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Esquerda sem PCP faz de comunistas alvo do comício em Lisboa

Este artigo tem mais de 6 meses

Intervenções não pouparam PCP por ficar fora da coligação que quer derrotar Moedas em Lisboa. Atribuem culpas de eventual vitória à direita e da influência do Chega. Carneiro sonha com empurrão.

Comício da coligação PS/Livre/BE/PAN juntou mais de mil pessoa no pavilhão do Casal Vistoso, para autárquicas em Lisboa.
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▲Comício da coligação PS/Livre/BE/PAN juntou mais de mil pessoa no pavilhão do Casal Vistoso, para autárquicas em Lisboa.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

▲Comício da coligação PS/Livre/BE/PAN juntou mais de mil pessoa no pavilhão do Casal Vistoso, para autárquicas em Lisboa.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

À esquerda juntaram-se três partidos e o PAN, em Lisboa, e o que não entrou na coligação acabou a noite desta segunda-feira com orelhas quentes. No comício da coligação PS/Livre/BE/PAN, o  PCP foi alvo de quase todos os intervenientes, de forma mais ou menos direta. Na candidatura de Alexandra Leitão vai ao rubro a tentativa de concentrar o voto da esquerda e entrar no centro para recuperar a capital, que para o PS pode ter um peso decisivo — vincado pelo próprio líder que, de fugida no final da sua intervenção, assumiu que “ganhar Lisboa é ganhar o país”.

O Complexo Desportivo Municipal do Casal Vistoso, no Areeiro, costuma ser palco das convenções do Bloco de Esquerda e, nestas autárquicas, acabou por albergar o maior evento que a candidatura a Lisboa liderada pelo PS fez até agora. Mais de mil pessoas juntaram-se numa sala onde se misturaram bandeiras dos vários partidos da coligação, os líderes e dirigentes de cada um e também muitos antigos governantes socialistas.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Só não esteve a líder do BE, Mariana Mortágua, que Alexandra Leitão já tinha dito de manhã que estava a “recuperar” dos três dias detida em Israel, para justificar esta ausência. Nessas declarações aos jornalistas também avisou que a Palestina “não é tema autárquico”, quando questionada sobre se temia que o assunto entrasse pela sua campanha, agora que Mortágua estava em Lisboa. Certo é que no comício da noite não foi referido, só muito indiretamente por Marisa Matias quando falou numa “Lisboa que luta pela paz, aberta ao mundo” — e também por alguns lenços palestinianos (keffiyeh) usados por participantes no jantar comício.

As sondagens trouxeram ao discurso de Alexandra Leitão uma nova expressão: “Vai ser à pele”. Tem repetido isto frequentemente nos contactos de rua que tem feito. Esta noite, no comício, gritou um “isto vai”, no mesmo sentido de sonhar com uma vitória à tangente sobre Carlos Moedas. E à boleia desse sonho, José Luís Carneiro parece querer encavalitar outro: o da sobrevivência socialista, depois de uma legislativas traumáticas. No final do seu discurso pediu para que todos “acompanhem a Alexandra e esta equipa para ganharmos as eleições em Lisboa. Ganhar Lisboa é ganhar o país“.

A ideia de estar perto faz os socialistas entrarem facilmente na carruagem do apelo ao voto útil, onde Alexandra Leitão já segue há vários dias. E o tiro ao PCP, que não quis entrar nesta tentativa de frente de esquerda em Lisboa, torna-se uma atividade incontornável que fez quase o pleno nas intervenções da noite — e até foi para lá dos socialistas.

Alexandra Leitão força luta a dois. Como o PS tenta recuperar Lisboa

O primeiro a tocar no assunto foi o mandatário da candidatura, o socialista António Vitorino, que aproveitou por ir logo por duas vias no apelo à concentração de votos: pela via da esquerda, para juntar votos dessa área política e pela via do centro, assustando com um Chega influente junto de Moedas.

Começou por elogiar a “vontade de convergência” que produziu a coligação que junta PS/BE/Livre/PAN, dizendo estar à vontade para perguntar “aos que não se juntaram” — o PCP, que não referiu pelo nome — “como é que se sentiriam na noite de domingo se a dispersão de votos abrisse porta à ‘apagada e vil tristeza’ da continuidade”. E de seguida acenou com a possibilidade disso abrir caminho ao Chega na autarquia: “Como se sentiriam se essa continuidade abrisse a influência desmedida dos destinos de Lisboa à direita radical que é contra a democracia, contra a liberdade e contra o poder local?”.

