Índice
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[Este é o quarto de oito artigos a propósito de O mundo criou o Ocidente, de Josephine Quinn. Os anteriores podem ser lidos aqui:]
- Civilização ocidental: Uma história de miscigenação
- Civilização ocidental: Josephine Quinn desafia a visão tradicional da história?
- Civilização ocidental: O fardo do homem branco
A “genuína e imensa superioridade” da civilização europeia
François Guizot assumiu múltiplas facetas: além de estadista – entre outros cargos, foi primeiro-ministro, ministro dos Negócios Estrangeiros, ministro da Instrução Pública, ministro do Interior e embaixador em Londres – foi também historiador, professor de história moderna na Sorbonne e membro da Académie Française e reflectiu maduramente sobre a natureza e evolução das civilizações e sobre questão da liberdade e da vocação que o homem teria (ou não) para ela.
François Guizot, numa versão por Jehan Georges Vibert de um retrato realizado c.1837 por Paul Delaroche
No seu Cours d’histoire moderne: Histoire génèrale de la civilisation en Europe (1828), livro baseado no curso que leccionava na Sorbonne, estabeleceu uma contraposição, análoga à que fora formulada por Montesquieu e Rousseau, entre a liberdade na Europa e o despotismo no resto do mundo, mas justificou-o com argumentação diversa da dos seus predecessores: “Quando consideramos as civilizações que precederam a Europa moderna, seja na Ásia, seja noutros lugares, e incluindo as civilizações grega e romana, é impossível não se ficar impressionado pela unidade que nelas reina. Elas parecem emanar de um único factor, de uma única ideia; dir-se-ia que a sociedade é regida por um princípio único que a domina e determina as instituições, os costumes, as crenças. […] Ao passo que, noutras civilizações, o domínio exclusivo, a predominância de um só princípio [a teocracia, o comércio, etc.] se tornou numa causa da tirania, na Europa moderna a diversidade de elementos de ordem social e a incapacidade de eles se excluírem mutuamente engendraram a liberdade que hoje reina. […] Enquanto noutros lugares a predominância de um princípio produziu a tirania, na Europa, a liberdade resultou da variedade dos elementos civilizacionais e do estado de conflito em que estes sempre têm vivido. Aqui reside uma genuína e imensa superioridade […] que é legítima e é reconhecida pela razão e proclamada pelos factos. […] A civilização europeia é o fiel retrato do mundo: como o curso das coisas neste mundo, ela não é estreita, nem exclusiva, nem estática […], é tão diversa, tão rica, tão laboriosa como o teatro do universo. A civilização europeia entrou, se me é permitido dizê-lo, na verdade eterna, no plano da Providência, ela caminha pelas vias do Senhor. É o princípio racional da superioridade”.
“O triunfo da civilização” (1793), por Jacques Réattu. A “civilização” em causa é, claro, a europeia
Em 1830, Guizot publicou a Histoire de la civilisation en France, em quatro volumes, baseado no curso que leccionara na Sorbonne no ano anterior e que começa por estabelecer que “é evidente que existe uma civilização europeia”, uma vez “que existe uma certa unidade na civilização dos diversos estados da Europa e que, apesar de uma grande diversidade de tempos, de lugares e de circunstâncias, toda esta civilização decorre de factos muito semelhantes, rege-se aos mesmos princípios e tende a conduzir a resultados análogos”. A crença na existência de valores civilizacionais comuns a todos os europeus não significava que Guizot considerasse que todas as nações europeias estavam no mesmo plano e tivessem os mesmos méritos e responsabilidades: “Existe no génio francês qualquer coisa de sociável, de simpático, qualquer coisa que se difunde com mais facilidade e energia do que no génio de qualquer outro povo, seja a nossa língua, seja a conformação do nosso espírito; os nossos costumes, as nossas ideias são mais populares, apresentam-se com maior clareza às massas, penetram nelas mais facilmente; numa palavra, a clareza, a sociabilidade e a simpatia são o carácter particular da França, da sua civilização, e estas qualidades tornam-na eminentemente apropriada para marchar à cabeça da civilização europeia” (Histoire génèrale de la civilisation en Europe).
“A França vai trazer a Marrocos a civilização, a riqueza e a paz”, capa de Le Petit Journal, 19.11.1911
A força irresistível do preconceito etnocêntrico
Há um elemento comum a todas as teorias e considerações sobre o desenvolvimento civilizacional, quer as de François Guizot que acima se reproduzem, quer as que foram evocadas em Civilização ocidental: Josephine Quinn desafia a visão tradicional da história? e em Civilização ocidental: O fardo do homem branco: independentemente da sua origem geográfica e da sua cronologia nenhuma delas assenta em bases objectivas e científicas, resultando antes de preconceitos, de estereótipos e do desconhecimento de outras culturas. Montesquieu e Rousseau viajaram assiduamente, mas nunca saíram da Europa. Ibn Khaldun fez quase toda a sua vida no Maghreb, visitou o al-Andaluz e viajou até à Síria, onde se terá encontrado com o líder mongol Tamerlão (Timur), mas não pôs pé na Europa cristã. Guizot viveu parte da juventude em Genebra e passou alguns meses em Londres (oito como embaixador, 16 como exilado), mas, de resto, residiu sempre em França, nunca viajou por prazer ou curiosidade e confessava que “preferia os livros às viagens”.
