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No início de dezembro, representantes das sete maiores diásporas judaicas — um grupo conhecido como J7 que inclui os Estados Unidos, o Reino Unido, a Argentina, o Canadá, a Austrália, França e a Alemanha — reuniram-se em Sydney. Do encontro saiu um aviso: “O pico acentuado de antissemitismo visto na Austrália, incluindo em ataques ligados a Estados estrangeiros, é parte de um padrão global perigoso que ameaça comunidades judaicas e democracias em todo o mundo”. Dias depois deste aviso, a praia de Bondi, em Sydney, foi palco de um ataque durante uma celebração das festividades judaicas do Hanucá, em que 15 pessoas foram mortas e 42 ficaram feridas.
“O que vimos ontem [domingo] foi um ato de pura maldade, um ato de terror, um ato de antissemitismo”, caracterizou o primeiro-ministro australiano, Anthony Albanese, na segunda-feira a seguir ao ataque, quando os atiradores já tinham sido identificados como Sajid Akram, de 50 anos, Naveed Akram, de 24 anos, pai e filho residentes na Austrália. À medida que as autoridades prosseguiram com a investigação, novos detalhes sobre o ataque e os atiradores começaram a emergir: Naveed já tinha estado no radar dos serviços secretos australianos, os dois tinham viajado para uma região das Filipinas conhecida por ser um reduto de ideologias extremistas, e, no carro registado em nome de Naveed, foram encontradas duas bandeiras do Estado Islâmico (EI).
A soma dos vários fatores levou as autoridades a apontar que o atentado parece ter sido “motivado pela ideologia do Estado Islâmico“, o grupo terrorista que se afirmou na Síria e no Iraque e reivindicou vários ataques terroristas na Europa entre 2015 e 2019. Esta terça-feira, em entrevista à emissora pública australiana ABC, Albanese traçou semelhanças entre as duas ideologias extremistas. “O antissemitismo, claro está, existe há um longo período de tempo. O Estado Islâmico é uma ideologia que, tragicamente, durante a última década, particularmente desde 2015, levou a uma radicalização de algumas pessoas a esta posição extrema, a esta ação odiosa”, elaborou o chefe do Executivo de Camberra.
▲ O ataque numa celebração do Hanucá foi classificado como um ato de terrorismo antissemita
AFP via Getty Images
Desde 2019, data em que os Estados Unidos comandaram uma intervenção militar internacional na Síria, a influência do EI na região e no globo foi visivelmente reduzida. No sentido contrário, mais precisamente no final de 2023, verificou-se um pico nos ataques com motivações antissemitas. Por detrás deste aumento está o eclodir de um novo conflito na Faixa de Gaza, motivado pelos ataques do Hamas no 7 de Outubro de 2023 e pela subsequente ofensiva militar de Israel. Os eventos de outubro de 2023 parecem, portanto, ter influenciado uma ressurgência do EI, facilitada pelo aumento do antissemitismo, mas também pelas movimentações geopolíticas no Médio Oriente.
Neste novo cenário global, a retórica violenta contra judeus tornou-se uma arma de grupos islamitas cujo foco principal até aqui era outro. Enquanto casa de uma extensa comunidade judaica — são 117 mil num universo de 28 milhões de australianos —, esta tendência foi mais visível na Austrália do que em qualquer outro país do mundo. Apesar dos alertas de grupos como o J7 e dos próprios serviços de informação australianos, uma tendência que tinha vindo a acentuar-se concretizou-se no ataque em Bondi Beach do passado domingo.
A ofensiva em Gaza e a queda de Assad que permitiram ao Estado Islâmico reorganizar-se no seu berço
No dia 1 de novembro de 2025, Sajid e Naveed Akram aterraram em Manila, nas Filipinas, e seguiram viagem para Davao, no sul do país. Estiveram no país durante quase um mês e só regressaram à Austrália no dia 28 de novembro, relatou o gabinete de imigração das Filipinas, citado pela ABC. A região sul, onde fica Davao, é conhecida como um reduto de “grupos de militantes muçulmanos separatistas” que, no passado, “já expressaram apoio pelo Estado Islâmico”, descreve a Associated Press.
