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Carla Freitas tem 31 anos e trabalha no serviço nacional de saúde britânico. Espera que as vacinas ajudem a diminuir rapidamente os efeitos mais graves da Covid-19

Carla Freitas tem 31 anos e trabalha no serviço nacional de saúde britânico. Espera que as vacinas ajudem a diminuir rapidamente os efeitos mais graves da Covid-19

A voluntária nos ensaios da Oxford que ainda não sabe se recebeu mesmo a vacina: "Vi o apelo nas redes sociais e não hesitei" /premium

Carla Freitas testou a segurança da vacina da Oxford em maio. Teve alguns sintomas, mas ainda não sabe se recebeu mesmo a vacina experimental. Conta que Reino Unido vive momento de "alegria e orgulho"

Chegou ao Reino Unido em 2011 e é em Londres que trabalha como terapeuta ocupacional no serviço nacional de saúde britânico. Foi com os seus pacientes — que trata, sobretudo, na recuperação de problemas neurológicos, no Homerton University Hospital — que a portuguesa Carla Freitas começou a perceber o impacto do novo coronavírus. Mas não só. Em abril, conta em entrevista ao programa A Luz ao Fundo do Túnel, da Rádio Observador, também foi chamada a ajudar na enfermaria de doentes agudos e percebeu que algumas das pessoas ali internadas acabavam por não voltar para casa. A mortalidade “extremamente elevada”, que se tornava cada vez mais evidente, também chegaria a colegas seus — três morreram por causa da Covid-19 naquela altura.

A portuguesa que não sabe se já recebeu a vacina

O cenário somou-se à certeza dos especialistas — que explicavam que só uma vacina poderia inverter a situação — e bastou um apelo nas redes sociais para que se inscrevesse — “sem hesitação” — nos ensaios clínicos que a Universidade Oxford, em parceria com a AstraZeneca, ia começar a fazer. Voluntariou-se na fase mais delicada, aquela que avalia a segurança da vacina experimental, teve alguns sintomas muito ligeiros e não se arrependeu. Aliás, em outubro voltou a receber uma dose, também de forma voluntária. O “curioso”, diz, é que, até hoje, não sabe se recebeu, de facto, a vacina ou o placebo, que é administrado a metade do grupo testado. E os efeitos secundários que sentiu não ajudam a tirar essa dúvida: no ensaio da Oxford, o placebo é, na verdade, uma outra vacina, já licenciada para a meningite, normalmente administrada a adolescentes e que pode provocar reações semelhantes.

Certo é que acabará por ser informada sobre isso brevemente. Como profissional de saúde, faz parte do grupo prioritário que começou a receber, esta terça-feira, a vacina produzida pela Pfizer, a primeira a ser aprovada no Reino Unido, e tem de saber se a deve tomar ou se já está imune.

E se o erro da AstraZeneca e da Universidade de Oxford na vacina contra a Covid-19 for uma coisa boa?

Seja como for, o momento é de “alívio”, “alegria” e muito “orgulho” por ver o país que a acolheu a avançar para uma fase que, espera, possa ajudar a recuperar alguma normalidade e a reduzir o números de vítimas da pandemia. Até porque, lembra, é muito comum falar na mortalidade que a Covid-19 provoca, mas pouco se fala sobre a morbilidade, ou seja, os problemas e sequelas que, mesmo depois da doença, permanecem.

Por que razão decidiu voluntariar-se?
Quando a pandemia começou a chegar ao Reino Unido, no final de março, começámos a ter alguns casos de pacientes positivos para o coronavírus e comecei a aperceber-me do impacto que o vírus tinha na sua saúde. Na altura estava a trabalhar numa unidade de reabilitação neurológica e tive um paciente, com quem já trabalhava há cerca de 6 meses, que infelizmente contraiu o vírus e acabou por falecer. Quando chegámos ao princípio de abril, os casos começaram a aumentar exponencialmente a nível hospitalar e, portanto, também fui chamada para ajudar ao nível de enfermaria de doentes agudos. Vi um cenário devastador, devo dizer, principalmente com a população idosa. A taxa de mortalidade era extremamente alta e eu era chamada para fazer uma avaliação funcional. No dia a seguir, a condição do doente já se tinha deteriorado, muitos deles acabaram por nunca poder ter alta e ir para casa. Foi um cenário bastante devastador e também nesta altura comecei a ter vários colegas também infetados com o vírus, cheguei a ter colegas que foram internados eles próprios e, infelizmente, só no meu hospital, tive três colegas que perderam a vida com o vírus. Foi um impacto bastante devastador em todos os profissionais de saúde e também ver o impacto que isto teve ao nível da população geral. Todos nós, de repente, fomos chamados a ficar em casa, eu não pude ir ver a minha família durante largos meses. Já na altura, no período da Páscoa, já havia imensos especialistas a afirmar que a vacina seria o único meio de conseguir controlar este vírus. Portanto, foi sem hesitação.

