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Não gerou réplicas “extraordinárias”, mas o epicentro foi “relativamente superficial” — o que significa que tem maior impacto à superfície que um sismo mais “profundo”. O risco de tsunami é “o mais próximo de zero possível” e é considerada uma “atividade normal” para a região em que se registou. Contudo, os especialistas admitem que é “impossível prever” se o sismo de 4.7, sentido esta segunda-feira durante a tarde, na região de Lisboa e Setúbal (depois do de 5.3 registado em agosto do ano passado), é apenas um precursor de um “evento geologicamente relevante” que está por acontecer.
Magnitude e intensidade. Onde se sentiu o sismo e de que forma?
Os cálculos preliminares confirmam uma magnitude inferior a 5.0 na escala de Richter do fenómeno que abalou a capital e arredores pelas 13h24, mas os dados do Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA) avançam o valor exato de 4.7 na escala de Richter para o sismo. O epicentro terá sido cerca de 14km a sudoeste do Seixal, a uma profundidade de 7 km, o que é considerado como “relativamente superficial” — o que é mau, já que os abalos à superfície são sentidos com maior intensidade do que no caso em que o epicentro se regista a maiores profundidades.
Esperava-se, de acordo com a avaliação inicial do IPMA, que tivesse sido sentida a queda de alguns objetos e, em termos gerais, que as vibrações tivessem sido notadas pela “maioria da população” num raio de 100 km. No comunicado emitido, o IPMA escreve que o sismo terá sido sentido com uma intensidade máxima V/VI de acordo com a escala de Mercalli modificada, nos concelhos de Almada e Sesimbra, mas esse valor foi atualizado para um IV, indicando que os danos foram inferiores aos esperados, e que apenas “metade da população” afetada o terá sentido.
Nos momentos que se seguiram ao episódio sísmico, a Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil confirmou na rede social X que não houve qualquer registo de danos pessoais ou materiais.
ℹ️ #Sismo | Portugal Continental
Hoje, dia 17 de fevereiro, pelas 13:24 (hora local), foi registado um sismo de magnitude 4.7 (Richter) e cujo epicentro se localizou a oeste do Seixal.
Não há registo de danos pessoais ou materiais até ao momento. pic.twitter.com/0oVSCmS08n
— Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil (@ProteccaoCivil) February 17, 2025
Réplicas. A terra pode voltar a tremer?
“Não há nenhum registo de réplicas, mas são perfeitamente expectáveis” — é a ideia expressa pelos especialistas contactados pelo Observador e confirmada pelo sismólogo do IPMA, Paulo Alves.
Também o antigo presidente do instituto, Miguel Miranda, afirma, em declarações à Rádio Observador, que este sismo provavelmente terá réplicas nos próximos dias ou semanas, embora de menor intensidade. “Todas as pessoas que estão muito perto da zona epicentral devem, dentro da medida do possível, verificar se houve impacto na construção”, alerta o investigador. Os especialistas continuaram, horas depois, sem dar nota de réplicas relevantes que se destaquem na análise, mas frisam que “isto não quer dizer nada” e que “é sempre uma surpresa”.
O que nos diz o epicentro?
O epicentro terá sido a cerca de 14km a sudoeste do Seixal, a uma profundidade de 7 km, o que é considerado como muito próximo da superfície terrestre. “Os sismos superficiais libertam energia perto das pessoas e das casas e têm mais consequências por causa disso“, refere o sismólogo do IPMA. “Um sismo de uma determinada magnitude a 30 km de profundidade não terá as mesmas consequências que um sismo da mesma magnitude a 2 km de profundidade”, acrescenta, explicando que, por essa razão, o episódio desta segunda-feira foi sentido com maior intensidade, apesar de apresentar uma magnitude mais reduzida que o de agosto de 2024 (5,3).
Sismo de 5,3 sentido em várias cidades de norte a sul de Portugal
▲ Epicentro do sismo, a cerca de 14 km do Seixal
IPMA
O que provocou este sismo?
“Trata-se de um domínio intraplaca (no interior das placas tectónicas), onde foram identificadas algumas falhas potencialmente ativas”, refere ao Observador o sismólogo Luís Matias. O especialista indica que o mecanismo focal localizado, que dá uma orientação à atividade sísmica registada, é paralelo à cadeia da Arrábida.
Portugal encontra-se próximo de uma zona de fronteira de placas tectónicas. O território continental localiza-se sobre a placa Euro-asiática, enquanto que, a alguns quilómetros a sul do Algarve, existe a zona de fratura com a placa Africana. A confluência faz-se depois numa linha até aos Açores, com a placa Americana. É nesta linha que podem acontecer os maiores sismos, e onde terá tido origem o de 1755. O que é que isto quer dizer? Essencialmente, é nestas zonas fronteiriças de placas que existe uma maior energia, ou tensão acumulada, devido aos seus movimentos ora divergentes ora convergentes. São estes deslizamentos que, há milhões de anos, formaram as cadeias montanhosas que temos hoje, e também as fossas oceânicas presentes no fundo do mar.
