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Com Ronaldo, príncipe herdeiro regressa à Arábia Saudita com caças F-35 e uma aliança cada vez mais forte com os EUA

Após assassínio de jornalista crítico do regime, coroa saudita soube limpar imagem e assinou acordo de defesa com Trump — e vai comprar os poderosos caças F-35. Arábia é agora "grande aliada" de EUA.

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Uma vitória diplomática e geopolítica. A ida do príncipe herdeiro Mohammed bin Salman a Washington esta terça-feira revelou-se muito frutífera para a coroa saudita. A monarquia do Golfo Pérsico procurava assinar vários acordos, em particular na área da Defesa, e foi bem-sucedida. A ofensiva de charme que contou Cristiano Ronaldo, o capitão da Seleção Nacional, alcançou os objetivos pretendidos. A Arábia Saudita ganhou o estatuto de “grande aliada” dos Estados Unidos da América (EUA) fora da NATO e assinou um contrato que lhe permitirá comprar caças F-35 e tanques norte-americanos.

Recebido na Casa Branca, Mohammed bin Salman, o filho do rei Salman que herdará o torno saudita, teve uma receção ao mais alto nível. Foi recebido como um chefe de Estado (apesar de não o ser) e foi o principal convidado num jantar de gala, em que vários multimilionários e membros próximos da administração Trump marcaram presença. Foi a oportunidade perfeita para fazer negócios — algo que sempre satisfaz o Presidente norte-americano — e consolidar o estatuto da Arábia Saudita como um aliado preferencial da presidência dos EUA.

Desde 2018 que Mohammed bin Salman não pisava solo norte-americano, mesmo sendo um “amigo” para Donald Trump e até da administração Biden. Isto porque, naquele ano, a reputação da monarquia saudita ficou manchada por um escândalo: a morte do jornalista crítico do regime, Jamal Khashoggi. As agências de informações dos Estados Unidos concluíram, em 2021, que foi uma morte politicamente motivada — e que foi ordenada diretamente pelo príncipe herdeiro.

▲ Jamal Khashoggi, o jornalista crítico do regime e que as agências secretas norte-americanas dizem que foi morto por Mohammed bin Salman

ERDEM SAHIN/EPA

A Arábia Saudita entrou numa fase de contenção de danos. A morte do jornalista veio prejudicar a imagem que o país estava a tentar descolar-se: a de que é uma nação fundamentalista islâmica, uma teocracia onde os Direitos Humanos não são respeitados e onde ainda vigora a sharia, a lei islâmica. Megaprojetos económicos, megacidades no deserto e até a projeção no futebol internacional com equipas cada vez mais fortes e a presença de Cristiano Ronaldo na liga saudita: tudo isto tentava melhorar a imagem internacional da monarquia do Golfo Pérsico.

Jamal Khashoggi, o jornalista que desapareceu sem deixar rasto: “O príncipe saudita quer pessoas como eu fora do seu caminho”

O soft power saudita foi dando os seus frutos e o mundo parecia esquecer-se da faceta mais negativa do regime. É certo que o 7 de Outubro veio mudar as dinâmicas no Médio Oriente — e Riade tentou manter-se alinhada com o Ocidente, mesmo deixando duras críticas a Israel. Mas a monarquia saudita nunca deixou de tentar chegar a um acordo de paz e viu a sua animosidade histórica com o Irão (que montou o Eixo de Resistência — Hamas, Hezbollah e Houthis) dar-lhe alguma credibilidade, juntamente com a sua postura pragmática e moderada.

