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Eric Zemmour seen at the presentation of his new book "La
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Éric Zemmour foi jornalista do Figaro. Tornou-se famoso sobretudo pela participação num programa da CNews

SOPA Images/LightRocket via Gett

Éric Zemmour foi jornalista do Figaro. Tornou-se famoso sobretudo pela participação num programa da CNews

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Ainda mais radical do que Le Pen e a subir nas sondagens. Quem é Éric Zemmour, o fenómeno da extrema-direita francesa?

Já foi condenado em tribunal duas vezes por incitar ao ódio racial e está a roubar o eleitorado de Le Pen (e não só). Tal como Trump, ascendeu como celebridade televisiva, e tem os olhos no Eliseu.

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Começou como jornalista, tornou-se numa estrela televisiva e num escritor best-seller, fazendo dos imigrantes, do Islão e de uma alegada decadência de França os seus assuntos prediletos, e hoje, a sete meses das presidenciais francesas, surge como potencial adversário de Emmanuel Macron na segunda volta das eleições marcadas para abril do próximo ano. Éric Zemmour, de 63 anos, reúne neste momento grande parte da atenção mediática em França e, mesmo sem ainda ter anunciado a sua candidatura, é visto como um fenómeno da extrema-direita francesa, ainda mais radical do que Marine Le Pen, ao ponto de ter praticamente garantido o voto do fundador e pai da líder da Frente Nacional (atualmente União Nacional).

Porventura não tão conhecido no resto da Europa, há vários anos que Éric Zemmour causa polémica em França pelas suas declarações que visam quase sempre minorias, que, de resto, já levaram a que fosse condenado em tribunal por duas vezes pelos crimes de discurso de ódio e racismo. Nada, no entanto, indicia que Zemmour esteja disposto a moderar o seu discurso, e se no início de setembro, quando já tinha manifestado vontade de concorrer ao Palácio do Eliseu, reunia o apoio de 7% dos franceses, uma sondagem divulgada a meio desta semana dá-lhe entre 17% a 18% na primeira volta das presidenciais, atrás do Presidente Emmanuel Macron, que reúne entre 24% a 27% das preferências, mas à frente de Marine Le Pen, que não vai além dos 15% a 16%.

França. Éric Zemmour está à frente de Le Pen nas sondagens, que pela primeira vez não chegaria à segunda volta

“Na realidade, a primeira vítima de Éric Zemmour é Marine Le Pen”, explica ao Observador Vincent Martigny, professor de Ciência Política da Universidade de Nice, não hesitando em descrever o potencial candidato ao Eliseu como mais radical do que a líder da União Nacional, com a particularidade de beneficiar de uma enorme visibilidade nos media, que o tornou numa cara conhecida para milhões de franceses.

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“Cresci numa família em que o amor por França era inato, natural e poderoso. Não brincávamos com isso"
Éric Zemmour

Uma das ideias que tem sido propagada por Zemmour há vários anos é a teoria conspirativa da “grande substituição”, que defende que as populações europeias estão a ser substituídas por imigrantes, sobretudo muçulmanos, o seu principal alvo. No seu último livro, “La France n’a pas dit son dernier mot” (“A França ainda não disse a sua última palavra”, numa tradução livre), Zemmour escreve, de acordo com um excerto citado no Financial Times, que “nenhuma pequena aldeia ou cidade em França está a salvo de uma esquadrão selvagem de gangues chechenos, kosovares, magrebinos ou africanos que roubam, violam, pilham, torturam e matam”. Num outro livro publicado em 2014, segundo a France 24, o antigo jornalista escreveu que França passou a ser uma “presa” desde a queda de Napoleão Bonaparte e que as mulheres desejam ser dominadas pelos homens, falando na perda de virilidade do homem branco.

“Zemmour tornou-se num polemista de extrema-direita, aproveitando todas as ocasiões para exibir o seu racismo, homofobia e sexismo e fazer uma revisão da história francesa”, realça o analista Vincent Martigny. “É um misto entre um salvador e um entertainer, porque as pessoas gostam de estar entretidas e não levar sempre a política a sério. Para algumas pessoas é divertido ouvir Zemmour dizer coisas horríveis. É como uma personagem de um filme que, ao mesmo tempo, surge como um homem que quer salvar o país”, acrescenta.

