Com a chegada da primavera e de mais uma vaga de poeiras vindas do norte de África, voltam a manifestar-se as alergias respiratórias tão típicas desta estação. No entanto, as queixas já não se limitam a este período do ano e têm vindo a avolumar-se, com os especialistas a confirmarem a tendência de um aumento da prevalência de alergias. As doenças alérgicas já afetam um terço da população (era 20% há cerca de uma década).
Os imunoalergologistas alertam que estas doenças surgem cada vez mais cedo e com quadros mais graves — em resultado da poluição e dos hábitos alimentares — e pedem um aumento do acesso dos doentes às vacinas anti-alérgicas, que proporcionam uma melhoria da qualidade de vida.
“Temos assistido a um aumento da prevalência das doenças alérgicas. E além desse aumento, temos casos cada vez mais graves e mais precoces”, diz ao Observador a presidente da Sociedade Portuguesa de Alergologia e Imunologia Clínica (SPAIC). Ana Morête sublinha que a tendência está consolidada e “é visível na prática clínica”.
▲ Aquecimento global tem impacto nos níveis de pólens, o que agrava as doenças alérgicas, destaca a presidente da Sociedade Portuguesa de Alergologia e Imunologia Clínica, Ana Morête
Segundo a especialista, as alergias mais comuns (respiratórias, alimentares e a fármacos) já afetam um terço da população dos países ocidentais. Há cerca de uma década, eram 20%, segundo dados citados pela Organização Mundial da Alergia. Não há dados epidemiológicos da população portuguesa, mas a especialista estima que Portugal acompanhe a tendência dos países ocidentais no que diz respeito à prevalência das alergias. Os Estados Unidos estão entre os que recolhem dados mais detalhados e há dois anos, o Centro de Prevenção e Controlo de Doenças reportava que um em cada três adultos norte-americanos e uma em cada quatro crianças tinha uma alergia respiratória ou alimentar.
Épocas polínicas são cada vez mais prolongadas e intensas
As alergias respiratórias (grupo onde se incluem a asma, a rinite ou a sinusite) são as mais prevalentes. Estima-se que afetem cerca de 30% da população, sendo que, há 15 anos, a prevalência era de 26% segundo o imunoalergologista Manuel Branco Ferreira. Em Portugal, a alergia aos pólens é a que continua a provocar mais problemas. “Temos níveis de pólens cada vez mais elevados e épocas polínicas cada vez mais prolongadas”, diz ao Observador o imunoalergologista Mário Morais de Almeida, o que, sublinha, está diretamente associado ao aquecimento global e ao aumento das temperaturas médias do ar.
“Tínhamos a situação definida: os pólens eram de março a maio. Agora temos pólens quase o ano inteiro (exceto quando há chuva). E sabemos que são mais alergénicos, porque a poluição destrói uma parte da parede exterior dos pólens e expõe mais os epítopos alergénicos, ou seja, as substâncias que depois se vão ligar ao nosso sistema imunológico e causar uma reação alérgica”, explica a presidente da SPAIC. Ana Morête reforça que as alterações climáticas e o aquecimento global estão a prolongar as épocas polínicas e a provocar quadros alérgicos mais graves.
“Temos casos com mais exuberância, de pessoas com mais dificuldade em controlar os sintomas”, confirma Mário Morais de Almeida, do Hospital CUF Descobertas. Além das mudanças nos pólens, há um outro fator que tem exacerbado as alergias respiratórias: a deslocação, até Portugal, das poeiras provenientes do norte de África, e que são trazidas por ventos associados a depressões atmosféricas. “As poeiras do Norte de África aumentam também a intensidade da penetração dos pólens na via aérea, o que agrava mais a doença alérgica respiratória aos pólens”, explica Ana Morête, também diretora do serviço de Imunoalergologia do Hospital de Aveiro.
▲ "A cada década temos registo de aumentos de 20 a 40% na prevalência de alergias alimentares", diz o imunoalergologista Mário Morais de Almeida
De entre todas as doenças alérgicas, a rinite é a mais frequente, com a prevalência a aumentar de forma constante ao longo das últimas décadas. Um estudo levado a cabo em 2021, em centros de saúde de todo o país, concluiu que a prevalência da doença em adultos e adolescentes era de 26,1%. Os autores verificaram prevalências ainda maiores nas mulheres e também na região do Alentejo. Já em relação à asma, os dados mais recentes (apurados pelo estudo Epi-Asthma, de maio de 2024) apontam para uma prevalência de 7,1%, um aumento, ainda que ligeiro, em relação aos 6,8% de 2012.