Rui Tavares, porta-voz do Livre, seguiu uma linha de argumentação semelhante, colocando o PCP — também sem o referir expressamente — fora do “elétrico da responsabilidade”. “Quem não está terá visto o mesmo que nós vimos em quatro anos de vereação em Lisboa? Carlos Moedas simplesmente desleixar a cidade? Negligenciar a cidade?”, questionou numa altura em que também surge convencido de que Moedas pode ficar “refém da extrema-direita” na capital.

No caso de Marisa Matias, a referência à esquerda foi menos pela via de responsabilização do PCP por eventuais desastres e antes pela memória de uma frente de esquerda que funcionou no passado. Foi até 1989, altura em que Jorge Sampaio (uma referência que levantou a ovação da sala) juntou a esquerda toda numa candidatura à Câmara de Lisboa, incluindo os comunistas. “Em 1989 foi necessário juntar forças para lutar pela habitação, pelos transportes, por melhor higiene urbana. Agora é ainda mais necessário virar a página do desastre que foi o mandato de Carlos Moedas”, disse a dirigente do BE.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Mais adiante, quase no fim do comício que se foi desenrolando entre pratos do jantar — afinal era seis intervenções ao todo e era preciso ir alimentando a sala — o próprio José Luís Carneiro entrou nesta frente de ataque para dizer que “só há mesmo uma candidatura alternativa séria e credível” em Lisboa”, que quem não está na coligação “foi porque não quis estar” (novamente o PCP nas entrelinhas) e o apelo final a que “não se podem desperdiçar votos” e que “o voto consequente é o voto no PS” — Carneiro esqueceu-se várias vezes no seu discurso que em Lisboa a marcha é feita a quatro e lá tinha de ir corrigindo “no PS e nos nossos parceiros de coligação”.

Antes de enrolarem as bandeiras com “a mãozinha, a papoila, a estrela com cabeça e a árvore do PAN” —  como descreveu Rui Tavares os símbolos juntos na coligação — os presentes ainda ouviram a cabeça de lista Alexandra Leitão dar mais uma pontada aos comunistas. Fê-lo de forma menos pronunciada dos que os parceiros de púlpito, ao agradecer aos partido que entraram no acordo e que “souberam colocar Lisboa acima de todos os interesses” — como quem diz que foi o que faltou ao PCP.

Numa eleição que disse ser “decisiva” para a cidade, Leitão faz uma lista de quatro prioridades para os primeiros trinta dias de mandato, se for eleita: criar o fundo de apoio às vítimas do elevador da Glória; intentar uma providência cautelar contra aumento de voos no aeroporto de Lisboa; aprovar o regulamento do alojamento local; promover uma grande operação de higiene urbana na cidade.

E pôs urgência no regresso da esquerda ao poder em Lisboa, ao dizer que “quanto mais se deixar crescer o fosso da desigualdade em Lisboa, mais difícil será voltar a superá-lo.” “Cada ano perdido é uma oportunidade desperdiçada para garantir habitação acessível, melhorar os transportes e cuidar do espaço público, com um custo humano e social enorme”, avisou a socialista a tentar, mais uma vez, puxar a si todo o voto à esquerda.

No pavilhão onde foram dispostas mesas para o jantar, a socialista contou com figuras com peso nacional no partido, sobretudo antigos colegas do Governo, como Mariana Viera da Silva (que chegou a ser falada para protagonizar esta mesma candidatura), Pedro Siza Vieira, João Pedro Matos Fernandes, António Mendonça Mendes ou Ana Catarina Mendes. Na sua mesa, Alexandra Leitão teve o líder socialista José Luís Carneiro, o mandatário da candidatura António Vitorino, o número um da lista à Assembleia Municipal, André Moz Caldas, e também os representantes dos parceiros de coligação: Rui Tavares (Livre), Inês Sousa Real (PAN) e Marisa Matias (BE). Mas havia outros bloquistas espalhados pela sala, como Luís Fazenda, Fernando Rosas ou Jorge Costa.

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