As viagens de Ibn Khaldun
Todos os conhecimentos destes eminentes pensadores sobre outras civilizações que não a sua eram de segunda mão (na melhor das hipóteses) e de fiabilidade duvidosa, pelo que não é surpreendente que as reflexões e conclusões que produziram com base neles sejam, quase sempre, duvidosas, insubstanciais ou erradas; por outro lado, as elucubrações destes pensadores foram também seriamente deformadas pelo facto de cada um deles usar a sua civilização como padrão de perfeição a partir do qual as outras seriam julgadas.
Montesquieu logrou libertar-se parcialmente desta armadilha nas Lettres persanes (1721, Cartas persas), um romance epistolar (género então ainda incipiente) que reúne a correspondência ficcional trocada entre dois nobres persas – Usbek e Rica – que viajam de Ispahan a Paris e os amigos e autoridades religiosas do seu país natal. A visão (pretensamente) fresca e ingénua de Usbek e Rica permite a Montesquieu satirizar os usos e costumes da civilização ocidental e, em particular, da sociedade e da política francesas, e evidenciar os seus aspectos mais sombrios, injustos, grotescos ou irracionais – isto apesar de a França estar então em plena Era das Luzes e ser (supostamente) guiada pela Razão – sem incorrer no desagrado da censura. O artifício congeminado por Montesquieu produz um efeito de distanciamento – ver uma civilização pelos olhos de alguém proveniente de uma civilização muito diferente – que torna evidentes as entorses, contradições e aberrações que quem vive nelas imerso quotidianamente é incapaz de perceber; este distanciamento permite que nos questionemos se alguns dos elementos da nossa civilização são realmente louváveis e úteis, ou se apenas a familiaridade nos leva a assim considerá-los. Por esta razão, as Lettres persanes são consideradas um momento pioneiro no relativismo cultural (no sentido positivo da expressão), ou seja, na percepção de que é inapropriado e improdutivo julgar uma dada civilização pelos padrões de outra civilização.
A importância de estarmos abertos a outros pontos de vista e outros sistemas de valores e de estarmos conscientes de que os costumes e a moral da nossa civilização não têm aplicação universal, já tinham sido objecto de um célebre ensaio de Michel de Montaigne, “Des cannibales”, incluído nos Essais (1580), que tem como ponto de partida uma cerimónia dos índios Tupinambá em que estes consomem ritualmente os inimigos capturados. O ensinamento fulcral deste ensaio é que “cada um denomina de barbárie aquilo que não faz parte dos seus usos; creio que não possuímos outro critério de verdade e de razão que não seja o exemplo e a ideia das opiniões e dos usos da região em que estamos. Aqui reside a perfeita religião, a perfeita organização, o perfeito e completo uso de todas as coisas”.
Na verdade, dois mil anos antes de Montaigne, já Heródoto (c.484-c.425 a.C.) alertara, nas suas Histórias, para a propensão humana para a força irresistível do preconceito etnocêntrico: “Se a alguém for dada a oportunidade de escolher entre todas as nações do mundo, o sistema de crenças que considera mais perfeito, irá, após ponderação cuidada dos seus méritos relativos, escolher o do seu próprio país. Todos, sem excepção, crêem que as suas próprias tradições e a religião em que foram criados são superiores e que só um sandeu delas zombaria”.
O canibalismo entre os Tupinambá, segundo gravura de Theodor de Bry, incluída em America tertia pars: Memorabile provinciae Brasiliae historiam continens (1592), o 3.º dos 25 volumes da série Collectiones peregrinatiorum in Indiam orientalem et Indiam occidentalem, publicada por Theodor de Bry e pelos seus descendentes. Toda esta vasta produção iconográfica foi realizada sem que Theodor de Bry alguma vez tivesse saído da Europa
“Uma civilização satânica”
Uma vez que a civilização ocidental começou a ganhar terreno às outras civilizações a partir da Era das Descobertas e cimentou o seu domínio com a Revolução Industrial, foram as suas visões do mundo e das civilizações que se impuseram no meio intelectual. Isto não significa que o Ocidente ficou absorto na autocontemplação – pelo contrário, nenhuma civilização mostrou tão forte e genuíno interesse pelos usos, costumes, artes, letras, filosofias e religiões das outras civilizações, sobretudo da oriental (ver capítulo “A febre orientalista” em A Idade de Ouro da ciência árabe pt.3: Um longo sono); porém, o olhar para as outras civilizações fez-se, inevitavelmente, por um prisma ocidental e produziu julgamentos enviesados e, frequentemente, sobranceiros sobre os outros povos.
Georg August Wallin (1811-1852), uma das figuras cimeiras dos estudos orientais, num retrato datado de 1853, por Robert Wilhelm Ekman. O finlandês Wallin estudou línguas orientais em Helsínquia, viajou pelo Próximo e Médio Oriente, assumindo nome e identidade árabes e fé muçulmana, e legou-nos notas detalhadas sobre os usos e costumes das regiões que visitou
A contestação à superioridade moral do Ocidente e à sua “missão civilizadora” começou a fervilhar no mundo não-ocidental com os nacionalismos asiáticos e africanos que começaram a despontar na viragem dos séculos XIX-XX.