Do jornalismo ao estrelato televisivo, passando pelas comparações com Trump

Nascido nos subúrbios em Paris em 1958, Éric Zemmour é filho de pais judeus que viveram numa comunidade judaica na Argélia, tendo regressado a França durante a guerra de libertação da antiga colónia francesa. Os seus ideais nacionalistas começaram a nascer na infância, conforme contou o próprio, citado pelo Figaro: “Cresci numa família em que o amor pela França era inato, natural e poderoso. Não brincávamos com isso”.

Zemmour formou-se no Instituto de Estudos Políticos de Paris, mas não conseguiu entrar na prestigiada Escola Nacional de Administração, uma instituição da elite francesa onde foram formados vários presidentes e ministros franceses. Depois, decidiu seguir o caminho do jornalismo, conseguindo o seu primeiro emprego em 1986, no jornal Le Quotidien de Paris, entrando mais tarde para o Figaro, onde fazia jornalismo político e chegou a colunista. Progressivamente, foi também fazendo participações nas rádios francesas e principalmente nas televisões, onde se tornou uma espécie de celebridade, comentando não só questões políticas, mas também filmes ou livros, dando uma especial importância a questões relacionadas com a história de França.

"Quase todos os dias da semana ele [Zemmour] aparece na sala de estar das pessoas expondo as mesmas ideias e as mesmas obsessões, ao ponto de se tornar familiar às pessoas"
Vincent Martigny, professor de Ciência Política da Universidade de Nice

O auge mediático de Zemmour dá-se com o seu programa “Face l’Info”, na estação televisiva privada CNews, onde discussões sobre o legado de Napoleão Bonaparte ou a criminalidade em França eram debatidos com a mesma veemência. É através deste canal televisivo que Zemmour se torna uma presença regular nos ecrãs franceses, tendo como temas centrais o Islão ou um suposto declínio da França no mundo, com Zemmour a defender a saída de França da União Europeia ou a proibição total de entrada de imigrantes, sobretudo se forem muçulmanos.

Num dos programas, Zemmour chamou jovens migrantes de “ladrões, assassinos e violadores”, defendendo que devem “ser devolvidos aos países de origem”, o que levou o regulador francês, em março, a impor uma multa de 200 mil euros à CNews por incitamento ao ódio racial. Esta multa acresce às condenações de Zemmour em 2011; quando foi condenado a pagar dois mil euros depois de ter afirmado que “maioria dos traficantes são negros ou árabes”, o que para o tribunal ultrapassa os limites da liberdade de expressão; e em 2018 quando foi condenado a pagar três mil euros por ter cometido o crime de discriminação, quando disse que França vive “há 30 anos sob uma invasão” que os muçulmanos têm de escolher entre a França ou o Islão.

Manifestation In Boulogne-Billancourt Against Polemicist Eric Zemmour

Manifestação contra Éric Zemmour à entrada da CNews, em Boulogne-Billancourt

NurPhoto via Getty Images

Apesar de declarações deste género, ou talvez por causa delas, graças a Zemmour, a CNews teve um crescimento exponencial nos últimos quatro anos e, apesar de não ter a mesma influência, é comparada em França à Fox News nos Estados Unidos e o seu proprietário, o bilionário Vincent Bolloré, a Rupert Murdoch. Já o potencial candidato ao Eliseu Éric Zemmour tem sido comparado a Donald Trump, que antes de concorrer (e vencer) as eleições presidenciais norte-americanas era uma estrela televisiva, com o mesmo estilo provocador e com ideias semelhantes no que diz respeito à imigração ou às mulheres.

“Quase todos os dias da semana ele aparece na sala de estar das pessoas expondo as mesmas ideias e as mesmas obsessões, ao ponto de se tornar familiar — como um tio com o qual não se concorda, mas de quem gostamos no fim”, afirma o politólogo Vincent Martigny, realçando a ideia de que Zemmour é encarado como um símbolo da “cultura popular”.

