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O incumbente-candidato Carlos Moedas confessou que tem pouco tempo para ver televisão quando chega a casa, mas numa das noites colocou um episódio da série Friends “só para descontrair“. O candidato de PSD, CDS e IL acusou a candidata socialista de querer “ganhar votos com a tragédia” e diz que pedir maioria absoluta seria “arrogância“. Alexandra Leitão é uma notívaga, mas tem feito esforços para se deitar mais cedo (ainda assim “nunca antes da uma”) e — se pudesse mudar alguma coisa da campanha — seria parecer “menos sisuda“. A candidata de PS, Livre, BE e PAN diz que “o seu alvo é Carlos Moedas”, mas no dia a seguir às eleições só exclui negociar com o Chega.
João Ferreira diz que, apesar de ser a sua quarta campanha, esta é diferente por se seguir a uma governação de direita. O candidato da CDU diz que Carlos Moedas revela “impreparação para o cargo” e acredita que as decisões da ERC, que o colocaram em debates televisivos que estavam previstos ocorrer a dois, vieram mudar o jogo. Bruno Mascarenhas diz que não é estreante, já que foi “candidato a Grândola em 2005″ (na altura pelo CDS). O agora candidato do Chega diz que Ventura é “mil vezes melhor” que ele próprio e, sobre o pós-eleições, avisa que “autarcas do Chega não votam orçamentos do PS”.
As revelações são apenas algumas das confissões noturnas dos candidatos à câmara municipal de Lisboa nas últimas chamadas do dia. Os quatro principais candidatos foram desafiados a atender um telefonema tardio a fechar o dia para o jornalista do Observador que está no terreno, que pode ler e ouvir, bastando que, para isso, faça scroll.
[Ouça aqui o compacto com a última chamada dos candidatos em Lisboa e no Porto]
Carlos Moedas. À procura de uma ‘maioria maior’, com o futuro em aberto e ‘amigos’ só na tv
Ouça aqui a última chamada do dia com o candidato de PSD, CDS e IL, Carlos Moedas
Terça-feira, 7 de outubro. São quase 11 da noite quando Carlos Moedas atende o telefone. Para trás tinha ficado um dia de campanha particularmente bem conseguido. Ao final da tarde, desfilou por Arroios, freguesia que foi fundamental na conquista de há quatro anos, ao lado do antigo vice primeiro-ministro Paulo Portas, do ministro Gonçalo Matias e do eurodeputado Sebastião Bugalho. Nas conversas informais, a equipa do social-democrata não escondia a satisfação de ter batido aos pontos a caravana socialista, que minutos antes tinha andado por aquelas bandas com menos gente e menos brilho.
É uma campanha totalmente diferente daquela que Moedas fez há quatro anos. Underdog em 2021, incumbente e favorito em 2025. Frenético há quatro anos, agora “discreto” (para dizer o mínimo). Há quatro anos, perseguia Fernando Medina e era embalado pelo “Russiagate”. Agora, é atacado à esquerda e à direita e não há dia que passe que não seja confrontado com a tragédia do Elevador da Glória. Em teoria, o duplo papel de presidente-candidato dá-lhe uma vantagem natural, mas traz também o dobro da exposição e do risco. Não só pelo que fez na Câmara, mas também pelo que deixou por fazer. A voz denuncia-lhe o cansaço.
Boa noite, Carlos Moedas, como está?
Está bom? Tudo bem.
Cansado?
Isto é duro. Isto é duro, mas faz parte, não é? Com gosto.
Teve um final de tarde preenchido.
Não foi um final de tarde, foi um dia todo. São muitas atividades durante o dia. Há umas coisas mais mediáticas, mas há muita coisa que a pessoa vai fazendo no dia a dia. As pessoas também querem falar mais, não me vêem só como candidato, mas também como presidente da Câmara. Fazem muitas perguntas e há muita coisa que tenho para resolver. Como, no fundo, estou ali sem a ajuda que costumo ter para resolver os problemas, tenho que passar depois para os serviços da Câmara, ver como é que os resolvemos… Portanto, é quase o dobro do trabalho de um candidato normal, porque sou candidato e também sou presidente.
Tem tido pouco tempo para fazer outra coisa que não pensar e fazer política. Quando chega a casa depois de cada dia de campanha — vai mantendo uma agenda paralela longe dos olhares indiscretos da comunicação social —, gosta de passar em revista tudo aquilo que aconteceu. Mantém o hábito de escrever, mas garante que é só uma forma de sistematizar a informação e de manter alguma adesão ao mundo analógico e material.
Praticamente não vê televisão — pelo menos, assim o assegura. Será uma forma de se desligar do universo de comentadores e jornalistas que o vão, pontualmente, criticando. Mas vai-se mantendo a par de tudo o que escrevem e dizem sobre ele e sobre a sua campanha. Sente — e é uma queixa recorrente — que, ao contrário da série que vê à noite para descontrair, não tem um clube de amigos na bolha mediática.
Antes de irmos à política, tenho uma curiosidade. Por estes dias, o que é que um candidato que também é presidente faz quando chega à casa? Vê televisão?
Não, porque depois ainda tenho a minha chefe de gabinete na Câmara que me telefona para tomar decisões ou informar de decisões que ela teve que tomar durante o dia. A Câmara não pára, não é? Estamos sempre a tomar decisões. Desde buracos na rua até a um problema em algum departamento. Ainda hoje, soubemos que poderia haver manifestações que não estavam autorizadas e tivemos de perceber como é que íamos fazer.
Mas não consegue tirar uns minutos para si, para fazer alguma coisa que não política?
Mais ou menos. Agora, por esta hora, consigo tirar assim um bocadinho para ler, para refletir, para escrever também. Gosto sempre de escrever. Um bocadinho sobre o que é que se passou durante o dia, o que é que fiz, que conclusões tiro. Normalmente, três coisas boas e três coisas más ou o que é que se pode melhorar para o dia seguinte.
Não me diga que já está a escrever as suas memórias.
Não, não. Hoje em dia a pessoa está tão num mundo digital que é preciso, às vezes, pensar no papel o que é que fez durante o dia. Mas não é uma questão de memórias. Escrevo em bullet point. Por exemplo, hoje houve uma senhora que me disse que estava com um processo de despejo e que estava com medo de ser posta na rua. Esse é um ponto, para mim, importantíssimo. Os serviços da Câmara já estão em contacto com ela, ver o que é que se passa, em que é que podemos ajudar. Enquanto um candidato, que não seja presidente, ouve estas coisas mas não vai resolvê-las, eu estou ali a tentar resolver tudo. Normalmente, à noite, escrevo um bocadinho, também leio um bocadinho, mas não tenho, assim muito tempo para estar a ver televisão. Já me aconteceu, assim só para descontrair, pôr um episódio de “Friends”.
É sempre um clássico.
É um clássico para descontrair.
Nos últimos quatro anos, travou um intenso combate na autarquia de Lisboa. O PS, mesmo tendo viabilizado os principais instrumentos de governação, nunca diminuiu de intensidade na oposição. Estas eleições não deixam de ter no ar um certo cheiro de ajuste de contas: em 2021, Moedas, contra todas as expectativas, interrompeu 14 anos de poder socialista; agora, Alexandra Leitão lidera uma frente de esquerda (sem o PCP) que pretende corrigir uma espécie de anomalia do sistema.
As sondagens renhidas (estranhas à luz do teórico favoritismo de Moedas) tornaram tudo mais intenso — há uns meses, ninguém apostaria nestes números. E as coisas entre os dois parecem ter-se tornado quase pessoais: aparentemente, Alexandra Leitão tem a capacidade de irritar profundamente o social-democrata. Horas antes de falar com o Observador, Moedas tinha mesmo acusado a adversária de ter um projeto de ódio contra o presidente da Câmara e contra o modelo de cidade de Lisboa.
