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O candidato à Presidência da República, João Cotrim Figueiredo, visita a Academia Cultural e Social de Maceira, Leiria, 7 de janeiro de 2026. Marcelo Rebelo de Sousa em 18 de janeiro, numas eleições com recorde (11) de candidatos e cuja segunda volta, a realizar-se, decorrerá a 08 de fevereiro. PAULO CUNHA/LUSA
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PAULO CUNHA/LUSA

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"Minha querida, conte-me a sua vida". O speed-dating de Cotrim para caçar votos das idosas nos lares

O candidato Liberal e campeão do eleitorado jovem está a dar tudo para tentar chegar à segunda volta — o que inclui transformar-se num conquistador do voto de senhoras idosas nos lares. 

Há 26 anos, Paulo Portas desatou a ir a mercados à procura de eleitores para o seu CDS. Acabou batizado como “Paulinho das feiras”. Portas ponderou candidatar-se nestas presidenciais e não avançou, mas um dos candidatos ideologicamente mais próximos do antigo vice-primeiro-ministro arrisca-se agora a ficar conhecido como o “Joãozinho dos lares”. É que Cotrim Figueiredo está mesmo a fazer tudo para tentar alargar as fronteiras da Iniciativa Liberal.

Ao terceiro lar que visitou na campanha, a pedido da direção da instituição para cumprir as normas da DGS, Cotrim Figueiredo teve de voltar a usar uma máscara, como no tempo da pandemia, para diminuir o risco de saúde para os idosos. Podia ser uma chatice para qualquer político em campanha: tapa o rosto, diminui a hipótese de ser reconhecido, dificulta ainda mais os dois beijinhos e as conversas. Para um candidato tão físico no contacto com os eleitores, podia ser um condicionamento ainda mais irritante. Mas Cotrim Figueiredo disfarçou bem.

Sempre que se acercava, o liberal baixava a máscara, perguntava às idosas se podia dar dois beijinhos, exibia o seu sorriso branqueado e iniciava a sedução: “Minha querida, como é que se chama?” “Sente-se aqui e eu fico honradamente à sua direita. Vamos falar de quê? Conte-me coisas da sua vida. Nasceu onde?” “E o seu marido?” “Como é que se conheceram?”

E ficava a ouvir. Histórias adoráveis, como aquela que misturava amor e carrinhos de choque na feira de Leiria, parecendo genuinamente interessado na sequência, enquanto fazia festas no rosto e segurava a mão da idosa. “Que idade têm as filhas agora? O que é que fazem?” “Obrigado por partilhar a história da sua vida toda. Com excelente memória. E levo essa história dos carrinhos de choque do seu primeiro marido. Um beijinho, obrigado minha querida, tudo de bom, bom ano e continue com essa boa disposição”.

“Tem 93 anos?? Não é possível”, espanta-se, à despedida, quando ouve a idade da senhora, sem nunca perder a oportunidade para mais um galanteio, um charme, uma graça, a encher de atenções a potencial eleitora, que se sente por alguns instantes no centro do mundo. Noutro lar, em Santarém, na segunda-feira, para outra idosa a quem também se dirigiu como “minha querida”: “Morreu há quanto tempo o seu marido?” “Toda uma vida juntos e agora fica sozinha.” “Só posso imaginar”.

A maior parte dos apoiantes de Cotrim Figueiredo já nasceu depois de em 1998 ter surgido o primeiro evento de speed-dating e talvez não saiba bem o que é. Já terá passado de moda. Juntava vários aspirantes a encontrar companheiro ou companheira numa mesa, fazendo-os rodar de interlocutor para conhecerem e tentarem seduzir várias pessoas.

Tirando a diferença importante de Cotrim estar à procura de votos e não de uma noiva, é mais ou menos o que acontece quando o candidato entra num lar. Dez, 15, 20 conversas seguidas de tentativa de sedução, a mostrar simpatia e empatia, mesmo que algumas conversas sejam mais difíceis por lhe fazerem lembrar o pai, recentemente falecido, ou a mãe, já de idade avançada.

