1234,7kWh poupados 1234,7 kWh poupados com a
i

A opção Dark Mode permite-lhe poupar até 30% de bateria.

Reduza a sua pegada ecológica.
Saiba mais

Secil outão

"Así se va". Centenária Secil assistiu a guerras, nacionalizações e privatizações. Agora vai para donos espanhóis

A Secil nasceu nas encostas da Arrábida. Passou por guerras, nacionalizações e privatizações. Agora vai parar, por 1,4 mil milhões de euros, aos espanhóis da Molins.

Uma reunião na Farmácia Franco, em Belém, a 28 de fevereiro dá origem, em 1904, ao Sport Lisboa (mais tarde, em 1908, nascia o Sport Lisboa e Benfica, da fusão do Sport Lisboa com o Sport Clube de Benfica). Não muito longe, em Alcântara, fabricava-se argamassa, naquela que acaba por ser referida como a origem da indústria de cimento em Portugal. A fábrica na Rua do Alvito iniciara atividade no século XIX. Utilizava calcários das pedreiras do Vale de Alcântara e da Serra da Pedra Branca, na Quinta da Rasca, junto à foz do Rio Sado. Pedras que já tinham sido utilizadas, através de carregamentos marítimos, na reconstrução da Baixa Pombalina, depois do terramoto de 1755.

O cimento “Rasca” não servia, no entanto, para as obras que se pretendiam fazer no cais de Lisboa. A má qualidade acabou por deitar por terra esta fábrica, reerguida, anos mais tarde, no Altinho, mas recorrendo apenas ao calcário da pedreira do Alvito. Mas continuava a não satisfazer. Utilizando as instalações na Quinta da Rasca, a beijar o Sado, foi fabricando o cimento natural, para suspender, mais tarde, essa produção. E chegamos a 1904, ano em que nascia o Benfica em Lisboa e a Companhia de Cimentos de Portugal, em Setúbal. Foi essa empresa que instalou a Fábrica da Rasca no Outão, uma pequena indústria com dois fornos verticais e capacidade para produzir 10 mil toneladas por ano. Iniciava, aí, a produção de cimento Portland, uma tecnologia já então utilizada na fábrica da Alhandra. O arranque da produção aconteceu em 1906.

No mesmo ano era fundado o Sporting e nascia Manuel Augusto Teixeira de Queiroz Pereira, mais tarde feito empresário também dos cimentos e que deixou a semente para que um dos filhos, Pedro Queiroz Pereira, se tornasse um dos maiores desta indústria em Portugal.

A Fábrica do Outão ainda mudaria de mãos várias vezes antes de chegar à família Queiroz Pereira que, agora, a vendeu — e todo o negócio dos cimentos — aos espanhóis da Molins. 

Semapa vende totalidade da cimenteira Secil a espanhóis da Molins por 1,4 mil milhões de euros

Secil criada há 100 anos

O destino da I Guerra Mundial, em junho de 1918, já estava praticamente traçado. Os aliados sairiam vitoriosos desse confronto, mas o Armistício Compiègne só foi assinado a 11 de novembro a bordo de um vagão-restaurante. O tratado de paz acabaria assinado em Versalhes a 28 de junho de 1919.

Um ano antes, e ainda numa altura em que Europa vivia mergulhada numa guerra, era fundada, a 27 de junho de 1918, a Companhia Geral de Cal e Cimento, pelas mãos de Baltazar Cabral, que adquiriu a fábrica do Outão. O empresário fundou ainda a Secil — Sociedade de Empreendimentos Comerciais e Industriais. Esta empresa ficou inquilina da fábrica da Companhia Geral de Cal e Cimento e, em 1925, criou a marca Secil. Faz agora 100 anos.

▲ Os primórdios da Secil

Horacio Novais

Cinco anos mais tarde, em 1930, a 18 de junho, a Companhia Geral de Cal e Cimento e a Secil eram fusionadas, dando origem à Secil – Companhia Geral de Cal e Cimento, Lda. E, assim, é dada “forma jurídica definitiva a uma atividade industrial que já decorria na zona do Outão desde pelo menos 1904”, escrevia-se, em 2010, numa breve história da Secil numa revista da empresa.