Entre os paladinos do independentismo indiano, a figura mais célebre foi Mohandas Karamchand Gandhi – mais conhecido como Mahatma Gandhi, i.e. “o venerável Gandhi” – e em cuja prolixa produção de textos (a sua obra completa espraia-se por 55.000 páginas) abundam os comentários cáusticos sobre a civilização ocidental. Ela é um dos temas centrais de uma das suas primeiras obras, o ensaio Hind Swaraj (Autodeterminação da Índia), escrito em 1909, durante uma viagem marítima entre Londres e a África do Sul, onde então estava radicado.
Gandhi, retratado em 1909
Em Hind Swaraj, Gandhi denuncia a moderna civilização ocidental como a maior inimiga do povo indiano: “A Índia está a ser triturada não pelo tacão da bota britânica, mas pela civilização moderna. Ela geme sob o tremendo peso do monstro”. Os malefícios do colonialismo britânico na Índia “não se devem a qualquer falha particular do povo inglês, mas à civilização moderna. É uma civilização apenas no nome. Sob o seu jugo, as nações da Europa estão a ficar mais degradadas e arruinadas de dia para dia”. Segundo Gandhi, a moderna civilização ocidental “não tem consideração nem pela moral nem pela religião […], apenas busca incrementar os prazeres corporais e mesmo nisto falha miseravelmente. É uma irreligião que de tal modo tomou conta das gentes da Europa que faz com que pareçam meio loucas”. Quase todos os aspectos da civilização ocidental são, aos olhos de Gandhi, detestáveis: o progresso alcançado na qualidade das habitações, a sofisticação e variedade do vestuário, o recurso a maquinaria (esse “enorme pecado”) para executar tarefas que eram feitas manualmente (nomeadamente na agricultura), o desenvolvimento do transporte aéreo, a massificação dos serviços postais, o parlamentarismo, a emancipação das mulheres, o facto de a indústria tipográfica permitir que “qualquer um redija e faça publicar o que bem entende e assim envenene as mentes alheias” e, sobretudo, a obsessão consumista: “A mente é como uma ave irrequieta, quanto mais tem mais ambiciona e está sempre insatisfeita. Quanto mais cedemos às nossas paixões, mais descontroladas estas se tornam”. Resulta daqui que, “em tempos, os homens foram escravizados mediante compulsão física, agora são escravizados pela tentação do dinheiro e dos luxos”.
O Império Britânico em 1886
Em contraponto à civilização ocidental, que vê como uma “doença”, Gandhi faz a apologia da civilização indiana: ”Nada é capaz de igualar-se às sementes semeadas pelos nossos antepassados. Roma desapareceu, a Grécia teve o mesmo destino, o poder dos faraós foi estilhaçado, o Japão ocidentalizou-se […], mas a Índia continua a estar, de uma forma ou de outra, robusta nos seus alicerces”. E prossegue: “A tendência da civilização indiana é a elevação do ser moral, a da civilização ocidental é propagar a imoralidade”. Sendo as civilizações indiana e ocidental antitéticas e incompatíveis, só há uma via para “devolver a Índia à sua pureza original”: “expulsar a civilização ocidental. Tudo o mais virá por arrasto”. Mas a civilização ocidental é tão tóxica que os próprios ocidentais serão por ela vitimados: “tal é a natureza desta civilização que basta que tenhamos paciência, pois ela acabará por autodestruir-se. De acordo com os ensinamentos de Maomé, ela tem der considerada como uma civilização satânica. O hinduísmo vê-a como uma Idade das Trevas”.
Apesar das muitas e variadas invectivas de Gandhi contra a civilização ocidental, as que figuram em Hind Swaraj raramente são hoje lembradas no Ocidente – em vez delas, tem ampla circulação um episódio, muito provavelmente apócrifo, em que, questionado sobre o que pensava da civilização ocidental, Gandhi terá retorquido “Creio que seria uma boa ideia”. A resposta está em sintonia com o desprezo de Gandhi pela civilização ocidental, mas o primeiro registo desta frase data de 1967, 19 anos após a morte de Gandhi, e não está vinculado a nenhuma fonte credível. A atribuição do dito a Gandhi é ainda infirmada pelo facto de, muito antes de 1967, circular no espaço público uma frase similar, que terá surgido pela primeira vez em 1923 na revista humorística Life (não confundir com a sua irmã “séria”): P: “O que pensa da civilização?” R: “É uma boa ideia. Alguém devia começar a trabalhar nisso”.
“O fardo do homem branco (?)”: cartoon de William H. Walker, publicado na revista humorística americana Life, a 16 de Março de 1899
O negrume no coração do homem branco
Na verdade, desde a viragem dos séculos XIX-XX – coincidindo com o apogeu da imperialismo ocidental – que a visão benévola da “missão civilizadora” do homem branco tinha vindo a ser posta em causa, quer entre os povos que estavam a ser “civilizados” contra sua vontade, quer no Ocidente. No segundo caso, as consciências foram despertadas pela difusão de notícias sobre aspectos brutais da exploração colonial, nomeadamente no Estado Independente do Congo.
