Os pais queriam um filho “advogado” ou “militar”, mas António trocou-lhes as voltas e assumiu a vocação de ser padre, que sentiu muito cedo na vida. Apesar de ter crescido numa família católica tradicional, em Chaves, a formação em Roma, onde foi aluno de Joseph Ratzinger, transformou-o num cético “com desdém” e “desprezo, para as expressões de piedade popular”, como as aparições de Fátima.
Novamente em Portugal, Marto entrou na vida académica e, durante muitos anos, foi formador no seminário maior do Porto e nunca exerceu funções de pároco. Já com a reputação como teólogo consolidada na Europa, foi escolhido para bispo auxiliar de Braga antes de uma brevíssima passagem por Viseu — que valeu uma carta de protesto ao ex-professor, então Papa Bento XVI. O Sumo Pontífice manteve a posição, o bispo aceitou e rumou à diocese de Leiria-Fátima (numa altura em que já deixara de ser “cético” em relação à história dos pastorinhos).
PAULO NOVAIS/LUSA
O filho católico que deu um desgosto ao pai
António Marto nasceu em 5 de maio de 1947 em Tronco, uma pequena aldeia do concelho de Chaves, distrito de Vila Real, numa família católica tradicional. O pai era guarda fiscal, a mãe era professora primária e toda a aldeia era profundamente católica. “Toda a gente ia à missa ao domingo, e era uma festa para toda a gente porque nos encontrávamos, era o grande encontro familiar antes da missa, durante a missa e no fim da missa. Era uma festa. Tudo isso contribuiu também para o meu despertar da fé”, contou António Marto numa longa entrevista de vida ao Observador em 2017.
O mais novo de quatro irmãos (dois deles morreram ainda antes de António nascer), Marto sentiu a vocação muito cedo. Como em muitos casos, foi no pároco da aldeia — “uma figura de referência para a comunidade cristã e ao mesmo tempo muito estimado por todos, e muito próximo de toda a gente”, como explicou — que se inspirou para seguir a vida sacerdotal.
Já pensava ser padre em criança, mas manteve-o sempre em segredo e não disse nada a ninguém — nem mesmo aos pais. O pai queria um filho militar e planeava enviá-lo para os Pupilos do Exército no final da escola primária — até ao dia em que António lhe anunciou que pretendia ir para o seminário e tornar-se padre.
“Surpreendido” e “desgostoso”, o pai católico que não sonhava ter um filho padre só foi convencido pelos amigos a deixar António ir para o seminário, “até porque o seminário era uma escola para muita gente, que não tinha outras possibilidades de estudo”, revelou António Marto ao Observador. Só tinha uma condição: antes de entrar no seminário, teria de fazer o exame de admissão ao liceu, para ter hipótese de lá entrar caso quisesse desistir do seminário.
Henriques da Cunha
A vida sindicalista do seminarista desde tenra idade
Com apenas 10 anos de idade entrou no seminário, onde desenvolveu o gosto pelo estudo das línguas, pelo desporto (jogava voleibol, basquetebol, andebol e até hóquei em campo) e também pelo teatro: entrava em peças de teatro e atuava, com o grupo de seminaristas, em vários lugares da diocese de Vila Real. A questão vocacional, porém, só começou a colocar-se seriamente mais tarde, no final do ensino secundário. Os pais continuavam pouco inclinados para aquela ideia: o pai queria um filho militar e a mãe um filho advogado. Mas, aos 18 anos, António Marto tomou a decisão de continuar os estudos de filosofia e teologia e de se tornar padre. “Quando começamos uma vocação é como um namoro, não se começa com os motivos todos perfeitos. É por uma simpatia, por um gosto preferencial. E, depois, à medida que nos vamos conhecendo e purificando as motivações, então chegamos a uma decisão mais madura, que só aconteceu aí pelos 20 anos.”
Terminou o curso de teologia (em Vila Real e no Porto) com 22 anos, a dois anos de atingir os 24 necessários para ser ordenado padre – nos dois anos de espera, trabalhou numa fábrica de metalurgia sem dizer a ninguém que era seminarista. Aí, cativado pelo movimento dos padres operários, com origem em França, quis conhecer “o mundo operário, o mundo dos trabalhadores, que tinha fugido para o marxismo” e que a Igreja sentia ter perdido. Foi um período fundamental para perceber “os problemas dos operários, do mundo do trabalho” — e Marto até chegou a fazer parte de um sindicato, algo que, no antigo regime, significava assumir um compromisso político.
No final desse período, António Marto tinha uma vida tranquila de pároco em mente, mas foi traído pelo seu bispo, que decidiu enviá-lo para Roma, para fazer um doutoramento em Teologia. Acabaria por ser ordenado padre na capital italiana, em novembro de 1971, após um período formativo profundamente marcado pelo Concílio Vaticano II. “A visão da Igreja, que antigamente era uma visão piramidal, passou a ser uma visão da Igreja como povo de Deus, onde todos somos corresponsáveis”, lembrou na entrevista.