Falando um bocadinho sobre política. Hoje [terça-feira], teve um discurso particularmente duro para com Alexandra Leitão. Acusou-a de ter um projeto de ódio contra si e contra o seu modelo de sociedade. Este tom não é demasiado excessivo? A sensação que dá é que as coisas entre vocês, a determinada altura, se tornaram quase pessoais.
Não. Penso que é preciso alertar as pessoas. Há hoje, na nossa sociedade, um extremismo que se vai colando até a partidos que, tradicionalmente, eram centristas. Temos uma candidata que se está a colar a esse extremismo e começa a ser refém daquilo que é a ideologia do Bloco de Esquerda. Se o PS ganhasse, que eu não acredito, íamos ter o Bloco na vereação. Uma das candidatas a vereadora é uma ativista… Uma Câmara não se governa com ativismo. Governa-se com pessoas que sabem da matéria. A minha equipa tem valias em todas as áreas; equipa da minha oponente não tem. Tem este caráter ideológico, que é perigoso para a sociedade. São projetos que se movimentam pelo negativo, pelo combate. O grande objetivo é retirar o que eles chamam de “direita”. É necessário que as pessoas tenham consciência da escolha que têm nas mãos. Os lisboetas, através de algumas falas mansas e de algum cinismo, podem não estar a perceber. Não acho que as pessoas queiram esse discurso, esse ódio, essa negatividade. É bom que estejam conscientes da escolha.
A dramatização do discurso foi uma evidência na segunda semana de campanha. No primeiro ato, Moedas pareceu pouco disponível para entrar na luta partidária. Objetivamente, mal fez campanha — a equipa do social-democrata garante que a campanha existiu, mas que foi propositadamente discreta. Seja como for, nas primeiras impressões a partir do terreno, estava a tornar-se bastante real a possibilidade de acontecer a Moedas o que aconteceu a Medina — um autoconvencimento tal que poderia conduzir a uma desmobilização perigosa.
As coisas foram mudando de figura. Na segunda semana, as sondagens reforçaram a ideia de que tudo está em aberto — o que é bom para Moedas, porque mantém todos em estado de alerta. Ao mesmo tempo, o candidato também se deu mais à campanha e carregou nas tintas contra a adversária. A ideia de que “nada está ganho”, tão bem sintetizada por Paulo Portas, deu algum combustível a Moedas, que foi fazendo campanha em nome da maioria absoluta sem nunca a pedir verdadeiramente. E também isso foi intencional — só faltou mesmo pedir uma “maioria maior”, como fez Luís Montenegro nas últimas legislativas.
Resta saber que impacto político terá a tragédia do Elevador da Glória na eleição de 12 de outubro. De alguma forma, Moedas conseguiu que o tema não contaminasse por completo o debate sobre a cidade. Quando saiu a notícia de que a Câmara, ao contrário do que tinha prometido o autarca, não teria contactado todos os familiares das vítimas, os adversários apertaram o cerco, mas Moedas garantiu o contrário e escusou-se a fazer mais comentários. Não houve mais ondas de choque a partir daí.
O incidente afetou-o muito, naturalmente. E continua a sentir-se muito injustiçado perante aquilo que foi dito e escrito sobre a sua gestão política. Para Moedas, aliás, Alexandra Leitão ultrapassou uma linha vermelha: usou uma tragédia para o atacar e retirar dividendos eleitorais. Talvez isso ajude a explicar a animosidade entre os dois.
Paulo Portas fez hoje uma aparição especial na sua campanha e teve o cuidado de repetir que nada está ganho. É esse o seu maior receio? Que aconteça consigo o que aconteceu com Fernando Medina há quatro anos? Que a ideia do ‘já está ganho’ deite tudo perder?
Não, não. Eu acho que é preciso mobilizar as pessoas e ver que esta é uma campanha que tem sido feita, da parte de Alexandra Leitão, com muitos ataques de caráter em relação à minha pessoa. Já me chamou mentiroso, tenta ganhar votos através de uma tragédia. Obviamente, as famílias foram contactadas, mas não posso revelar conversas privadas, de famílias que estão enlutadas. Não o devo fazer e não vou expor isso publicamente porque acho que é uma vergonha. Mas acho que nada nunca está a ganho. Quem ganha é quem tem mais um voto. E é por esse mais um voto que estou a lutar.
Também tem tido o cuidado de pedir uma votação reforçada e melhores condições de governabilidade, sem nunca pedir maioria absoluta. Acredita que pedir a maioria seria contraproducente?
É uma arrogância estar-se a pedir uma maioria absoluta. Nunca pedi, nem nunca pediria uma maioria absoluta. Acho que devo pedir mais um voto para ganhar. Mas, obviamente, quanto mais votos, melhor.
Mas, no dia 13 de outubro, se não tiver maioria, como é que vai governar? Já disse que não negoceia com extremos, nem à esquerda, nem à direita. Espera o quê, que o PS se torne mais colaborante?
Em primeiro lugar, acho que temos um problema que vai surgir cada vez mais na nossa democracia: as câmaras municipais não foram, sobretudo as de cidades grandes, desenhadas para serem governadas em minoria. Depois temos esta coisa algo estapafúrdia de termos a oposição dentro do nosso governo da cidade. Governo em minoria é difícil para um presidente. Mas é possível. Se eu já o fiz em quatro anos, continuaria a fazê-lo mais 4 anos. Se há alguém que é especialista nisso, sou eu. Agora, também não faz muito sentido estas questões de coligações. As coligações ou são feitas antes ou depois não fazem sentido. Depois é o dia-a-dia de uma Câmara, faz-se uma proposta, vê-se quem é que está de acordo e quem é que não está de acordo.
Estive a rever a nossa conversa de há quatro anos e eram, de facto, momentos políticos muito diferentes. Em 2021 teve uma campanha muito intensa e lamentava, por exemplo, não ter tido mais cobertura mediática. Este ano fez uma campanha com menos eventos públicos. É por ter a vantagem natural como incumbente ou tem outro racional?
Também não tenho tido tanto a cobertura mediática como isso. A verdade é essa.
Mas tem tido menos eventos públicos.
Tenho tido eventos públicos e não tem havido uma cobertura mediática como penso eu. Mas o ponto aqui é: eu fiz muita campanha. Foi uma campanha discreta e, aqui entre nós, muito mais eficaz do que uma campanha em que há cinco câmaras de televisão e não sei quantos jornalistas porque a pessoa não consegue falar com as pessoas. Apostei numa campanha de estar com as pessoas nos sítios. Agora, é verdade que em 2021 não tinha cobertura mediática nenhuma. E muitas vezes me queixei, com razão, que o presidente da Câmara da altura tinha toda a cobertura e eu não tinha nada. Neste momento acho que está equilibrado.
E o que é que mais o irritou nesta campanha?
Manuela Ferreira Leite deu uma resposta que não vi noticiada… Um dos seus colegas perguntava sobre o que vivemos e ela disse que era “uma barbaridade” estar a tentar ligar a tragédia ao presidente da Câmara e tentar politizá-la. E realmente esta campanha teve ataques de caráter muito fortes. Acho lamentável para a democracia e vai afastando as pessoas, que não se reconhecem nesse tipo de política. [Ao mesmo tempo], a campanha acabou por ser muito curta porque achei que os lisboetas não se sentiam capazes de estar a fazer campanha e eu não queria fazer campanha. Naquela altura, tudo parou e parou durante algum tempo. Tinha muitas coisas a tratar e isso era mais importante do que qualquer campanha ou eleição.
