Um ditado habitualmente repetido nos corredores da Igreja serve de alerta: num conclave, quem entra Papa sai cardeal. O conclave de 2013, que resultou na eleição de Francisco, ajuda a demonstrar essa tese: o argentino Jorge Bergoglio não surgia na maioria das listas de papabili e uma boa parte dos jornalistas — sobretudo aqueles que estavam em direto nas televisões — acabou por ficar em pânico com o anúncio, por ter pouco ou nada a dizer sobre o argentino que acabara de ser eleito Papa.
É um ritual quase tão antigo quanto o próprio conclave. Sempre que o Papa morre (ou renuncia), os cardeais, ainda conhecidos por muitos como os “príncipes da Igreja”, viajam para Roma, para se reunirem na Capela Sistina e escolherem o novo líder da Igreja Católica, num dos processos mais secretos, misteriosos e fascinantes do mundo, que continua a inspirar livros e filmes. Ao mesmo tempo, jornalistas de todo o planeta reúnem-se em conclaves paralelos para um dos exercícios favoritos dos que observam atentamente os desenvolvimentos político-eclesiásticos do Vaticano: elaborar listas de papabili, os “papáveis”, aqueles que estão na corrida para chegar ao trono de São Pedro.
Doze anos depois, com a morte de Francisco aos 88 anos de idade, vítima de um AVC e afetado por uma série de complicações respiratórias que lhe dificultaram seriamente os últimos meses de vida, o cenário parece agudizar-se ainda mais. No Vaticano, é relativamente unânime a ideia de que o conclave da sucessão de Francisco será um dos mais imprevisíveis de sempre. Em grande parte, isto deve-se ao próprio Francisco, que ao longo do seu pontificado rompeu com práticas e tradições e deu uma reviravolta ao Colégio Cardinalício: não só nomeou muitos cardeais (80% dos eleitores foram escolhidos por ele), como os escolheu de forma muito particular.
▲ Os cardeais vão voltar a reunir-se em conclave para eleger um novo Papa
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A diversidade geográfica é um fator (a Europa continua dominante, mas perdeu algum peso, enquanto outros continentes ganharam representação), mas também há outra diversidade a ter em conta: o perfil dos bispos escolhidos para receber o barrete vermelho e, sobretudo, o perfil das igrejas locais que eles representam. Por exemplo, há cardeais oriundos de comunidades católicas minúsculas (como a Mongólia) e onde os católicos estão em minoria (como Tonga ou Myanmar). Francisco elevou a cardeais vários bispos que vivem em zonas de guerra ou onde os cristãos são perseguidos. Com muitas destas escolhas, Francisco quis trazer para o centro das decisões, em Roma, uma realidade que muitas vezes é esquecida pelos cardeais europeus: os muitos lugares do mundo em que a Igreja Católica não é um grande poder instituído, mas uma pequena comunidade de fiéis a fazer um caminho de grande dificuldade.
Ao mesmo tempo, até quando escolheu cardeais no Ocidente, Francisco rompeu com a tradição: muitas das grandes cidades europeias e americanas habituadas a ver o seu bispo elevado a cardeal tiveram essa pretensão frustrada, enquanto bispos de pequenas dioceses, mais periféricas e mais pobres, viram o seu bispo ser escolhido pelo Papa para integrarem o Colégio Cardinalício.
Com estas decisões, Francisco quis, essencialmente, colocar a decisão de escolher o seu sucessor nas mãos dos cardeais que são portadores da voz dos mais pequenos, mais pobres, mais esquecidos e mais perseguidos dos católicos — e reduzir o peso da bolha que, ao longo de séculos, tem dominado verdadeiramente o processo de escolha do novo pontífice. Dentro desta bolha estão os cardeais italianos, os cardeais da Cúria Romana e os cardeais das grandes cidades europeias — que se conhecem muito bem, dominam os corredores de Roma, pensam e agem em circuito fechado e formam uma espécie de aristocracia onde é difícil entrar.
Francisco fez implodir esta lógica, mas a bolha continua a existir — e, obviamente, está a preparar-se para o conclave que se segue. Várias vozes ouvidas nos últimos dias em Roma pelo Observador, incluindo padres, cardeais e vaticanistas, concordam em vários aspetos que vão marcar a escolha do sucessor de Francisco, a começar pelo facto de ser praticamente impossível dizer, à partida, quem vai ser eleito. Há um nome que surge em todas as conversas: Pietro Parolin, o cardeal italiano de 70 anos que é o atual secretário de Estado da Santa Sé. Parolin é, pelas funções que desempenha, o número dois do Vaticano.
