O encontro inusitado com Jorge Pinto, candidato apoiado pelo Livre, no mercado de fruta das Caldas da Rainha, foi mais revelador do dilema em que mergulhou a Iniciativa Liberal do que seria de esperar. Depois de uma troca simpática de palavras, Pinto provocou-o e sugeriu que João Cotrim de Figueiredo estava a usar estas presidenciais como rampa de lançamento para voltar, um dia, à presidência da IL. Cotrim fez então uma aposta: se ao fim de dois anos não for líder dos liberais, Jorge Pinto terá de lhe pagar um almoço em Amarante.
O prazo temporal é curioso. O facto de Cotrim não ter dito “jamais” deixa os liberais a fazer contas de cabeça. Recorde-se que o mandato de Mariana Leitão como presidente da IL dura mais um ano e meio. O mandato de João Cotrim de Figueiredo como eurodeputado dura mais dois anos e meio. Se não houver crises e este governo de Montenegro for até ao fim do mandato, as próximas eleições legislativas serão daqui a três anos. Pode nada disto ter estado na cabeça do liberal quando respondeu com uma graça a uma provocação do adversário. Mas, para memória futura, ficou o facto de Cotrim não ter dito “nunca“.
A menos que algo de muito estranho venha a acontecer no dia 18 de janeiro, Cotrim vai provar, outra vez, que vale mais do que a Iniciativa Liberal. Foi assim nas europeias e, passando ou não à segunda volta, será assim nas presidenciais. E esta sombra pode vir a ser um problema para Mariana Leitão, tal como foi para Rui Rocha: na IL como noutros partidos, é muito difícil um líder partidário aguentar viver com esta sombra; e nenhum movimento político consegue sentir que está à beira de um resultado histórico e depois contentar-se com resultados em legislativas na ordem dos 5%.
Mais: quem, no lugar de João Cotrim de Figueiredo, regressaria à tecnocracia de Bruxelas com 15 ou 20% de votação na bagagem para os deixar esquecidos num cacifo lúgubre do Parlamento Europeu sem pensar que poderia estar a ser verdadeiramente determinante a fazer política doméstica? Também é significativo que, no início desta semana, quando desafiado pela RTP a dizer qual tinha sido o maior erro político que já cometera, tenha dito: “Revisitaria a minha saída da liderança da IL”.
▲ As figuras da IL misturam-se no meio dos outros apoiantes. Liliana Reis, ex-deputada da AD, é que está sempre ao lado do candidato nas ações de campanha
Maria João Gala
A eterna dúvida: até onde teria chegado a IL, se Cotrim tivesse ficado
João Cotrim de Figueiredo justificou sempre o seu afastamento da liderança da IL com a necessidade de mudança de rostos para o novo ciclo político, que era de maioria absoluta de António Costa, e com a alegada maior capacidade de Rui Rocha para falar com o povo e não apenas com as elites — e que se traduziu num crescimento eleitoral muito reduzido. Rui Rocha acabou por se demitir depois de ir duas vezes a votos com crescimentos marginais e sem real poder de influência junto da AD.
Quando Cotrim fala em “erro” é mais a constatação de um lamento do que um arrependimento. Continua a achar a decisão correta com os dados que tinha na altura, porque ninguém previa que a maioria absoluta de Costa se esfumasse abruptamente, mas basta olhar para o crescimento do Chega nas últimas duas eleições para perceber que perdeu duas oportunidades para fazer da IL um partido com mais influência e poder de decisão.
A tracking poll da CNN tem mostrado uma tendência de crescimento que já o dá em segundo lugar nas intenções de voto, com 20%. Seria mais do que duplicar a sua votação recorde nas europeias e quadruplicar a votação da IL nas legislativas. A luta pela ida à segunda volta será sempre voto a voto e ainda pode haver um tombo na percentagem final.
Mas, como o próprio Cotrim disse nos discursos de Gaia, na quinta-feira, e de Lisboa, neste sábado, já se considera um vencedor: “Ninguém nos tira ser a única candidatura que cresceu sempre nas sondagens, nas ruas, nas redes sociais. É a única que transcende em muito a área política do candidato, enquanto outros nem cativam metade do eleitorado do partido que os apoia”.
A ausência das figuras da IL nos comícios e a discordância com Rocha
O cartaz de Cotrim com Liliana Reis, antiga deputada do PSD e figura omnipresente na campanha do liberal, e a frase “Votei AD mas agora voto Cotrim” é a metáfora visual perfeita para ilustrar o que a candidatura tem feito nesta corrida. Este e outros cartazes foram muito provavelmente concebidos, fotografados, distribuídos e afixados por pessoal da Iniciativa Liberal. Mas o partido está a ser riscado da fotografia pelo seu próprio ex-líder.
Não é um acaso, porque é deliberadamente planeado. Não é ingratidão, porque há valores mais altos em jogo. Não tem sido problemático, porque há um entendimento tácito entre a candidatura e a IL. Cotrim não teria qualquer hipótese se ficasse pelos 5% que valem os liberais nas legislativas, ou mesmo pelos 9% que valeu nas europeias em que avançou como cabeça de lista.
