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Bloco de Esquerda falha meta de eleger dois eurodeputados, mas vê o copo meio-cheio e celebra manutenção em Bruxelas

O Bloco de Esquerda perdeu um dos dois eurodeputados que tinha. Mas, num contexto de ascensão da extrema-direita na Europa, tentou celebrar uma vitória: resistir e manter-se no Parlamento Europeu.

Na última semana de campanha, a cúpula do Bloco de Esquerda veio publicamente elevar uma fasquia que Catarina Martins se tinha esforçado por baixar ao longo das semanas anteriores. Contados os votos, a noite eleitoral acabaria por ser (em termos matemáticos) de derrota para o partido, que perdeu um dos seus eurodeputados e apenas vai enviar a cabeça de lista para Bruxelas, ficando com 4,2% dos votos. Mas, com um grande foco na resistência do partido no Parlamento Europeu mesmo no contexto de uma extrema-direita em ascensão na Europa, os bloquistas esforçaram-se por transmitir a ideia de que é possível ver o copo meio-cheio.

Logo ao início da noite eleitoral, pelas 20h, quando as televisões divulgaram as projeções que apontavam para o cenário que efetivamente se desenharia, o líder parlamentar do Bloco de Esquerda, Fabian Figueiredo subiu ao púlpito montado no Fórum Lisboa para dizer à cerca de meia centena de apoiantes ali reunidos que, daí a duas horas, estariam a celebrar em conjunto a eleição de Catarina Martins como eurodeputada.

Essa não era, contudo, a meta assumida pelo partido para estas eleições europeias (embora fosse o cenário mais provável segundo todas as sondagens conhecidas nas semanas anteriores). Em maio, Catarina Martins tinha afirmado com todas as letras que o Bloco de Esquerda partia para as europeias com o objetivo de “manter os dois eurodeputados”. Afirmava até que o BE era a única força política à esquerda do PS que tinha condições para lutar por dois eurodeputados.

Num contexto em que o Bloco vinha somando maus resultados eleitorais a nível nacional e em que via o espaço da esquerda ameaçado pelo crescimento do Livre, era uma ambição elevada. Na campanha, porém, Catarina Martins moderou as expectativas. Diretamente questionada sobre as suas metas para as europeias, a cabeça-de-lista repetia aos jornalistas algumas expressões menos comprometedoras como “queremos o melhor resultado possível” ou “teremos os votos que merecermos”.

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Na reta final da campanha, contudo, o fundador Francisco Louçã e a coordenadora Mariana Mortágua vieram elevar a fasquia do Bloco de Esquerda. Num comício no Porto, Louçã classificou o Bloco como “o único partido que, à esquerda, pode disputar a eleição do segundo deputado”. No dia seguinte, na arruada da Rua de Santa Catarina, também no Porto, Mariana Mortágua foi ainda mais clara: “Acredito que é possível eleger o segundo deputado. (…) O objetivo eleitoral é sempre reforçar, é sempre continuar a crescer, sempre a aumentar o número de votos e certamente eleger o segundo eurodeputado em Bruxelas.”

"Numas eleições que, como sabiam, eram muito difíceis, o Bloco de Esquerda mantém a representação no Parlamento Europeu."
Catarina Martins, na primeira reação aos resultados eleitorais

Este domingo, perante resultados eleitorais em que, dos 21 eurodeputados a que Portugal tem direito, só dois sobraram para a área à esquerda do PS (um para o Bloco e outro para o PCP), o Bloco de Esquerda teve de analisar a noite eleitoral pela perspetiva mais otimista possível. Na primeira intervenção, Fabian Figueiredo destacava a “continuidade”. Desde 2004 que o Bloco de Esquerda tem tido presença ininterrupta no Parlamento Europeu — e o líder parlamentar do partido preferiu lembrar como o resultado deste domingo marcou essencialmente “a continuidade do Bloco de Esquerda no Parlamento Europeu”.

Relembrando as principais bandeiras da campanha eleitoral, o dirigente garantiu que Catarina Martins parte para Estrasburgo e Bruxelas para “fazer a diferença” e para se bater contra a extrema-direita, pelo direito à habitação, pela redução do horário de trabalho, pela valorização dos rendimentos ou pela luta climática.