Nem sempre esteve totalmente alinhado com Francisco, mas é visto, essencialmente, como um cardeal comprometido com a linha que a Igreja Católica está a seguir. Como principal diplomata, foi uma peça-chave dos esforços do Papa Francisco para se envolver ativamente na resolução de conflitos por todo o mundo. Por outro lado, é também visto como o único homem que, numa situação de impasse, pode desbloquear a eleição ao reunir simultaneamente o apoio dos cardeais da Cúria (de quem é a figura principal) e o respeito dos cardeais das periferias, que praticamente não frequentam os corredores romanos, mas que veem em Parolin uma personalidade de referência. Contudo, entre os vaticanistas, há quem alerte para outro aspeto: o estilo de diplomata, solene, formal — até, no limite, aborrecido — poderá contrastar fortemente com o estilo de Francisco.
▲ O cardeal Pietro Parolin, secretário de Estado da Santa Sé, surge no topo de todas as listas de possíveis sucessores de Francisco. Será um candidato do compromisso entre diferentes sensibilidades
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Há outro ponto em que várias fontes ouvidas pelo Observador concordam: dentro do conclave, há claramente dois grupos bem identificados. O grupo da elite, da Cúria, das figuras de topo da hierarquia eclesiástica — e o grupo dos cardeais das periferias, aqueles que Francisco escolheu rompendo com longas tradições. Esta divisão traduz-se, por um lado, nas preferências: diferentes fontes são unânimes em afirmar que a bolha romana não quer mais um pontificado “forte”, como o de Francisco, preferindo fazer eleger um Papa de perfil mais discreto, que possa mais facilmente ser controlado pelos cardeais do Vaticano, preferencialmente um italiano. Já uma outra fonte, mais próxima do colégio cardinalício, refere que, considerando esta realidade, não é de excluir a possibilidade de vários dos cardeais das periferias se unirem em torno de um nome comum, um outsider que seja capaz de fazer frente às pretensões da Cúria.
Alguns dados apurados pelo Observador ajudam a ilustrar esta desigualdade, que se torna mais evidente numa altura em que já desapareceu Francisco, o grande responsável por tornar o colégio cardinalício mais diverso. Por exemplo, os cardeais não terão recebido uma comunicação formal, da parte da Cúria Romana, da morte do Papa Francisco — tendo pelo menos um cardeal dito ao Observador que soube pelas notícias. (Aliás, durante todo o período em que Francisco esteve internado em estado crítico, entre fevereiro e março, não terá sequer havido uma comunicação formal aos cardeais sobre o estado de saúde do pontífice além dos comunicados da Santa Sé enviados aos jornalistas.)
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Por outro lado, a primeira comunicação formal do decano do Colégio Cardinalício aos cardeais chegou quase 24 horas depois da morte de Francisco: um mensagem pró-forma com uma convocatória para a primeira congregação geral (as reuniões diárias dos cardeais durante os dias da sede vacante, para em conjunto tomarem decisões da vida corrente da Igreja), marcada para a manhã seguinte. Isto foi visto como mais um sinal do eurocentrismo que ainda sobrevive na cúpula eclesiástica: só dificilmente os cardeais que vivem em Itália (ou, pelo menos, na Europa) conseguiriam estar em Roma na manhã seguinte; basta pensar nos cardeais oriundos da Ásia, África, América Latina ou Oceânia, aqueles que só por estes dias vão chegando a Roma, pouco conhecedores dos bastidores da política vaticana, a apalpar terreno, com dificuldades em sentir-se como “pares” dos cardeais da bolha — que só chegam às celebrações e reuniões, vindos de portas interiores, poucos minutos antes do seu início.
Em Roma, estes dois grupos de cardeais enfrentam dois desafios particulares. Por um lado, os cardeais da bolha romana, que têm agora menos peso num conclave, terão de tentar seduzir muitos dos cardeais das periferias no sentido de conseguirem eleger um dos seus candidatos. Por outro lado, a grande diversidade do colégio cardinalício promovida por Francisco acarreta um outro desafio: os cardeais praticamente não se conhecem. Nestes dias, em Roma, uma grande parte dos cardeais estará a fazer o mesmo que os jornalistas, tentando perceber quem são e como pensam os colegas que estarão ao seu lado na Capela Sistina. Ao Observador, uma fonte conhecedora destas movimentações diz mesmo que uma grande parte dos cardeais se conhecem pouco entre si, havendo apenas a noção de que existem os “figurões” de Roma e “os outros”.
Por essa razão, diferentes fontes dizem ao Observador que este conclave — um dos mais imprevisíveis das últimas décadas — terá de se decidir, essencialmente, nas congregações gerais, as reuniões de cardeais que acontecem nos dias anteriores ao conclave. Nessas reuniões gerais têm assento todos os cardeais, incluindo aqueles que têm mais de 80 anos e já não podem votar. Os cardeais são convidados a discursar perante os colegas e a apresentar a sua perspetiva sobre o estado atual da Igreja, os desafios para o futuro e o perfil que desejam ver no trono de São Pedro. Em 2013, foi justamente nesse momento que Bergoglio emergiu como forte candidato, depois de fazer um breve discurso elencando as grandes prioridades para a Igreja contemporânea que foi amplamente reconhecido pelos seus pares como visionário.