Os serviços de informação de segurança australianos (ASIO) destacam, no seu website, o Estado Islâmico do Sudeste Asiático (ISEA) como “uma ameaça terrorista mortal nas Filipinas, com o país do Sudeste Asiático a ser um destino preferencial para agentes terroristas estrangeiros”. A ascendência sul-asiática dos Akram — o filho nasceu na Austrália, mas o pai viajou com um passaporte indiano — levou as autoridades a questionar possíveis ligações aos ISIS-K, o braço mais ativo do Estado Islâmico, que opera na Ásia Central e do Sul, destaca ainda o Washington Post.
Apesar da atenção internacional dispensada ao ISEA e ao ISIS-K, no Ocidente, a ameaça do EI diminuiu substancialmente desde 2019. O grupo terrorista passou a ser uma “aliança descentralizada” e os ataques com a sua assinatura eram muitas vezes protagonizados por “lobos solitários“, influenciados pela ideologia, mas sem qualquer apoio direto do EI — o mais recente destes ataques deu-se há quase um ano, em Nova Orleães, nos Estados Unidos.
▲ Os eventos na região permitem ao EI reorganizar-se na Síria
Pictures from History/Universal
Mas dois eventos no Médio Oriente nos últimos anos deram algum espaço ao Estado Islâmico para se reorganizar. Por um lado, o EI beneficiou do conflito na Faixa de Gaza. O Institute for the Study War (ISW) salientou, logo a seguir ao início da ofensiva israelita no enclave palestiniano, que os grupos alinhados com o Irão, com foco para o Hezbollah, tinham retirado de partes da Síria para se reposicionarem junto à fronteira com Israel de forma a pressionar Telavive. Esta retirada dos grupos muçulmanos xiitas da Síria abriu espaço ao novo crescimento do Estado Islâmico e outros grupos sunitas, escrevia o analista do Médio Oriente Ali Rizk, no final do ano passado, com base no relatório do ISW.
Semanas depois dessa análise, o Médio Oriente protagonizou um nova mudança: a queda do regime de Bashar al-Assad. Ao longo do último ano, o cargo de Presidente foi ocupado por Ahmed al-Sharaa, um antigo combatente de Al-Qaeda, que liderou a ofensiva contra Assad. Apesar das suas ligações ao extremismo islâmico, a liderança de Al-Sharaa foi marcada por uma abertura ao Ocidente, numa tentativa de levantar as pesadas sanções aplicadas sobre a Síria e começar a reconstrução do país, destruído devido a mais de dez anos de guerra civil.
Contudo, esta abertura não foi bem vista pelas fações mais extremistas de combatentes sírios. “O novo Presidente sírio está a caminhar num terreno difícil porque muitos jihadistas não estão satisfeitos com a sua atuação — de um modo geral, há um sentimento de um ressurgimento islâmico”, argumentou Antonio Giustozzi, analista no Royal United Services Institute, ao The Telegraph. O jornal britânico chega mesmo a apontar que alguns extremistas acusam Al-Sharaa de ser um agente israelita, colocado no poder por Telavive. A emboscada do EI a soldados norte-americanos em Palmira, na Síria, que matou três pessoas (incluindo dois soldados) e feriu outras três, na semana passada, é um reflexo desta reorganização do Estado Islâmico na Síria.
Como a “indignação muçulmana” com Gaza foi manipulada — com a ajuda da Inteligência Artificial
Existe, na tradição islâmica, uma história sobre o cerco de Medina. Durante a batalha, as mulheres foram levadas para um local seguro na cidade, mas um homem trepou as muralhas e aproximou-se das mulheres muçulmanas para as atacar. Safiyya bint Abdulmutalib, tia do profeta Maomé, cortou a cabeça ao homem e atirou-a contra os guerreiros inimigos, escreve o jornalista e académico Hassan Hassan. Na história, o homem que queria atacar mulheres muçulmanas é judeu.
Apesar desta caracterização de um homem judeu, a história do cerco de Medina não é utilizada por fundamentalistas islâmicos para justificar atitudes antissemitas, mas antes para defender a utilização da decapitação como tática de guerra. Aliás, como explica Hassan num artigo de 2016, o EI tem uma “ideologia híbrida”, focada muito mais no sectarismo islâmico. “O Estado Islâmico promove uma ideologia política e uma visão do mundo que classifica e excomunga ativamente os pares muçulmanos“, elabora o autor, notando que essa ideologia é sustentada por eventos históricos e por contextos políticos que dividem as diferentes vertentes do Islão.
