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Jornada Mundial da Juventude
Sabe onde fica Niue?
Até dessa remota ilha
do Pacífico vieram peregrinos para a JMJ de Lisboa

Teresa vem do Niue e nunca esteve na Europa. Em missão na Mauritânia, o padre Moïse estreia-se no mundo JMJ, enquanto Pedro partiu do México pela 11.ª vez. Histórias de peregrinos que vêm a Lisboa.

Teresa nunca pensou viajar para Portugal. Nunca sequer esteve na Europa. Nascida na ilha de Niue, um minúsculo ponto de terra perdido na vastidão do Oceano Pacífico, o mais longe que esteve de casa foram os dois anos em que estudou enfermagem na não muito distante Nova Zelândia. A jovem, de 20 anos, prepara-se agora para embarcar na mais longa viagem da sua vida: de Niue a Lisboa – um percurso de vários dias com paragens em Tonga, Fiji, Dubai, Doha e Madrid – para participar na Jornada Mundial da Juventude, um evento sobre o qual nunca tinha ouvido falar até há poucos meses.

Enquanto esta terça-feira seguia para a Nova Zelândia no único voo semanal que parte de Niue, em Nouakchott, na Mauritânia, o padre Moïse e a irmã Jacinta acertavam os últimos preparativos para seguir também caminho até Lisboa dentro de pouco tempo. Espera-os uma viagem bastante mais curta, com uma breve escala em Marrocos, mas há quem já lhes leve algum avanço. Mais habituado às andanças de uma jornada, Pedro, que já participou em 11 edições do maior encontro de jovens católicos do mundo, partiu do México e está já em Paris para acompanhar um grupo de dez peregrinos até à capital portuguesa. A preparação do evento já entrou na reta final, alongando as horas de trabalho de voluntários como Audrey, que deixou a vida nas Filipinas em pausa para reforçar as fileiras de ajudantes da jornada.

São apenas seis dos milhares de participantes esperados em Lisboa entre os dias 1 e 6 de agosto para a Jornada Mundial da Juventude, a primeira edição em território português, e falaram com o Observador. Nos dias que antecederam o arranque do evento, confessavam-se expectantes pelo encontro que deverá juntar em Lisboa cerca de um milhão de pessoas, de mais de 180 países.

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É preciso fazer zoom in várias vezes no Google Maps para encontrar Niue entre o lençol azul do Oceano Pacífico. Não muito longe das Ilhas Cook ou das Fiji, a pequena ilha, com apenas 261.5 quilómetros quadrados, é casa para cerca de 1.700 pessoas. Entre elas Teresa Hipa, a única jovem do Niue a representar o país na Jornada Mundial da Juventude.

“É um pedaço único de paraíso intocado”, descreve numa frase a jovem de 22 anos. Em Niue, explica, não vão encontrar edifícios altos ou um trânsito atarefado — exceto no dia em que o único voo semanal parte para a Nova Zelândia —, mas um lugar onde a maior parte das pessoas se conhece e cumprimenta ao cruzar-se a pé ou de carro, onde os serviços de educação (uma escola primária e secundária) e saúde são gratuitos, e onde os domingos, tranquilos, são dia de descanso e de ir à missa, no seu caso na única igreja católica da ilha.

“Onde no mundo podem dizer que têm uma prisão tão vazia como a nossa? A cerca de segurança é tão baixa que até o meu sobrinho pequeno pode saltar para o outro lado. Onde é que podem deixar o carro sem vigilância, de portas destrancadas, janelas para baixo, sabendo que ninguém vai tocar em nada?”, questiona. Foi este pequeno “paraíso” que a jovem trocou esta semana, por uma viagem que acabará em Lisboa.

Esta terça-feira Teresa partiu de Niue para a Nova Zelândia e, no mesmo dia, seguiu num voo rumo à vizinha ilha de Tonga, onde se juntou a um grupo de 103 católicos que como ela vão participar na JMJ. Com a partida marcada para 29 de julho, o grupo programou a chegada a Lisboa para o dia 31, véspera do início do evento. De caminho vão fazer voos de várias horas, interrompidos por escalas em Fiji, na Nova Zelândia, no Dubai, em Doha e em Madrid, este último ponto de onde vão seguir num autocarro até Lisboa.