"Aconteceu tudo muito rápido. Desde o dia em que fiz os exames médicos até ter a confirmação de que iria ser aceite no estudo, foram cerca de cinco dias e lembro-me perfeitamente dessa tarde de maio, de me ligarem e perguntarem se estaria disposta a tomar a vacina no dia seguinte"
Carla Freitas, voluntária nos ensaios da vacina da Oxford

Quando soube dos testes para a vacina, decidiu aceitar e participar, sendo voluntária.
Exatamente. Nesse período de abril, vi o apelo nas redes sociais para ser voluntária nestes ensaios clínicos de Oxford e não hesitei em voluntariar-me.

Quando tomou essa decisão, contactou os laboratórios e, neste caso, também a universidade. Quais eram as condições para participar nestes testes?
É engraçado: no início, era um critério de exclusão já ter tido o coronavírus — até essa altura, eu nunca tinha tido nenhuns sintomas — e, inicialmente, também era um critério de exclusão ser um profissional de saúde, o que é bastante interessante. Mas rapidamente os investigadores alteraram o protocolo e começaram a incluir profissionais de saúde, especificamente, porque sabiam que nós estamos muito mais expostos ao vírus. O critério era também ter uma idade compreendida entre os 18 e os 55 anos, sem problemas graves de saúde, mas seríamos todos — e fomos todos — sujeitos a exames médicos bastante rigorosos antes de podermos ser aceites para o estudo em si.

Depois desses testes, chegou o momento da vacinação. Como é que foi esse processo?
Aconteceu tudo muito rápido. Desde o dia em que fiz os exames médicos até ter a confirmação de que iria ser aceite no estudo, foram cerca de cinco dias e lembro-me perfeitamente dessa tarde de maio, de me ligarem e perguntarem se estaria disposta a tomar a vacina no dia seguinte. Portanto, foi tudo muito rápido. Eu aceitei, no dia combinado chegámos, foi-me dada uma pulseira hospitalar — é importante dizer que este centro de investigação é inserido num hospital, em Londres, mas é uma área totalmente dedicada à investigação clínica, num ambiente totalmente hospitalar. Como estávamos na fase I, estaríamos a testar a segurança da vacina, eu estava perfeitamente ciente disso, e eles demonstraram-me — a mim e a outros voluntários que estavam presentes — toda a informação que tinham disponível àcerca da vacina. Eu sabia que a vacina não é totalmente nova, esta equipa de Oxford já tinha desenvolvido uma vacina para o SARS há bastantes anos, portanto eu sabia que a vacina era muito semelhante. Deram-nos toda a informação, deixaram-nos sempre à vontade: até ao momento de ser administrada a vacina, podíamos desistir a qualquer momento. Quando aceitámos levar a vacina, tivemos todos de ser monitorizados no período de uma hora. Tivemos todos de ficar numa enfermaria geral, tiravam-nos as nossas observações clínicas, sempre a verificarem se estava tudo bem. Foi esse prazo de uma hora de monitorização. Depois disso, na primeira semana, fomos todos para casa com um diário que tínhamos de preencher online com os sintomas, medir a nossa temperatura. Tínhamos — e ainda temos, devo dizer — uma linha de apoio 24 horas para o caso de haver algum sintoma anormal ou algo que quiséssemos esclarecer. Fomos sempre monitorizados desde o início com muita proximidade.

Teve alguma reação depois de receber essa vacina?
Tive alguns sintomas bastante ligeiros. No primeiro dia tive alguma fadiga, passados dois ou três dias também tive algumas dores de cabeça um pouquinho fora do normal — não é muito comum eu ter dores de cabeça — e também senti algumas tonturas. Mas foram efeitos muito ligeiros, eu continuei a trabalhar normalmente, não me impediu de realizar nenhuma atividade que eu normalmente faria. Tive de tomar paracetamol, para ajudar, mas, de resto, passados três dias, não voltei a ter efeitos secundários.

A vacina da Oxford está a ser desenvolvida em parceria com a AstraZeneca

Juan Ignacio Roncoroni/EPA

Como sabemos, nestes ensaios, metade do grupo de voluntários recebe a vacina que está a ser testada, a outra metade recebe um placebo. Sabe qual é que recebeu?
Eu ainda não sei qual é que recebi. É curioso que, ao contrário de outras vacinas que estão a ser testadas, o placebo nesta vacina não é um produto salino, é uma vacina que está aprovada, que é usada contra a meningite nos adolescentes, é uma vacina licenciada e que também pode causar alguns efeitos secundários.

Portanto, os efeitos secundários que teve não lhe dão a certeza de que recebeu a vacina contra a Covid-19. 
Exatamente. É um ensaio randomizado, portanto, até ao final do estudo, o protocolo diz que não deveremos saber qual é a vacina que nos está a ser administrada. Claro que, neste momento, como a situação no Reino Unido está a alterar-se, no sentido em que já existe uma vacina aprovada, e uma vez que eu sou um grupo prioritário, sendo trabalhadora no sistema de saúde, sei que muito brevemente me irão dizer o que é que tomei, para poder ter acesso, se necessário, à vacina aprovada pelo sistema britânico.