“No final, no momento de votar, muitos eleitores vão questionar-se se [Zemmour] é o homem certo para as funções presidenciais. E não tenho a certeza de que as suas capacidades estejam ao nível daquilo que o povo francês espera de um Presidente”
Olivier Rouquan, politólogo do CERSA da Universidade Pantheon-Assas, em Paris

A ascensão de Zemmour e a queda de Le Pen

Mas, apesar das semelhanças, ao contrário do que aconteceu com Donald Trump em 2016, Éric Zemmour não tem o apoio de um grande partido para concorrer à presidência, sendo inegável que sem o Partido Republicano seria praticamente impossível uma vitória de Trump. Um problema para o antigo jornalista que também não tem qualquer experiência política, uma vez que nunca foi eleito para qualquer cargo.

“Neste momento, Zemmour não tem um partido político que o apoie na sua campanha, apenas algumas pessoas, incluindo muitos jovens, que o ajudam. Mas isso não chega. É preciso construir alianças sólidas”, diz ao Observador o politólogo Olivier Rouquan, do Centro de Estudos e Investigação em Ciências Administrativas e Políticas (CERSA, na sigla em francês) da Universidade Pantheon-Assas, em Paris, realçando que, neste momento, Zemmour não tem um programa político definido, uma vez que praticamente só fala de imigração, ignorando questões como a economia, a ecologia ou as políticas sociais.

Após falhar governo regional, Le Pen apela aos franceses para votarem na alternância em 2022

“No final, no momento de votar, muitos eleitores vão questionar-se se [Zemmour] é o homem certo para as funções presidenciais. E não tenho a certeza de que as suas capacidades estejam ao nível daquilo que o povo francês espera de um Presidente”, remata Olivier Rouquan.

“Marine Le Pen está a deixar de ser novidade. É uma personagem muito conhecida da política francesa, e o que as pessoas querem é a nova temporada da última série, querem coisas novas, que não conhecem. E isso também se aplica à política”
Vincent Martigny, politólogo

Contudo, e quando ainda faltam sete meses para as eleições presidenciais, é inegável que Éric Zemmour, que deverá anunciar ainda neste mês de outubro se é ou não candidato, está a agitar a política francesa, e as maiores ondas de choque sentem-se à direita, ou não coincidisse a ascensão do antigo jornalista precisamente com a queda nas sondagens de Marine Le Pen, que nos últimos meses perdeu cerca de dez pontos percentuais.

Ainda a recuperar dos estragos do fracasso das eleições regionais de junho, que constituíram uma pesada derrota para a União Nacional, Marine Le Pen, que perdeu na segunda volta das presidenciais de 2016 contra Macron, tem tentado expandir o seu eleitorado, procurando apresentar a imagem de um partido mais moderado. A estratégia, no entanto, não está a resultar.

Marine le Pen and Jean Marie Le Pen

Relação entre Marine Le Pen e o pai tem sido conturbado. Jean-Marie Le Pen admite votar em Éric Zemmour

NurPhoto via Getty Images

“Marine Le Pen está a deixar de ser novidade. É uma personagem muito conhecida da política francesa, e o que as pessoas querem é a nova temporada da última série, querem coisas novas, que não conhecem. E isso também se aplica à política”, afirma o professor de Ciência Política da Universidade de Nice Vincent Martigny. “Le Pen apresenta-se mais moderada do que anteriormente, mas não diz nada de novo, porque as pessoas já sabem o que ela pensa. Um homem como Zemmour aparece com a pureza do radicalismo, parecido com Jean-Marie Le Pen”, sublinha o analista.

Direita contra extrema-direita. Quem vence, Marine Le Pen?

O pai de Marine Le Pen, de resto, parece já estar convencido com Éric Zemmour, e numa entrevista ao Le Monde no início deste mês de outubro admitiu votar no antigo jornalista caso este seja candidato. “Marine abandonou as bandeiras e Éric ocupou o seu espaço. Se Éric for o candidato mais bem colocado no campo nacionalista, é claro que o vou apoiar”, disse o antigo líder da Frente Nacional, que na mesma entrevista não resistiu a uma comparação provocadora. “A única diferença entre mim e o Éric é que ele é judeu. Portanto, é difícil chamar-lhe nazi ou fascista. Isso dá-lhe mais liberdade”, atirou.

Zemmour também tem apoio na direita clássica. Terá hipótese de vencer Macron?