“Propriedade privada: Proibida a entrada a filantropos”: Leopoldo II controla a entrada no seu Estado Livre do Congo, num cartoon do britânico Francis Carruthers Gould, publicado em Julho de 1906
No esquartejamento de África decidido na Conferência de Berlim, o Estado Independente do Congo ficara sob o controlo do rei Leopoldo II da Bélgica, a título pessoal, uma vez que constituição belga não permitia ao país empreendimentos coloniais. O apetite de Leopoldo II pelo Congo começara a ganhar forma em 1876, com a fundação da Associação Internacional para a Exploração e Civilização da África Central, uma entidade de fachada humanitária cujos estatutos a comprometiam com nobres e cristianíssimos desígnios, como seja “levar aos nativos a moral e a compreensão do conceito de pecado”.
Congoleses acusados da prática de canibalismo, detidos pelas autoridades do Estado Independente do Congo, c.1885-1908
Em 1882, esta entidade foi reformulada como Associação Internacional do Congo, sob cuja máscara filantrópica estava uma holding comercial controlada, de facto, por Leopoldo II. Após a Conferência de Berlim ter outorgado o território do Congo à AIC, Leopoldo II dissolveu esta entidade e proclamou-se soberano do território, que passou a designar-se Estado Independente do Congo. A outorga do Congo pela Conferência de Berlim tinha sido feita na condição de o seu “proprietário” promover “o bem-estar moral e material” do seu povo e “contribuir para a supressão da escravatura”, mas o que os congoleses conheceram nos anos seguintes foi um ror de iniquidades, que terão causado 3 a 10 milhões de mortos.
Congoleses mutilados pelas autoridades do Estado Independente do Congo. Os soldados estavam obrigados a entregar uma mão como prova do abate de um “revoltoso” e, por vezes, cortavam mãos indiscriminadamente após um massacre, sem distinguir mortos de feridos
O extractivismo sem escrúpulos, a desumanidade e a crueldade gratuita foram tais que a opinião pública ocidental, ainda que encarasse como natural o imperialismo e o colonialismo, se indignou com as atrocidades reveladas na imprensa e deu origem a uma campanha internacional de protesto. A pressão internacional acabou por forçar Leopoldo II a, em 1908, renunciar à sua “quinta em África” (onde nunca pôs pé), passando o Estado Independente do Congo a ser administrado pelo Estado belga.
A denúncia das iniquidades praticadas no Estado Independente do Congo envolveu pelo menos três escritores de renome: Mark Twain, que publicou, em 1905, O solilóquio do Rei Leopoldo, um ensaio/panfleto de tom satírico; Arthur Conan Doyle, que publicou, em 1909, O crime do Congo, uma exposição da situação no Congo, que alertava para o facto de a transferência da propriedade formal do território para o Estado belga não pusera termo aos abusos e atrocidades; e Joseph Conrad, que teve conhecimento directo da realidade congolesa ao trabalhar, durante alguns meses de 1890, como capitão de um vapor no Rio Congo, ao serviço da Sociedade Anónima Belga para o Comércio do Alto Congo, e que foi, ainda que a coberto de um véu ficcional, a fonte das primeiras denúncias a produzir eco no Ocidente.
Le Roi des Belges, o vapor que Joseph Conrad comandou em 1890, no Alto Congo
A experiência congolesa de Conrad deu origem ao conto “O posto-avançado do progresso” (“An outpost of progress”), publicado em 1897, e ao romance O coração das trevas (Heart of darkness), publicado em 1899. Se ambas as obras versam a vanidade e hipocrisia da “missão civilizadora” do homem branco em África, há também diferenças significativas entre elas. Em “O posto-avançado do progresso” o fracasso decorre do misto de incompetência, frouxidão e estupidez dos dois homens brancos destacados para o posto no meio da selva. Em O coração das trevas, o fracasso decorre dos métodos cruéis e irracionais (e, em última análise, contraproducentes) empregues pelo colonialismo europeu – simbolizado pelo sinistro Kurtz – no trato com os africanos. Perante a barbárie da actuação de Kurtz, o narrador, Marlow, capitão de um vapor fluvial ao serviço de uma firma de comércio de marfim, conclui que pouco separa os “selvagens” dos “civilizados” e que nada sustenta a suposta “superioridade moral” dos colonizadores. Embora o rio em que Marlow navega nunca seja nomeado, depreende-se que a acção decorre no Estado Independente do Congo, até porque Conrad alude a uma Sociedade Internacional para a Supressão da Selvajaria, que remete, sarcasticamente, para a Associação Internacional para a Exploração e Civilização da África Central que Leopoldo II criou para dar cobertura à sua ganância.
Chicoteamento de um escravo, Estado Independente do Congo
A celeuma causada no Ocidente pela brutalidade belga no Congo foi um fenómeno inédito. Desde o final do século XV que os europeus se entregavam, em grande escala, à espoliação, submissão, escravização, aculturação e até extermínio deliberado dos povos “selvagens”, sem suscitar mais do que algumas denúncias por indivíduos isolados (como seja a Brevísima relación de la destrucción de las Indias, de frei Bartolomé de las Casas), que não produziram quaisquer alterações nas políticas e condutas dos colonizadores, nem suscitaram questionamentos éticos ou remorsos. Embora o termo “opinião pública” tenha sido usado pela primeira vez em 1588, por Montaigne, só ao longo do século XIX, os efeitos combinados da imprensa, dos cafés, dos salões e clubes intelectuais, da fotografia, do telégrafo e do telefone, associados à disseminação do parlamentarismo e do afrouxamento das restrições à liberdade de expressão, fizeram da opinião pública uma força poderosa, capaz de condicionar a actuação dos governantes dos regimes mais progressistas do Ocidente.
