Geirinhas foi também uma forma de mostrar como a personalidade de João Ferreira se manifesta para lá da política. Se o carisma não é o ponto forte do vereador municipal, este compensa, por exemplo, com a “muita cultura” que tem, dizem os membros da comitiva do PCP. À volta da mesa, gabam-lhe a forma como nesse mesmo programa conseguiu dizer o nome de todas as estações da linha amarela do metro de Lisboa ou a rapidez com que enumerou, na ordem correta, todos os planetas do sistema solar. “Disse os planetas como quem pede o contribuinte”, acrescenta.

A entourage de João Ferreira considera que o forte do candidato está em, explicar aos lisboetas a razão dos problemas da cidade e as possíveis soluções. “Para nosso desespero, ele fica a falar com as pessoas até achar que o assunto está esclarecido”, conta o responsável pelas redes sociais da campanha. Outra coisa que assumidamente dificulta o trabalho de quem tira fotografias ou grava vídeos da campanha é que o candidato não é propriamente efusivo. “Temos de esperar o sorriso do João para captar a imagem. Ele não tem a falsidade que normalmente caracteriza a interação de outras forças partidárias”, acrescenta o mesmo colaborador.

Ao nível da produção de conteúdos para as redes, a campanha também foi evoluindo com o aproximar das eleições. Na derradeira semana, João Ferreira começou a aparecer mais vezes com um pequeno microfone preto de lapela, como se tem tornado tão popular entre os candidatos nas últimas eleições. “Percebemos a meio da campanha a quantidade de apoio que ele está a receber e que não é abertamente declarado, porque vem de pessoas que votam normalmente noutras forças.”

A comitiva entende que há muitos eleitores que não se identificam tanto com a CDU e não gritam ao ver passar bandeirinhas, mas que acabam por confessar o seu apoio em conversas com João Ferreira. A redefinição do objetivo passou por “captar as confidências dessas pessoas”, explica o responsável pelas redes sociais. Em tempo de agenda preenchida também se tornou mais difícil planear a produção de vídeos para as redes sociais, pelo que se decidiu aproveitar esse “conteúdo mais espontâneo” que acontecia nas ruas.

No entanto, a comitiva de João Ferreira conta que a agenda é preenchida durante todo o ano e não apenas em período eleitoral. Uma das mudanças que as duas semanas de campanha trazem à sua rotina é passar a deslocar-se mais de carro e menos de transportes públicos ou de bicicleta, um hábito que apanhou nos seus tempos em Bruxelas. É também com as bicicletas municipais GIRA que se desloca aos vários refeitórios de empresas municipais, onde, conta um dos motoristas ao Observador, quando pode almoça com os trabalhadores.

No contacto com estes e com outros eleitores, João Ferreira “nunca despe o fato de vereador”, diz o mesmo membro da comitiva. Essa experiência de 12 anos no cargo também lhe permite aliviar os assessores e candidatos às 24 juntas de Lisboa na preparação de cada ação de campanha. “Seria o meu papel ajudar na preparação, mas quase não é preciso”, conclui Jaime Rocha.

Bruno Mascarenhas. O autocarro de dois andares para ver Ventura

A ideia era ter um autocarro de dois andares devidamente caracterizado para a campanha do Chega em Lisboa. O orçamento — ainda que muito reforçado em relação há quatro anos — não chegou e optou-se por um autocarro vermelho de uma empresa que oferece percursos turísticos para passar com grande visibilidade pelas maiores artérias da cidade. Ainda que não fosse o cenário idealizado, lá estavam dezenas de militantes do Chega no segundo andar aberto daquele autocarro a agitar bandeiras brancas na mão, enquanto percorreriam as 24 freguesias de Lisboa, com paragem obrigatória em Marvila para receber André Ventura.

A presença do líder do Chega para participar uma arruada na única freguesia lisboeta em que o partido venceu nas últimas legislativas foi o ponto alto da campanha na capital. Ventura chegou ao ponto de encontro num carro de vidros fumados e seria engolido pela multidão de apoiantes e jornalistas que ali o esperavam. Andou apenas 200 metros ao lado de Bruno Mascarenhas, falando com pouco mais de 10 pessoas nos cerca de vinte minutos que demorou a percorrer essa distância. Pelo meio, teve tempo para discutir com uma mulher cigana e acabaria a sua passagem pela capital com declarações à porta de uma esquadra, onde o carro de vidros fumados e os seguranças pessoais já o esperavam novamente.