A empresa tinha acionistas portugueses mas também sócios dinamarqueses — a F.L. Smidth e a Hojgaard & Schultz — o que a livrou, em 1974, da nacionalização total.

“A fundação da empresa, nos termos em que foi efetuada, entre empresários nacionais e empresas dinamarquesas que então construíam o Porto de Setúbal, foi um ato de confiança no futuro, uma vez que estes empreendedores anteviram o enorme potencial geológico e logístico que aquela localização encerrava, compreendendo a necessidade de produção nacional de um bem essencial ao conforto, segurança e património das populações – o cimento Portland – cujo consumo era, em 1930, de apenas 17 quilos por habitante e que atingiu o seu máximo histórico de 1.101 quilos no ano de 2001”, descreve a mesma publicação da Secil.

Em outubro de 1931 era, então, posto em funcionamento o novo forno rotativo. É o começo da nova vida da fábrica que passava a ter uma capacidade de 46 mil toneladas.

Maceira primeiro, Pataias depois

Foi igualmente no rescaldo da I Guerra Mundial que se iniciou a construção da fábrica da Maceira-Liz. Decorreu de 1919 a 1923. Nascia, assim em Maceira, a 13 quilómetro de Leiria, pela mão de dois empresários — José Osório da Rocha e Mello e Henrique Araújo Sommer. A exploração de pedreiras não era novidade na zona. Remontam ao século XIX as raízes da indústria cimenteira naquela região.

“João Henriques Teixeira Guedes, natural de Minde, estudou bem o tipo de pedra existente em Maceira, fazendo-se acompanhar de técnicos e, entre eles, de um engenheiro francês. Após análises laboratoriais em Lisboa e na Alemanha, de que recolheu as melhores informações, decidiu fundar uma empresa de cimentos no sítio da Gândara junto dos jazigos de pedra, em 1891. A sociedade Guedes & Lopes que formou com Frederico de Sequeira Lopes, residente em Lisboa, foi dissolvida, mas João Guedes não desistiu. Mediante contrato de arrendamento, João Guedes montou na Gândara a sua «Fabrica de Cimentos de Maceira», ‘cimentos naturaes’ tipo Portland, cal-cimento e cal hidráulica”, segundo uma informação da Junta de Freguesia de Maceira que ainda dá conta de outro projeto de João Luiz de Souza, que “montou uma fábrica de cimentos na cave da sua casa, com moinhos movidos pela água da ribeira que por ali passava, não longe da Quinta do Paraíso”, para onde a fábrica de Gândara se tinha mudado.

João Luiz de Souza e João Henriques Guedes terão formado uma sociedade cimenteira, ao fusionarem as duas empresas. A sociedade resultado foi vendida, em 1928, a Henrique Sommer. Conta-se ainda no site da Junta de Freguesia que o empresário, no entanto, “não honrou os seus compromissos” com o explodir da crise económica de 1929. “É a pouca sorte!”, terá dito Henrique Sommer deixando assim a justificação para que a unidade passasse a ser conhecida como a “Fábrica da Pouca-Sorte”. Sommer não entrou no negócio nessa altura, mas mais tarde com Rocha e Mello fazem, então, o projeto da Empresa de Cimentos Liz.

Como se escreve num artigo publicado no Sapo, “os dois fundadores do projeto têm papéis distintos na história. Henrique Sommer traz o dinheiro, o jovem engenheiro civil José Osório da Rocha e Mello traz a ideia e o saber fazer, nomeadamente com o que tinha visto no país onde irá mais tarde buscar operários qualificados, a Alemanha”. Houve que construir um bairro habitacional para os trabalhadores e um ramal ferroviário para permitir o transporte de cimento.

