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João de Almeida Dias / Observador

João de Almeida Dias / Observador

A aldeia húngara por onde os refugiados entram — e onde ninguém os quer

"Ninguém tem pena deles", diz um polícia da aldeia fronteiriça que elegeu um autarca de extrema-direita com 72%. E Renáta, refugiada sérvia, diz que o exército deve disparar sobre quem tenta entrar.

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João de Almeida Dias, em Ásotthalom (Hungria)

Assim que Zoltán Sáringer liga o motor do jipe da polícia local de Ásotthalom, uma aldeia húngara de quatro mil habitantes na fronteira com a Sérvia, uma mulher magra e loira corre para a janela. “Senhor agente, já estou farta de ver contrabandistas ali ao fundo, eles estão sempre ali, tem de fazer alguma coisa!”.

Zoltán, um jovem de 24 anos com um ar sonolento e tão alto que mal cabe na viatura, garante-lhe que vai tratar do assunto. Depois, despede-se da cidadã, que lhe agradece, e começa a andar no Lada Niva usado para a patrulha, um todo-o-terreno de fabrico russo com quase 20 anos.

“A toda a hora as pessoas vêm ter comigo dizer que estão ali não sei quantos migrantes e que lá mais ao fundo estão outros tantos contrabandistas… Isto não pára e nós não conseguimos pôr cobro à situação”, diz, enquanto conduz em direção à fronteira numa estrada molhada pela chuva que cai há dois dias. Ao longo do caminho, há mais de trinta pessoas a andar na direção oposta da fronteira. E a cada paragem de autocarro latão azul vários refugiados, uns de pé e outros de cócoras, abrigam-se da chuva.

"A toda a hora as pessoas vêm ter comigo dizer que estão ali não sei quantos migrantes e que lá mais ao fundo estão outros tantos contrabandistas... Isto não pára e nós não conseguimos dar cobro à situação."
Zoltán Sáringer, agente da polícia local de Ásotthalom

O polícia dá uma guinada à direita, enfia o carro para uma estrada de terra batida enlameada e contornada por floresta. Passa pouco das 9h00 da manhã, mas, por momentos, a sombra dos pinheiros quase dá a sensação de estarmos no pôr do sol. Por fim, volta a luz e, com ela, uma nova visão. Do lado de lá está a Sérvia e, pelo caminho uma vedação. Primeiro, uma rede de arame suportada por pilares com mais de três metros de altura. E, depois, o arame farpado.

“Vão-se embora!”

“A vedação não serve para nada enquanto for só uma vedação. Precisamos de ter cá o exército e mais polícias, porque assim os migrantes fazem o que querem dela. Metem mantas por cima do arame farpado, cortam a vedação, passam por baixo”, diz, enquanto conduz ao longo da fronteira numa estrada esburacada. “Agora no dia 15 vai haver novas leis e estou curioso para saber se vão ter um bom resultado ou não.” Zoltán fala da legislação que vai entrar em vigor na terça-feira e que prevê uma pena de prisão até três anos para quem atravessar ilegalmente a fronteira e que vai permitir ao exército guardar aquela zona. De igual forma, os contrabandistas podem ser presos até uma duração de 20 anos.

Na véspera de estarmos com Zóltan, 10 de setembro, os números da polícia húngara indicavam que 3 601 pessoas tinham entrado na Hungria — o maior número diário desde que esta crise começou.

Zoltán Sáringer: “Não tenho pena nenhuma dos refugiados, eles têm iPhones, bebem Coca-Cola e fumam Marlboro. Eles têm dinheiro, têm tudo aquilo de que precisam." (João de Almeida Dias / Observador)

João de Almeida Dias / Observador

Demora pouco até o polícia de 24 anos encontrar refugiados que, por ainda ali estarem, devem ter acabado de passar a vedação. Primeiro, um grupo de sete homens, que já está a ser acompanhado por um polícia que deverá encaminhá-los para o ponto de recolha de refugiados de Ásotthalom — um espaço à beira da estrada de aproximadamente 300 metros quadrados com quatro casas de banho portáteis e cerca de vinte tendas. Depois, dá de caras com uma família: dois adultos, possivelmente homem e mulher, uma criança pré-adolescente e uma idosa. Estão à chuva, parados a olhar para o jipe de Zoltán. Parecem assustados e tremem com o frio. “Olha esta avozinha, deve ter para aí 80 anos”, comenta, jocoso. Mais à frente, torna a ver um refugiado, desta vez sozinho. A este, tal como a todos os que vê pelo caminho, diz-lhes “go away!”, com o w carregado. “Vão-se embora”, enquanto aponta para trás, como que a dar a direção.