Desde o 7 de Outubro, contudo, o antissemitismo — o ódio e discriminação contra judeus — tornou-se uma parte fulcral da narrativa de grupos islamitas extremistas. Estes grupos manipulam o sentimento de condenação internacional de Israel e da sua ofensiva militar na Faixa de Gaza e transformam-no em ódio contra judeus, o grupo étnico maioritário de Israel — este processo é particularmente eficaz junto de comunidades que são, tal como a maior parte dos palestinianos, muçulmanas.
“Eles estão a explorar a indignação emocional dos muçulmanos e usam relatos de mulheres e crianças a serem mortas ou alegadamente mortas à fome como ferramentas de recrutamento”, relatou ao Washington Post um responsável dos serviços de segurança de um Estado árabe. O mesmo processo é confirmado por outros responsáveis árabes e europeus, que testemunharam a predominância desta nova narrativa. A tendência é particularmente visível nos espaços online, onde se verificou um aumento da presença do EI, acrescentaram.
O recrutamento online já era utilizado durante o pico do EI, em 2014 ou 2015. Porém, a tecnologia abre novas possibilidades. Além do recrutamento nas redes sociais, grupos extremistas como o EI recorrem agora à Inteligência Artificial (IA), aponta o International Centre for Counter-Terrorism (ICCT). Estas ferramentas, por um lado, facilitam a comunicação transnacional, ao permitir a tradução praticamente imediata de propaganda extremista em árabe que depois pode ser partilhada através de vários meios.
Por outro, a IA generativa permite criar imagens, vídeos e documentos falsos que alimentam a narrativa pretendida. O ICCT dá o exemplo de imagens criadas com recurso a IA que mostram um retrato (falso) ainda mais violento da realidade em Gaza, com o o objetivo de “instigar violência e aumentar a propaganda da desinformação”.
Paul Neuman, professor de estudos de segurança na King’s College de Londres diz que a tendência mais antissemita do extremismo islâmico era fácil de antever logo a seguir ao 7 de Outubro. “A minha previsão foi que o 7 de Outubro e o conflito subsequente iriam desencadear uma nova onda de terrorismo jihadista, com alvos judeus e/ou israelitas no centro”, declarou ao The Telegraph. “Infelizmente, isso parece ter sido confirmado pelos eventos — já vimos um aumento tanto em ataques tentados como concretizados e ficaria surpreendido se esta tendência não continuar”, rematou.
▲ As imagens da crise humanitária em Gaza estimularam sentimentos anti-Israel e antissemitas
HAITHAM IMAD/EPA
Austrália: a “panela de pressão” onde o antissemitismo — e a islamofobia — prosperam
No dia 3 de agosto de 2025, milhares de australianos (90 mil segundo os números das autoridades, 300 mil contados pelos organizadores) saíram à rua na Marcha pela Humanidade, um protesto em solidariedade com o povo palestiniano que ocupou durante horas a icónica ponte do porto de Sydney. No meio dos manifestantes, Youssef Uweinat, um homem de 27 anos, erguia, de cara tapada, uma bandeira do Estado Islâmico.
Uweinat esteve preso durante quatro anos, condenado por ter incitado ataques terroristas contra a comunidade local. Os apelos eram feitos na qualidade de líder de um grupo de jovens no centro de oração Al Madina Dawah, dirigido por Wisam Haddad. Uma investigação da ABC revelou Haddad como “o líder espiritual da rede pró-EI na Austrália”. A investigação que levou à detenção de Uweinat em 2019 também visou Naveed Akram, um dos atiradores de Bondi, por participar nas atividades do mesmo centro, mas as autoridades acabaram por concluir que o jovem, à data com 18 anos, não tinha sido radicalizado.