Em 2021, poucos acreditavam que Carlos Moedas fosse ganhar. Não acreditava Rui Rio, não acreditava a oposição e talvez nem Carlos Moedas acreditasse verdadeiramente. O que se dizia e se escrevia na altura era que o antigo comissário europeu estava a procurar ganhar capital político naquela eleição para se afirmar como um nome incontornável na corrida à liderança do partido. O candidato social-democrata nunca o confessou abertamente, mas, para todos aqueles que o conheciam bem, eram indisfarçáveis as suas ambições nacionais.
A verdade é que Carlos Moedas ganhou e essa vitória contribuiu para que Rui Rio continuasse à frente do PSD, derrotando Paulo Rangel. Meses depois, António Costa conseguia a sua tão desejada maioria absoluta, obrigando os sociais-democratas a escolherem mudar de vida e de líder. Sem que nada o antecipasse, Costa caiu e Montenegro chegou ao poder. A revalidação da vitória nas últimas legislativas aponta num sentido: o ciclo de Montenegro é coisa para durar muitos anos.
Por tudo isto, a pergunta que se coloca é: como será o futuro político de Carlos Moedas? Ao telefone, no fim de um dia intenso de campanha, o próprio prefere não fazer prognósticos. Garante que quer ganhar estas eleições, com ou sem maioria. Mais um voto chega. Mas não se compromete a ficar para um terceiro mandato. Nem tão pouco promete que este venha a ser o seu último cargo político. Afinal, tem apenas 55 anos.
Voltando às nossas conversas de 2021. Há quatro anos, muita gente achava que só era candidato a Lisboa para ter um bom resultado e, a partir daí, lutar contra Rui Rio pela liderança do PSD, numa refrega onde já andava a dupla Paulo Rangel-Pinto Luz. Não foi nada disso que aconteceu. Venceu Lisboa, Rio derrotou Rangel, Costa teve maioria, Rio foi embora, Costa caiu, Montenegro tornou-se primeiro-ministro e parece pronto para durar mais uns largos anos. E Carlos Moedas? O que se vê a fazer? Se vencer, este será o seu último mandato à frente de Lisboa, por exemplo?
Não, eu gosto muito de ser presidente da Câmara de Lisboa, ainda tenho muitos anos a dar. A vida às vezes traz-nos estas vocações inesperadas. Vivo com muito ânimo o trabalho de mudar a cidade. Na altura, havia muita gente que duvidava se eu ia ser presidente da Câmara e depois saía a meio… Tenho vontade de estar pelo menos mais quatro anos. O resto veremos.
Mas vê-se a fazer um ciclo de 12 anos?
Já tenho alguns anos. A vida vai-nos ensinando que não vale a pena fazer grandes planos. Só espero estar com saúde, ânimo e vontade para continuar a contribuir para a sociedade mas vejo-me sobretudo a ser presidente da Câmara de Lisboa. Tem sido a melhor experiência da minha vida. Levanto-me sempre com um grande entusiasmo.
A maioria absoluta será um incentivo maior para pensar num ciclo mais longo à frente da Câmara de Lisboa?
O incentivo maior é ganhar as eleições.
É o último cargo político que se vê a ocupar?
Não faço a mínima ideia. Poderia estar aqui com respostas tipo, mas eu não sou um político tradicional. Não faço a mínima ideia.
Carlos Moedas, muito obrigado por esta nossa conversa.
Muito obrigado.
Desejo-lhe um resto de boa campanha.
Vamos a isso.
Alexandra Leitão. A corrida que não quer que seja a última, a tristeza que leva e o sonho que mantém
Ouça aqui a última chamada do dia com a candidata de PS, Livre, BE e PAN, Alexandra Leitão
Está sim, Alexandra Leitão? Olá, como está?
Olá, tudo bem. Sim, já em casa.
Bom, isto é a última chamada do dia, mas como tem dito que é notívaga, duvido que seja mesmo. Na campanha também tem conseguido manter esse seu registo de se deitar-se tarde? Não anda mais cansada?
Eu sou notívaga, de facto, gosto de me deitar tarde. Tenho procurado ser um bocadinho mais disciplinada nestes dias, mas continuo a deitar-me bem depois da uma da manhã. Mas, sim, tenho procurado ser um bocadinho mais regrada para ter resistência para o dia seguinte.
E como é que tem desligado deste ritmo mais intenso?
Quando não tenho agenda ao serão, quando chego a casa e posso jantar em casa e ficar aquelas horas a seguir ao jantar em casa, procuro jantar em família, tentando falar o menos possível de política e tenho optado por, ao serão ver, uma série ou um filme para desligar um pouco. Depois os clippings mandam-me tudo aquilo que eventualmente possa ter sido comentado ou falado durante aquela hora, hora e meia, em que tento ver uma outra coisa na televisão que me distraia, normalmente, com o meu marido.
Alexandra Leitão já tinha sido cabeça de lista em legislativas (por Santarém), mas desta vez a candidatura é mais pessoalizada e isso “tem de bom e tem de duro”, conta ao Observador numa chamada telefónica onde fez o balanço desta campanha autárquica. A conversa começa pelo momento em que desliga o botão, mas depressa passa ao que a tem ligado nos últimos tempos e onde, pelos vistos, quer continuar a andar, aconteça o que acontecer no próximo domingo.
Em tempos disse um “não me diminuo, não me afasto, não me apouco” quando confrontada com a hipótese de um dia correr pela liderança do PS. E embora agora diga que “o único foco é Lisboa” também não parece querer arrumar as botas políticas depois desta corrida eleitoral.
Já tinha sido cabeça de lista em legislativas por Santarém, mas aqui ser cabeça de lista tem outro significado. Pode ser presidente. Independentemente do que acontecer no dia 12, é uma experiência a repetir, esta de ser cabeça de cartaz?
É uma experiência que tem de bom e tem de duro. Há muita visibilidade, o que isso também significa para a família, pessoas que nos abordam na rua. Eu, felizmente, tenho tido mais boas experiências do que más, aliás, não me recordo, ultimamente, ter tido nenhuma propriamente má. Mas mesmo o facto da pessoa entrar num sítio e se olhar e perceber que nos reconhecem, naturalmente, que tem momentos em que preferimos o anonimato, é óbvio. Mas é uma experiência que também nos fortalece, não é? E que nos dá aprendizagem.
E a repetir ou não?
Já de seguida, não. Mas daqui a uns tempos é algo que não…
Noutro tipo de eleições, tipo legislativas? Já disse várias vezes que não coloca de lado a liderança do PS, por exemplo.
Neste momento, aliás, de há dez meses para cá, o meu único foco é Lisboa e estou quase no fim desse caminho. Começou há dez meses esse percurso e está agora a uns dias de chegar ao seu destino.
Registo que não põe outras corridas de parte.
Nem dentro, nem fora.
O que leva de mais “gratificante” nesta campanha é “andar na rua a falar com as pessoas” porque “é essa proximidade que permite ler as pessoas e o que se está a passar”, explica. E o que mais a surpreendeu foi “o facto de ainda haver na cidade de Lisboa algumas bolsas de pobreza, com as quais na vida diária não convivemos ou nem sequer nos apercebemos que existem”. Pela positiva, destaca o trabalho nas associações no terreno “às vezes em sítios até vulneráveis, sítios de grande vulnerabilidade social, e que fazem coisas ótimas (…) e que era muito interessante poder eventualmente um dia escalar e fazer a outra escala.”
Na campanha tem insistido na tecla da proximidade e é neste campo que continua a enfrentar uma certa frustração. Quando chega ao contacto com as pessoas diz aperceber-se de que há uma dissonância entre a imagem que tem de si e aquela que tem projetado neste anos de vida política.
O que é que sentiu ou receia que de alguma maneira pode ter passado menos ou não ter chegado às pessoas com a eficácia que quereria durante estes dias?