Fabian Figueiredo não esqueceu o contexto europeu destas eleições, marcadas por fortes resultados eleitorais da extrema-direita na Áustria (onde o FPÖ venceu), na Alemanha (onde a AfD conseguiu ir buscar um milhão de novos votos), na França (onde a União Nacional de Le Pen ganhou com um resultado inédito superior a 30%) ou em Itália (onde o Irmãos de Itália de Giorgia Meloni venceu sem surpresas). “Por mais que, na Europa, a extrema-direita possa estar a celebrar em alguns países, nós cá estaremos”, assinalou o líder parlamentar do Bloco. “A nossa voz nunca se calará perante a ameaça da extrema-direita.”

No Fórum Lisboa, o lugar escolhido pelo Bloco de Esquerda para acompanhar a noite eleitoral, seguiram-se horas de expectativa. Alguns apoiantes foram chegando para se juntarem à reta final da noite (quando Catarina Martins discursou, já seriam cerca de uma centena), enquanto outros iam aproveitando o bar para jantar e outros ainda se concentravam junto às televisões instaladas no hall de entrada do edifício, para acompanhar a contagem dos votos — que se tornou pública a partir das 22h.

Francisco Louçã, o histórico fundador do partido, passou toda a noite na zona comum do edifício, conversando com os apoiantes bloquistas e procurando manter a boa disposição numa noite que foi, essencialmente, de apreensão: numa primeira fase, chegou mesmo a haver o receio de nem Catarina Martins ser efetivamente eleita.

Nesse período de expectativa, a deputada bloquista Joana Mortágua juntou-se à emissão da Rádio Observador para analisar os resultados que aí vinham. Lembrando que “até ao lavar dos cestos é vindima”, Joana Mortágua disse que o partido tinha razões para estar “animado” com a manutenção da presença no Parlamento Europeu, mas garantiu que o Bloco faria um “balanço” das eventuais falhas que possa ter cometido e que tenham levado a um resultado pior do que o esperado. Sobre o risco de perder para a extrema-direita, Joana Mortágua disse ser inevitável que em Portugal se siga “a onda europeia” e traduza, no país, uma “viragem” à direita. “Neste momento, estamos a discutir se os Estados Unidos vão reeleger Trump“, lembrou. “É impossível ignorar as ondas conservadoras.”

Catarina Martins no discurso que fez para assinalar a sua eleição como eurodeputada

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Numa segunda fase, a alegria com a forte probabilidade da eleição da cabeça-de-lista era temperada pela inevitabilidade de o partido perder um dos dois eurodeputados que tem atualmente. As bandeiras coloridas do Bloco estiveram enroladas até bem perto das 23h e pouco ruído se sobrepunha à playlist de Sérgio Godinho que se ouviu no Fórum Lisboa durante toda a noite, com os apoiantes colados às televisões ou agarrados aos telemóveis em busca de sinais da formalização da eleição de Catarina Martins.

No núcleo duro do partido, as contas foram feitas até ao último minuto. Já passava das 23h quando chegou a informação de que Catarina Martins e Mariana Mortágua se iriam deslocar ao púlpito para comentar os resultados de uma noite eleitoral agridoce. As contas estavam praticamente fechadas: o Bloco de Esquerda ficou com 4,25% dos votos e elegeu uma eurodeputada, fixando-se como quinta força política nestas eleições. Olhando apenas à matemática, uma derrota: nas últimas europeias, em 2019, o Bloco foi a terceira força política, com 9,82% dos votos e dois eurodeputados. Em termos absolutos, passou de mais de 325 mil votos para menos de 168 mil.

A resistência do Bloco numa “noite difícil para a esquerda” (e um dado positivo)

Foi só quando a cabeça-de-lista e a coordenadora do partido entraram na sala que o Fórum Lisboa viveu verdadeiramente o primeiro momento de festa da noite. Catarina Martins subiu ao púlpito e, logo na primeira frase, deu o tom daquela que seria a leitura positiva do Bloco de Esquerda em relação a um resultado eleitoral que, em termos puramente absolutos, seria uma derrota: um Bloco que resiste no Parlamento Europeu, mesmo contra uma extrema-direita em ascensão na Europa.