Membro de uma pequena comunidade de católicos no Niue, com pouco mais de 100 pessoas, Teresa nunca imaginou embarcar numa viagem tão extensa e assume ter dificuldades em imaginar-se entre a vasta multidão de peregrinos que vai preencher as ruas de Lisboa na primeira semana de agosto. “Vai ser um grande choque”, reconhece. “Disseram-me que há cerca de 400.000 católicos registados [valor que entretanto subiu para 600.000]. É um número massivo. Nós costumamos ter pouco mais de 30 pessoas na Igreja aos domingos”, explica.

Até há poucos meses, a jovem nunca tinha ouvido falar na JMJ e agora é a única peregrina a viver no Niue inscrita no evento. “A primeira vez que ouvi falar sobre a jornada foi em abril, quando a irmã Sienna me perguntou se gostava de participar. Estou muito entusiasmada com esta experiência. Juntar-me aos jovens de todo mundo e, ao regressar a casa, partilhar com a juventude daqui, com os mais novos que gostariam de juntar-se um dia”, assume.

A espreitar a entrevista com o Observador, a irmã mais velha, Ali, surge na linha de visão do ecrã de telemóvel para expressar o desejo de que o regresso de Teresa seja uma oportunidade para revitalizar a comunidade. “O facto de ser tão pequena é um desafio em si mesmo”, admite, questionada sobre o que considera ser uma das maiores dificuldades dos jovens na região. “Eu teria adorado esta oportunidade quando era mais nova, mas não sabíamos muito sobre isso. Por isso já lhe disse para voltar para casa e partilhar o que viver, para que outros também possam vir a participar”.

James Mateo Mafi, coordenador da diocese de Tonga-Niue e responsável do grupo de jovens que vai até a Portugal, está a trabalhar há vários meses para tentar garantir uma audiência privada com o Pontífice e, ainda sem uma confirmação final, a perspetiva parece otimista para a realização da reunião. “Temos uma elevada possibilidade de ter um encontro mais próximo e íntimo com o Papa durante a nossa estada em Roma. Seria a cereja no topo do bolo desta peregrinação. Ter a oportunidade de ter uma audiência com o Papa … eu acho que morreria um homem feliz”, sublinha, garantindo que a primeira coisa que fará é convidar Francisco a visitar Tonga e Niue. Caso a audiência se concretize, Teresa, explica, será provavelmente a primeira jovem do Niue a conhecê-lo.

Mauritânia

Em missão num país onde ser católico é a exceção, e não a regra, o padre Moïse Fongoro estabeleceu uma fasquia elevada para a participação, pela primeira vez, numa Jornada Mundial da Juventude. Quando ficou a saber que iria viajar como peregrino até Lisboa, a sua primeira reação foi de espanto. Não muito diferente da surpresa que sentiu quando, anos antes, soube que seria enviado para fazer missão na República Islâmica da Mauritânia. Nessa altura, porém, somava-se um sentimento de inquietação. Nascido no vizinho Mali, o padre diocesano não via como poderia ser útil num país onde o Islão é a religião dominante e em que os estimados cerca de quatro mil cristãos, numa população de 4,6 milhões de pessoas, são na verdade provenientes de outros países. “Quando me disseram que seria enviado para servir aqui pensei: ‘O que venho eu fazer para uma república islâmica?’”.

Apesar da proximidade geográfica, e de também no Mali os cristãos representarem uma pequena minoria da população, a realidade dos dois países não podia ser mais diferente, sublinha ao Observador o padre Moïse, através de uma videochamada a partir de Nouakchott, a capital e cidade mais populosa da Mauritânia. “É verdade que no Mali somos poucos – apenas cerca de 3% –, mas temos mais facilidade porque é uma república laica”, aponta, acrescentando que podem sair à rua e evangelizar de forma livre.