Éric Zemmour também é conhecido pelo seu estilo provocador, e tem insistido que caso Marine Le Pen vá à segunda volta com Emmanuel Macron será novamente derrotada. “Toda a gente sabe que Marine Le Pen não consegue vencer”, tem sido uma das frases repetidas regularmente pelo antigo jornalista que, enquanto a líder da União Nacional, propõe um referendo para a implementação de medidas restritivas da imigração e defende abertamente a proibição de dar o nome Mohammed a crianças, porque tal, segundo o próprio, trata-se de uma “tentativa de colonizar França”.

Marine Le Pen e Anne Hidalgo lançam-se nas presidenciais francesas de 2022

Este tipo de discurso, misturado com uma vertente intelectual em que Zemmour fala sobre Napoleão Bonaparte ou sobre a ideia de uma França em declínio, tem agradado aos eleitores descontentes da Frente Nacional, mas não só — os analistas notam que também entre a direita tradicional dos Republicanos Éric Zemmour está a ganhar popularidade.

Eric Zemmour is seen on the stage with the title of his book

Éric Zemmour em Lille, na apresentação do seu último livro. Na primeira semana, o livro vendeu mais de 78 mil exemplares

SOPA Images/LightRocket via Gett

“Zemmour vai buscar parte do eleitorado à direita clássica, sobretudo na classe alta. Porque em França parte desse eleitorado tem muitas ideias em comum com a Frente Nacional. Podem não votar no partido, porque pode existir o sentimento de que votar em Le Pen não é a coisa certa, mas, no final, em termos de imigração ou dos valores tradicionais, têm muitos pontos em comum”, salienta o politólogo Vincent Martigny, notando que o ex-jornalista transformado em estrela televisiva está a “fazer a junção entre este eleitorado e o eleitorado da Frente Nacional”.

“Hoje, as pessoas estão mais polarizadas e interessadas em ideias radicais. Zemmour contribuiu para essa polarização e por isso consegue o gerar interesse numa parte dos cidadãos franceses"
Olivier Rouquan, politólogo

Apesar de o nome de Xavier Bertrand ser o favorito à direita, os Republicanos, o maior partido da direita tradicional francesa, ainda não escolheram o seu candidato às presidenciais, pelo que ainda é cedo para perceber qual o verdadeiro apoio que Zemmour terá. Mas, para o analista político Olivier Rouquan, a ascensão de Zemmour, ao ponto de ser apontado à segunda volta das presidenciais, deve-se principalmente à profunda transformação do sistema político francês.

“O fenómeno explica-se pelo colapso dos partidos políticos tradicionais, que estão muito enfraquecidos em França. Os partidos mais antigos são incapazes de mobilizar os cidadãos”, afirma Rouquan. “Hoje, as pessoas estão mais polarizadas e interessadas em ideias radicais. Zemmour contribuiu para essa polarização e por isso consegue gerar interesse numa parte dos cidadãos franceses”, acrescenta o politólogo do CERSA.

A grande questão neste momento é saber se Zemmour vai conseguir manter o mesmo nível de entusiasmo em torno da sua (ainda hipotética candidatura) até às eleições. Se as eleições fossem agora, o “polemista” estaria na segunda volta das presidenciais, mas perderia para Emmanuel Macron por 55% a 45%. Nenhum dos analistas ouvidos pelo Observador, no entanto, se compromete com uma resposta definitiva sobre se Zemmour tem ou não hipóteses de vencer o atual Presidente.

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“Há muita incerteza em relação às eleições. É demasiado cedo”, remata Olivier Rouquan. “A oferta política ainda não está consolidada. Ainda não sabemos quem é o candidato dos Republicanos. Não sabemos qual vai ser a estratégia de Macron. Há imensa coisa que não sabemos nesta fase”, sublinha Vincent Martigny, que, tal como Rouquan, partilha a ideia de que o sistema político francês está num processo de reconfiguração, da qual a ascensão de um potencial candidato com as características de Éric Zemmour é o maior exemplo até à data.

“A questão sobre as próximas eleições é saber se essa reconfiguração vai trazer clarificação ou ainda mais sombras para França”, conclui o politólogo da Universidade de Nice.

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