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Quadros de doença alérgica são agora mais graves e mais precoces (também em crianças)
No entanto, estes números podem pecar por escassos, uma vez que muitos doentes ainda não estão diagnosticados porque desvalorizam os sintomas. “As pessoas desvalorizam ainda os sintomas se não forem de grande gravidade” e isso tem impacto no diagnóstico, diz Ana Morête. No caso da asma, os quadros podem ser graves, com exacerbações com impacto no recurso aos serviços de urgência (e nos internamentos), lembra Mário Morais de Almeida.
Também em idade pediátrica, os imunoalergologistas apontam para um aumento de casos de doença alérgica, em crianças cada vez mais pequenas. “Temos tido quadros mais graves e mais precoces”, realça a presidente da SPAIC, com aumento das anafilaxias, a reação alérgica mais grave e que pode levar à morte.
Investigadores alertam que alergias não controladas têm impacto negativo nos estudos
Mas se as alergias respiratórias são as que têm maior prevalência, têm sido, por outro lado, as alergias alimentares a multiplicar-se mais. “A cada década temos registo de aumentos de 20 a 40% na prevalência de alergias alimentares“, diz Mário Morais de Almeida. E o cenário poderá ser ainda mais preocupante: um estudo britânico, que analisou dados de cerca de sete milhões de pessoas, detetou um aumento quase superior a 100% na prevalência de alergias alimentares no Reino Unido entre os anos de 2008 e 2018. Estima-se que este tipo de alergias já afete cerca de 5% da população dos países ocidentais, segundo o médico da CUF Descobertas.
E que fatores poderão explicar este aumento galopante? Segundo os especialistas, a poluição e, sobretudo, os hábitos alimentares. “Os novos hábitos alimentares, com o afastamento da dieta mediterrânea, têm um papel determinante. É um grande desafio”, alerta Mário Morais de Almeida, acrescentando que as alergias alimentares mais comuns associam-se ao marisco, a frutos secos, ovos e leite de vaca.
Alimentos processados contribuem para aumento das alergias alimentares
Ana Morête aponta também ao dedo ao estilo de vida “ocidentalizado”. “Este aumento tem muito a ver com a hiper-resposta do sistema imunológico à poluição, aos alimentos processados e ao microbioma”. Também a alergia a medicamentos tem vindo a aumentar, confirmam os especialistas. Os dados são escassos mas, de acordo com um estudo publicado em 2024, e desenvolvido em Hong Kong, este tipo de alergias afeta cerca de 5% da população.
▲ Especialistas pedem comparticipação das vacinas anti-alérgicas, que podem prevenir quadros graves das doenças alérgicas e evitar custos para o SNS
Em Portugal, as pessoas com doença alérgica ainda têm o caminho dificultado, admite a presidente da SPAIC. Por um lado, o acesso a consultas de especialidade no SNS está condicionado pelas longas listas de espera e pela falta de médicos, concentrados sobretudo nas zonas urbanas. Por outro lado, os doentes que são afetados pelas formas mais graves das doenças alérgicas têm dificuldade em aceder ao tratamento com imunoterapia, administrado através das vacinas anti-alérgicas, e que é hoje considerado o meio mais eficaz de controlar estas doenças.
Estas vacinas, com um custo anual a rondar os 400 euros, deixaram de ser comparticipadas aquando da intervenção da troika em Portugal (com o pretexto da necessidade de redução de custos) e assim se mantêm até hoje, uma situação que desagrada aos médicos. “Não fazemos a prevenção que devíamos, porque as vacinas contra a alergia não são comparticipadas. Já fizemos petições e o poder político continua a fechar os olhos a uma situação que facilmente poderia contribuir para melhorar a qualidade de vida do doente alérgico e prevenir o agravamento futuro destas doenças”, critica a presidente da SPAIC, alertando para o impacto das agudizações para o país.
“Isto tem consequências como o agravamento dos quadros de doença, com aumento do recurso ao serviço de urgência, absentismo escolar e profissional, internamento, mortalidade precoce. Tem custos económicos muito elevados”, salienta Ana Morête, acrescentando que “é preciso um investimento em políticas públicas de saúde que não tem existido”. Até porque, avisa, “a doença alérgica vai continuar a aumentar”.