Todavia, a reacção da opinião pública às atrocidades cometidas no Estado Independente do Congo não significou que a actuação das potências coloniais passasse a estar sob escrutínio ético apertado, ou que os europeus pusessem em causa a legitimidade e bondade da sua “missão civilizadora”. Comprova-o a escassa repercussão no Ocidente dos eventos que, pela mesma altura, tinham lugar uns milhares de quilómetros a sul das florestas do Congo, nos planaltos áridos e de povoamento rarefeito da Namíbia. A Alemanha, que, tal como a Bélgica, não possuía experiência colonial prévia, planeava fazer do Sudoeste Africano Alemão, uma das colónias com que fora agraciada pela Conferência de Berlim, uma “nova Alemanha africana”, predominantemente branca, pelo que se apoderou das terras dos Herero e dos Nama e reduziu estes à escravidão.
Naturalmente, os Herero e os Nama não aceitaram este plano de bom grado, pelo que as revoltas e os ataques a herdades alemãs isoladas sucederam-se, o que levou a que, em 1904, a Alemanha passasse a usar métodos ainda mais brutais e a assumir como objectivo o extermínio total dos povos indígenas.
Hereros capturados pelas tropas alemãs, 1904
A repressão prolongou-se até 1908 e reduziu a população original de Hereros de 80.000 para 25.000 e a dos Nama numa proporção similar. Os eventos no Sudoeste Africano Alemão, embora tenham incluído inovações macabras, como campos de concentração e experiências médicas cruéis justificadas pelo “racismo científico”, e sejam hoje vistos como “o primeiro genocídio do século XX”, não causaram, na altura, comoção na opinião pública europeia comparável à suscitada pelos desmandos africanos de Leopoldo II e permaneceram na obscuridade até meados da década de 1980.
Ainda assim, em alguns círculos políticos – quase sempre de esquerda – e entre a elite intelectual, as barbaridades do colonialismo despertaram consciências e abriram fendas na convicção da superioridade inata da civilização ocidental.
“Mesmo que não nos tenha trazido muito proveito e não haja produtos de qualidade para comercializar, ao menos podemos montar uma moagem de ossos”: Cartoon alusivo aos massacres de Hereros em 1904, publicado em 1906 em Der Wahre Jacob, revista satírica alemã de inspiração socialista
Orientalismo: O olhar enviesado do Ocidente sobre o Oriente
A contestação à civilização ocidental, à sua percepção eurocêntrica do mundo e à forma como ela tratou as restantes civilizações foi crescendo ao longo do século XX e teve um dos seus momentos capitais em 1978, com a publicação de Orientalism, do académico palestino-americano Edward Said (1935-2003), onde este analisa e desmonta o (suposto) fascínio do Ocidente pelo Oriente e a forma como os artistas, escritores e intelectuais do primeiro representaram o segundo. De acordo com Said, o orientalismo assenta em quatro dogmas: “Um é a absoluta e sistemática diferença entre o Ocidente, que é racional, desenvolvido, humano e superior, e o Oriente, que é aberrante, subdesenvolvido e inferior. Outro dogma é o de as abstracções sobre o Oriente, particularmente as que se baseiam em textos que representam a civilização oriental ‘clássica’ serem sempre preferíveis às provas directas extraídas das modernas realidades orientais. O terceiro dogma é que o Oriente é eterno, uniforme e incapaz de definir-se a si mesmo […]. O quarto dogma é que o Oriente é, no fundo, algo que deve ser temido – o Perigo Amarelo, as hordas mongóis, os ‘domínios castanhos’ [“brown dominions”: as colónias europeias habitadas por povos de tez escura] – ou controlado – pela pacificação, pela investigação e desenvolvimento, pela ocupação, sempre que possível”. A tese central de Orientalism é, segundo Suzanne Wilson Barnett & Van Jay Simmons, a de que “os estudos académicos e a literatura de viagens da Europa construíram um Oriente […] intemporal e exótico, um ‘Outro’ contra o qual a Europa se representa a si mesma como conquistadora do mundo. […] O Oriente, caracterizado por sensibilidades religiosas, ordens sociais assentes na família e tradições imemoriais, contrasta com o Ocidente, supostamente impelido pela racionalidade, pelo dinamismo material e técnico e pelo individualismo” (in Asia in the undergraduate curriculum: A case for Asian studies in liberal arts education, 2000).
O quadro escolhido para a capa da edição original de Orientalism, “O encantador de serpentes”, do francês Jean-Léon Gérôme (um dos mais prolíficos e célebres pintores da corrente orientalista), está impregnado de exotismo, mistério, barbárie, sensualidade e uma titilante sugestão de perigo omnipresente e é uma síntese perfeita da visão ocidental do Oriente denunciada por Said.
“O encantador de serpentes” (c.1879), por Jean-Léon Gérôme
Embora seja conhecido sobretudo pela sua expressão nas artes & letras, “o orientalismo é, em última análise, uma visão política da realidade, cuja estrutura promove a diferença entre o familiar – a Europa, o Ocidente, ‘nós’ – e o estranho – o Oriente, o Leste, ‘eles’” (Said). Nessa vertente – a política – a visão dicotómica, depreciativa e paternalista do Oriente pelo Ocidente terá servido, segundo Said, para consolidar a identidade das diversas nações europeias numa “civilização ocidental” supostamente homogénea e de contornos nítidos, e para legitimar o colonialismo e o extractivismo exercido pelo Ocidente sobre o Oriente.