“Há uma natural e muito humana maior resistência à mudança com a idade mais avançada. Pela minha própria idade eu devia ter mais facilidade a apelar à terceira idade do que às idades mais precoces. Mas é o que é”, reconhece João Cotrim Figueiredo

A importância do anfitrião que o guia pelos idosos nos lares

Como qualquer caçador de votos que se preze, João Cotrim Figueiredo — que entrou tarde na política — tornou-se muito rápido a ler as pessoas. Percebe logo o máximo que vai conseguir tirar do contacto com cada eleitor. “Eu não nego que estou em campanha eleitoral. Não nego que um candidato tem como principal objetivo prático conquistar votos. O que eu recuso é a teoria de que as prioridades que um candidato defende para a sua candidatura sejam especificamente dirigidas a uma faixa etária”, afirmou no fim de uma dessas visitas.

Os idosos são particularmente arriscados: percebem mal, alguns já estão quase surdos (teve de gritar “as melhoras” para uma senhora o compreender), têm dificuldades naturais a falar, não se entendendo bem o que muitos dizem. O raciocínio pode já não estar apurado e podem ter reações imprevisíveis. São um teste para qualquer candidato, que está a ser filmado e fotografado de todos os ângulos neste tipo de ação de campanha.  É para isso fundamental ter sorte com o anfitrião ou anfitriã, que recebe o candidato à porta e o guia pelos idosos, apontando o nome, alguma particularidade que ele possa usar na conversa ou mesmo o interesse específico que alguma utente tenha manifestado em o conhecer.

Durante a maior parte da sua vida, João Cotrim Figueiredo terá tido horror a profissionais da política e a políticos profissionais. Nesta campanha presidencial, está a tentar ser o candidato mais profissional de todos, aplicando técnicas do mundo empresarial: definição clara de objetivos, planeamento, monitorização permanente dos dados, reavaliação constante de estratégia, identificação de mercados potenciais para crescer, noções de vendas e inovações no marketing (como se nota nas redes sociais).

Em teoria, já não consegue crescer mais no eleitorado jovem, onde, segundo as sondagens, tem sido o candidato preferido. A maior fragilidade do candidato é mesmo junto do eleitorado mais sénior, onde está atrás dos rivais do top cinco. Resta-lhe, portanto, ir ter com os eleitores mais seniores onde eles estão para expandir o mercado eleitoral e conquistar esses novos clientes.

É assim que se explica que só nestes primeiros dias de campanha até esta quinta-feira tenha feito quatro visitas a lares ou associações de idosos (Loulé, Santarém, Maceira e Vagos), mais um encontro com a Liga dos Ex-Combatentes (também de idade avançada, naturalmente) e uma ida a Pedrógão Grande, numa zona interior com muitos idosos na população. Além da ida à Universidade Sénior de Matosinhos nesta sexta, visita mais um lar em Castelo Branco na segunda-feira.

São na maioria mulheres, como acontecerá na maior parte dos lares. E são elas que mais mostram interesse em falar com o candidato durante mais tempo. Os contactos com idosos do sexo masculino são residuais. Num encontro na Associação Extragenária, em Vagos, dos 17 idosos sentados à sua volta, apenas dois eram homens e não fizeram qualquer pergunta. As senhoras, sim. A primeira perguntou: “O que é que faz um Presidente da República?”. O candidato tentou explicar pedagogicamente, falando das reuniões das quintas-feiras com o primeiro-ministro, e da pressão para certos temas não saírem da agenda, como a saúde naquele dia marcado pelos atrasos do INEM. “O Presidente tem de ser um chato de morte!”, dramatizou, a certa altura.

A segunda idosa pôs uma questão mais embaraçosa. Disse que os médicos se recusavam a pedir certos exames, por serem muito caros para o Governo, e perguntou: “Os idosos são um peso?” Cotrim mostrou o desconforto com o episódio (“Isso não faz sentido nenhum”), frisou que ninguém deve sentir-se assim depois de uma vida de descontos e tranquilizou-a: “Ficou esclarecida, D. Fernanda? Não é um peso. Nenhum de vocês é”.