Ah, não sei. Ah, sei! Por acaso acho que sei. Acho que como eu sou uma pessoa com uma certa… até talvez pelas vezes que aparecia antes na televisão, uma pessoa muito focada quando estou a trabalhar ou quando estou a debater e a falar de trabalho, acho que às vezes passa um bocadinho uma imagem de ser uma pessoa um bocado sisuda. E é por isso que gosto de andar na rua. Porque quando as pessoas me conhecem pessoalmente e não através, por exemplo, das minhas prestações televisivas, eu acho que as pessoas percebem que eu sou bem disposta e até emotiva em alguns momentos.
Têm-lhe dito isso?
Sim, muitas vezes têm acontecido as pessoas dizer “Ah, é muito bem disposta, afinal é sorridente”. “Ah, mas na televisão às vezes parece séria”. Ou na Assembleia, porque passei pela Assembleia e tive muita visibilidade enquanto líder parlamentar. E eu explico, “olhe, eu na Assembleia era líder parlamentar, estava ali a fazer o meu papel também”. E às vezes fico triste porque quem me conhece pessoalmente sabe que não, que até sou uma pessoa emotiva e bem disposta. Do modo geral, bem disposta.
A dada altura da campanha oficial surgiram sondagens em que a candidatura que lidera e que junta PS/Livre/BE/PAN aparece colada à de Carlos Moedas. Quer manter os pés na terra e “cautela”, mas também assume que “é melhor ter boas sondagens do que más sondagens” e que isso até anima, pelo menos, a sua equipa.
Também diz que sentiu que “a campanha tem crescido” e que de repente surgiram mais caso “espontâneos” de “pessoas que se dirigem e dizem ‘eu gosto de si’, ‘eu vou votar em si’, ‘é preciso mudar’. Isso tem acontecido bastante e, isso sim, até me conforta quase mais do que a sondagem”. Mas a luta estão tão quente que o discurso político não tem sido outro que não o do apelo à concentração do voto à esquerda, numa luta óbvia com os comunistas que não quiseram integrar essa coligação.
No arranque da última semana de campanha, Alexandra Leitão teve um grande comício com representantes das lideranças dos partidos que estão na coligação Viver Lisboa e também o mandatário da candidatura António Vitorino. Começou por ele o apelo ao voto útil e a responsabilização do PCP pelo que possa acontecer no dia seguinte às eleições — fosse a continuidade de Moedas, fosse a influência do Chega a crescer — passou para Rui Tavares, foi referida por José Luís Carneiro e a própria candidata acabou por deixar nas entrelinhas uma pontada aos comunistas ao dizer que quem entrou na coligação pôs os “lisboetas à frente de todos os interesses” — o subtexto é que quem ficou fora (o PCP) não o fez. No dia seguinte tentou refrear essa ofensiva e ao Observador jura que a linha de argumentação é, afinal, apenas pedagogia eleitoral — a que mais tem procurado fazer por estes dias.
Teve um grande comício nesta terça-feira, foi excessivo o tiro ao PCP, parecia que de repente o adversário não era Carlos Moedas. Estão com tanto receio assim da dispersão de voto à esquerda?
Eu não senti que houvesse assim tanto… houve vários… eu pessoalmente, enfim, sei que estava lá e ouviu o meu discurso, eu sou muito focada, o meu alvo nem é Carlos Moedas, nem é ele. O meu alvo é o descuido e a degradação e a situação caótica da mobilidade em que está a cidade e a falta de habitantes, isso é que é o meu foco, e estou sempre a repetir isso, sempre a repetir isso. E não é seguramente um sinal de receio. Há quatro anos, quando houve o resultado da vitória do Carlos Moedas, houve muita gente que me contou a seguir que havia pessoas que estavam convencidas de que era possível, para a Câmara Municipal, fazer um acordo pós-eleitoral, em que, dessa forma, mesmo perdendo o candidato que na altura era Fernando Medina podia ser presidente da Câmara, fazendo um acordo pós-eleitoral com as outras forças políticas. O que eu quero é que as pessoas quando votem, votem esclarecidamente, sabendo que isso não é possível numas eleições para a Câmara Municipal.
Nesta campanha também tem falado muito do que fará se ganhar e se tiver que fazer futuras negociações, só excluindo o Chega. Mas, por exemplo, o PSD de Calos Moedas na Câmara de Lisboa seria um parceiro confiável, depois do que tem dito sobre essa frente?
Eu só excluo o Chega. E, portanto, ganhando como espero e eventualmente sem maioria absoluta, acho que, obviamente, temos que ter a humildade de saber dialogar, temos que conversar com todas as forças políticas, não excluo nenhuma, a não ser, como já disse, o Chega. Também não sei o que é que acontecerá à coligação de Carlos Moedas que já disse que se não for eleito presidente de Câmara, não continuará, não será vereador. Também não sabemos a dinâmica que se criará na própria coligação com a saída que o próprio assumiu. Mas se é para dizer que um dos parceiros possíveis é um vereador ou o PCP, pois com certeza que sim, é um dos parceiros com quem faz sentido dialogar. Claramente que sim.
A matemática da governabilidade é para o dia seguinte e sem saber se sequer chegará a esse momento, Alexandra Leitão procura deixar o tabuleiro o mais aberto possível, evitando aparecer exclusivamente afunilada à esquerda. Mas é nela que encontra maior proximidade — por mais que só exclua o Chega e não os partidos que estão com Moedas.
São cálculos que espera conseguir pôr em suspenso no dia de reflexão, para o qual tem agendado um jantar de 30 anos de curso, tirado na faculdade de Direito, da Universidade de Lisboa. É lá que a socialista também é professora, uma carreira que foi interrompendo para se dedicar à política e que, agora, sonha poder manter congelada, pelo menos, nos próximos quatro anos.
João Ferreira. O veterano que não estava habituado a fazer oposição à direita na Câmara
Ouça aqui a última chamada do dia com o candidato da CDU, João Ferreira
Boa noite, João Ferreira. Bem-vindo à última chamada do Observador.
Olá, boa noite.
Esta é a sua quarta campanha como candidato à presidência da Câmara de Lisboa, de que forma é que esta está a ser diferente das anteriores?
Cada campanha foi diferente. Decorreram em contextos nacionais diferentes e também em contextos locais, com as suas especificidades. Esta é a primeira campanha que travo ao fim de quatro anos de uma governação PSD-CDS. Quatro anos de uma gestão de direita e com o PS na oposição. Só isso é um dado novo. Depois é uma campanha que teve algumas particularidades. Alguns projetariam para que fosse uma corrida só a dois. Isto teve expressão muito concreta, por exemplo, no planeamento dos debates televisivos que excluíam a CDU, que é uma força representada no atual executivo municipal e que alguns pretenderam excluir dos debates televisivos. Há uma mudança fundamental, no curso desta campanha. Graças a uma intervenção da CNE e posteriormente da ERC, a CDU assegura o seu direito de participar nos debates televisivos. Isso abre perspetivas que alguns não julgariam possíveis, de afirmação de um projeto, uma visão, uma alternativa para a cidade, que eventualmente alguns não conheceriam ou podiam mesmo pensar não existir. Mas ela afirmou-se debate após debate, primeiro, e nas ruas, depois. Há um reconhecimento do papel da CDU, da visão do projeto, dos seus candidatos, da equipa, que talvez alguns não supusessem poder existir quando estamos a poucos dias das eleições. Mas isso é já um facto incontornável desta campanha.
Ainda que seja um veterano em eleições para a câmara de Lisboa, João Ferreira nunca tinha sido confrontado com a escolha que marcou esta campanha: coligar-se, ou não, a um PS que está na oposição. O candidato reconhece a importância que a decisão da ERC em travar um debate a dois na SIC, entre Moedas e Leitão, teve na sua campanha. Entre analistas e comentadores políticos, o comunista foi quase unanimemente escolhido como vencedor dos vários debates. E, nas ruas, muitos lisboetas acompanharam essa avaliação, elogiando a sua assertividade.