O cenário é bem diferente na Mauritânia, onde os cristãos são aconselhados a manter uma postura mais discreta. “Posso dizer que não vivemos perseguição religiosa, mas é verdade que estamos limitados no que fazemos. Não nos podemos expor muito”, refere o padre de 33 anos. O próprio bispo vai deixando conselhos de cautela e prudência aos vários missionários e missionárias estrangeiros presentes no país. Essa, explica o padre Moïse, é uma das razões para as religiosas não usarem os tradicionais hábitos religiosos característicos das congregações a que pertencem. “Não temos só amigos aqui. Também temos inimigos”.

Ordenado em fevereiro de 2018, o padre diocesano começou por ser responsável numa paróquia no Mali, antes de ser enviado para a Mauritânia três anos depois. Chegou de malas feitas a Nouakchott em setembro de 2021 e faz missão na paróquia Catedral de São José, onde se situa a única igreja católica da capital, junto à Embaixada de França. Sem católicos nativos da Mauritânia, está ao serviço de mais de 2.000 paroquianos com cerca de quarenta nacionalidades — entre eles do Senegal, Guiné-Bissau, Nigéria, Cabo Verde, Brasil, França, Espanha, Alemanha e Índia.

Em Nouakchott, onde “não têm direito ao proselitismo”, conheceu uma nova forma de estar ao serviço da população mauritana, uma experiência que diz tê-lo levado a compreender que a espiritualidade e as atividades da missão não se limitam à administração dos sacramentos ou à celebração da Eucaristia. Descobriu uma vivência mais voltada para os serviços de caridade, como o serviço de escuta, jardins de infância e escolas presentes na missão. “Podemos dizer que para nós é uma maneira diferente de anunciar Cristo através das obras caritativas (…). É certo que há o culto, que há orações todos os dias, mas nós estamos mais concentrados nas atividades caritativas. É aí que nós estamos em verdadeiro contacto com os mauritanos.”

É a soma de todas estas experiências que espera levar até Portugal como peregrino. Deseja ver com os próprios olhos o que descreve como um grande encontro fraterno e de partilha. A um nível mais restrito, já viveu em Nouakchott as Jornadas Diocesanas da Juventude, um evento de preparação para a JMJ e que, por decisão do Papa Francisco, se realiza no domingo de Cristo Rei. É com alegria que agora aguarda a partida para Lisboa. “Eu mesmo vou a Portugal compartilhar o que nós vivemos aqui e também adquirir experiências para expor na Mauritânia”.

O seu entusiasmo é partilhado por Jacinta Atanasio, oriunda de Moçambique. Em missão na zona de Toufoundé-Civé, também na Mauritânia, a irmã Franciscana, de 42 anos, chegou a Nouakchott em meados de julho. É da capital que vai partir também para Lisboa no final do mês e participar na JMJ. Os últimos preparativos ainda estão a ser acertados, incluindo a roupa mais apropriada para o clima lisboeta. “Como está o tempo em Portugal?”, questiona durante a entrevista com o Observador, ao lado do padre Moïse.

Depois de fazer em Moçambique os votos perpétuos em 2018, a irmã Jacinta partiu para o Senegal, onde viveu durante dois anos. Foi só em 2021 que foi transferida para a Mauritânia e soma agora dois anos de missão em Toufoundé-Civé, gerindo um jardim de infância que recebe crianças desfavorecidas entre os três e os cinco anos. É atualmente uma das únicas três irmãs franciscanas que estão ao serviço da pequena vila. Sem nenhum padre naquela região para celebrar a Eucaristia, são elas próprias que fazem diariamente a celebração da palavra, razão pela qual a perspetiva de participar na JMJ lhe parece tão rica. “Toda a bagagem que vou receber lá, espero anunciar aqui aos jovens da nossa paróquia”, explica.

A data da viagem está próxima. O padre Moïse é o primeiro a partir, ainda antes do final do mês, para participar entre os dias 26 a 31 de julho nos Dias das Dioceses. É com esta iniciativa, em que os peregrinos da JMJ se espalham em 17 dioceses de Portugal continental e ilhas, que terá oportunidade de cruzar-se com outros participantes em Bragança ainda antes do arranque oficial do evento. Já a irmã Jacinta prepara-se para viajar juntamente com a irmã Tijo Kureekunnel no último dia de julho para passar a primeira semana de agosto em Lisboa.