"Durante uma semana, fiz uma figura ridícula. Alguém não gosta. Ou os meus vizinhos passaram a achar que eu era maluco durante uma semana ou duas. Não é muito grave. Passa-se por cima. E passamos duas, três, quatro, cinco vezes. Agora já ninguém se ri e já toda a gente acha que é possível"

“Não se esqueça dos velhotes”. O caminho difícil para o aumento de pensões

Uma parte das senhoras de idade mais avançada nos lares não sabe exatamente com quem está a falar, só regista que é um político e fica entusiasmada por estarem tantas câmaras de televisão à volta. Uma idosa num lar em Santarém, que provavelmente nunca terá ouvido falar na teoria da mão invisível de Adam Smith tantas vezes referida por Cotrim, apelou: “Não se esqueça dos velhotes!” Pediu indiretamente o aumento das pensões, fazendo aquele gesto de massajar o dedo do meio e o indicador com o polegar — que normalmente associamos a dinheiro.

No último debate entre todos os candidatos, Cotrim conseguiu falar na necessidade de aumentar as pensões antes do seu maior adversário nesta corrida, Luís Marques Mendes. “Pensões mais altas é uma necessidade absoluta”, declarou, considerando “vergonhoso” que continuem a pagar-se “pensões de miséria” e insistindo na importância de aumentar o crescimento económico e a natalidade.

Nenhum utente de lar lhe pergunta como é que se faz esse aumento das pensões. E provavelmente não gostaria de ouvir a resposta do candidato aos jornalistas: “Temos de fazer uma transição para um outro modelo, baseado em vários pilares, desde o pilar do desconto direto para um modelo distributivo, até à dinamização dos fundos de pensões por parte das empresas”.

Se por acaso algum idoso lhe perguntasse, Cotrim Figueiredo teria de explicar de forma simplificada que esta transição devia ter sido iniciada, no seu entender, há muito tempo; que para se começar agora essa transição demoraria mais de quatro anos; e que o Estado teria de poupar noutras áreas para criar um fundo de forma a conseguir suportar o custo da transição.

“A despesa pública total prevista no orçamento de 2016 são cerca de 140 mil milhões de euros. São 40 e picos por cento da riqueza nacional. Se alguém me convencer de que não há uns bons pares de milhares de milhões de euros que são aforráveis neste total, é porque nunca geriu uma organização de dimensão razoável”, responde o candidato, rebatendo a ideia de que essa poupança ponha em causa o emprego de funcionários públicos (e os respetivos votos nesta corrida).

Melhorar nas intenções de voto dos mais velhos é tão decisivo para Cotrim Figueiredo que o candidato fez da reforma da Segurança Social (e de um aumento das pensões) uma das três prioridades na mudança estrutural do país que propôs a Luís Montenegro, a par da saúde, grande razão de queixa de muitos idosos com quem tem conversado, e do crescimento económico, fundamental para pagar tudo o resto.

Depois de tantas visitas a lares, o candidato foi dizendo que os utentes se sentem esquecidos e abandonados, às vezes pelas próprias famílias; que as instituições que os acolhem não recebem uma comparticipação suficiente do Estado para pagar a despesa; e que há um preocupante aumento das demências precoces na terceira idade.

Cotrim entende que deve chamar a atenção para estes problemas, mas não nega que está a procurar mostrar que não fala só para os jovens e que também se preocupa com os portugueses que têm mais de 65 anos, apesar da resistência que têm mostrado a confiar-lhe o seu voto, segundo as sondagens que o próprio candidato tem dificuldade em entender. “Há uma natural e muito humana maior resistência à mudança com a idade mais avançada. Pela minha própria idade eu devia ter mais facilidade a apelar à terceira idade do que às idades mais precoces. Mas é o que é.”