Com a partida do líder, Bruno Mascarenhas continuaria a sua arruada em Marvila, acompanhado dos 15 a 30 militantes do Chega que, por norma, compareceram nas ações em Lisboa. Mesmo com o presidente do partido ausente, a campanha trata sempre de capitalizar a imagem de André Ventura. Por exemplo, a tenda que o partido monta em cada freguesia tem a cara do líder estampada em grande plano. Por vezes, surge nas ações de campanha uma versão de cartão Ventura impressa em tamanho real. Quando os lisboetas estão com mais dificuldade em reconhecê-lo, Bruno Mascarenhas evoca o seu nome. “Somos do Chega do André Ventura. E deste jeitoso que está aqui, que sou eu”, disse a uma idosa, na freguesia de São Vicente, enquanto apontava para um panfleto com a imagem dos dois, lado a lado.

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Se há algo no partido que neste momento pode rivalizar com a popularidade de Ventura é a própria marca Chega. Nas arruadas distribuem-se não só panfletos, mas também sacos de pano, lápis, canetas, bandeiras, bonés, leques, baralhos de cartas marcados com o logótipo do partido. Luís Pedro Alves, assessor de Bruno Mascarenhas, explica que esta é uma estratégia nacional que serve, de certa forma, como um “teste” da aceitação do Chega. A oferta de brindes faz parte das campanhas dos grandes partidos e não é nova. Contudo, neste caso, existe um esforço para combater a ainda existente rejeição ao partido, através de um objeto que com o seu nome.

Luís Pedro Alves revela que, de forma mais sofisticada, a campanha do Chega em Lisboa se empenhou em avaliar a composição do eleitorado, através de dados disponíveis no INE. As recentes eleições legislativas têm mostrado que o Chega é muito popular entre o eleitorado com ordenados baixos e que vivem nas zonas mais pobres, afirma o número três na lista à Câmara de Lisboa. Para estas autárquicas, o objetivo da campanha passou por “manter e reforçar” esse eleitorado, mas também por ganhar apoios junto da classe média, tentando “desfazer a ideia de que o partido é radical”, acrescenta.

Contudo, essa ideia ainda se faz sentir na rua e os momentos de tensão com alguns grupos não são raros. Em Lisboa, a situação mais grave fez-se sentir no penúltimo dia de campanha, no Largo da Graça. A polícia de intervenção foi chamada depois de um grupo de jovens estudantes ter atirado objetos contra dois militantes que guardavam uma tenda do Chega. Algo que terá precipitado a tensão entre as partes foi a reprodução da música “Isto não é o Bangladeche”, que foi criada por Inteligência Artificial e satiriza Ventura e outras outras figuras do partido, mas que, entretanto, foi adotada como um hino não oficial do Chega. Antes do confronto com os jovens ter acontecido, Bruno Mascarenhas reconhecia: “Há territórios mais hostis, o que é preciso é ter autoconfiança.”

Mas além de ter confiança num bom resultado, o partido fez uma análise sobre a melhor estratégia para a campanha na capital. Esta decisão foi tomada por um núcleo duro, que se formou à volta do candidato à câmara. Além de Luís Pedro Alves, pertencem a este a número dois na lista de candidatos à Câmara, Ana Santos, e a número oito, Sandra Carvalho. Estudaram os programas dos adversários para saber os seus pontos fortes e fracos e procuraram afinar o discurso do candidato para que este fosse visto como “coerente”. De acordo com o seu assessor, para se preparar para as ações de campanha, Mascarenhas conta com “o conhecimento muito profundo que tem de Lisboa”, após 18 anos a desempenhar funções políticas em juntas lisboetas e na Câmara. Por fim, a equipa tem um outro elemento dedicado a filtrar informação na imprensa e redes sociais que visa ajudar no ajuste do discurso de Mascarenhas.

Isto porque a produção de conteúdos para as redes sociais das candidaturas autárquicas do Chega é independente da estrutura que existe, por exemplo, para o grupo parlamentar ou para a direção do partido, explica Luís Pedro Alves. O número três do Chega diz que é possível constatar que a produção digital da candidatura não é “profissionalíssima” e desvaloriza o “mito” de que existe uma grande estrutura do partido a promover os candidatos nas redes sociais.

Na verdade, não é apenas neste aspeto que a estrutura que o Chega parece estar ainda desadaptada ao número de votos que o partido tem no Parlamento e quer ter no domingo. Luís Pedro Alves conta que, excetuando assessores, o partido tem atualmente, em toda a sua estrutura, apenas 10 funcionários remunerados. Isso significa que as campanhas autárquicas, nomeadamente a de Lisboa, são todas planeadas e executadas na base do voluntariado. Quase todos os militantes que compareceram nas ações de campanha na capital são candidatos às eleições, muitos deles à presidência das juntas e os percursos das arruadas foram maioritariamente traçados no momento. Falta agora saber aonde chega o partido no próximo domingo.

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