Biógrafo de Francisco, Austen Ivereigh estranhou na manhã desta segunda-feira, 21 o anúncio de um comunicado a partir da residência oficial do Papa. Recebeu a notícia da morte com um “choque muito grande”, relata ao Observador. Autor da obra de referência Francisco: o Grande Reformador (ed. Vogais, 2015), além dos livros O Pastor Ferido (ed. Vogais, 2020) e Em primeiro lugar pertencer a Deus (ed. Paulinas, 2025), o também jornalista considera que a forma como a vida de Jorge Mario Bergoglio terminou honra todo o seu pontificado e que em resultado do mesmo, a Igreja Católica é hoje “um lugar muito mais confortável”.
Agora, caberá aos cardeais discutir como honrar o legado de Francisco — marcado pela forma como divulgou o “estilo de Deus” — e ao mesmo tempo, decidir o que de diferente tem que ser feito pelo seu sucessor.
Como recebeu esta manhã a notícia da morte do Papa Francisco?
Foi uma surpresa, foi um choque muito grande. Como os outros jornalistas do Vaticano, soube que haveria um anúncio desde [a Casa] Santa Marta, a residência do Papa, o que me pareceu surpreendente, e depois vi que era precisamente o comunicado da sua morte. Não foi totalmente inesperado. Pensei, durante a Páscoa aqui, que a sua recuperação ia ser muito lenta. A sua voz parecia fraca, estava fraca. Não sabemos até agora exatamente a causa da morte, mas eu imagino que foi bastante rápido e pacífico. Penso nos últimos dias, e o timing foi fantástico, de [Francisco] terminar a Páscoa, de também ter tido a oportunidade de receber as pessoas — como JD Vance que recebeu a sua presença na bênção do domingo de Páscoa — e depois saiu pacificamente. Ele sempre foi um grande maestro do timing.
Como interpreta o Papa ter escolhido, nesta última Semana Santa, aparecer em público várias vezes? E contra a recomendação dos médicos, que lhe diziam para ficar a descansar…
Os médicos aconselharam-lhe uma convalescença restrita, que não recebesse grandes grupos. De maneira geral, ele seguiu esse conselho. Mas para o Papa, a última prioridade não foi prolongar a sua vida. Ele era incapaz de ser um Papa eremita. Acho que ele procurava, nestas semanas de convalescença, um equilíbrio entre a necessidade de ser uma presença para as pessoas, e ao mesmo tempo cuidar da sua saúde.
Acabou por morrer depois da Páscoa, celebrando toda a Semana Santa e estando presente na benção Urbi et Orbi neste domingo de Páscoa [20 de abril]. Encerrando o seu pontificado perto das pessoas.
É muito importante, tivemos uma Páscoa com o Papa presente. E ele fazia-se presente durante a Páscoa. E, depois, era o momento de sair e de dizer adeus. Neste sentido, eu acho que a forma como ele partiu é muito bonita. Acabou a sua vida a fazer o que fez durante todo o seu pontificado: a ser uma presença para as pessoas, a recebê-las, a fazer com que as pessoas se sentissem amadas e dignas. E essa capacidade de comunicar o que ele chamava de o estilo de Deus foi para mim o seu grande dom, o seu grande legado também.
Morreu o Papa Francisco. Do funeral ao conclave, o que acontece agora?
No seu último dia, o Papa Francisco recebeu o vice-presidente dos EUA JD Vance, com quem esteve em desacordo. Fez críticas muito duras à política migratória dos Estados Unidos, sobretudo depois de JD Vance ter feito argumentos teológicos sobre o assunto. É simbólico que até ao final o Papa Francisco tenha tido na agenda a questão dos migrantes?
O que o Papa fez com JD Vance há algumas semanas foi corrigir o entendimento de uma doutrina que pertence à tradição cristã, o chamado Ordo Amoris. E de uma forma muito magistral, mas muito firme, o Papa disse que temos que ler essa ideia com a lente do “bom samaritano”. O Papa estava a ensinar ao JD Vance o que é o cristianismo, o que é o papel do Papa. Mas quando recebeu o vice-presidente e a família, foi uma receção calorosa, porque para o Papa a pessoa é importante e essa pessoa — o JD Vance, neste caso — tem uma dignidade, apesar do que tinha dito. Sobre a política da migração, eu acho que o Papa tem sido sempre muito claro, que temos que acolher. Isso não é fácil, é difícil, mas é o Evangelho, não é? Não construir barreiras, mas abrir.
Neste momento, consegue olhar para como o legado do Papa Francisco vai perdurar na Igreja Católica, seja pela eleição de um próximo Papa, seja até pela manutenção de mecanismos como a sinodalidade?
Neste momento, os cardeais de todo o mundo estão a começar a viajar para Roma. E quando eles chegarem, vão discutir sobre o legado de Francisco, o que é importante conservar, mas também haverá coisas que pensam que ele não fez, e que o próximo Papa devia fazer escolhas ou ter prioridades diferentes. Mas tenho uma grande certeza de que a Igreja é um lugar muito mais confortável. Podemos ter muito mais confiança, digamos, em ser católicos hoje em dia como resultado deste pontificado. Ele realmente comunicou e ensinou o Evangelho de Jesus Cristo, mostrou como é que podemos seguir Jesus Cristo nestes dias e de que tipo de Igreja precisamos para isso. É um legado que os cardeais vão querer preservar e edificar, sobre essa fundação tão importante de Francisco.