Os laboratórios que fizeram o teste vão contactá-la, no caso de ter tomado o placebo ou não, para deixar claro qual das duas tomou, para saber se pode tomar a da Pfizer, é isso?
Exatamente. Também é importante dizer que nós temos recebido imensas comunicações por email e essa foi uma das mais recentes, porque, mesmo nesta vacina de Oxford, existiram imensos subgrupos aos quais foram administradas diferentes doses. Eu aceitei, na verdade, em outubro receber uma segunda dose desta vacina. Foi completamente voluntário, mas não sei se levei a dose inteira, se levei metade da dose. O que eles realmente clarificaram connosco é que, a partir do momento em que for agendada aos profissionais de saúde a vacina que está aprovada, vão contactar-nos e vão explicar-nos qual é o nível de imunidade que eles preveem, consoante a dose que nos deram. É importante dizer que eu já tive várias visitas, sou monitorizada muito regularmente, eles têm de voltar para fazer análises sanguíneas, portanto eles devem ter uma ideia bastante boa de, se eu realmente levei a vacina experimental, qual é o nível de imunidade que terei. A última visita foi há pouco mais de um mês, em que fizeram análises sanguíneas, portanto eles deverão saber.

"O governo britânico diz que não vamos voltar à normalidade pelo menos até à Páscoa do próximo ano, ainda temos uns longos meses pela frente, uma batalha grande. Mas ficámos muito felizes, como é óbvio, porque desde terça estão a ser vacinados os grupos mais vulneráveis, que têm maior risco de consequências severas do vírus"
Carla Freitas, voluntária nos ensaios da vacina da Oxford

Se tiver levado a vacina experimental da Oxford, não pode levar depois a vacina da Pfizer?
Eles não excluíram automaticamente essa situação. Aquilo que nos disseram que nos vão informar é, uma vez que estamos a ser sujeitos a análises sanguíneas regulares, qual é o nível de imunidade, em anticorpos e células T, que temos, consoante a dose que nos foi administrada. Eles dizem que não nos excluiria automaticamente de tomar outra vacina se a dose que nos foi administrada não nos despoletar imunidade suficiente. No entanto, os estudos que já foram divulgados pela universidade dizem que a imunidade, dependendo das doses que foram administradas, vai dos 60 aos 100%. Mesmo assim, é bastante elevada.

Contava-nos que viveu por dentro muitas das dificuldades que esta pandemia acaba por provocar a nível de saúde. Agora que a vacina da Pfizer começou a ser administrada, qual é o sentimento entre os profissionais de saúde e entre os utentes britânicos?
A partir do momento em que os primeiro resultados da vacina da Pfizer foram anunciados — e seguiu-se a Moderna e também a Oxford —, o sentimento foi de uma alegria enorme, porque continuamos a enfrentar a segunda vaga desta pandemia, continuamos a tratar um número elevadíssimo de casos, portanto o sentimento foi de uma enorme alegria, um enorme orgulho, também, principalmente porque a vacina de Oxford está a ser desenvolvida neste país, há muito orgulho em toda a comunidade científica que tantos esforços fez para desenvolver uma vacina a nível nacional. Mas sabemos — e temos sido informados com muita regularidade pelos nossos hospitais e por outros meios — que temos de manter a calma. O governo britânico diz que não vamos voltar à normalidade pelo menos até à Páscoa do próximo ano, ainda temos uns longos meses pela frente, uma batalha grande. Mas ficámos muito felizes, como é óbvio, porque desde terça estão a ser vacinados os grupos mais vulneráveis, que têm maior risco de consequências severas do vírus. Sem dúvida, é um sentimento de alívio e de grande alegria pelo facto de as vacinas já estarem a ser administradas e ser o primeiro país a fazê-lo.

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É terapeuta. Qual é o impacto da chegada desta vacina? Permite um regresso à normalidade mais rápido no seu caso, a nível profissional?
Eu espero que sim. O governo britânico, assim como os governos do resto do mundo, estão a colocar no topo da prioridade as pessoas que estão mais vulneráveis ao vírus. O que esperamos é, num prazo muito breve, começar a ver uma diminuição dos casos de coronavírus hospitalizados. No meu caso mais particular, como sou especializada em reabilitação neurológica, sabemos que os casos mais severos de coronavírus causam imensas sequelas a nível neurológico, causam imensa dependência, são doentes que precisam de reabilitação intensiva durante meses. Eu espero também ver um decréscimo desse tipo de sequelas neurológicas, porque são realmente devastadoras. É importante dizer que muito se fala da mortalidade, mas a morbilidade deste vírus é elevadíssima. Mesmo alguns colegas meus, que tiveram de ficar de baixa durante alguns meses, ainda estão a sofrer consequências deste vírus, assim como pacientes que eu tenho, com sequelas neurológicos. Estamos ansiosos por começar a ver um impacto grande da vacina na redução deste tipo de casos, tanto em colegas como em doentes.

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