Com paciência e consistência, a Arábia Saudita foi limpando a sua imagem: vai acolher o Mundial de Futebol de 2034 e a Expo 2030 em Riade. Tornou-se um polo de investimentos no Médio Oriente. E está cada vez mais poderosa em termos militares. A coroa saudita tem outras ambições, em particular com os Estados Unidos; mas o que ficou definido esta terça-feira foi um passo significativo.

epa12533994 US President Donald Trump greets Saudi Crown Prince Mohammed bin Salman at the White House in Washington, DC, USA, 18 November 2025.  EPA/NATHAN HOWARD  / POOL

▲ Mohammed bin Salman recebido por Donald Trump na Casa Branca

NATHAN HOWARD / POOL/EPA

A limpeza de imagem da Arábia Saudita bem sucedida

Um dos objetivos com esta visita a Washington era perceber se a ofensiva de charme tinha resultado. Havia bons indícios de que a presidência norte-americana já tinha esquecido a morte de Jamal Khashoggi, ainda para mais com uma presidência que já demonstrou por várias vezes que coloca a realpolitik e a as oportunidades de negócio por cima dos Direitos Humanos.

Numa conferência de imprensa na Sala Oval, um terreno sempre pantanoso para os líderes estrangeiros, isso ficou bem patente. Ao lado do príncipe herdeiro, Donald Trump realçou a aliança entre os dois países e os investimentos que a Arábia Saudita prometia fazer nos Estados Unidos — que podem chegar a 20 biliões de dólares (cerca de 17,3 biliões de euros). O assunto do jornalista morto parecia estar encerrado.

Isto até uma jornalista da ABC News ter feito a questão. O príncipe herdeiro ficou constrangido e percebeu que o assunto até podia ser esquecido para a presidência — mas não para os meios de comunicação social. Donald Trump saiu imediatamente em defesa de Mohammed bin Salman, salientando que a repórter Mary Bruce estava a “embaraçar o seu convidado”: “Fizeste uma pergunta horrível e és uma pessoa horrível”.

“Está a embaraçar o meu convidado.” A pergunta que incomodou Trump e o príncipe herdeiro saudita na Sala Oval

Sobre o jornalista saudita assassinado em Istambul em 2020 por ordens (segundo as secretas norte-americanas) de Mohammed bin Salman, o Presidente norte-americano apenas disse que Jamal Khashoggi foi uma pessoa “controversa”. “Muitas pessoas não gostaram desse homem. As coisas acontecem. Ele [Mohammed bin Salman] não sabe nada disso. Tem feito um trabalho excecional.”

Mesmo depois de ter sido apoiado e de Donald Trump ter feito uma reprimenda à jornalista da ABC News, Mohammed bin Salman também se pronunciou sobre o assunto que sempre lhe foi incómodo. Disse que se tratou um evento “doloroso” e que as autoridades sauditas investigaram o sucedido. “Foi um grande erro”, concedeu o príncipe herdeiro. “Melhorámos o nosso sistema para garantirmos que nada como isto acontece outra vez. Estamos a fazer o nosso melhor para que não aconteça outra vez.”

A questão foi incómoda, como se viu pela linguagem corporal e pela cara de Mohammed bin Salman. Mas a pergunta acabou por se converter numa certeza para o príncipe herdeiro: a morte de Jamal Khashoggi são águas passadas para Donald Trump. O assunto deixou de ser um fardo nas relações entre a Arábia Saudita e os Estados Unidos da América.

“Melhorámos o nosso sistema para garantirmos que nada como isto acontece outra vez. Estamos a fazer o nosso melhor para que não aconteça outra vez."
Mohammed bin Salman, príncipe herdeiro saudita

Dúvidas sobre os F-35? Bin Salman conseguiu convencer Trump

Há muito tempo que os sauditas querem comprar os poderosos caças F-35; afinal de contas, é uma das aeronaves mais eficazes do arsenal norte-americano. Os Estados Unidos ponderavam sobre se deveriam vendê-las à Arábia Saudita e existiam várias variáveis em jogo.

Por um lado, o Governo israelita (que também os adquiriu no passado) demonstrou a sua oposição à venda: as Forças de Defesa de Israel (IDF, sigla em inglês) temem perder a superioridade aérea no Médio Oriente que os caças F-35 lhes providenciavam. Ainda que as relações com a Arábia Saudita estejam longe de ser tão más como com o Irão, Telavive continua a não confiar plenamente em Riade.