“Numas eleições que, como sabiam, eram muito difíceis, o Bloco de Esquerda mantém a representação no Parlamento Europeu”, afirmou Catarina Martins, que recordou que fez uma campanha recheada de alertas para “o perigo da extrema-direita“. Também Mariana Mortágua, que discursou logo a seguir a Catarina Martins, reconheceu a dificuldade destas eleições e falou mesmo numa “noite difícil para a esquerda na União Europeia” devido ao crescimento da extrema-direita em vários países.

Mais do que resistir à extrema-direita, é preciso construir uma alternativa à extrema-direita“, salientou Mariana Mortágua, garantindo que o Bloco de Esquerda se vai agora empenhar no diálogo com “outros partidos de esquerda” a nível europeu, “sem nenhum sectarismo”, com vista à “resistência” em relação à extrema-direita. Mortágua entusiasmou os apoiantes que tinha à frente dizendo que o clima de festa que ali se vivia naquele momento traduzia justamente a “vontade de fazer essa resistência e essa luta”.

Tal como Fabian Figueiredo e Catarina Martins antes dela, também Mariana Mortágua quis olhar para uma queda eleitoral pela perspetiva do copo meio-cheio e sublinhou: “Tal como nas legislativas, o Bloco de Esquerda resiste, garante a sua presença no Parlamento Europeu.” A continuidade dos bloquistas em Estrasburgo e Bruxelas desde 2004 é apontada como uma oportunidade para, mesmo num contexto especialmente difícil, continuar um conjunto de “lutas” essenciais para o partido: a “autodeterminação da Palestina e o fim do genocídio”, a “defesa intransigente dos direitos humanos”, as alterações climáticas, os salários, o “tempo para viver” ou os “quatro dias de trabalho”.

"Tal como nas legislativas, o Bloco de Esquerda resiste, garante a sua presença no Parlamento Europeu."
Mariana Mortágua, coordenadora do Bloco de Esquerda

Catarina Martins, por seu turno, quando foi questionada pelos jornalistas sobre o crescimento da extrema-direita na Europa, também lamentou esse facto e, referindo-se concretamente aos casos de França (União Nacional) e Alemanha (AfD), classificou aqueles partidos como sendo parte da “maior ameaça” à Europa, como tendo uma “matriz muito violenta” e “ligações a Vladimir Putin“. Por isso, sintetizou Catarina Martins, “este é um momento de luta para toda a Europa”, que o Bloco quer fazer com “camaradas da esquerda de toda a Europa” para tentar “contrariar” esse crescimento.

A luta, explicou Catarina Martins, traduz-se na defesa das causas fortes que o Bloco de Esquerda defendeu durante toda a campanha. “O mandato do Bloco de Esquerda no Parlamento Europeu será pela paz e pelo fim do genocídio na Palestina”, exemplificou, lembrando que o partido está “contra o invasor” e “do lado dos povos que lutam pela autodeterminação, seja na Ucrânia, seja na Palestina”. Mais: Catarina Martins não aceitará “o Pacto das Migrações e a vergonhosa criminalização da migração“, nem qualquer “recuo nas liberdades e nos direitos das mulheres”.

“A nossa Europa é de iguais e para a igualdade”, defendeu a nova eurodeputada bloquista, assegurando que vai procurar “as alianças mais vastas possíveis em toda a Europa” para seguir o caminho de resistência à extrema-direita.

Mariana Mortágua reservou para a fase final do discurso um ponto positivo desta noite eleitoral: a derrota da extrema-direita em Portugal. Apesar de reconhecer que, entre 2019 e 2024, houve uma “viragem à direita” nas eleições europeias (com a direita a passar de sete para 11 mandatos), Mortágua assinalou que, desde as legislativas, a relação de forças entre esquerda e direita manteve-se semelhante, mas com uma diferença: a queda do Chega. O partido de Ventura passou de representar 18,07% dos votos dos portugueses para representar apenas 9,79%. Essa “derrota da extrema-direita em relação às legislativas“, garantiu Mariana Mortágua, foi um facto “positivo” de uma noite que acabaria, para o Bloco de Esquerda, numa festa moderada que rapidamente foi desmontada.

Mariana Mortágua durante o discurso de encerramento da noite eleitoral do Bloco

EPA

 
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