Agora, neste constante movimento, cria-se esta tensão que se espalha ao longo de toda a placa na sua integridade. A tensão pode acumular-se de tal forma, que cria falhas em determinados locais que, por sua vez, podem resultar em diferentes fenómenos geológicos — quanto maior a falha, maior o sismo resultante.
Neste caso em específico, a falha detetada é no interior da placa euroasiática, e “não tem nada a ver com o que se verifica no Japão ou no Chile” em termos de dimensão e movimentos, uma vez que “não tem expressão à superfície” e desloca-se a um ritmo “muito reduzido”. Terá cerca de 4 km de extensão, o que já é algo considerável, e terá sido um “movimento de poucos centímetros que gerou toda esta vibração que foi sentida”. Luís Matias refere que a cadeia da Arrábida já não está ativa, mas continua a ser uma “zona de fraqueza da crosta terrestre, que pode concentrar algumas tensões”, à semelhança do que se verifica nos Pirenéus.
O IPMA, por outro lado, não confirma esta hipótese apresentada pelo investigador, e afirma que os dados serão tratados com “muito detalhe” durante as próximas horas, para entender as causas de uma forma mais detalhada.
Há risco de tsunami?
As autoridades consideram que este risco é “o mais próximo de zero possível”. Mesmo com a localização no mar extremamente próxima de uma zona de costa— outras entidades, como o Centro Sismológico Euro-Mediterrânico e o Serviço Geológico dos Estados Unidos, apontam a um epicentro em terra, na zona da Aroeira —, a Proteção Civil indica que o protocolo de alerta para o evento de um tsunami só é ativado no caso de um sismo registar uma magnitude superior a 6.0 na escala de Richter, afirmou o comandante nacional do serviço, André Fernandes, na sequência do abalo sentido durante o último verão que já foi superior a 5 (5.3).
É a primeira vez que ocorre um sismo nesta região?
Não. Luís Matias, professor da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e investigador no Instituto Dom Luiz, consultou o catálogo de frequência da atividade sísmica na região e nota que, desde 1973, foram sentidos outros três sismos de magnitudes semelhantes.
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Refere, no entanto, que não existem fatores comuns entre estes eventos, nem um padrão de réplicas ou atividade posterior. “Não se nota qualquer concentração geográfica”, estando algo dispersos em algumas dezenas de quilómetros uns dos outros, resolvendo-se como casos isolados e não como termos de comparação, refere ao Observador.
Há motivos de preocupação ou é um acontecimento comum?
Consultados os catálogos e analisada a frequência de sismos na região, Luís Matias diz que o evento sentido esta segunda-feira “não é fora do habitual”, mas reforça que é impossível prever o impacto deste sismo no futuro imediato, quer em termos de réplicas significativas ou até mesmo para a possibilidade de ocorrer um abalo maior.
O especialista remete para a relativa frequência de “sismos pequenos” em território continental, uma vez que Portugal está “próximo de uma zona de fronteira de placas ativas”. Com isto, os especialistas sublinham que o abalo se enquadra na classificação de uma “atividade normal”.
Existe correlação com o sismo de magnitude 5.3 registado em agosto passado?
Os especialistas consultados rejeitam qualquer correlação entre este abalo e o sismo sentido em vários pontos do país no final de agosto de 2024, que registou uma magnitude de 5.3. Contudo, o IPMA adianta ao Observador que ambos os focos se localizam no mesmo campo de tensões, responsável pelos sismos, mas adianta que os respetivos locais apresentam características diferentes.
O epicentro do sismo de agosto estava próximo de Sines, na zona conhecida como o canhão de Setúbal, mas encontrava-se a uma maior profundidade e distância da costa. Assim, para além de ter perturbado o sono a uma maior parte da população, também se fez sentir durante um “período relativamente longo”. Detetado a cerca de 60 km a oeste de Sines — decorreu numa zona onde não há muitos sismos, mas que está dentro da placa euro-asiática. “A nossa zona sísmica não costuma ser aí, há poucas falhas aí conhecidas”, referiu, em agosto, o sismólogo João Duarte à Rádio Observador.
Este campo de tensões, partilhado por estes dois sismos, embora o desta segunda-feira tenha acontecido acima da zona do canhão de Setúbal, e pelos restantes eventos geológicos que se sentem na região de Lisboa e Vale do Tejo ao longo dos anos, traduz-se numa região onde as características que definem a atividade sísmica (direção e magnitude) são semelhantes, podendo dizer-se que têm uma génese relativamente próxima, apesar de derivarem de fatores diferentes. E onde não acontecem muitos sismos. E também ainda uma zona não muito estudada. E onde parecem surgir novas pequenas falhas, como aliás, no sul do país (uma delas é a de Arraiolos), já que a placa Africana está a cavalgar para cima da Euro-asiática, e a Península Ibérica está sob uma micro placa, a placa ibérica, que está a ser rachada por este movimento.
A placa africana está a rachar o país e mais uma dúzia de dúvidas sobre sismos