A presença de Uweinat — e de Haddad — na manifestação do dia 3 de agosto foi um exemplo da nova estratégia do Estado Islâmico, revelou a ABC à data. Haddad procura infiltrar os membros da sua rede no movimento pró-Palestina e fraturá-lo a partir de dentro, “radicalizando jovens australianos horrorizados com a guerra” e recrutando-os para o EI. O centro Al Madina Dawah foi ainda investigado pelas autoridades por ter sido palco de sermões antissemitas.
Este caso é o reflexo de uma tendência australiana de aumento generalizado de incidentes antissemitas, que contraria o padrão mundial, segundo um relatório anual sobre o antissemitismo global, publicado pela Universidade de Telavive. O relatório de 2023 registou, entre outubro e dezembro desse ano, um pico de incidentes antissemitas no mundo. Mas “ao contrário do que se pensa, os resultados do relatório indicam que a onda de antissemitismo não se intensificou”, declarou Uriya Shavit, editor do relatório, à Associated Press, por ocasião da publicação do relatório relativo a 2024, em abril deste ano.
Apesar de o antissemitismo continuar a ser mais frequente do que antes do 7 de Outubro, os incidentes caíram em número de 2023 para 2024. Só dois países escaparam a esta tendência de diminuição: a Itália e a Austrália. A Universidade de Telavive dá conta de 1.200 incidentes antissemitas em 2023 e 1.713 em 2024 na Austrália. A contabilização do Conselho Executivo dos Judeus Australianos (ECAJ, o grupo que representa a Austrália no J7) dá conta de 2.062 incidentes em 2024. Entre estes contam-se, como recorda a TIME, grafitis, incêndios e casos de vandalismo em sinagogas, escolas e estabelecimentos comerciais judeus.
▲ A manifestação de dezenas de milhares de pessoas foi utilizada para recrutamento pelo EI
AFP via Getty Images
Face aos números, os alertas começaram a soar. Em fevereiro de 2025, o diretor da ASIO declarou perante uma comissão do Parlamento australiano que a “primeira prioridade” dos serviços secretos, “em termos de ameaças à vida”, era o antissemitismo. Durante o verão, os avisos foram deixados, a par com acusações, pelo primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, numa carta enviada a Albanese por ocasião do anúncio de que Camberra iria reconhecer o Estado da Palestina.
“O apelo ao Estado palestiniano alimenta o fogo antissemita. É uma recompensa aos terroristas do Hamas. Encoraja aqueles que ameaçam os judeus australianos e encoraja o ódio a judeus que vagueia pelas suas suas ruas”, lia-se na carta, recordou Netanyahu. A carta foi escrita dias depois da grande manifestação em Sydney. O apoio do Governo australiano à Palestina foi visto em Telavive como o outro lado da moeda da incapacidade em fazer frente ao antissemitismo crescente no país — o ataque em Bondi, acusa agora Netanyahu, foi o resultado dessa “fraqueza”.
No entanto, o conflito em Gaza não provocou apenas um aumento do antissemitismo. Também a islamofobia — o ódio a muçulmanos — atingiu valores recorde, segundo a Fundação Scanlon, que contabilizou 309 incidentes de islamofobia em 2024, por comparação a uma média de 61 por ano a que se vinha a assistir na última década. Clarke Jones, criminologista especializado em terrorismo na Australian National University, diz que o atentado não é surpreendente, pois as comunidades marginalizadas no país estão isoladas e com “medo de serem silenciadas” o que cria um sentimento de ressentimento mútuo — entre judeus e muçulmanos —, que se tem vindo a acumular desde antes de outubro de 2023. À TIME, o especialista descreve este cenário como uma “panela de pressão” — que pode rebentar a qualquer momento.
Apesar de alguns incidentes de caráter islamofóbico — num cemitério muçulmano num subúrbio de Sydney foram deixadas cabeças de porco, por exemplo —, a resposta ao atentado em Bondi parece ter sido, em geral, uma de união, saúda Jones. Várias comunidades muçulmanas e grupos de apoio à Palestina condenaram veementemente o ataque e a comunidade local reuniu-se para reunir fundos para Ahmed al-Ahmed, o homem muçulmano que ficou ferido ao desarmar um dos atiradores. “Espero que não haja cópias. Estou ciente do bom trabalho que as comunidades têm feito para prevenir estas coisas. Mas os ataques terroristas acontecem em ondas”, remata.