Não é uma logística fácil, mas não é a primeira vez que a Mauritânia leva peregrinos a uma Jornada Mundial da Juventude. Nesta edição são enviados missionários e não jovens depois de terem a experiência de alguns peregrinos não regressarem ao país, em busca de melhores condições no estrangeiro. O desejo de partir não é uma novidade, destaca o padre Moïse, lembrando que ao longo do ano muitas pessoas procuram seguir caminho para países como Marrocos e Argélia numa tentativa de chegar à Europa.

Com o apoio do projeto Igrejas Irmãs, o bispo decidiu enviar para a jornada os três religiosos, visto que não há cristãos nativos do país. Maria Aleluia Telles, responsável da iniciativa, refere que nem sempre foi possível escolher jovens ou peregrinos originários dos países. Sublinha, no entanto, que procuram garantir que as pessoas selecionados possam no seu regresso contribuir para a promoção dos seus países. “Nesses casos escolhemos pessoas com missões muito concretas, que possam voltar e levar a mensagem da loucura das jornadas, desta fé partilhada com tantos e, no fundo, também animar pessoas que estão em condições também muito desafiantes.”

México

Uma máscara azul e dourada tradicional dos lutadores mexicanos, um sombrero largo, uma bandeira tricolor do México, com a imagem de Nossa Senhora de Guadalupe no centro, e um terço simples, com contas em madeira. Os itens não são aleatórios. De uma maneira ou de outra, com mais ou menos jeito, são sempre colocados na mala de Pedro Bailon sempre que participa numa Jornada Mundial da Juventude. E são já dez, quase onze, com o aproximar da aguardada edição de Lisboa.

Aos 50 anos, o mexicano recorda com saudosismo as numerosas participações em jornadas. A estreia foi em 1993 na JMJ de Denver, nos Estados Unidos, quando tinha apenas 18 anos. Foi acompanhado por um grupo de cerca de 20 jovens mexicanos, alguns dos quais agora casados e que vão participar na jornada de Lisboa com as famílias. Na altura a viagem, a maior que tinha feito até à época, foi paga pelo pai, um presente por ter terminado o bacharelado.

Por ter sido a primeira, essa foi, talvez, a mais marcante em que participou, na altura com um grande destaque para o tema da defesa da vida — um assunto que lhe diz muito. “Foi a primeira jornada que se celebrou numa cidade que não tinha como referência um santuário. Uma cidade moderna, precisamente onde Deus também quer encontrar-se com o homem moderno”, recorda.

Depois da jornada de Denver, o mexicano fez questão de participar em todas as edições seguintes — a única exceção foi a das Filipinas, que teve a maior participação de sempre. No seu cinto acumula já a JMJ de Paris, Roma, Toronto, Colónia, Sydney, Madrid, Rio de Janeiro, Cracóvia, Panamá e, daqui a duas semanas, a de Lisboa.

Desafiando a ideia de que a JMJ é apenas para os mais novos, Pedro Bailon não faz intenções de se ‘reformar’ como participante, mas nas últimas edições tem-se dedicado a organizar as viagens e a acompanhar até à jornada os jovens da sua paróquia, onde trabalha na pastoral educativa. É em Lisboa que espera encontrar dentro de duas semanas um casal que acompanhou, viu conhecer-se e acabar por casar depois da participação numa jornada.

Uma presença assídua no evento mundial, o seu caminho já se cruzou de forma breve com os três últimos líderes da Igreja Católica, que descreve como figuras muito distintas. “O Papa João Paulo II tocou-me numa época em que era mais jovem, em que há que escutar a voz de Deus e a vocação própria. Bento XVI foi um grande santo e também um grande filósofo, que nos chamava a não divorciar a fé e a razão. E com o Papa Francisco estamos muito felizes porque ele é latinoamericano, fala-nos no nosso idioma e destaca os jovens como os protagonistas”.

É com o atual pontífice, porém, que vê a mobilização de uma geração mais ousada. “Com a vitalidade que tem o Papa Francisco, vejo os jovens mais arrojados, com mais vontade para continuar a transformar o mundo”, sublinha. São eles que o continuam a motivar a participar religiosamente, de quatro em quatro anos, nas jornadas: “Motiva-me essa juventude que quer mudar o mundo e está disposta a servir”.

