Na quarta-feira ao fim da tarde há alguns eleitores nas mesas junto ao quiosque do Jardim do Campo Grande, e Alexandra Leitão aproveita para distribuir panfletos. Fica algum tempo a explicar que “na Câmara quem tem mais um voto é presidente”. A pedagogia traz nas entrelinhas o apelo ao voto útil da esquerda, uma mensagem que havia de passar para a primeira linha da coligação PS/BE/Livre/PAN minutos depois, quando a socialista já ia na Praça de Alvalade e o assessor de imprensa a chamou para mostrar no visor do telemóvel uma sondagem a dar empate com Moedas.
Leitão não conteve um largo sorriso que esbarrou, no entanto, num dos socialistas que viveram o trauma de 2021. Sérgio Cintra — número dois da lista que, na altura da derrota inesperada de Fernando Medina, era presidente do PS-Lisboa — esfriou logo os ânimos: “A única sondagem que conta é a das urnas”. Afinal, há quatro anos não houve sondagem que tivesse previsto a derrota da coligação PS/Livre em Lisboa e o efeito desse enorme balde de água fria ainda se sente entre os socialistas.
A candidata estreia-se nestas lides, por isso aceitou a recomendação. Mas no dia seguinte de manhã não deixava de querer tirar “uma ilação” da sondagem SIC/Expresso: “Fica muito claro que quem quer interromper estes quatro anos de má gestão da cidade é mesmo na coligação Viver Lisboa que tem de votar”. E nos dias seguintes continuou pelo mesmo caminho, ainda esta sexta-feira, em Alcântara, disse: “Só há duas pessoas que podem ser presidentes da Câmara, eu própria ou o engenheiro Carlos Moedas, e que, portanto, todos os votos contam numa eleição em que por um voto se ganha ou se perde a Câmara de Lisboa”.
O apelo ao voto útil nunca é, no entanto, assumido de forma evidente, até porque na coligação estão partidos que normalmente criticam esse pedido vindo do PS noutras eleições, o Bloco e o Livre. Esta sexta-feira, a prova de se moverem em terreno pantanoso fez-se quando Rui Tavares tentou antecipar-se às críticas por contradição e atirou: “Longe de mim embarcar num discurso de voto útil, não é de voto útil que estamos a falar aqui, porque não vou entrar em contradição comigo mesmo. Vocês já me viram muitas vezes a falar de voto útil, ou porque me estão a tentar pressionar com o voto útil, ou porque, num determinado município, vamos com uma lista autónoma, ou, noutro, vamos com uma coligação. O que é preciso é um voto realista, um voto realista para o contexto real que temos” — o voto útil, mas por outras palavras.
A tentativa de fazer desta uma luta a dois notou-se logo de início — começou por transparecer de forma muito particular nos dois debates, na rádio Observador e na Renascença, em que Leitão se atirou diretamente ao comunista João Ferreira que tenta, sem discrição, entrar no seu eleitorado. Depois seguiu caminho à boleia das medidas apresentadas pelo Governo para a habitação, mesmo à porta da campanha eleitoral, e neste momento segue montada na carruagem das sondagens que vão apontando um empate, tudo para bipolarizar este jogo.
▲ Na terça, a socialista arrancou a campanha oficial pela zona da Graça.
JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR
Pedagogia do “quem fica à frente governa” (e juras de moderação)
A linha de argumentação pró-voto útil começa por relembrar a própria particularidade de, em autárquicas, ganhar quem fica à frente, sendo irrelevante que dois partidos da oposição juntos possam formar uma maioria para tomar o poder. Não há geringonças, quem ganha é presidente e a governabilidade é uma questão para se gerir nos dias que se seguirem. Daí a tal pedagogia que Leitão vai fazendo pelas ruas, como a que fez no quiosque do Campo Grande, de tentar puxar para a sua coligação todo o voto à esquerda. E também em Alcântara, na manhã em que já se conheciam mais duas sondagens com empates técnicos: “Para a Câmara Municipal não é possível haver acordos pós-eleitorais. O que é que isto significa? Significa que quem ganhar, nem que seja por um, é presidente da Câmara”, “aliás, neste momento, há uma maioria de esquerda na Câmara Municipal e o presidente da Câmara é Carlos Moedas”, lembrava.
Sem surpresas, neste quadro, o objetivo da coligação da esquerda sem o PCP tem sido centrar os ataques em Moedas, acabando por deixar incólumes qualquer um dos outros adversários. Ao presidente em funções só não entra em confronto quando a argumentação entra pela ideia de radicalização associada à sua candidatura. É recorrente Moedas apontar à presença do Bloco de Esquerda na coligação que inclui o PS para tentar encostar Leitão à esquerda radical: ” O Bloco está dentro da candidatura”, disse ainda esta quinta-feira no debate com todos na RTP — e à saída, num minuto de declarações aos jornalistas, repetiu a palavra Bloco três vezes. Lá dentro, o mais longe que Leitão tinha ido na resposta foi para reduzir isso a “uma obsessão” do adversário.
Na mesma medida que Moedas procura afastar a adversária do centro, Leitão sabe que não pode assustar esse mesmo eleitorado. E, por isso, tem evitado entrar no confronto por essa via — até porque não há como negar, o Bloco e o Livre, partidos à esquerda do PS, estão mesmo na coligação e isso nem sempre é apontado apenas por Carlos Moedas (e nem sempre se pode ignorar).