Tem denunciado uma “pressão fortíssima” que diz estar a ser feita aos lisboetas para votarem entre o menor dos dois males. Para a CDU, qual é que é o menor destes dois males: a coligação que é liderada pelo PS ou a que é liderada pelo PSD?
Tenho-me referido a essa expressão precisamente para dizer que não podemos confinar a nossa escolha ao menor dos dois males. É uma dicotomia que recusamos e é negativa para a cidade. Felizmente não estamos limitados à escolha entre o menor dos dois males. Quando dizemos isto, estamos evidentemente a pensar nos dois polos de uma oposição que se tem procurado forjar entre PS e PSD, que em aspetos estruturantes da governação da cidade têm convergido. Não podemos dizer que existam diferenças substantivas entre o urbanismo preconizado pela gestão PS e aquele da gestão PSD-CDS. É muito determinado pelo mercado, o que faz do promotor imobiliário o principal e favorecido personagem no desenvolvimento da cidade. Opta, no essencial, pela liberalização dos usos do solo. Foi uma visão que ficou plasmada no PDM de 2012, negociada entre PS e PSD, que tem vindo a influenciar todas as políticas urbanísticas. Aquilo que tenho criticado — a ausência de planos pormenores, planos de urbanização, a aprovação irrestrita de unidades hoteleiras, inclusivamente em antigo património público — é desviado de função habitacional que poderia ter para os hoteleiros, sem nenhum tipo de regulação.
Mas para estas eleições o PS decidiu coligar-se não só com o LIVRE, com quem já se tinha coligado nas eleições anteriores, mas também com o Bloco de Esquerda, que é um partido tradicionalmente visto como estando mais próximo da CDU. Este esforço de compromisso dos socialistas à esquerda não lhe pareceu prometedor para apresentar uma alternativa com a esquerda toda unida?
Não vou justificar as opções de terceiros, só eles as poderão justificar. Agora uma coisa é certa: ao longo deste último mandato houve aspetos muito importantes da governação da cidade nos quais o PS convergiu com o PSD. Já lhe falei no urbanismo, poderia falar nas opções a um nível do ponto de vista orçamental, as questões com relação a uma devolução do IRS, a descapitalização de empresas municipais, como é o caso da Carris, o apoio de milhões em eventos de natureza comercial, quando depois acaba por faltar a um apoio ao tecido cultural da cidade. Nestas opções o PS convergiu com o PSD. Outras forças que hoje integram a coligação com o PS não tiveram esse mesmo posicionamento. Isto acontece também em aspetos importantes da habitação. Neste momento há uma e apenas uma candidatura que se opõe à lei das rendas. Isto em Lisboa, a cidade do país que sofre como nenhuma outra o impacto nas famílias, nas empresas, no comércio, no tecido associativo da lei das rendas. Não é de pouca monta que nós tenhamos uma única candidatura que representa na cidade a exigência de revogação desta lei e substituição por um novo regime do arrendamento. Nós sabemos que esta tem sido a posição do PS, não tem sido a posição de outros partidos à esquerda do PS. O que é que levou esses partidos a abdicar das divergências que em momentos diferentes da governação dos últimos anos tiveram com o PS e a fazer esta coligação? Só eles poderão responder. Independentemente da resposta que tenham para esta questão, eu acho que esta é uma questão que legitimamente interpela aos eleitores de muitos destes partidos. Legitimamente haverá setores do eleitorado destes partidos que se questionam sobre o branqueamento destas opções do Partido Socialista.
João Ferreira quer afirmar a CDU como uma real alternativa de esquerda àquela que tem sido a governação da capital. A estratégia passa, em primeiro lugar, por responsabilizar o PS pelo mandato que agora termina, por alegadamente se ter feito de morto na oposição. Depois, passa também por nunca se esquecer de mencionar as anteriores gestões camarárias que acompanhou (Costa e Medina), quando critica a atual gestão de Moedas. Estabelece entre os mandatos dos três últimos presidentes uma continuidade, para reduzir tudo a um Bloco Central responsável pelas queixas que tem ouvido dos lisboetas.
À medida que se aproxima o dia das eleições e os apelos ao voto útil aumentam, é cada vez mais difícil levar João Ferreira a admitir a existência de diferenças entre os projetos de Alexandra Leitão e Carlos Moedas. E compreende-se que seja mais custoso fazê-lo, depois do recente jantar comício da coligação liderada pela socialista se ter tornado numa antologia de críticas a Ferreira e à CDU, por não estarem à altura do momento.
Ainda que Ferreira designe sempre a candidatura que também inclui Livre, Bloco de Esquerda e PAN como “o PS”, a verdade é que há outros partidos, mais à esquerda, que a integram. Se a disponibilidade do Livre para se juntar à candidatura de Leitão não é particularmente surpreendente, a presença do Bloco de Esquerda na coligação mostra o esforço de compromisso que a CDU recusou fazer — mesmo reconhecendo que os bloquistas atravessam o seu pior momento e nunca tiverem a força autárquica dos comunistas. Nesse sentido, resta a João Ferreira apresentar-se como o anfitrião de todos os eleitores desses partidos que ficaram descontentes com a coligação com o PS.
Na habitação, tanto Alexandra Leitão como Bruno Mascarenhas comprometem-se com a construção de 4.500 casas arrendadas acessíveis no município. Pelo que pude constatar, no seu programa eleitoral, a CDU não se compromete com nenhum número. Porquê?
Nós adiantamos a mobilização de 5.000 casas arrendadas acessíveis. É um número que nos parece em linha com aquilo que está determinado na Carta Municipal de Habitação, que foi aprovada há relativamente pouco tempo, proposta pela atual gestão PSD-CDS e que depois contou com algumas alterações da oposição. Nós consideramos que poderia ser mais ambiciosa, mas ainda assim aponta metas que achamos que são importantes. Uma delas é produzir, no horizonte de uma década, mais de 10.000 casas com rendas acessíveis. Olhando para este objetivo, é razoável nós apontarmos para um primeiro mandato de 4 anos um objetivo em torno das 5.000 casas. Isto não é apenas construção de iniciativa exclusivamente municipal. Uma parte importante é construção municipal, depois entram aqui outras soluções que têm em comum o facto de produzirem habitação a preços não especulativos e a preços acessíveis para a generalidade da população. Sejam parcerias público-público com o Estado central, sejam parcerias público-comunitário com entidades privadas, cooperativas, zoneamento inclusivo, ou seja, a chamada dos promotores imobiliários a uma responsabilidade também na produção de habitação a preços acessíveis, incluindo nas obrigações de cedência hoje existentes alguns dos focos construídos, uma parte dos focos construídos para renda acessível. E depois (já não entrando para a contabilização destes 5 mil) com medidas que passem por incentivos à mobilização do parque [habitacional] devoluto. Há 48 mil casas vazias em Lisboa e nós precisamos de tomar medidas, seja de incentivo, seja de penalização.
Na área da mobilidade, uma das propostas da CDU é duplicar o investimento anual na Carris, mas ao contrário da coligação liderada por Alexandra Leitão, a CDU não defende a gratuitidade do serviço. Porquê?