Canadá

Para qualquer outra pessoa poderia tratar-se apenas de uma coincidência, um pormenor curioso ao qual não se dedica mais do que alguns segundos de atenção. Para Mercy Cadac, foi como se a chamassem pelo próprio nome, uma espécie de convite pessoal para participar na sua primeira Jornada Mundial da Juventude, a edição da Polónia, em 2016. E, na verdade, não esteve muito longe disso. Em português, o seu nome traduz-se para “Misericórdia”, o tema que há sete anos marcou a jornada em Cracóvia.

“O meu nome é Mercy e, por isso, quando anunciaram que o tema era a misericórdia, eu pensei: ‘Sabes que mais, acho que Deus me está a chamar’”, recorda a jovem de 27 anos, a menos de uma semana de partir de Toronto até Lisboa para participar na sua segunda JMJ. Procurando não criar expectativas sobre o que a espera em Portugal, e preferindo deixar espaço para se surpreender, não deixa de traçar uma comparação com a única experiência que teve até agora: “[A jornada de Cracóvia] foi um choque cultural. Eu estava a conhecer melhor a minha fé e ver que havia tantos jovens de todo o mundo que se juntavam para conhecer também melhor a sua fé, foi uma experiência incrível”.

Na Polónia, acompanhada por um grupo de cerca de 40 canadianos, fez um roteiro pelos lugares que marcaram a vida de vários ‘santos’. Recorda particularmente a visita ao campo de concentração de Auschwitz. Aí visitou o lugar em que esteve preso S. Maximiliano Kolbe, um frade franciscano que se ofereceu para ser morto no lugar de um soldado polaco. “Trouxe a fé para o concreto, perceber que qualquer um pode ser santo, mesmo numa prisão’”.

Na realidade concreta do dia-a-dia, Mercy, que trabalha a tempo inteiro na empresa canadiana SpiderTech, admite que viver a fé pode ser um desafio, especialmente numa época em que parece existir menos pessoas interessadas na religião. Essa foi uma das razões para se juntar ao “Spiritus”, um movimento católico no Canadá e que, no leste do país, junta mais de 60 jovens adultos. Cerca de uma vez por mês, o grupo junta-se para discussões sobre várias temas da fé ou para eventos culturais e desportivos. Foi o caso desta segunda-feira, na apelidada “Multisports Night”, com uma competição de spikeball.

É já no final da semana que Mercy parte para Lisboa com um grupo de nove amigos, alguns estreantes, outros repetentes da jornada. Na mala de viagem, vai garantir que traz uma bola, preparada para participar nas competições desportivas (futebol e voleibol) que vão decorrer como parte do Festival da Juventude. “Estamos tão preparados. Vamos ganhar tudo”, promete.

Durante a JMJ, espera mergulhar na imensidão de peregrinos que vão acorrer à capital portuguesa na primeira semana de agosto e que, segundo as estimativas oficiais, podem chegar a cerca de um milhão. “Infelizmente sinto que, e não sei como é noutros lugares, parece que não há muitas pessoas a vir à Igreja agora. Então ver uma multidão de jovens, o futuro da Igreja, o agora da Igreja, que querem ser testemunhas da sua fé publicamente e viajam para tão longe para se juntarem, é algo extraordinário”.

Tanzânia

“Bom dia! Espero que estejam todos bem. O meu nome é Nattye Brandy e vou participar na Jornada Mundial da Juventude, que vai acontecer em Lisboa, Portugal”. Desta vez o anúncio, em inglês e com algumas palavras em português à mistura, é feito para as 56,8 mil pessoas que a seguem nas redes sociais e não para os ouvintes que estão habituados a acompanhá-la nas emissões da estação Jembe FM. “Há muito para experimentar e eu mal posso esperar”, diz com entusiasmo a apresentadora de rádio num vídeo partilhado esta semana na conta pessoal de Instagram.