O candidato às eleições presidenciais, João Cotrim de Figueiredo (E), conversa com utentes do Centro Social Interparoquial de Santarém - Unidade D. António Francisco, em Santarém, 05 de janeiro de 2026. Os portugueses elegem o sucessor de Marcelo Rebelo de Sousa em 18 de janeiro, numas eleições com recorde (11) de candidatos e cuja segunda volta, a realizar-se, decorrerá a 08 de fevereiro. PAULO CUNHA/LUSA O candidato à Presidência da República, João Cotrim Figueiredo, durante uma ação de campanha para as eleições presidenciais, na Associação Extragenáriade, em Vagos, 8 de janeiro de 2026. Os portugueses elegem o sucessor de Marcelo Rebelo de Sousa em 18 de janeiro, numas eleições com recorde (11) de candidatos e cuja segunda volta, a realizar-se, decorrerá a 08 de fevereiro. PAULO NOVAIS/LUSA

▲ "Pela minha própria idade eu devia ter mais facilidade a apelar à terceira idade. Mas é o que é"

PAULO CUNHA/LUSA

A vida de Cotrim aos 75 anos “todo beto a beber café no Estoril”

“E esta querida, como é que se chama?” “Tem mais de 60? Também eu”, gracejou noutro contacto com eleitores séniores. Esta quinta-feira à tarde, na Associação Extragenária em Vagos, o presidente da associação e anfitrião, Ângelo Valente, desafiou-o a imaginar como seria a sua vida aos 75 anos, após dois eventuais mandatos na Presidência da República, na relação com a saúde, com os serviços do Estado e com os outros idosos, caso quisesse conhecer alguém. “Acorda lá em Oeiras, todo beto, vai beber café ao Estoril…”, provocou.

Cotrim disfarçou, não estaria à espera que lhe chamassem “beto” ali neste tom jocoso, e disse que esperaria ser atendido num serviço de saúde sem esperas, que esperaria ser atendido num serviço do Estado por um funcionário que sentisse que podia ser mais bem remunerado em função da qualidade do seu desempenho; e quanto ao convívio com outras pessoas da sua idade admitiu abrir um espaço como esta associação Extragenária para lhe fazer concorrência — o que fez soltar gargalhadas às senhoras e ao próprio anfitrião.

O candidato estava a ponderar se levava os seus próprios netos a um almoço que estava a organizar este domingo em Lisboa, dedicado precisamente ao futuro de avós e netos, (mas que foi entretanto cancelado). Na conversa em Vagos, partilhou um conselho que dá aos netos: “Tento ensinar que há coisas que metem mais medo antes de acontecerem do que quando acontecem. As coisas são bastante piores a pensar nelas do que a vivê-las. Isto é um incentivo para irem tentando as coisas. Não tenho medo de errar e das consequências. Devo ter medo de não tentar corrigir isso e voltar a tentar outra coisa qualquer. Durante uma semana, fiz uma figura ridícula. Alguém não gosta. Ou os meus vizinhos passaram a achar que eu era maluco durante uma semana ou duas. Não é muito grave. Passa-se por cima. E passamos duas, três, quatro, cinco vezes”.

Cotrim não estaria propriamente a falar da sua candidatura à Presidência, mas correu de facto esse risco de fazer uma figura ridícula quando tinha sondagens a dar-lhe 3% e ele garantia que ia chegar à segunda volta. Nota-se o gozo desafiador com que diz: “Agora já ninguém se ri e já toda a gente acha que é possível”. Esta quinta-feira à noite, o candidato Liberal disse num jantar-comício num restaurante do Porto que gostava de poder definir-se como “o Presidente da esperança” (como Marcelo foi o “Presidente dos afetos”). Não se sabe se algum dia chegará a Belém, mas não haverá muitos candidatos com tanta esperança em si próprios.

É cedo para prever que sucesso terá esta estratégia do “Joãozinho dos lares”. Em votos diretos, mesmo que tenha convencido toda a gente com quem falou, será curto. Num dos lares apenas dez pessoas costumam ir votar. Noutro, serão menos ainda: apenas duas.

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