A fábrica passou pela II Guerra Mundial e outras dificuldades mas foi seguindo caminho. Em 1942 viu entrar na administração António de Sommer Champalimaud, sobrinho de Henrique. Tinha 24 anos. Dois anos depois o tio morreu. António, então com 26 anos, assumiu a liderança da empresa. Henrique Sommer já tinha, em 1935, tomado a maior posição na Companhia Cimentos Tejo, a tal que tinha a fábrica de Alhandra.

Henrique Sommer morre sem deixar filhos, deixando ao sobrinho a herança que acabou em tribunal a ser disputada pelos irmãos de António Champalimaud. Henrique, Carlos e Maria Ana apresentaram queixa contra o irmão que acabou fugido do país e anos mais tarde a disputar a herança em tribunal. Mas foi António que ficou dono e senhor do império dos cimentos, depois de ainda ter comprado a Companhia de Carvões e Cimentos do Cabo Mondego.

Por volta do ano em que António Champalimaud assumiu responsabilidades na Maceira, era iniciada, a 26 de junho de 1946, a construção da Fábrica de Cimentos Cibra, em Pataias, na região de Alcobaça. Inaugurada em 1950 para a produção de cimento branco, veria a sua produção alargada, em 1961, ao cimento Portland (o designado cimento cinzento). Joaquim Matias (1899-1981) foi o empresário que deu origem a esta cimenteira, numa altura em que tomava a gestão da fábrica de mosaicos hidráulicos e mármores artificiais (SCIAL).

As duas empresas, nacionalizadas a 9 de Maio de 1975, vieram a integrar o universo Cimpor, que resultou da organização do setor cimenteiro nacionalizado.

Entre nacionalizações e privatizações

A Cimpor foi criada a 26 de março de 1976. Resultou da fusão de sete cimenteiras nacionalizadas no ano anterior: Cisul, Cinorte, Empresa de Cimentos de Leiria, Companhia de Cimentos Tejo, Companhia de Carvões e Cimentos do Cabo Mondego, Sagres – Companhia de Cimentos do Algarve e Cibra – Companhia Portuguesa de Cimentos Brancos.

Na mesma altura foi nacionalizada a posição portuguesa da Secil, de 51%. Ficaram “a salvo” as participações das empresas dinamarquesas. “São nacionalizadas as ações da Secil – Companhia Geral de Cal e Cimentos, S. A. R. L., salvo as pertencentes a indivíduos de nacionalidade estrangeira que as tenham adquirido mediante importação de capitais devidamente autorizada ou a sociedades que não reúnam os requisitos de nacionalidade portuguesa”, lê-se no decreto de nacionalização.

Nacionalizadas no pós-25 de Abril, foi no mandato de Aníbal Cavaco Silva que se preparou a venda da Cimpor. Uma guerra aberta com o secretário de Estado Seixas da Costa inquinou a venda. Pedro Queiroz Pereira, filho de Manuel Queiroz Pereira, ex-dono da Cinorte, queria que o setor cimenteiro fosse um duopólio, repartido. Mas havia dúvidas sobre vender a Cimpor, no seu conjunto, ou fazer alguma cisão. O desfecho foi uma venda da participação da Secil em conjunto com a CMP – Cimentos de Maceira e Pataias.

Pedro Queiroz Pereira foi à privatização. Tinha como concorrente o empresário macaense Stanley Ho, recordou a Visão quando Pedro Queiroz Pereira morreu. Acabou por comprar a Secil/CMP por 80 milhões de contos (cerca de 400 milhões de euros) em 19 de abril de 1994. Foi por esta altura que se foi agudizando a relação do empresário Queiroz Pereira com o grupo Banco Espírito Santos e, em particular, com Ricardo Salgado e algum confronto com as suas irmãs. A Cimpor também entra em bolsa em 1994, mas já não teria os ex-donos no seu capital, mas nunca deixou de ser cobiçada por gigantes do setor e sempre por Pedro Queiroz Pereira.