Ao longo dos últimos anos Edna Kalaka — mais conhecida como Nattye Brandy — estabeleceu como objetivo participar nos grandes acontecimentos que mobilizam a juventude, sejam eles no estrangeiro ou mais perto de casa, na cidade de Mwanza, na Tanzânia. Tratando-se do maior evento que junta jovens católicos de todas as partes do globo, a JMJ não podia faltar na sua lista.

“Há muito tempo que tento participar em diferentes atividades que envolvam jovens, mas desta vez quis fazê-lo de uma maneira mais alargada”, explica ao Observador a apresentadora de rádio. Foi esse espírito que a levou, em primeiro lugar, a participar em 2019 na peregrinação “Trust on Earth”, uma iniciativa da comunidade ecuménica de Taizé, sediada em França, e que juntou jovens de diferentes países na Cidade do Cabo, na África do Sul.

A ideia base, apesar de numa versão mais reduzida, não é muito diferente da de uma jornada: juntar uma geração de jovens para momentos de partilha e oração. Há quatro anos, na Cidade do Cabo, juntou dois mil jovens de cerca de 17 países africanos — desde Madagáscar à Tanzânia — e de pelo menos 14 países europeus. Este foi o primeiro grande evento de jovens em que Edna participou e a partir do qual surgiu um bichinho para se aventurar até mais longe.

O evento decorreu no mesmo ano em que o Panamá recebia, pela primeira vez, a Jornada Mundial da Juventude. Deixando escapar essa oportunidade, a jovem viu no anúncio da vinda do evento para Portugal a possibilidade de fazer check num dos itens que há muito aguardavam na sua lista.

A chegada a Portugal foi no dia 26, com o arranque da experiência na cidade do Porto e de seguida para Lisboa. O grupo com que seguiu, com cerca de 20 pessoas, veio à descoberta, sem saber se ficaria alojado num espaço público ou numa das cerca de 6.300 famílias de acolhimento em Portugal a acolher peregrinos. “Disseram-nos apenas para trazer um saco de cama ou algo onde nos possamos deitar. Por isso sabemos que há a hipótese de não ficarmos numa família de acolhimento e dormir, por exemplo, numa escola. Mas não há qualquer problema, porque no final do dia será uma grande experiência”, vaticina.

Desde a Tanzânia à Mauritânia, passando por países como Uganda ou Etiópia, o continente Africano vai estar bem representado na jornada, seja com voluntários ou peregrinos. Um dos motivos que tem sido apontado por trás da escolha de Portugal como país anfitrião do evento é precisamente a proximidade geográfica com África, onde o evento nunca se realizou. Até agora, estão inscritas, por exemplo, pelo menos 600 pessoas de Moçambique, 503 de São Tomé e Príncipe e 187 de Cabo Verde.

Filipinas

Do Campo Pequeno até ao bairro do Beato é uma viagem de cerca de 40 minutos, no autocarro 742. Depois disso é uma breve caminhada até ao complexo industrial da antiga Manutenção Militar, que desde o ano passado serve de sede da JMJ Lisboa. É lá que Audrey Abatol passa a maior parte dos seus dias desde novembro do ano passado, quando chegou a Portugal vinda da cidade de Mandaue, nas Filipinas, como voluntária de longa duração da jornada.

Todos os dias pelas 8h30 a jovem, de 33 anos, já se encontra sentada num dos bancos de madeira da pequena capela onde, diariamente, um padre celebra a missa para os voluntários. E, alguns minutos depois das 9h, está já a trabalhar em frente ao computador. “O ambiente é muito jovem e vibrante. Nunca há um momento de tédio”, descreve a poucos dias do início do maior evento católico do mundo.

Audrey foi uma das primeiras voluntárias internacionais a chegar a Lisboa para colaborar com a organização da JMJ. No final do ano passado, época em que o Observador visitou a sede da jornada, eram 22. Por essa altura, em que os mais curiosos ainda podiam visitar o espaço de forma espontânea e sem implicar marcação, o trabalho seguia a bom ritmo, mas com a segurança de ter ainda vários meses de preparação pela frente. Agora em contagem decrescente, os dias tranquilos ficaram para trás e os horários de trabalho prolongam-se além do habitual para garantir que tudo está pronto para receber em Portugal milhares de peregrinos, alguns dos quais já começaram a chegar, para participar nos Dias das Dioceses. Pelo meio somam-se novos rostos entre os corredores da sede, de onde pendem fileiras de bandeiras de mais de 100 países. “Somos muitos agora. Eu perdi a conta. Já não tenho a certeza de números, mas é difícil lembrar-me de nomes e decorar os que chegaram mais recentemente“, reconhece.