No fim do encontro na Liga dos Combatentes na terça-feira, perguntaram a Cotrim de Figueiredo o que achava de um desafio lançado por Rui Rocha a Luís Montenegro, para que convencesse Marques Mendes a desistir da corrida. Cotrim descartou-se logo da posição do ex-presidente da IL: “Conheço muito bem o Rui Rocha, por quem eu tenho um grande apreço. Permita-me não comentar as posições do deputado”. Quando os jornalistas insistiram se não subscrevia esse apelo, foi taxativo: “Não, porque é que eu devia fazer isso?”
Mariana Leitão, a líder do partido, apareceu apenas num comício, no domingo dia 4. Carlos Guimarães Pinto, segundo presidente da IL e antecessor de Cotrim no cargo, costuma ser um dos mais empolgantes oradores em comícios do partido. No jantar da candidatura em Gaia, não só não discursou, como nem foi visto no restaurante.
A parte mais significativa dos apoiantes que o esperam nas visitas são da Iniciativa Liberal, dos núcleos locais, ou candidatos às últimas autárquicas. A IL terá menos de dez figuras mais ou menos conhecidas: podem ir assistir a uma ou outra ação de campanha, mas misturam-se no meio dos outros apoiantes, com alguma distância — não é suposto andarem colados a ele, quando presta declarações, por exemplo; menos ainda serem chamados ao palco para discursos. Não acrescentam votos nesta altura em que é fundamental chegar a outros partidos.
Não é apenas nos cartazes e nas deslocações no terreno que a IL ficou de fora. Na terça-feira, João Cotrim de Figueiredo visitou a Liga dos Combatentes e levou a acompanhá-lo na delegação para se sentar à mesa Liliana Reis, Paulo Sande, antigo consultor de Marcelo em Belém e candidato do Aliança (de Santana Lopes) às europeias de 2019, e Henrique de Freitas, ex-secretário de Estado da Defesa de governos AD, ex-deputado do PSD e ex-deputado do Chega, de onde se desfiliou há dois meses. Ninguém da IL.
Para alargar essa base inicial e ter hipótese de sonhar com a segunda volta, seria preciso dar como adquiridos os votos da IL e lançar todo o charme para seduzir eleitores da AD, onde podem crescer. A escolha de José Miguel Júdice para mandatário encaixa nessa estratégia. Neste duelo muito particular contra Marques Mendes, o silêncio de Passos Coelho tem sido apontado por Cotrim como significativo, por ser um ex-líder do PSD a não apoiar o candidato do partido.
Nos bastidores da candidatura de Cotrim, lamenta-se, aliás, a quantidade de figuras com notoriedade que lhes transmite apoio em privado, mas se inibe de o fazer em público, para não comprometer o futuro político ou profissional. Este domingo, no mercado de Setúbal, foi abordado por cinco militantes do PSD a transmitir-lhe. Um deles, de Palmela, disse-lhe que havia mais militantes que iam votar nele, mas não assumiam por terem medo de represálias. Cotrim não deixou passar em claro: “Deixem as pessoas escolher livremente. Espero que não haja uma manobra mais ou menos orquestrada para pressionar pessoas que sejam militantes notórios do partido em várias regiões para não votarem noutros candidatos. Em mim ou noutro qualquer.”
▲ O candidato fez subir ao palco os quatro filhos e os quatro netos no fim do comício de sábado, onde a filha discursou
LUSA
O “prazer da campanha” e as circunstâncias que mudam
Cotrim aprendeu entretanto que já não há nuncas. Ainda há um ano estaria longe de se imaginar nesta corrida à Presidência, deu entrevistas a dizer que não tinha perfil para este cargo — que têm sido amplamente usadas pelos adversários para o atacar — para agora ter de admitir que mudou: “Não me parece que possam dizer que eu faço a campanha contrariado ou que estou a correr para um cargo que não desejo cumprir. Como muitas vezes acontece na vida, os objetivos que nós temos vão mudando em função também das circunstâncias e do que está em causa”.
Duas expressões-chave a reter: “prazer na campanha” e “circunstâncias”. Cotrim ainda guarda mazelas dos seus tempos a liderar a IL e a confrontar-se com os problemas de gestão diária de um partido. Regressar aí está muito longe do seu horizonte neste momento. Mas o prazer em fazer campanha é evidente a cada par de miúdos que se aproxima para o idolatrar, a cada ex-combatente que lhe vai dar apoio, a cada idosa cujo voto conquista. E deve ser difícil viver sem isto muito tempo depois desta corrida.
“Minha querida, conte-me a sua vida”. O speed-dating de Cotrim para caçar votos das idosas nos lares
As circunstâncias vão estar sempre aí, a cada nova eleição. Ninguém pensou como gerir a situação melindrosa e desconfortável em que ficaria a atual presidente, Mariana Leitão, mas, na cúpula da IL, existe a noção de que pode surgir internamente a pressão da inevitabilidade, de tentar não desperdiçar um ativo político destes — e tirar a limpo afinal até onde conseguem chegar se o agora candidato a Belém voltar à liderança do partido. Se Cotrim estiver para isso e esse momento chegar, logo se verá como se gere a eventual substituição. Como diz um elemento da IL, “não se pode parar o vento com as mãos”.
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