Entre os vaticanistas, desenham-se dois cenários: ou o conclave é agendado para uma data o mais cedo possível, reduzindo o tempo das congregações gerais e arriscando a possibilidade de um conclave longo de grande indecisão; ou é agendado para uma data mais tardia, dando mais tempo aos cardeais para falarem livremente nas congregações gerais sobre as suas visões da Igreja e para se conhecerem. De uma ou de outra forma, há unanimidade num ponto: será um conclave imprevisível, enquadrado num processo demorado que tem uma longa lista de possibilidades como ponto de partida.
Dezenas de papabili e nenhum candidato óbvio
Uma rápida passagem por alguns dos principais jornais do mundo permite tirar duas conclusões: a tradição das listas de papabili não morreu; e, desta vez, fazê-las é um exercício ainda mais especulativo do que habitualmente. Em meia dúzia de jornais consultados pelo Observador, foi possível contar mais de 20 nomes de cardeais papabili. Há alguns pontos de contacto entre as várias listas: Pietro Parolin surge em primeiro em quase todas; e na maioria delas surgem nomes há muito em cima de mesa, como os de Luis Tagle (das Filipinas), Peter Turkson (do Gana), Péter Erdő (da Hungria), Matteo Zuppi (de Itália), Robert Sarah (da Guiné), ou o português Tolentino de Mendonça.
Ouvindo padres, cardeais e vaticanistas, há uma conclusão transversal a estes nomes: todos são fortes candidatos e todos têm o seu “mas”.
Luis Tagle, por exemplo, tem sido um dos nomes mais fortes para a sucessão de Francisco. Aliás, já em 2013, quando tinha apenas 55 anos de idade, o seu nome tinha sido referido como possível sucessor de Bento XVI. Antigo arcebispo de Manila, entre 2011 e 2019, Tagle é atualmente pró-prefeito do Dicastério para a Evangelização, no Vaticano: por um lado, é uma figura da bolha romana; por outro lado, é a mais sólida aposta para se tornar no primeiro Papa asiático. Grande apoiante de Francisco — chegou mesmo a ser apelidado de “Francisco asiático” —, é conhecido por perspetivas relativamente progressistas em matérias como os direitos das pessoas LGBT ou o divórcio, mas acabou por ver a sua reputação manchada por problemas de gestão na Cáritas Internacional, a que presidiu.
O filipino é um dos nomes preferidos das listas de papabili e uma das mais fortes apostas da linha da continuidade de Francisco. Contudo, há pelo menos três pontos negativos que lhe são apontados, de acordo com diferentes fontes ouvidas pelo Observador: por um lado, a sua idade pode significar um pontificado demasiado longo; por outro lado, há quem lhe aponte o facto de ser demasiado simpático e sorridente e pouco assertivo, o que lhe criaria dificuldades em governar de modo eficaz; por fim, a sua enorme popularidade mediática é mencionada como um aspeto que pode levar os cardeais a hesitar em votar nele, já que o colégio cardinalício tende a resistir a pressões externas, incluindo à pressão de eleger uma figura pela sua fama, pela boa imprensa e pelo vedetismo.
▲ O cardeal filipino Luis Tagle poderá ser o primeiro Papa asiático
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Oriundo do Gana, o cardeal Peter Turkson é apontado como a mais forte possibilidade de a Igreja Católica ter, pela primeira vez, um Papa negro. Durante vários anos, foi o prefeito do Dicastério para a Promoção do Desenvolvimento Humano Integral, um cargo na Cúria Romana que o levou a ser uma das vozes mais audíveis da Igreja Católica na defesa dos direitos humanos. Turkson foi também um importante colaborador do Papa Francisco na reforma da Cúria Romana. Numa entrevista ao Observador em 2018, Turkson condenava a “desigualdade” na gestão dos recursos e dizia que, “quando a Igreja descobre o seu caminho para os pobres, torna-se mais autêntica”.
“Os cardeais que podem escolher o Papa juntam-se e podem escolher quem quiserem. Quando temos cardeais de vários lugares, então a possibilidade de o escolhido ser de outro lugar que não a Europa é maior. Mas não é automático”, dizia Turkson nessa mesma entrevista. Tal como Tagle, também Turkson, de 76 anos, poderá conseguir agradar à Cúria (que integrou durante vários anos) e aos cardeais das periferias (já que ele próprio vem de fora da Europa).