Ao longo do último ano, Audrey, que pertence à equipa de relações internacionais, assumiu as funções de gestora de peregrinos das Conferências Episcopais. O que significa isso? Na prática, que está disponível para acompanhá-los e ajudá-los em qualquer dúvida ou problema que surja durante o caminho até à JMJ. Ao seu cuidado ficaram algumas regiões da Ásia e Oceânia, num total de 24 países: desde as mais pequenas ilhas no Oceano Pacífico, como é o caso de Niue e Tuvalu, que garantiram a vinda de um só peregrino, a países de grandes dimensões como as Filipinas, de onde são esperados pelo menos 800 participantes inscritos. “De certa forma, sou o ponto de contacto, caso tenham alguma questão sobre a Jornada Mundial da Juventude e também ajudo na construção das relações para garantir que a sua vinda para Portugal corre bem”.

O contacto com os representantes de vários países e o conhecer as suas realidades têm sido o ponto alto dos últimos meses. “Alguns estão numa posição económica mais vantajosa e podem trazer muitos peregrinos. Mas, por exemplo, em zonas como as Ilhas do Pacífico muitos têm dificuldades em vir à JMJ. Seja porque são países muito longe ou pelas atuais dificuldades económicas, de certa forma, vir até à Europa para participar num grande evento, não é propriamente uma prioridade. Mas fico comovida que ao verem o objetivo da JMJ, muitos trabalhem juntamente connosco para encontrar uma forma de enviar os seus representantes”.

Originária de um país com uma forte expressão católica e que há 28 anos detém o recorde de maior participação numa jornada — a missa final da JMJ em Manila juntou mais de quatro milhões de peregrinos –, Audrey sempre teve um forte desejo de participar neste evento. A oportunidade chegou pela primeira vez, ainda que em moldes inesperados, em 2013, quando o Rio de Janeiro se estreava a acolher uma jornada, “O Brasil é um país muito longe das Filipinas. Levou-me talvez mais de 30 horas para lá chegar. Por isso quando estava a tentar encontrar um grupo com quem viajar, não encontrei ninguém. Mas acabei por descobrir que é possível ser um voluntário de curta duração e pensei: ‘Porque não?’”.

Foi assim que, duas semanas antes do arranque da jornada, chegou ao Rio de Janeiro como voluntária. Durante esse tempo, reforçou a secção de informações da jornada no aeroporto internacional do Rio de Janeiro, apoiando os recém chegados peregrinos de língua inglesa e transmitindo as informações relevantes sobre o evento. Foi apenas um “gostinho” do que era a Jornada Mundial da Juventude, e que a levou a participar novamente em 2016, na Polónia, para viver a experiência de ser peregrina, e 2019, no Panamá, em que coordenou a ida de um grupo das Filipinas.

A vinda para Portugal surgiu de forma inesperada, quando trabalhava como conselheira de carreira numa escola secundária jesuíta na cidade natal. Sem olhar para trás, deixou a sua vida em Mandaue em pausa para reforçar as fileiras de voluntários da jornada. “Posso dizer que até agora nunca tive uma manhã em que acordasse e não me apetecesse ir para a sede. Desde que cheguei, todos os dias quis vir trabalhar porque é sempre emocionante”, garante.

Sobre o que se segue após o regresso a casa ou uma participação futura na próxima JMJ — o país em que a próxima se realizará só será anunciado na missa final — diz deixar tudo em aberto. Depois de meses de voluntariado em Lisboa, está a tomar o seu tempo para decidir com calma o que vem a seguir. Por agora prefere concentrar-se na reta final, entusiasmada por conhecer pessoalmente as delegações que foi acompanhando no caminho até Lisboa.

Fotografias:
Art in All of Us, Getty Images, reprodução/Facebook

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