Orientalism tornou-se numa obra de referência para o que hoje se designa por “estudos pós-coloniais” e gerou numerosos seguidores, como é o caso de Hamid Dabashi (n.1951), nascido no Irão, radicado nos EUA e professor de literatura comparada e estudos iranianos na Columbia University, em Nova Iorque. Dabashi associa a génese da visão dicotómica Ocidente-Oriente à “emergência da modernidade capitalista na Europa Ocidental, [que] desmantela duas classes, a aristocracia e o clero, socialmente ultrapassadas e economicamente irrelevantes. O declínio dos pilares aristocráticos e eclesiásticos das sociedades europeias ocidentais anuncia a ascensão de uma nova classe média burguesa – que por seu turno, antecipa o declínio do pensamento dinástico da História europeia. […] O colapso do pensamento dinástico foi coincidente com o colapso do termo mais genérico ‘Cristandade’, que costumava abranger as histórias dinásticas europeias. […] Como categoria, a ideia de uma civilização ocidental é muito recente na sua cunhagem. O conceito de ‘Ocidente’ substituiu a ideia de ‘Cristandade’ à medida que os Estados-nações emergentes substituíam as dinastias históricas europeias. Mas a modernidade iluminista que inventou o ‘Ocidente’ em nome da burguesia europeia tinha demasiado peso nos ombros e não acreditava seriamente na validade histórica da categoria que acabara de inventar – o seu racionalismo era demasiado brutal. Assim, o iluminismo burguês mobilizou um exército de mercenários orientalistas que andassem pelo mundo e inventassem ‘outras’ civilizações que corroborassem o que a civilização ocidental tinha acabado de inventar” (entrevista ao Público, 20.03.2004).
“Na madrasa” (c.1900), por Ludwig Deutsch, um pintor orientalista nascido na Áustria, que se radicou em França e viajou regularmente pelo Egipto e Próximo Oriente
Preconceitos, estereótipos e equívocos do anti-orientalismo
As teses de Said e dos seus discípulos e continuadores enfermam de múltiplas fragilidades:
● A mais óbvia é que a visão superficial, estereotipada e sobranceira do Ocidente sobre o Oriente e, em particular sobre o mundo islâmico, não é, de forma alguma, específica do Ocidente, uma vez que o preconceito etnocêntrico é comum a todas as civilizações, como observou Heródoto. Esse preconceito é particularmente visível no mundo islâmico, como comprovam as considerações de Ibn Khaldun reproduzidas acima (ver também Civilização ocidental: O fardo do homem branco) e o desinteresse, ou até mesmo o desdém, dos intelectuais e governantes islâmicos pelo Ocidente e as considerações nada lisonjeiras de viajantes e eruditos islâmicos sobre a Europa, os seus habitantes e a sua cultura: Vendo bem, extinta a elitista e restrita “Movimento de Tradução” (ver capítulo “O que o Ocidente deve à Idade de Ouro da ciência árabe” em Civilização ocidental: Uma história de miscigenação), o único domínio em que o mundo islâmico e, em particular a sua principal potência, o Império Otomano, se esforçou por estar a par das criações europeias foi na tecnologia bélica e, mais precisamente, nas armas de fogo (ver capítulo “Uma relação assimétrica” em A Idade de Ouro da ciência árabe pt.3: Um longo sono).
● Outra objecção óbvia é que o imperialismo, o expansionismo e a subjugação de outras culturas não foram pecados exclusivos da Europa: o mundo islâmico também neles incorreu, tal como o chinês. É bom lembrar que o Império Otomano 1) Foi uma superpotência entre o século XV e o início do século XX; 2) Obteve apreciáveis ganhos territoriais na Europa, chegando a dilatar a sua soberania até ao coração do continente europeu; 3) Aspirou sempre a dilatar essas conquistas, só tendo começado a perder a iniciativa após o fracasso do segundo cerco a Viena, em 1683; 4) Mesmo no período de declínio, continuou a dominar uma vasta porção do continente europeu, e, em meados do século XVIII, ainda abrangia o que são hoje a Grécia, a Albânia, a Bulgária, a Roménia e a Moldávia, uma substancial percentagem do que viria a ser a Jugoslávia e parte da Hungria e da Ucrânia (incluindo a Crimeia).
O Império Otomano em 1739
● Por outro lado, o domínio imperial europeu no Oriente foi, na maioria dos casos, relativamente breve; os povos do Norte de África, do Próximo e Médio Oriente e do Cáucaso têm razões para se queixarem de terem vivido séculos sob domínio imperial, mas acontece que esses impérios foram quase todos de matriz oriental e de fé islâmica (ver capítulo “O que impede hoje a ciência islâmica de desabrochar?” em A Idade de Ouro da ciência árabe pt.3: Um longo sono).
● A acusação de que o Ocidente via o Oriente como um bloco homogéneo também é disparatada: embora o termo “orientalismo” diga respeito ao interesse por culturas que se estendiam de Marrocos ao Japão, tal não significa que os académicos e artistas “orientalistas” (ou os cidadãos comuns seduzidos pelo “exotismo” oriental) fossem incapazes de distinguir as substanciais diferenças existentes dentro desse vasto e muito diverso espaço geográfico.
