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No comício de segunda-feira, líderes de esquerda uniram-se a Leitão. Voltarão a estar, agora também com Mortágua, na descida do Chiado no último dia de campanha.
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▲No comício de segunda-feira, líderes de esquerda uniram-se a Leitão. Voltarão a estar, agora também com Mortágua, na descida do Chiado no último dia de campanha.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

▲No comício de segunda-feira, líderes de esquerda uniram-se a Leitão. Voltarão a estar, agora também com Mortágua, na descida do Chiado no último dia de campanha.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

PS e aliados contra os "papões", entre receios e meias verdades. A estratégia da esquerda em Lisboa

Normalizar governação à esquerda, afastar Gaza e o abraço de urso ao PCP. Pedir o voto útil é menos unânime, com parceiros normalmente esmagados por este apelo dos grandes — mas não desaparecerá.

Nos Anjos, frente ao Centro de Apoio Social, Alexandra Leitão tinha pela primeira vez em campanha Mariana Mortágua ao lado, a bloquista com que Carlos Moedas acena sempre que tenta “radicalizar” a coligação liderada pelo PS que o enfrenta nestas autárquicas. “Não podendo discutir Lisboa, porque de cada vez que fala de Lisboa perde votos, Carlos Moedas vai buscar os papões, do Bloco de Esquerda, de mim própria”.

A “própria” Alexandra Leitão sabe que não é só para não falar de Lisboa que Moedas recorre a esta estratégia. E, precisamente por sabê-lo, tem percorrido o terreno eleitoral com moderação qb, tentando contrariar uma imagem mais encostada à esquerda que colhe mesmo dentro do seu partido e desde o primeiro minuto em que foi escolhida, ainda por Pedro Nuno Santos, para ser a cabeça da lista à Câmara de Lisboa.

Mesmo com essa imagem colada à pele, a ideia de conseguir alinhar uma frente de esquerda para combater Carlos Moedas nestas autárquicas não deixou de ser um objetivo para o PS que só encontrou entraves no PCP. Tem passado os dias desta campanha a dizer que os comunistas só não entraram na coligação porque não quiseram, como quem sacode responsabilidades. Mas também como quem quer os votos de João Ferreira.

O alinhamento pela esquerda traz receios, exige alguma articulação diária e ninguém tem a certeza de que, no fim das contas, possa ser suficiente para trazer o resultado que se procura: destronar Moedas.

Normalizar esquerda e puxar pelos exemplos do passado (com meias verdades)

O primeiro receio é que a ideia de radicalização que Moedas semeia possa dar frutos. E, por isso, o PS tenta combatê-la por duas vias. Não só Alexandra Leitão apareceu com um discurso com alguns cuidados (ao nível de linguagem e de propostas repetidas), como também normaliza a presença dos dois partidos à esquerda do PS que estão na coligação, o BE e o Livre, em executivos camarários “com pastas”.

Começando pela linguagem, os cuidados da candidata socialista saltaram à vista sobretudo quando falou no envolvimento dos privados — “nada me move contra os privados”, sublinhou sempre que falou no assunto — em matérias como a construção de habitação pública em Lisboa, uma das suas principais prioridades.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Quanto à normalização da esquerda à esquerda do PS, recuou até à gestão socialista mais recente para dizer que “o BE e o Livre tiveram vereações com pelouros, pastas, com Fernando Medina e não constou que tivesse havido nada de grave, pelo contrário”. Embora seja só meia verdade.

Em 2017, o PS concorreu sozinho mas no pós-eleições, Medina fez um acordo com Ricardo Robles, do BE, e atribuiu-lhe o pelouro da Educação, Saúde, Direitos Sociais e Cidadania — depois da sua renúncia ao mandato, quem ficou com o lugar foi Manuel Grilo. Mas a outra metade da afirmação, sobre o Livre ter tido pelouros, não está correta. Em 2021, o Livre concorreu coligado com o PS e Rui Tavares foi eleito vereador, mas não teve pelouro distribuído, porque a coligação perdeu a eleição para Carlos Moedas. Em 2017 o Livre já tinha integrado as listas do PS como independente (com Isabel Mendes Lopes), mas também não teve pelouro no executivo de Medina.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Também quando tentou apanhar Carlos Moedas em contradição consigo mesmo, sobre a esquerda, acabou por dar uma volta às declarações que recuperou de 2016 para vincar o seu ponto. Lembrou, esta quarta-feira ao lado de Mariana Mortágua, que foi o próprio Carlos Moedas que, enquanto comissário europeu, disse durante a “geringonça” que “essa coisa contra o BE era um mito” — palavras de Leitão. O que Moedas disse então, em entrevista ao Expresso, foi que a ideia de que o Governo das esquerdas assustou Bruxelas “é um mito. Primeiro, muitas pessoas já conheciam o primeiro-ministro António Costa. Depois, Bruxelas não liga muito à questão de ser o partido A ou o partido B, trabalha com todos os ministros e com todos os primeiros-ministros e quer é que eles encontrem soluções.” E sublinhava que o que tinha valido, para a credibilização do Governo da “geringonça” em Bruxelas, era sobretudo a linha “europeísta” de Costa.

Já Leitão pegou no Moedas de 2016 da forma que lhe era mais conveniente para perguntar a Moedas de 2025 se “agora deixou de ser um mito” o perigo de uma aliança com o Bloco. Certo é que, no passado, Moedas desdramatizou o assunto e agora faz dele um dos principais cavalos de batalha contra a coligação de esquerda.