Nós revemo-nos no objetivo da gratuitidade a médio prazo. Hoje o principal bloqueio à vinda de mais gente ao sistema de transportes públicos não é o preço, é a quantidade e a qualidade da oferta que precisam de ser substancialmente incrementadas. Nós devemos canalizar todos os recursos disponíveis desde o primeiro momento para isso. A gratuidade nos termos em que o PS está a propor é uma opção errada. Em primeiro lugar, porque faz recair unicamente sob o orçamento municipal os custos dessa gratuidade e são mais 30 milhões de euros, que é um valor superior à média de investimento anual na Carris nos últimos 10 anos. É dinheiro retirado daquilo que era mais necessário: aumentar a quantidade e a qualidade da oferta. Por outro lado, [esta proposta do PS é para] ser implementada numa lógica exclusivamente municipal, segmentando o que deve ser uma visão integrada da escala metropolitana. Tomar medidas que assegurem gratuidade para determinadas pessoas num determinado sítio, mas que depois não asseguram para outras pessoas noutro determinado sítio (ou não asseguram as primeiras pessoas para viagens fora do município a que pertencem) é uma visão errada. A gratuidade é um objetivo a prosseguir a médio e longo prazo, mas deve ser implementada de uma forma integrada em toda a área metropolitana e com financiamento que não seja exclusivamente nem predominantemente municipal, mas nacional.
João Ferreira encontra invariavelmente o seu maior conforto em falar de medidas concretas para a cidade. Tem os números na ponta da língua e sabe sempre a quem atribuir a responsabilidade por uma determinada decisão que considera negativa para a cidade – normalmente é uma proposta do PS aprovada com votos do PSD, ou vice-versa.
No caso da Carris, o candidato da CDU procura mostrar-se mais realista que a coligação de Alexandra Leitão, quando seria de esperar que os comunistas tivessem a gratuitidade como prioridade. João Ferreira tem insistido muito que a CDU tem a equipa com mais experiência na vereação da Câmara de Lisboa e apresenta propostas com a autoridade de quem conhece bem os instrumentos de que autarquia já é servida.
Quanto ao acidente do elevador da Glória, Carlos Moedas desmentiu uma notícia da RTP feita com testemunhos de uma vítima sobrevivente ao acidente e um familiar de uma vítima mortal que diziam nunca ter sido contactados na sequência do acidente, nem pela Carris, nem pela Câmara. Acredita no desmentido do presidente da Câmara?
Além desse episódio, que é em si mesmo lamentável, temos nesta altura uma sucessão de declarações do presidente da Câmara no espaço público que entram em contradição com factos que vêm a ser revelados publicamente. Isto, num assunto desta sensibilidade, é grave. Isto somado à incapacidade manifestada durante os quatro anos de gestão PSD-CDS, demonstra, da parte de Carlos Moedas, uma impreparação para o cargo que ocupa.
Tem tentado contrariar os apelos ao voto útil, dizendo que o presidente municipal não toma decisões sozinho e que o que na verdade importa são as maiorias que se formam no Executivo Municipal. Por outro lado, tem lembrado várias medidas da CDU que foram aprovadas, mas não foram aplicadas porque os vereadores do PSD não se empenharam em fazê-las implementar. Existe aqui uma contradição?
Não, as duas coisas acontecem em boa verdade. Ou seja, há decisões que Carlos Moedas tomou que marcaram negativamente estes quatro anos e que não as teria tomado sem o apoio do Partido Socialista, decisões poderiam ter sido evitadas. Nós poderíamos ter usado a maior margem na negociação orçamental, mesmo que a contragosto de Carlos Moedas. Era possível introduzir nos orçamentos municipais medidas de reforço de determinadas áreas: higiene urbana, transportes públicos e simultaneamente poderíamos ter travado medidas negativas para a cidade. A disponibilidade do PS para viabilizar sem condições todos os principais instrumentos de governação, orçamentos, grandes opções de plano, decisões em matéria de impostos, na prática, acabou por dar a Carlos Moedas a maioria absoluta que ele não teve nas urnas, em termos práticos e para as questões substantivas. Se não tomar este tipo de atitude que tomou o PS — de cruzar os braços e aguardar que algum dia o poder lhe volte a cair de maduro no colo — a oposição tem uma enorme responsabilidade em Lisboa. A CDU soube exercer essa responsabilidade, não só na denúncia daquilo que estava mal, mas também procurando ter sempre uma postura construtiva. Nunca abdicámos de fazer propostas e foram dezenas. Algumas foram aprovadas, outras não. Algumas foram aprovadas e implementadas, são uma realidade hoje. Embora outras não. Isso demonstra a necessidade de a CDU ter mais força e não a necessidade de dar a presidência de Câmara a quem teve convergências em questões essenciais com o PSD.
Se Alexandra Leitão for eleita presidente da Câmara com uma maioria relativa, vai querer ser esse parceiro preferencial para aproveitar os grandes instrumentos de gestão da Câmara, como o orçamento, ou vai deixar essa tarefa para a coligação liderada pelo PSD?
Em primeiro lugar, nós estamos num momento em que eu não aceito uma posição subordinada para a candidatura da CDU. A questão pode-se pôr também: se eu tiver essa possibilidade e for eleito presidente de Câmara, não deixarei de falar com as outras forças políticas no sentido de viabilização de instrumentos de governação do município. Qual dos cenários se concretizará? Só no domingo é que podemos ver. Neste momento, cada um apresenta-se com os seus programas. Elas são diferentes e uma coisa útil desta campanha eleitoral foi assinalar essas diferenças. Agora temos de ver a força com que cada candidatura sai destas eleições, porque isso vai ser determinante para os cenários de governação da Câmara pós-eleições.
João Ferreira critica o PS por não se ter mostrado disponível para influenciar a governação de Lisboa, através de uma espécie geringonça local. O candidato CDU defende que a maioria de vereadores esquerda no executivo municipal criava margem para fazer aprovar medidas “a contragosto de Moedas”.
No entanto, a nível local, os pelouros são distribuídos por quem tem mais um voto nas eleições. Sem eles é quase impossível implementar aquilo que é decidido pelas maiorias formadas no executivo municipal. Daí vêm as críticas dirigidas aos comunistas pela coligação de Alexandra Leitão, que, em todas as sondagens, tem ficado atrás de Moedas por um número de votos muito inferior ao que se projeta para a CDU. Antes das eleições, João Ferreira abdicou de ser o número dois na lista de Leitão. Falta agora saber o que fará em caso de uma vitória minoritária da socialista.
Bruno Mascarenhas. Soldado de Ventura admite viabilizar orçamento de Moedas, mas requer negociação sobre Carris
Ouça aqui a última chamada do dia com o candidato do Chega, Bruno Mascarenhas
Olá. Boa noite, Bruno. Como está?
Boa noite, Miguel, como está? Tudo bem. Seja bem-vindo à última chamada do dia.
Está a fazer a sua estreia como cabeça de lista em eleições. Que balanço é faz?
Bem, por acaso, não é a minha estreia. Curiosamente, eu fui candidato ao Sacramento, em 1993 e fui candidato a Grândola, em 2005. Evidentemente não é comparável. Isso foram eleições em que eu praticamente dei o nome.
Sim, mas pelo menos com a dimensão de Lisboa, esta é a sua primeira eleição como cabeça de lista.
Obviamente, eu estava aqui a aligeirar. É um enorme desafio. É um voto enorme de confiança do presidente André Ventura, que me escolheu para esta cruzada e obviamente sinto uma enorme responsabilidade. Nós andamos no terreno e conhecemos a cidade muito bem. Obviamente que sabemos exatamente ao que vamos, o nosso programa, a nossa equipa, e estamos preparados para governar a cidade. Quando nos apresentamos às pessoas é com uma grande dose de confiança e com a certeza que o nosso programa é completamente de rutura. Temos medidas que não são só diferentes, são muito específicas para resolver problemas concretos que a cidade tem. Evidentemente temos algumas pessoas que não querem aceitar a nossa propaganda, as nossas ofertas, mas também há muitas pessoas – o que é uma grande surpresa — que não só me reconhecem perfeitamente, mas dizem no abertamente que estão connosco.