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“Não há ninguém em Ásotthalom que tenha pena dos refugiados, porque já toda a gente teve encontros com eles”, diz Zoltán, que recorda a vez em que foi chamado à quinta de uma senhora que, enquanto estava no quintal, reparou que um grupo de quatro homens entrava na sua casa. “Deitaram-se no sofá e roubaram comida e bebidas”, conta o polícia, que chamou reforços e fotógrafos para capturarem o momento. Além disso, garante, já foram roubados três carros e 12 bicicletas desde o início da primavera. “Não tenho pena nenhuma dos refugiados, eles têm iPhones, bebem Coca-Cola e fumam Marlboro. Eles têm dinheiro, têm tudo aquilo de que precisam. Não consigo ter pena deles, a situação deles não pode ser assim tão má.”

Ásotthalom está longe de ser o único sítio na Hungria em que as opiniões são pouco favoráveis em relação aos refugiados. Segundo uma sondagem publicada no final de agosto, apenas 19% dos inquiridos disseram que a Hungria tem o dever de acolher os refugiados. Por outro lado, 66% disseram que os requerentes de asilo são uma ameaça e que a Hungria não deve permitir a sua entrada.

O autarca nacionalista que receia o fim da “Europa cristã”

“A verdade é que nós não temos como saber quem é que estas pessoas são”, diz László Toroczkai, presidente da Câmara de Ásotthalom. “Como é que podemos comprovar o passado deles? Muitos deles não querem ser reconhecidos pela polícia, aparecem sem documentos ou então destroem os passaportes mal chegam cá. Nós não sabemos nada acerca desta multidão. Portanto, podem ser terroristas ou criminosos. Isso é muito perigoso para as pessoas de Ásotthalom. Somos quatro mil mas metade vive em quintas. Sozinhos, isolados e sem proteção. Não é seguro para o nosso povo.”

A segurança tem sido uma das maiores apostas deste autarca. Em 2014, criou a polícia local com três homens — que, na primavera deste ano, quando ainda não havia vedação na fronteira, recebeu uma distinção do diretor nacional da polícia húngara pelo “controlo da entrada dos migrantes”. Agora, com o pico da crise dos refugiados, prepara-se para contratar mais três agentes. E em julho, depois de o ministério da Administração Interna lhe ter negado dinheiro para um novo carro de patrulha, fez uma campanha de angariação de fundos. Em poucas semanas reuniu 14 mil euros, que lhe chegaram de vários húngaros anónimos mas também de uma organização de extrema-direita francesa — o suficiente para comprar um Toyota Hillux semi-novo.

László Toroczkai é presidente da Câmara de Ásotthalom desde 2013. Foi eleito com 71,5% dos votos, com o apoio do Jobbik, o maior partido da extrema-direita húngara. (Fotografia: João de Almeida Dias)

João de Almeida Dias / Observador

Atualmente com 37 anos, László Toroczkai foi eleito de forma bastante expressiva em 2013, quando concorreu com o apoio do Jobbik, o maior partido de extrema-direita húngaro e que as sondagens mais recentes colocam em segundo lugar. Ao todo, László Toroczkai juntou 71,5% dos votos, naquela que foi a primeira vez que se apresentou a votos.

Antes disso, foi uma das caras da facção de extrema-direita que em 2006 tentou invadir as instalações da televisão pública húngara, depois de ter surgido uma gravação em que o primeiro-ministro de então, o socialista Ferenc Gyurcsány, dizia ter mentido deliberadamente durante a campanha. E, também, foi o fundador do Movimento da Juventude pelos 64 Condados, um grupo nacionalista a favor da expansão da Hungria até às regiões onde vivem pessoas da etnia magiar. As idas a países na periferia sob a bandeira deste movimento — que não poucas vezes terminavam em batalhas de muitos murros, pontapés e algumas facadas — valeram-lhe a proibição temporária (e entretanto levantada) de entrar na Roménia, Sérvia e Eslováquia.