“Nós vivíamos aquilo como uma paixão. Era um mundo novo que estava diante de nós, era uma missão nova e cativante. O diálogo da Igreja com o mundo, porque antes era uma Igreja fechada sobre si mesma, não existia o diálogo ecuménico. (…) O Concílio foi uma abertura enorme, era uma paixão. Sentíamos que este era o caminho verdadeiro da Igreja. O Concílio foi a grande bússola para a missão da Igreja no mundo de hoje.”
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O estudo em Roma e a orientação de Ratzinger
Após a ordenação sacerdotal, lançou-se no doutoramento — um período que ficaria marcado pelo contacto próximo com o cardeal Ratzinger, na altura já uma sumidade da teologia europeia. Quando soube que iria estudar para Roma, António Marto começou a estudar alemão no Goethe-Institut. “Eu sabia que os grandes teólogos eram alemães, na altura. Era o Karl Rahner, era o Walter Kasper, era o Karl Lehmann, era o Joseph Ratzinger, e outros. Para fazer um doutoramento em teologia, tínhamos de saber alemão”, explicou. Durante doze anos seguidos, fez férias na Alemanha, consolidando o seu conhecimento da língua.
Esse treino da língua alemã levou-o, também, a procurar alojamento no colégio alemão em Roma enquanto o colégio português se encontrava em obras. Era ali que se alojava o cardeal Ratzinger, quando estava em Roma. A tese de doutoramento de António Marto era sobre o Concílio Vaticano II e Ratzinger tinha participado no concílio como perito. “Então, um dia pedi-lhe um colóquio e ele dignou-se vir ao meu quarto. No meu quarto existia um piano de colégio e quando ele entrou a primeira coisa que fez foi sentar-se ao piano e tocar. Depois atendeu-me. Era por causa do tema da tese, e como ele tinha sido perito no Concílio, quis fazer algumas interrogações para que ele me esclarecesse”, contou Marto ao Observador.
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O “racionalista” e a confissão do pai que transformou a sua fé
Novamente em Portugal, o padre e teólogo António Marto era um “racionalista” que olhava “com desdém, com desprezo, para as expressões de piedade popular”, o que ofendia especialmente o seu pai, que era “um homem simples e exprimia a sua fé nessa piedade popular”, disse ao Observador. Recusava rezar o terço em família e adotava um posicionamento que “era típico de uma espécie de cultura de elites, que olha com desprezo para o que é do povo, para o que é popular”. Fátima, por exemplo, apesar de ser o principal fenómeno religioso de Portugal, não despertava interesse em António Marto. “Era cético interiormente”, admitiu.
Uma interação com o pai — o “homem simples” que não queria que o filho fosse padre — transformou-lhe a vida. Certo dia, o progenitor quis confessar-se e pediu ao filho que ouvisse a sua confissão. António Marto tentou resistir, mas acabou por aceitar. “Vi a delicadeza de consciência daquele homem. A autenticidade da fé simples daquele homem, que eu não tinha. Não tinha essa delicadeza nem essa autenticidade. Era mais racionalista, mas depois na prática da vida não tinha”, lembrou.
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A vida em várias dioceses e a carta com objeções ao Papa de quem tinha sido aluno
António Marto entrou na vida académica na cidade do Porto. Durante largos anos, foi formador no seminário maior do Porto e professor de teologia na Universidade Católica do Porto — e, por isso, nunca foi pároco, embora tenha colaborado com paróquias da cidade do Porto nos fins-de-semana. Reputado teólogo, escreveu livros e artigos e consolidou o seu nome no plano teológico europeu. Em 200o, quando foi escolhido para bispo auxiliar de Braga, chegou a ponderar não aceitar a nomeação: ao fim de 24 anos de vida académica, o teólogo António Marto sentia-se bem era nos corredores da universidade e nos auditórios com os alunos. Chorou na última aula, mas aceitou e seguiu para Braga, onde passou cerca de quatro anos como bispo auxiliar.
Em 2004, foi escolhido para bispo de Viseu, uma diocese onde esteve apenas um ano e meio. Em janeiro de 2006, recebeu da nunciatura apostólica a indicação de que tinha sido escolhido para bispo de Leiria-Fátima. Quis recusar. “Não se faz isto a uma diocese que teve o bispo doente durante dois anos, eu cheguei e o primeiro ano foi para conhecer, no segundo ano estava a lançar o programa pastoral e agora de repente quebra-se tudo”, disse ao núncio, pedindo uma audiência com o próprio Papa Bento XVI. Não teve audiência, mas escreveu-lhe uma carta: duas páginas A4 com objeções, mas com a garantia de que, se o Papa mantivesse a decisão, aceitaria.
“Depois estive um mês sem resposta. Iludi-me, pensei que já estariam à procura de outro, e passados mais quinze dias vem um telefonema de Roma, do cardeal da Congregação para os Bispos. Começou por um grande cumprimento e eu entendi tudo logo. Ele disse-me: ‘Ouça, eu e o Santo Padre estivemos a ler a sua carta e o Santo Padre quer que seja o senhor, porque quer um bispo teólogo em Fátima’. E disse-lhe assim: ‘Então diga ao Santo Padre que eu aceito’”, contou ao Observador.