Na segunda-feira teve a possibilidade de contar com o André Ventura numa ação de campanha em Marvila, a única freguesia lisboeta onde o Chega ganhou nas últimas legislativas. O líder do partido pôs toda a sua comitiva a gritar vitória. Sentiu alguma pressão acrescida depois da vinda de Ventura?
Não, senti um enorme conforto. Evidentemente o presidente não se pode desdobrar, ele é só um e tem tentado de facto percorrer o país. Portanto, fico muito grato de ele ter estado em Lisboa. Quem está atento ao fenómeno sabe que eu e ele saímos, ao longo desses últimos anos, inúmeras vezes. Isto não é um trabalho apenas neste período de campanha. O presidente André Ventura esteve comigo mais de 10 vezes nos bairros da cidade, bem mais até. Eu obviamente sinto um grande conforto e apoio da parte dele. Quando ele diz vitória é, primeiro, porque estamos de facto em Marvila e, depois, porque o Chega espera ter um grande resultado na cidade. Seja vencer ou garantir que nada acontecerá na cidade de Lisboa sem uma posição forte do Chega.
Os 25 minutos de André Ventura na arruada do Chega em Marvila foram sem dúvida o ponto alto da campanha de Bruno Mascarenhas. É verdade que o candidato do Chega foi relegado a segundo plano, durante o percurso de 200 metros que fez acompanhado do líder do partido. Falou cerca de 30 segundos à imprensa, depois de ter ouvido Ventura durante mais de 10 minutos. Contudo, ali estava o Chega em pessoa para o apoiar, depois de não ter marcado presença na apresentação do programa para Lisboa.
Sendo a capital um território reconhecidamente difícil para o Chega, a escolha de uma figura menos mediática como Mascarenhas pode ajudar a ajustar as expectativas do partido para domingo. O candidato não deixa de pedir a vitória, mas admite como meta mais realista partir o dar ao Chega uma expressão no executivo municipal que não permita, nem ao PS nem ao PSD ter uma maioria absoluta.
Nos debates televisivos e também aqui na Rádio Observador, por exemplo, a maioria dos analistas políticos considerou que as suas performances foram piores do que os restantes concorrentes à Câmara de Lisboa. Também considera que esteve uns furos abaixo daquilo que passou a ser esperado do Chega?
Diria que, sobretudo naquilo que foi a questão da Rádio Observador, fui claramente prejudicado naquilo que é a distribuição do tempo. Ainda assim, eu acho que o que é importante é que a minha mensagem passou. Passou nos vários canais e as pessoas têm a noção de que a performance do Chega hoje é uma performance de qualidade, é uma performance educada, é uma performance que demonstra que nós temos propostas concretas. Não é mais do mesmo, não é o mesmo tipo de gestão, não é o mesmo tipo de governação, não estamos capturados pelo sistema, não estamos capturados pelos aparentes partidários, não estamos condicionados àquilo que são as vontades das máquinas partidária. Eu acho que as pessoas já perceberam isso. Como tal, vem aqui um outro protagonista, com um outro estilo naturalmente, mas a mensagem Chega está toda lá. Eu não estou muito preocupado com as notas dos comentadores, porque todos nos lembramos que o presidente André Ventura é a pessoa mais capaz do país em termos de debate televisivo e, ainda assim, os comentadores dão-lhe sempre notas negativas. Eu não me comparo minimamente com ele, ele é mil vezes melhor do que eu. De qualquer das formas, eu acho que tive uma prestação que, de certa forma, consegue fazer passar a mensagem.
Na rua, ao acompanhar as ações de campanha do Chega aqui em Lisboa, pude ver alguns lisboetas que se referiam a si como o “representante” Ventura. Concorda com esta ideia, que o Bruno Mascarenhas é menos um candidato em nome próprio e mais um representante do líder do partido?
Eu tenho o maior gosto em ser um representante de André Ventura. Nós somos um partido com os soldados de André Ventura e eu sou mais um dos soldados de André Ventura. Fico satisfeito com esse epíteto, não é? Não tenho qualquer problema com isso, sendo que obviamente tenho a minha individualidade, o meu estilo. Estou aqui no Chega para servir o partido e para servir o país e, neste caso, a cidade da minha eleição.
Tal como reconhecido pelo próprio anteriormente, Mascarenhas quase não se desvia da linha política de André Ventura. Ainda que o líder do partido pareça tratar a corrida à Câmara de Lisboa como mais uma, o candidato à capital não lhe cobra por isso. Mascarenhas reconhece que tem um “estilo” diferente, mas sabe que os votos que vai receber são em primeiro lugar votos no Chega e, por extensão, em Ventura.
No domingo passado apresentou o seu programa eleitoral para estas eleições. Quer criar uma unidade municipal de controle migratório. Pode explicar melhor essa ideia? Estamos a falar de uma unidade policial?
Nós temos de ter mecanismos de controle sobre aquilo que se passa na cidade. Temos de fiscalizar, que é algo que nós temos falado com inúmeras entidades, falamos com comerciantes. Sabemos exatamente o que se passa com as máfias que se instalaram na cidade de Lisboa e a Câmara Municipal, em conjunto com as juntas de freguesia, tem de ser capaz de identificar exatamente aquilo que está a acontecer. É inaceitável aquilo que se passa com a sobrelotação das casas. É inaceitável aquilo que se passa com as lojas de fachada, é inaceitável aquilo que se passa com a insegurança em determinadas zonas da cidade de Lisboa, onde determinadas comunidades estrangeiras que afluíram tentam criar os seus guetos. Nós temos de ter a capacidade de analisar todas as instituições, cruzar dados e sermos um fator de denúncia junto das autoridades (Segurança Social, Finanças)
Essa capacidade de fiscalização destas questões, nomeadamente ao nível da migração, já não é uma competência da Polícia Municipal?
Não, a Polícia Municipal não tem essa aptidão. A Polícia Municipal tem e recebe denúncias, mas reencaminha. Não tem esse poder, não tem a capacidade sequer de investigar. É apenas uma polícia administrativa. A única coisa que a Polícia Municipal pode fazer é aplicar coimas relativamente a estabelecimentos que possam não estar a cumprir com determinadas normas. Não tem como, por exemplo, avaliar se uma determinada loja tem 100 contratos de trabalho. Aliás, a Polícia Municipal, curiosamente e infelizmente, nem sequer tem acesso à base de dados da própria PSP para saber se um determinado indivíduo tem um mandado de captura. É esse tipo de coisas que nós realmente temos de mudar e, ao fazer uma alteração legislativa, temos de dotar a Polícia Municipal de uma capacidade de intervenção que ela hoje infelizmente não tem. Para concluir com este assunto, quero dizer que fomos nós, desde o início — e neste caso até fui eu – a falar, em primeiro lugar, relativamente ao reforço daquilo que são os poderes da Polícia Municipal. E o Engenheiro Moedas veio copiar a nossa posição, só que não o sabe fazer. Tanto que, por exemplo, mantém um travão ao próprio comandante da Polícia Municipal quando não o chama a reportar diretamente a si. Põe um vereador — teve dois vereadores deste mandato, um que saiu por acusação do processo do Tuttifruti e o outro que o veio substituir – que são alguém que é uma barreira à relação entre a Polícia Municipal e o próprio Presidente da Câmara. Comigo, o Comandante da Polícia Municipal, irá reportar diretamente e a relação tem de ser estreita precisamente para atalharmos os principais problemas de insegurança na cidade.
Na área da imigração, espera também reduzir a imigração ilegal em 50% no mandato. O que é que vai fazer estas pessoas e como é que sabe quantos são? Porque, precisamente por estas pessoas serem imigrantes ilegais, é difícil de fazer a contabilização de quantos são.