▲ Queiroz Pereira garantiu a Secil na privatização de 1994

MARIO CRUZ/LUSA

Queiroz Pereira cimentou privatizações e queria mais nos cimentos

Pedro Queiroz Pereira (que morreu em 2018) conseguia, assim, voltar a um setor onde o pai Manuel tinha estado e do qual tinha sido espoliado no pós-25 de Abril. Começou pelos cimentos. Ficou, até, com uma posição maior do que a que o pai tinha com a Cinorte, que tinha a unidade em Souselas, Coimbra. A Cinorte ficou integrada na Cimpor, tal como a Cisul, de Loulé, que era de Mário Gaspar.

“PêQêPê” ou PQP, como era conhecido no mundo automobilístico, não ia parar pelos cimentos. Nas privatizações esperou por 2004 para ficar com o que verdadeiramente lhe interessava – a pasta e papel. Em 2004, através da Semapa, vencia o concurso de privatização de 30% da papeleira Portucel por 334 milhões de euros.

O grupo ficava cimentado e acabou a adquirir as participações minoritárias tanto na Secil — a Semapa ficou com 100% da cimenteira em 2011 (adquirindo a posição que então era da irlandesa CRH, com quem teve um litígio nessa venda) –, como (quase tudo) na Portucel. No mandato da família Queiroz Pereira, o mundo da Secil abriu-se. Hoje está presente em oito países (Portugal, Angola, Tunísia, Líbano, Cabo Verde, Espanha, Países Baixos e Brasil) e conta com mais de 2.900 trabalhadores e uma capacidade de produção acima dos 10 milhões de toneladas, em oito fábricas. O Brasil foi, aliás, um dos argumentos dados pela Cimentos Molins para comprar a Secil. É dos poucos países em que a Molins não está na região da América do Sul. A Secil entrou no Brasil em 2012, com a aquisição de uma participação na Supremo Cimento, da qual ficou com a totalidade do capital em 2015, avançando com uma nova fábrica no Paraná.

Ao longo dos anos, Pedro Queiroz Pereira tentou várias vezes ficar com mais “cimento”. Lançou uma oferta pública de aquisição sobre a Cimpor, mas o governo socialista, que tinha Pina Moura como ministro da Economia, travou-lhe os intuitos. Foi nessa luta constante pela Cimpor que os seus destinos se cruzaram com a Molins que, enquanto foi detida pela Lafarge, teve um pé na cimenteira portuguesa (que acabou nas mãos de uma empresa de Taiwan — depois de ter sido detida por brasileiros e, depois, turcos). Queiroz Pereira acabou a ficar só pela Secil, que agora será vendida aos espanhóis da Molins por 1,4 mil milhões de euros. São as filhas – Filipa, Mafalda e Lua  — que ficam com o nome registado nesta venda milionária.

Ofereça este artigo a um amigo

Enquanto assinante, tem para partilhar este mês.

A enviar artigo...

Artigo oferecido com sucesso

Ainda tem para partilhar este mês.

O seu amigo vai receber, nos próximos minutos, um e-mail com uma ligação para ler este artigo gratuitamente.

O seu plano não inclui a oferta de artigos

Para poder oferecer artigos aos seus amigos, faça upgrade para um plano de subscrição superior.

Ofereça até artigos por mês ao ser assinante do Observador

Partilhe os seus artigos preferidos com os seus amigos.
Quem recebe só precisa de iniciar a sessão na conta Observador e poderá ler o artigo, mesmo que não seja assinante.

Este artigo foi-lhe oferecido pelo nosso assinante . Assine o Observador hoje, e tenha acesso ilimitado a todo o nosso conteúdo. Veja aqui as suas opções.

Atingiu o limite de artigos que pode oferecer

Já ofereceu artigos este mês.
A partir de 1 de poderá oferecer mais artigos aos seus amigos.

Aconteceu um erro

Por favor tente mais tarde.

Atenção

Para ler este artigo grátis, registe-se gratuitamente no Observador com o mesmo email com o qual recebeu esta oferta.

Caso já tenha uma conta, faça login aqui.