Por outro lado, segundo avançou o New York Times, um relatório dos serviços secretos do Pentágono alertou para a possibilidade de Pequim poder obter a tecnologia dos caças. A Arábia Saudita tem um acordo na área da Defesa com a China e há riscos de que espiões chineses consigam, em território saudita, ter acesso às especificidades técnicas dos F-35.

epa11456489 An Israeli F-35 aircraft flies over south Lebanon as seen from northern Israel, 04 July 2024. One day after the death of Muhammad Neamah Naser, the commander of the Hezbollah organization’s Aziz Unit, in an Israeli strike on southern Lebanon, the Israeli army reported on 04 July that its fighter jets struck more Hezbollah targets, including a military structure in the area of Chihine and three infrastructure sites in the area of Blat. In addition, more than 100 launches fired from Lebanon were identified, they added.  EPA/ATEF SAFADI

▲ As aeronaves F-35

ATEF SAFADI/EPA

O Presidente norte-americano ignorou estes riscos e deu luz verde à compra de caças pela Arábia Saudita, o que agradou a Mohammed bin Salman. Sobre as reservas israelitas, na conferência de imprensa, Donald Trump não fez distinção entre os dois países: “Israel é um grande aliado. A Arábia Saudita é um grande aliado”. O chefe de Estado sugeriu que Telavive até vai “ficar feliz” com este acordo.

Oficialmente, a Casa Branca justificou a venda como uma forma de “fortalecer a base industrial da defesa dos EUA” e também para “garantir que a Arábia Saudita continua a comprar [produtos] norte-americanos”. E o acordo não se ficou por aqui. “O Presidente assegurou um acordo para a Arábia comprar cerca de 300 tanques norte-americanos, permitindo a Arábia Saudita fortalecer as suas capacidades defensivas e permitir salvaguardar centenas de empregos norte-americanos.”

Acordos de Abraão. Príncipe herdeiro não fecha a porta, mas antes quer criação de Estado palestiniano

Há um grande desejo dos Estados Unidos da América para o futuro do Médio Oriente: que mais países se juntem aos Acordos de Abraão, uma herança da primeira administração Trump. Neste momento, os Emirados Árabes Unidos, o Bahrein, Marrocos e o Sudão integraram o leque de Estados de maioria islâmica que concordaram juntar-se à iniciativa de estabelecimento de relações diplomáticas com Israel. O Cazaquistão — apesar de não ser parte da região do Médio Oriente — foi o último país a juntar-se.

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▲ Mohammed bin Salman no jantar de gala ao lado de Donald Trump

Bloomberg via Getty Images

Ora, para Trump seria uma grande notícia se Riade integrasse os acordos de Abraão. Enquanto país que alberga as cidades sagradas para o islamismo (Meca e Medina), a Arábia Saudita é considerada um líder regional e religioso, em particular para os sunitas, no Médio Oriente. Poderia ser o primeiro passo para que outros países — que continuam com dúvidas se devem ou não estabelecer relações diplomáticas com Israel — avancem nesse sentido.

Por agora, o príncipe herdeiro não fechou a porta a essa hipótese. Na conferência de imprensa, Mohammed bin Salman viu com bons olhos os Acordos de Abraão, desejando a “paz” no Médio Oriente. Mas fez depender de uma condição: o estabelecimento de um Estado Palestiniano. Antes de estabelecer relações diplomáticas com Israel, sublinhou o príncipe herdeiro, é preciso “trabalhar na solução de dois Estados”.

“Tivemos uma discussão boa. Vamos trabalhar nisso”, confirmou também Donald Trump. No entanto, o Governo israelita voltou a frisar há dias que não vai permitir a criação de um Estado Palestiniano, o que pode frustrar a inclusão de Riade nos Acordos de Abraão.

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▲ Bin Salman ainda não se comprometeu com o reconhecimento do Estado de Israel

Bloomberg via Getty Images

Arábia Saudita quer mais do que um Estado Palestiniano: deseja um acordo de defesa mútua com os EUA

De qualquer modo, mais além da Palestina, a diplomacia saudita nunca escondeu a sua principal finalidade na relação com os Estados Unidos: um acordo de defesa mútua. O que quer isto dizer? Que em caso de ataque a território saudita, os EUA teriam a responsabilidade de defender o país, tal como acontece se um Estado-membro da NATO for atacado.