“A parisiense japonesa”, por Alfred Stevens, pintado em 1872, numa altura em que o fascínio por tudo o que era japonês estava em voga nas classes possidentes da Europa Ocidental
● Said, que acusa o Ocidente de, no seu próprio interesse, ter criado uma visão dicotómica, essencialista e monolítica das civilizações, e, em particular da civilização oriental, acaba por cometer ele mesmo esse pecado, ao condensar o fluido e variegado conceito de civilização europeia num estereótipo tosco e imutável, cuja finalidade é servir de alvo às suas invectivas. Ou seja, Said acusa o Ocidente de “orientalismo” em termos que tornam evidente o seu simétrico e não menos reprovável “ocidentalismo”. Em Occidentalism: The West in the eyes of its enemies (2004), Ian Buruma & Avishai Margalit denunciam este pecado do ocidentalismo em termos cáusticos: “A visão do Ocidente pelo ocidentalismo é similar aos piores aspectos da sua contraparte, o orientalismo, que despoja os seus alvos humanos da sua humanidade. Alguns preconceitos orientalistas fizeram com que as pessoas não-ocidentais pareçam ser menos do que seres humanos plenamente maduros; têm a mente de crianças, pelo que, podem ser tratados como inferiores. O ocidentalismo não é menos redutor: a sua intolerância limita-se a inverter a perspectiva orientalista. Apoucar toda uma sociedade ou toda uma civilização como uma massa de parasitas desalmados, decadentes, ávidos de riqueza, desenraizados, ímpios e insensíveis é uma forma de destruição intelectual”.
● A tese defendida pelos académicos anti-orientalistas de que os académicos ocidentais forjaram o conceito de Oriente com o fito de justificar o imperialismo ocidental tem afinidades com a tese defendida por académicos americanos de que o conceito de civilização ocidental foi forjado na viragem dos séculos XX/XXI por académicos conservadores e nativistas americanos para persuadir a população dos EUA a apoiar o imperialismo americano, na medida em que ambas as teses reflectem a estreiteza de vista do seus autores, que tentam resumir a história universal ao limitado escopo dos seus interesses, rancores e circunstâncias.
● Said mostra-se particularmente agastado por os eruditos ocidentais terem tomado conta do discurso sobre o Oriente, apresentando-se como intérpretes exclusivos da “inescrutável” civilização oriental e fazendo desta uma “sacrossanta reserva académica”, quando seria óbvio que essa exclusividade deveria pertencer aos eruditos “orientais”. É um argumento onde pode ver-se, em embrião, a presente campanha do wokismo para reservar aos elementos de um determinado grupo identitário (definido com base civilizacional, étnica, sexual, etc.) a legitimidade para produzir pensamento e emitir juízos sobre assuntos que digam respeito a essa identidade. Mais prosaicamente, oeste argumento de Said também parece ser instigado pelo muito difundido fenómeno da “inveja académica”.
Cafeteira em estilo chinês fabricada na Áustria, c. 1720
● Uma das razões para a perspectiva ocidental sobre o Oriente se ter tornado dominante é o facto de os artistas, intelectuais e académicos do Oriente não terem feito o necessário trabalho de reflexão sobre a sua própria civilização. Esta vitória do Ocidente por “falta de comparência” ocorreu em muitos outros domínios do saber: enquanto, a partir do Renascimento, o Ocidente foi tomado por uma paixão pelo questionamento, pelo conhecimento e pela inovação, que o levou a tomar a dianteira nas artes, nas humanidades e nas ciências, na civilização islâmica – que é, quase sempre, o Oriente que Said tem em mente em Orientalism –, após o surto de paixão pelo conhecimento que ficou conhecido como “a Idade de Ouro da ciência árabe”, nos séculos VIII-XII, o movimento de regresso à pureza do Islão original (ou seja, a ascensão do fundamentalismo religioso) conduziu à repressão do questionamento e à estagnação intelectual (ver A Idade de Ouro da ciência árabe pt.2: Como um admirável progresso encontrou o declínio e A Idade de Ouro da ciência árabe pt.3: Um longo sono). Também as civilizações chinesa e indiana, em tempos mais sofisticadas e prósperas do que a civilização europeia, começaram a perder relevância no que toca à produção de conhecimento, mais ou menos pela altura em que o Ocidente ganhava uma dinâmica ascensional. A partir do início do século XVI, são quase exclusivamente ocidentais os nomes que trouxeram contributos relevantes para a matemática, a física, a química, a astronomia, a geografia, as ciências da vida ou a filosofia, ou que inventaram ou implementaram inovações em termos de tecnologia, processos industriais, produtos de consumo, engenharia civil, arquitectura, comunicações, logística, gestão, administração, etc., e só na segunda metade do século XX, as outras civilizações voltaram a assumir papel digno de menção. Se arrumarmos os laureados com o Prémio Nobel (que começou a ser atribuído em 1901) por nacionalidades, o primeiro país não-ocidental é o Japão, que surge em 6.º lugar, com 30 Prémios Nobel (datando o primeiro de 1949); o segundo país não-ocidental, a Índia, só surge em 18.º lugar, com 13 Nobel (os mesmos que Israel). Claro que haverá quem alegue que os Prémios Nobel são atribuídos por instituições do cis-heteropatriarcado branco e que, por esse motivo, favorecem escandalosamente cientistas, pensadores e escritores do cis-heteropatriarcado branco. Não só este argumento é destituído de fundamento como pode ainda apontar-se que entre os Prémios Nobel atribuídos a não-ocidentais na área das ciências, boa parte dizem respeito a cientistas que fizeram a parte mais relevante da sua carreira no Ocidente (e também que o Japão pós-1945 faz parte do mundo ocidental do ponto de vista das instituições e dos valores, ainda que seja geograficamente oriental).