Há uma unidade da Polícia de Segurança Pública dedicada especificamente àquilo que acontece usando o aeroporto, por exemplo. Portanto, há a forma de identificar e existe uma unidade da Polícia que tem, neste momento, 20 elementos precisamente a identificar pessoas que estão em situação ilegal. Qual é que é o principal problema? É que não há um local para colocar estas pessoas. O único que existe está no Porto e a rebentar pelas costuras. Ao fim de 60 dias, como nós vimos agora aquilo que aconteceu com aqueles imigrantes que entraram pela costa do Algarve, foram enviados para o Porto e foram libertos. Porque se o processo não for concluído até ao fim de 60 dias, com efeitos para deportação, as pessoas são obrigadas a ser libertadas. O sistema não está preparado para esta situação. Em Lisboa, com a nossa liderança, o município irá criar um centro para poder alojar estas pessoas com vista à deportação.
E estamos a falar de quantas pessoas quando dizemos 50% da imigração ilegal em Lisboa?
Vamos ver o seguinte. Isto é um processo paulatino, mas tem de ser dissuasor. Se não houver qualquer dissuasão, se as pessoas souberem que a polícia os investiga, os identifica e depois não os consegue colocar num local para eles estarem ali com efeitos de serem deportados, é evidentemente que isto é deitar recursos fora e nós temos de criar esse centro. Depende daquilo que o Ministério da Administração Interna quiser fazer. Porque se quiser dedicar 10 pessoas para este centro de detenção, teremos de fazer uma unidade com essa dimensão. Se quiser dedicar 100 pessoas, nós fazemos um centro maior. E é isso que o município tem de estar preparado para fazer.
Sim, mas estamos a falar de que dimensão? Porque tem este número no seu programa eleitoral: reduzir a imigração ilegal em 50% num mandato.
Por isso é que, quando eu fiz a apresentação da candidatura com o presidente André Ventura, uma das coisas de que falámos foi exatamente numa relação muito próxima entre o Grupo Parlamentar do Chega e naturalmente a própria equipa municipal em Lisboa. Nós temos de ser dissuasores. Nós não podemos permitir que haja a sobrelotação das casas. Nós não podemos permitir que as máfias se instalem. Se nós conseguirmos, em Lisboa, desde logo estancar esta invasão que está a ocorrer, se nós o conseguirmos fazer, pode ter a certeza de que nós conseguimos quebrar esta cadeia. Isto funciona quase como há muitos anos atrás funcionou a Dona Branca. Isto é aquele esquema em pirâmide que também está a acontecer com a imigração, porque o negócio é exatamente vender os contratos. Se deixarmos de alimentar a máquina, nessa altura, pode ter a certeza que a imigração ilegal vai reduzir significativamente porque deixa de ser rentável.
O candidato do Chega empenha-se em convencer o eleitorado de que, mesmo não tendo feito parte o executivo municipal, conseguiu influenciar a posição de Carlos Moedas quanto à imigração. Ao mesmo tempo, tem vindo a responsabilizar o atual presidente pelos efeitos do aumento da imigração na cidade.
A imigração e a segurança são os dois pilares da campanha de Bruno Mascarenhas. Contudo, as respostas a estas duas áreas estão muito mais dependentes daquilo que é decidido no Parlamento e pelo Governo do que das vontades do executivo municipal. O candidato do Chega parece reconhecer parcialmente isso, mas não deixa de apostar na retórica inflamada quando o tema é imigração.
Já disse que não fará coligações pós-eleitorais, portanto, ou ganha a Câmara ou vai fazer parte dos partidos que estão na oposição, mas na Câmara também é preciso fazer aprovar orçamentos. Moedas pode contar consigo para isso?
O presidente que for eleito em função daquilo que apresentar à cidade (e há uma coisa que se chama estatuto de direito à oposição) fará com certeza uma negociação. Moedas fez essa negociação obviamente, sendo um partido do sistema, com o PS. O PS obviamente viabilizou, durante quatro anos, aquilo que foram os seus orçamentos e praticamente sem oposição. Trabalharam em conjunto.
Portanto, admite viabilizar um orçamento de um presidente de Câmara que não seja o Moedas? Alexandra Leitão ou João Ferreira, admite fazer isso?
Essa segunda opção nem existe. Isso nem sequer se coloca.
E no caso de Alexandra Leitão?
Quanto a Alexandra Leitão, eu posso dizer que — isso para nós tem sido uma linha vermelha, até por indicação da direção do partido — os autarcas do Chega não votam [para viabilizar] orçamentos do Partido Socialista.
Portanto, apenas admite viabilizar orçamentos de Moedas?
Se houver um orçamento negociado em que as medidas do Chega possam ser introduzidas e as políticas do Chega possam ser introduzidas, isso aí faz parte das regras da democracia.
O Chega apresentou uma moção de censura na Assembleia Municipal ao executivo de Moedas, na sequência do acidente no Elevador da Glória. Contudo, este tema não tem estado tão presente na sua campanha. Moedas já não merece a sua censura neste caso?
Eu já disse pior do que isso. Eu já disse que Moedas nem se devia ter apresentado a eleições. O desastre daquilo que aconteceu, aquela tragédia, tem muita culpa e nós já levantámos tudo aquilo que tínhamos para levantar. Já assinalámos exatamente onde é que estavam os erros gravíssimos da gestão da Carris, já pedimos a demissão da administração da Carris, já pedimos a demissão do vereador do pelouro.
E essas não seriam condições para aprovar um orçamento de Moedas?
Primeiro, vamos esperar pelos resultados do dia 12. Eu acho que os lisboetas vão se pronunciar sobre aquilo que é, porque este tema, seguramente os lisboetas não se vão esquecer. Tem danos reputacionais muito grandes para a cidade de Lisboa. O meu entender é que os lisboetas irão seguramente penalizar Carlos Moedas pelas falhas gritantes relativamente àquilo que já se sabe hoje. Atenção, porque nós fizemos a moção de censura, dissemos exatamente o que é que estava a correr mal. Fizemos um conjunto de questões que até agora não foram respondidas pelo executivo camarário, mas que a comunicação social já desvendou uma parte delas. Muito sinceramente, isto não é um plebiscito ao engenheiro Moedas, relativamente à tragédia do Elevador da Glória, mas vamos nos aperceber exatamente daquilo que vai ser a resposta dos lisboetas no dia 12.
Essa matéria do acidente do Elevador da Glória não poderá fazer parte das negociações da aprovação de um eventual orçamento do executivo municipal liderado por Moedas?
O que eu lhe posso dizer claramente é o seguinte. A gestão da Carris será seguramente um dos temas mais importantes de uma negociação para a aprovação de um orçamento da Câmara. Pode ter a certeza. Ou a gestão da Carris e a Câmara, como autoridade máxima dos transportes de Lisboa, pura e simplesmente se altera e há transparência e rigor na gestão. Ou, então, nunca o engenheiro Moedas terá o voto do Chega.
Depois de ter dito que “PS e PSD são a mesma coisa”, o candidato admite que existe uma diferença substancial entre os dois. Mascarenhas admite viabilizar um orçamento de Carlos Moedas, mas nunca de Alexandra Leitão – revelando que há uma diretiva da direção do Chega para espelhar o compromisso que Carneiro fez assinar os autarcas socialistas.
Ainda que Mascarenhas tenha apresentado uma moção de censura a Moedas, abre a porta a um entendimento com o atual presidente da Câmara e até já avança pontos de eventual negociação. Por sua vez, Moedas já recusou potenciais “acordos” pós-eleitorais com o Chega, mas terá de encontrar um parceiro se continuar com uma maioria relativa na Câmara. Nesse caso, terá de escolher entre negociar orçamentos com os socialistas, que tem acusado de terem bloqueado a sua governação, ou com Mascarenhas.