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Logo na segunda-feira, na Estrada de Benfica, à porta de uma pequena agência de mediação imobiliária a candidata chocou com a tirada: “O meu problema é a sua ligação à esquerda“. Mas como vinha de um potencial eleitor, Alexandra Leitão teve mesmo de ir a jogo para garantir que não é radical. Desafiou o homem a ler o programa: “Se vir lá alguma coisa demasiado à esquerda e radical, muito bem, mas espreite o programa primeiro.” O seu interlocutor lá ia garantindo: “A Dra. não me parece radical”. “Não sou mesmo”, jurava a candidata que continua a lutar com essa sombra que lhe ficou dos últimos anos de crítica da linha de António Costa no PS e, claro, de ter sido a segunda figura do pedronunismo.
Mas na sexta-feira acabou por assumir que até com os comunistas pode vir a aliar-se no dia seguinte. Questionada sobre se estaria aberta a atribuir um pelouro a João Ferreira, se vencer as eleições, Leitão disse não ter “nenhum problema em ter uma conversa com o Partido Comunista” nesse dia seguinte. Ao seu lado, Rui Tavares ouvia e, de seguida, havia de criticar o PCP por não se ter aliado à coligação da restante esquerda. No entanto, quando foi também questionado sobre o que Leitão tinha acabado de admitir ali, Tavares jurou não ficar desconfortável com a hipótese: “O que eu acho é que o comboio da responsabilidade passa em estações que são certas. Aquela estação em que esse comboio da responsabilidade parou e quem sentiu a responsabilidade entrou no comboio, foi na altura de apresentarmos listas. Depois das eleições, haverá uma nova estação para o comboio da responsabilidade”, concedeu.
▲ Na quarta-feira voltou à cantina que frequentou enquanto estudante, numa passagem pela Cidade Universitária.
JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR
Centrar ofensiva em Moedas, mesmo tendo de ir dar a volta a medidas do Governo
Na tentativa de recentrar o debate e de, ao mesmo tempo, criar a ideia de que ele se faz apenas a dois, Alexandra Leitão tem focado os ataques em Moedas, mesmo que a ligação acabe por parecer, por vezes, mais elaborada. Um exemplo é o que tem feito a propósito do programa do Governo da habitação. A crítica à polémica declaração sobre as “rendas moderadas” e dos apoios públicos para rendas até 2.300 euros está em cada intervenção, mas apresenta uma limitação: visa sobretudo Luís Montenegro.
A questão é tão do âmbito governamental que a candidatura até chamou Marina Gonçalves, a ex-ministra da Habitação do último Governo PS, para reforçar a comitiva e, ao lado de Alexandra Leitão, criticar o programa da AD. A agora deputada veio direta de Viana do Castelo, segunda-feira de manhã, diretamente para São Domingos de Benfica, para dizer, junto de um devoluto do Estado na Quinta da Alfarrobeira, que o Governo estava a contribuir para o aumento de rendas em vez de contribuir para a sua desaceleração.
Acertar a agulha com a campanha autárquica e o adversário direto exigiu ir até à “falta de vontade política” do autarca em funções — e só chegou depois de Moedas ter alinhado, no comício do arranque da campanha, alguns governantes na primeira fila da sala. Afinal, argumenta, “é essencial que a CML use toda a sua influência política para não permitir que o Governo tome medidas absurdas” e de Carlos Moedas, diz, “não se tem ouvido uma palavra”, nomeadamente sobre a venda de imóveis públicos em Lisboa, “em mercado livre”, para rendas apoiadas até 2.300 euros, em vez de serem usados para “rendas acessíveis” — que vão, no máximo, até 30% do rendimento do agregado familiar.
JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR
A partir daí, e mesmo quando ninguém tocava no assunto — e quando o tema até era o ruído dos aviões, numa caminhada por Alvalade — a candidata não desperdiçava a oportunidade de ter, ali ao lado, o edifício da Direção-Geral dos Estabelecimentos, que o Estado quer vender em hasta pública, para disparar: “O que tem potencial habitacional imediato não precisa de ir para o imobiliário de luxo, pode ser habitação acessível, pode ser uma residência de estudantes, pode ser habitação pública, é património público e a cidade não o deve perder.”
“O ainda presidente da Câmara de Lisboa, nada fez sobre isso. Vemo-lo sempre muito rodeado de muitos membros do Governo, mas não parece usar a influência política que tem — ou então não tem nenhuma — porque, na verdade, da habitação ao número de movimentos do aeroporto, passando por muitas outras coisas, não tem conseguido fazer nada em defesa dos lisboetas”, rematava chegando, finalmente, a Moedas.
Quando questionada se alguém de outra cor política (como é o seu caso) não poderá vir a ter ainda mais dificuldade de influenciar o Governo da AD, Leitão respondeu que “não tem tanto a ver com ser ou não da mesma cor política, tem a ver com a vontade política de defender aqueles que o elegeram”.
Nestes primeiros dias, a campanha tem sido feita sobretudo de contactos com a população, com comitivas muito reduzidas, estando o primeiro comício apontado para segunda-feira à noite com as lideranças dos vários partidos da coligação presentes no jantar planeado para o pavilhão do Casal Vistoso, no Areeiro. Já a estratégia dificilmente fugirá do que já se treinou nesta primeira semana — e ainda mais quando as sondagens oferecem um balão de oxigénio a um PS que vem não só do trauma eleitoral Medina 2021, como também do mais recente Pedro Nuno 2025.
E ainda que a candidata garanta que as sondagens não a iludem, também não nega que elas trazem “uma clareza” à campanha: “Se os lisboetas quiserem estar mais quatro anos na cidade que têm, mais degradada, mais suja, com trânsito mais caótico e habitação mais cara, continuarão. Mas é preciso atalhar este declínio da cidade”. E enquanto o dia 12 não chega, as sondagens servem, pelo menos, para “não esmorecer” — como comentava a candidata, enquanto o seu número dois deitava água fria sobre os números.