Os Estados Unidos ainda não se comprometeram com esse acordo. Contudo, tem circulado a informação de que a defesa mútua poderia ser a moeda de troca para a Arábia Saudita se juntar aos Acórdãos de Abraão. Mas nunca passou de um rumor: nem o príncipe herdeiro, nem Donald Trump confirmaram essas informações. Para já, Mohammed bin Salman faz depender da criação de um Estado Palestiniano.

Esta terça-feira, ainda assim, a coroa saudita ganhou um trunfo. Entre os aliados dos Estados Unidos foi elevada a “grande aliada” fora da NATO. Nessa categoria estão mais 20 países, incluindo a Jordânia, o Egito e o Paquistão. O anúncio foi feito por Donald Trump no jantar de gala oferecido esta terça-feira: “Esta noite, tenho o prazer de anunciar que vamos elevar a nossa cooperação militar a um patamar ainda mais elevado, designando formalmente a Arábia Saudita como grande aliada fora da NATO”.

▲ Donald Trump concordou em elevar o estatuto da Arábia Saudita para "grande aliado" fora da NATO

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Esta designação tem efeitos práticos: significa que a Arábia Saudita vai passar a beneficiar de privilégios económicos e militares nas relações com os Estados Unidos. Fica obviamente de fora o acordo de defesa mútua, mas Riade já obtém alguns benefícios por ser catalogada como uma “grande aliada”. Os sauditas adjetivaram esse novo estatuto como um “passo significativo rumo a uma parceria estratégia abrangente”.

Nessa parceria, também haverá espaço para a energia nuclear. No documento divulgado pela Casa Branca, há uma referência a um acordo “que servirá como a base legal para uma parceria que durará décadas e que vale mil milhões de dólares”. “Confirma-se que os Estados Unidos e as empresas norte-americanas manterão a cooperação civil e nuclear e garante-se que toda a cooperação será conduzida de forma consistente nos padrões mais fortes de não-proliferação.”

O benefício para os Estados Unidos? O dinheiro saudita

Ao lado do Presidente norte-americano na conferência de imprensa, o príncipe herdeiro assegurou que a Arábia Saudita investirá um bilião de dólares (cerca de 867 mil milhões de euros) na economia norte-americana. Além de todo o charme e do soft power, esta também foi uma maneira de cativar a atenção de DonaldTrump— que nunca deixou de parte a sua veia empresarial, mesmo na presidência.  

Riyadh skyline, financial district seen along King Fahd Road, Riyadh, Saudi Arabia

▲ O centro financeiro de Riade, a capital da Arábia Saudita

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De acordo com a Casa Branca, os investimentos sauditas na economia norte-americana incidirão sobre várias áreas: “Infraestrutura, tecnologia e indústria”. Os negócios também ocorrerão na área dos “minerais e da inteligência artificial. “Vão criar empregos bem pagos para os norte-americanos, fortalecer a liderança tecnológica e proporcionar retornos massivos para os trabalhadores e famílias norte-americanos nas próximas décadas”, assegura a Casa Branca.

Em paralelo, serão feitos acordos com as grandes tecnológicas norte-americanas. Contudo, o valor que os sauditas prometeram investir é apenas um compromisso — não uma obrigação. Como nota a Reuters, será difícil para a economia saudita conciliar os investimentos nos Estados Unidos com os megaprojetos que tem em andamento, como as cidades no meio do deserto ou o Mundial de futebol de 2034.

O príncipe herdeiro vai voltar a Riade com vários êxitos para apresentar à população. O país que outrora foi ultraconservador e fundamentalista está a modernizar-se, ainda que a Arábia Saudita continue a ser uma monarquia absoluta teocrática, onde a sharia ainda vigora. Mohammed bin Salman entendeu o poder do soft power (usando em parte o futebol para isso), apostou num forte marketing e soube como cativar Donald Trump. E a coroa saudita não deverá ficar por aqui, sonhando com o acordo de defesa mútua com os EUA.

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