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Apelar ao voto útil, mas com parceiros pouco dados a esse pedido

O outro receio que a esquerda sem o PCP tem é com os eventuais estragos que as investidas do comunista João Ferreira contra a candidatura — bem visíveis nos debates em que enfrentou Alexandra Leitão e Carlos Moedas — podem fazer no domingo. O medo da dispersão de votos à esquerda fez com que o comício do PS desta terça-feira fosse quase centrado num único alvo, os comunistas.

Esquerda sem PCP faz de comunistas alvo do comício em Lisboa

“Se o PCP estivesse na coligação era uma vantagem muito maior“, lamenta um socialista que tem acompanhado Leitão. E esse sentimento adensa quando as sondagens dão uma desvantagem (em algumas é mesmo vantagem) tão curta face ao adversário Moedas. “Estamos mesmo na disputa de votos com a CDU, podem ser determinantes”, diz a mesma fonte numa altura em que a candidata não larga a argumentação que tem usado para concentrar o voto à esquerda.

“Só há uma única alternativa a Carlos Moedas e essa alternativa é a coligação ‘Viver Lisboa’”, tem repetido ao mesmo tempo que avisa eleitores que “há quatro anos, quando houve o resultado da vitória do Carlos Moedas, houve muita gente que contou a seguir que havia pessoas que estavam convencidas de que era possível, para a Câmara Municipal, fazer um acordo pós-eleitoral“. Ainda esta semana, numa conversa com o Observador recordava isso mesmo, os eleitores que achavam mesmo que Fernando Medina perdesse podia ser presidente da Câmara, fazendo um acordo pós-eleitoral com as outras forças políticas.

Na mesma linha, uma realidade que é recordada muitas vezes por Alexandra Leitão é que atualmente na Câmara há uma maioria de esquerda, mas é a direita que governa. A esquerda junta (PS, BE e tem CDU) têm nove vereadores e a coligação de direita tem sete. Mas foi Moedas que foi o mais votado e nas autárquicas é isso que vale.

Autárquicas em Lisboa. A última chamada dos candidatos antes de o dia acabar

Mas este apelo ao voto útil não surge propriamente em uníssono dentro de uma coligação onde estão partidos mais pequenos que normalmente contestam este tipo de apelos. “Os nossos parceiros são normalmente engolidos” por este apelo, reconhece um socialista em conversa com o Observador. Sem grande surpresa, entre os aliados não se morreu de amores pela intervenção de António Vitorino na terça-feira, por exemplo, que questionou os comunistas como se sentiriam se no dia seguinte Moedas continuasse e, sobretudo, se o Chega ganhasse influência.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Na sexta-feira passada, Rui Tavares já antecipava críticas de contradição e, ao lado de Alexandra Leitão, em Alcântara, recusava-se a chamar “voto útil” ao que a coligação pretende ao colocar-se como “única alternativa a Moedas”. Lembrava precisamente que tem lutado contra esse apelo noutras eleições e preferiu, por isso, chamar-lhe um “voto realista” para evitar “acordar no dia 13 a pensar, caramba, mais quatro anos de Carlos Moedas”. Mas não deixa de criticar os comunistas por não terem entrado no “elétrico da responsabilidade” quando se formou uma lista de esquerda para concorrer a Lisboa.

Outra fórmula que a coligação PS/Livre/BE/PAN tem usado para roubar eleitores ao PCP é jurar que, se ganhar no domingo, no dia seguinte conversará com João Ferreira, eventualmente até para lhe distribuir um pelouro na Câmara de Lisboa. Um abraço de urso: passa a mensagem de que votar PS/Livre/BE/PAN não é traição, porque haverá diálogo, mas procurando enfraquecer o inimigo.

Palestina fora para “não fazer jeito” a Moedas

Por fim, a Palestina que esta semana parecia vir para entrar em força pela campanha, sobretudo depois do regresso de Mariana Mortágua de Israel, onde esteve detida três dias por ter participado na flotilha humanitária que se dirigia a Gaza.

Na candidatura, entre aliados, garante-se que não foi preciso um plano muito pensado para perceber que era importante “não fazer o jeito a Moedas” e trazer o assunto para dentro da campanha. Mariana Mortágua voltou na noite de domingo e na de segunda-feira não esteve no comício da candidatura, no complexo desportivo do Casal Vistoso onde estiveram todos os líderes dos partidos que integram a coligação. Foi representada por Marisa Matias, ao lado de José Luís Carneiro, Rui Tavares e Inês Sousa Real. E isso foi meio caminho para Moedas vir acusar o PS de estar a “esconder” Mortágua.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

A reação da coligação foi acusar o adversário de “não querer falar de Lisboa” por isso ser “um enorme embaraço“. Mortágua disse até que, enquanto esteve fora, não imaginou “que o desespero de Carlos Moedas face ao seu mandato em Lisboa fosse tal que encontrasse todos os pretextos para não falar sobre o estado em que deixou Lisboa”. E com isto contornou o assunto Gaza que se tem mantido fora desta campanha, tal como Alexandra Leitão queria.

Afinal foi a cabeça de lista que logo na segunda-feira de manhã, quando foi questionada sobre o regresso de Mortágua e se isso traria a questão palestiniana para a campanha, que colocou logo os limites ao dizer que esse “não é um tema autárquico”. À noite, no comício com representantes das lideranças da esquerda, Marisa Matias reduziu o assunto a “uma Lisboa que luta pela paz, aberta ao mundo”. E dois dias depois, nos Anjos, Mortágua recusou mesmo falar do assunto, em declarações aos jornalistas ao lado de Alexandra Leitão. Não fosse Moedas tecê-las.

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