“Eu era muito jovem e os humanos mudam. Mudei um pouco enquanto homem, mas tenho muito orgulho no meu passado, porque eu estava a lutar pelos Direitos Humanos das minorias húngaras na bacia dos Cárpatos”, diz, para depois acrescentar: “Mas isso era outro trabalho. Agora o meu trabalho é ser presidente da Câmara de Ásotthalom. E a questão aqui é se a Europa vai existir no futuro, como é que pode mudar. Não temos tempo para falar da autonomia de uma Hungria maior quando aquilo que está em risco é a Europa cristã”.

László Toroczkai, em 2007, num julgamento em que era acusado de causar distúrbios no centro de Budapeste durante uma manifestação anti-comunista. (Fotografia:ATTILA KISBENEDEK/AFP/Getty Images)

ATTILA KISBENEDEK/AFP/Getty Images

E, de certa forma, para Lázslo Toroczkai, a Europa cristã começa em Ásotthalom. “Isto é uma invasão, é uma agressão”, diz. Semelhante ideia tem o seu vice-presidente, István Fackelmann, que diz receber queixas dos habitantes da aldeia diariamente. “Os migrantes andam por cima das colheitas, estragam tudo… Roubam fruta… Certamente que estão com fome, mas acabam com a produção das pessoas. Comem pêssegos, ameixas e tudo o que encontrarem. Quando está calor usam os sistemas de rega para tomar banho”, diz.

Além disso, a caça teve de ser interrompida no concelho. “Tivemos de suspender tudo porque ainda corremos o risco de acertar num migrante”, explica. Do outro lado da estrada, no placard onde são expostas as comunicações da autarquia e os editais, está um aviso para as pessoas não tocarem em objetos deixados pelos refugiados, por risco de doença. O texto é acompanhado com uma fotografia de um braço com várias erupções cutâneas, incluindo pústulas negras.

“Quanto tempo é que um homem jovem aguenta sem sexo?”

Outra preocupação de Lászlo Toroczkai são “os números altíssimos de jovens adultos do sexo masculino” que atravessam a fronteira da Hungria. Segundo o edil, estes representam 83% daqueles que chegam ao país vindos de África e do Médio Oriente. “São números oficiais, da polícia”, avança. O Observador não conseguiu confirmar estes dados junto da polícia húngara que, no seu site oficial, apenas disponibiliza o número de entradas de requerentes de asilo, sem os diferenciar pela idade, sexo ou proveniência.

“Isto é muito preocupante em termos demográficos, porque a Europa está envelhecida. Não vão ser estes jovens adultos que vão reverter essa tendência”, avança, para depois deixar aquilo que diz ser a sua “opinião pessoal” quanto àqueles que alegam estar a sair de países como a Síria e o Afeganistão por causa da guerra ou de conflitos armados localizados: “Se o meu país, a minha casa e a minha família estivessem a ser atacados, eu ficava lá para os proteger. Porque é que eles não fazem o mesmo? Deviam lutar contra as organizações que destruíram os seus países em vez de virem para cá. É a minha opinião. E se calhar eles têm filhos e mulheres que ficaram lá. Comigo seria ao contrário. Numa guerra, a minha mulher e os meus filhos seriam refugiados. Eu ficaria na minha terra a lutar”.

“Se o meu país, a minha casa e a minha família estivessem a ser atacados, eu ficava lá para os proteger. Porque é que eles não fazem o mesmo?"
László Toroczkai, presidente da Câmara de Asótthalom

Também o vice-presidente da Câmara de Ásotthalom está preocupado com os jovens adultos que chegam sem família à Europa. “Quanto tempo é que um homem jovem, vigoroso, aguenta sem ter sexo?”, lança para o ar. A pergunta é retórica, mas István Fackelmann acaba por dizer que “ainda recentemente uma mulher húngara foi violada por quatro refugiados”. Perguntamos em que cidade ou vila do país é que isso aconteceu. “Agora não me lembro bem, mas está nas notícias.” Mais uma vez, após pesquisa, o Observador não conseguiu encontrar nenhum artigo que apontasse para esta situação.