● A constatação de que numerosos tantos cientistas, pensadores e criadores não-ocidentais terem escolhido o Ocidente para viverem e trabalharem também se aplica, ironicamente, a figuras proeminentes do discurso “anti-orientalista”, nomeadamente a Edward Said e Hamid Dabashi: nasceram no mundo islâmico mas radicaram-se no Ocidente, onde desempenharam (ou desempenham) cargos académicos de prestígio, devotados em boa parte a denunciar a malevolência e imperialismo do Ocidente. Será que alguma vez se deram conta de que as suas opções de vida infirmam o seu discurso?
“O Oriente e o Ocidente” (1854), pelo belga Nicaise de Keyser
A civilização ocidental como flagelo planetário
No final do século XX, nos meios académicos do Ocidente, e em particular nos departamentos de humanidades das universidades americanas, o discurso anti-orientalista de Said e de outros académicos uniu-se à repugnância do neomarxismo pela sociedade burguesa e capitalista do Ocidente, às teses incendiárias dos sectores radicais do movimento pelos direitos cívicos dos afro-americanos e às recriminações dos sectores radicais do feminismo e do movimento LGBTQ+ (que, à data, ainda não tinha esta designação), e, num ambiente intelectual herdeiro do pós-estruturalismo, que favorece os “raciocínios pouco vigiados, a logorreia críptica e a ideia de que os factos não existem e tudo é narrativa” (ver O wokismo: A ideologia que nasceu na universidade para se espalhar pelo mundo), deu origem ao wokismo. Este foi ganhando força nos departamentos de humanidades, mas a maioria da população só deu pela sua existência na segunda década do século XXI, com a ascensão das redes sociais, que se revelaram o caldo de cultura perfeito para a multiplicação e disseminação das teses radicais e reivindicações absurdas do wokismo e para pôr a prática a “cultura de cancelamento” a que recorrem para silenciar as vozes com que discordam (ver “Somos perfeitos sem ter de fazer nada”: O wokismo e as redes (ditas) sociais).
O Tio Sam e John Bull “unidos na defesa da civilização e da paz”: cartoon de Louis Dalrymple na revista satírica americana Puck de 8 de Junho de 1898
O wokismo tem vindo a conduzir uma reinterpretação e reapreciação radical da história, de forma a dar à civilização ocidental o papel de vilã das relações internacionais dos últimos cinco séculos, por vezes mesmo dos últimos 25 séculos, se se contabilizarem os expansionismos grego e romano na Antiguidade Clássica como primeiras manifestações da pulsão inata dos europeus – e só dos europeus – para conquistar, pilhar, subjugar, escravizar, explorar, oprimir e catequizar outros povos (ver capítulo “O fardo do homem branco vs. A culpa do homem branco” em O que o mundo moderno deve à exploração de África e dos africanos).
“Só pode mesmo ser um Bom Ano: O Tio Sam e o seu primo inglês repartem o mundo entre si”: cartoon de Victor Gillam na revista satírica americana Judge de 7 de Janeiro de 1899
A aceitação generalizada de que a versão tradicional da história das civilizações estava excessivamente centrada na Europa não satisfez os activistas woke nem apaziguou a “cultura do ressentimento” e, muito rapidamente, começaram a surgir reivindicações e proclamações descabeladas vindas de 1) países e organizações o mundo não-ocidental que prtendem ser ressarcidas por séculos de colonialismo, extractivismo e esclavagismo (ver Escravatura: Culpa, ressentimento e histórias mal contadas); de 2) grupos identitários que fazem parte do mundo ocidental e entendem ter sido discriminados e oprimidos durante séculos; e de 3) académicos, activistas e académicos-activistas de todo o mundo, ocidental ou não. A vontade de reparar séculos de “injustiças históricas” cometidas pelo “cis-heteropatriarcado branco” degenerou num zelo revisionista, vingativo, fanático e de ambições totalitárias, que, no século XXI, tem vindo a fomentar um insuflamento desproporcionado do papel das “vítimas” do “cis-heteropatriarcado branco” (um exemplo deste revisionismo histórico foi abordado no capítulo “O infante D. Henrique negro?”, em Civilização ocidental: Uma história de miscigenação). Curadores, críticos de arte, historiadores, académicos e jornalistas, esquecidos das obrigações de objectividade e imparcialidade inerentes às suas profissões e rendidos ao activismo, entregam-se a contorcionismos retóricos e à distorção de factos a fim de enaltecer os méritos e feitos de figuras secundárias e a empurrar para a ribalta culturas letárgicas e marginais, tomando lendas por factos e colmatando o muito pouco que se sabe sobre elas com farfalhudas fantasias e desvairadas especulações.
Próximo artigo da série: Civilização Ocidental: Um conceito volátil