O teólogo racionalista e cético de Fátima tornava-se bispo de Fátima. Em bom rigor, naquela altura já não era exatamente um cético. Em 1997, tinha sido convidado para uma conferência em Fátima e aceitou. Por “honestidade intelectual”, decidiu ler as Memórias da Irmã Lúcia, que o impressionaram. Leu o livro três vezes e deu-se conta de que estava perante algo “muito sério”, mais do que imaginava. Com o tempo, converteu-se definitivamente ao fenómeno de Fátima e tornou-se efetivamente num dos principais rostos da mensagem de Fátima, estudando-a do ponto de vista teológico e propondo chaves hermenêuticas para a compreender.
JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR
O alinhamento ideológico com Francisco e as críticas aos conservadores
António Marto foi bispo de Leiria-Fátima durante 16 anos. Nesse período, recebeu dois papas no santuário — Bento XVI em 2010 e Francisco em 2013 —, organizou as celebrações do centenário das aparições e viu os pastorinhos Francisco e Jacinta serem canonizados. Ao longo dos últimos anos, assumiu-se também, na Igreja Católica em Portugal, como um dos rostos mais visíveis da ala progressista e alinhada com as reformas do Papa Francisco. Em plena pandemia de Covid-19, quando os grupos mais conservadores da Igreja criticaram os bispos portugueses por suspenderem a comunhão diretamente na boca, António Marto veio a público criticar a ala conservadora e dizer: “O próprio Jesus disse ‘tomai e comei’. Tomai. Não disse ‘abri a boca’. ‘Tomai e comei, tomai e bebei.’ O gesto de Cristo é expressivo.”
Dois anos antes, numa outra entrevista ao Observador que acabaria por ter eco na imprensa internacional, António Marto não poupou nas palavras para dizer que estava em curso “uma campanha organizada pelos ultraconservadores para ferirem de morte o nosso Papa Francisco” — numa altura em que se multiplicavam os escândalos de abusos sexuais de menores, inflamados pelas acusações de encobrimento lançadas pelo arcebispo ultraconservador Carlo Maria Viganò contra o próprio Papa. “Eles [ultraconservadores] não aceitam a reforma do Papa Francisco… Primeiro, tentaram com aqueles cardeais que levantaram aquelas dúvidas [referindo-se à crise das dubia, em 2016], mas ainda dentro daquele respeito institucional, e agora procuraram dar um golpe de morte aproveitando esta ocasião.”
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Ouviu a chamada para ser cardeal… mas não atendeu
Na manhã de 20 de maio de 2018, o bispo de Leiria-Fátima, António Marto, estava na sacristia da Sé de Leiria a vestir-se para a celebração da missa do domingo de Pentecostes agendada para as 11h30, na qual seriam também crismados cerca de 60 jovens. Poucos minutos antes do início da missa, sentiu o telemóvel vibrar insistentemente. Inicialmente, não atendeu, uma vez que a missa estava quase a começar. Mas, perante a chegada de uma mensagem de voicemail do núncio apostólico em Portugal, não conseguiu esperar pelo fim da celebração: Rino Passigato queria dar-lhe os parabéns, porque tinha acabado de ouvir o Papa Francisco anunciar, a partir de Roma, a nomeação de 14 novos cardeais, e António Marto era um deles.
Perante a absoluta surpresa, António Marto decidiu guardar a informação só para si e prosseguiu com a celebração sem falar do assunto. Só no final da missa o tema se começou a espalhar pelas dezenas de pessoas presentes na Sé: pela primeira vez desde o final do século XIX, haveria dois cardeais no território português. Além do cardeal patriarca de Lisboa, também seria cardeal aquele teólogo que aprendeu alemão para poder estudar os grandes teólogos europeus, que teve aulas com o cardeal Ratzinger em Roma e que durante anos foi um intelectual racionalista, crítico dos fenómenos da piedade popular — antes de se converter definitivamente a Fátima.
António Marto foi surpreendido pela decisão do Papa Francisco de o nomear cardeal. Pela primeira vez em mais de um século, Portugal tinha um cardeal que não era o patriarca de Lisboa ou um membro da Cúria Romana. A nomeação foi interpretada, desde o momento, como uma honra pessoal atribuída a António Marto — e não como a transformação da diocese de Leiria-Fátima numa sé cardinalícia. Em 2022, na sequência de alguns problemas de saúde, António Marto — que chegou a ser apontado nos meios eclesiásticos como um possível sucessor de Francisco, sobretudo pelas grandes relações que estabeleceu com os cardeais de todo o mundo, acolhendo-os em Fátima — renunciou ao cargo de bispo de Leiria-Fátima, sendo desde então bispo emérito da diocese.
É desde fevereiro de 2023 membro do Dicastério para a Causa dos Santos, organismo que decide os processos dos candidatos à beatificação e canonização, liderado pelo cardeal Marcello Semeraro.