A refugiada cristã que não quer refugiados muçulmanos

A mulher magra e loira que correu para o jipe de Zoltán, o polícia da fronteira, tem um nome: chama-se Renáta Móricz, tem 40 anos e há 23 que é refugiada na Hungria.

Quando a voltamos a ver, conta-nos que nasceu no Norte da Sérvia (então Jugoslávia) e que é de etnia magiar. Tinha 17 anos quando a guerra na Bósnia eclodiu, em 1992. Assim que o conflito começou, os pais tomaram a decisão de fugir de Novi Sad, a cidade onde viviam. “Ao início o exército da Jugoslávia começou a chamar os homens que eram de etnia magiar e o meu pai não queria ir para a guerra, queria continuar a vida dele em paz.” Por isso, foram para o Sul da Hungria, logo do outro lado da fronteira, onde conseguiram o estatuto de refugiados.

Renáta é hoje casada com Krisztián, um húngaro também de 40 anos a quem foi buscar o apelido. Ela trabalha numa mercearia no centro de Ásotthalom e ele é operário numa empresa local de construção de obras públicas. São pais de três crianças, um rapaz de três anos e duas raparigas, de sete e 12 anos. E, pela primeira vez, acreditam que elas não estão seguras nesta pequena aldeia de apenas quatro mil habitantes. “A minha filha do meio é diabética e quando ouviu histórias dos refugiados aqui na aldeia ficou tão nervosa que os níveis de glicémia dela dispararam.”

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Krisztián e Renáta Móricz com os três filhos. Apesar de ser uma aldeia pequena, Renáta acha que Ásotthalom já não é seguro para os seus filhos. (Fotografia: Facebook de Renáta Móricz)

Ásotthalom nunca tinha visto nada assim. Vários grupos de refugiados circulam a pé pelas estradas (Krisztián fez um vídeo no telemóvel de um grupo que, em jeito de cântico, pedia à polícia que enviasse um autocarro até àquela aldeia para os levar a Budapeste, de onde partiriam para a Alemanha), deixando atrás de si lixo, sapatos rotos e roupa estragada. E, por todo o lado, há carros novos, muitas vezes de matrículas estrangeiras, que os locais não têm dúvidas de serem de contrabandistas. Enquanto isso, o presidente da Câmara deixou um conselho aos habitantes da aldeia no início do ano escolar: “Enquanto a crise dos migrantes durar não quero que deixem os vossos filhos sozinhos na rua”.

"A minha filha do meio é diabética e quando ouviu histórias dos refugiados aqui na aldeia ficou tão nervosa que os níveis de glicémia dela dispararam."
Renáta Móricz, refugiada na Hungria desde 1992 e habitante de Ásotthalom

Apesar de também ela ser refugiada, Renáta olha com relutância para o caso daqueles que, chegados África e do Médio Oriente, tentam obter o mesmo estatuto na Europa. “Eles são muçulmanos e a experiência diz-nos que o estilo de vida dos muçulmanos não é compatível com a nossa maneira de viver. E digo isto em relação à maneira de viver não só na Hungria mas também na Europa”, diz, sublinhando o facto de ser cristã.

“Eu sei que há gente a fugir da guerra, mas penso que esses devem ser poucos. Esses devem poder ficar como refugiados, mas mesmo isso pode ser perigoso, porque eles podem querer impor a sua cultura”, afiança Renáta.

Já o marido fala daquilo que vê na Internet, como um vídeo em que radicais do auto-proclamado Estado Islâmico degolam cristãos na costa da Líbia. “Não entendo porque é que fazem aquelas coisas e agora vêm para cá. Querem fazer o quê, afinal? Não sabemos quem eles são ao certo. Isto pode vir a ser muito perigoso”, diz. “O exército devia poder ir para a fronteira e devia ser permitido eles dispararem balas a sério para cima deles”, avança a mulher.

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