No entanto, há também quem diga ao Observador que não chegou ainda o momento de escolher um Papa africano, por diferentes razões. Uma delas é o facto de que escolher um Papa não é apenas escolher um nome, é também escolher um projeto de Igreja — e, em África, a generalidade do clero é significativamente conservadora em assuntos fraturantes como a moral sexual e familiar. Por outro lado, diz um padre ao Observador, há ainda muito racismo dentro da Igreja — o que significa, simultaneamente, que poderá haver resistência dentro do colégio cardinalício a escolher um africano e que poderá haver grande resistência no mundo católico em aceitar um Papa africano.
Noutra direção, surge o nome do húngaro Péter Erdő, o arcebispo de Budapeste. É, ao que tudo indica, o favorito da ala mais conservadora da Igreja. O já falecido cardeal australiano George Pell, um importante kingmaker do Vaticano, terá até feito campanha por Erdő com o objetivo de o transformar no principal candidato conservador à sucessão de Francisco, um Papa que seria capaz de levar a Igreja a retomar uma linha de maior condenação e oposição ao mundo moderno, após um acidente de percurso chamado Francisco. Em muitos dos temas-chave do pontificado de Francisco, Erdő é o oposto: por exemplo, na questão das migrações, em 2015 o cardeal húngaro gerou polémica ao dizer que a Igreja não devia acolher migrantes para não promover o tráfico humano.
Erdő poderá atrair os votos de alguns dos cardeais mais conservadores do colégio cardinalício e terá hipóteses reais de eleição — ao contrário de figuras ainda mais de nicho, como o cardeal ultra-tradicionalista norte-americano Raymond Burke (que chega a aparecer em algumas listas de papabili) ou o cardeal guineense Robert Sarah, que esteve no centro de uma controvérsia em 2020, depois de ter anunciado um livro em coautoria com Bento XVI quando, afinal, o Papa emérito alemão não tinha autorizado a publicação de um livro conjunto. Fontes ouvidas pelo Observador acreditam, contudo, que Erdő até pode conseguir reunir uma quantidade significativa de votos, entre os ultra-conservadores e os mais moderados, mas dificilmente conseguiria alcançar os dois terços necessários para a eleição.
▲ Peter Turkson e Péter Erdő são frequentemente apontados como possíveis Papas
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Outros nomes têm surgido como fortes possibilidades. É o caso do italiano Matteo Zuppi, de 69 anos, presidente da Conferência Episcopal Italiana. É da bolha italiana, mas está fora da Cúria — e ganhou proeminência nos últimos anos, como arcebispo de Bolonha e, sobretudo, quando o Papa Francisco confiou nele como seu enviado pessoal a Kiev e a Moscovo, numa tentativa de mediar a paz entre a Rússia e a Ucrânia. Fortemente ligado à Comunidade de Sant’Egidio, movimento progressista que surgiu do ambiente reformista do Concílio Vaticano II e de que o Papa Francisco gostava muito (ao contrário dos cardeais mais conservadores), este italiano de sorriso fácil seria um Papa assumidamente continuador do legado de Francisco, de quem foi um colaborador próximo — tendo o perfil mais próximo de um possível “Francisco II”. Por outro lado, pelo menos uma fonte diz ao Observador que Zuppi poderá ter um outro papel no conclave, usando a sua posição para mobilizar votos em torno de um outro candidato.
O português Tolentino de Mendonça, atual prefeito do Dicastério para a Cultura e Educação, é outra das fortes possibilidades. Apesar da juventude (aos 59 anos, a sua eleição poderia conduzir a um dos pontificados mais longos da História), Tolentino é visto como um homem de consensos. Raramente expressa opiniões divisivas sobre a maioria dos assuntos, pelo que entra no conclave sem grande bagagem. Na Cúria Romana, é apreciado pela erudição, mas também pela capacidade de chegar a pontos de entendimento, por não abrir ruturas e por conseguir construir pontes com todos. Descrito como “um sedutor no melhor sentido da palavra”, Tolentino seria o primeiro Papa português em mais de 700 anos.
Na lista de fortes candidatos surgem ainda algumas figuras-chave do pontificado de Francisco, assumidamente alinhados com o Papa argentino e que representariam uma continuidade tanto no estilo como na substância. O maltês Mario Grech, atual secretário-geral do Sínodo dos Bispos, foi um dos homens fortes de Francisco para o último Sínodo sobre a Sinodalidade e tem expressado perspetivas favoráveis, por exemplo, à ordenação diaconal de mulheres e à bênção de casais homossexuais. É-lhe apontada a incoerência por, no passado, ter tido perspetivas mais conservadoras sobre estas matérias. Jean-Claude Hollerich, o arcebispo do Luxemburgo, foi o relator do último sínodo e é também visto como um dos sucessores da continuidade.
▲ O português Tolentino de Mendonça também é apontado por muitos como um possível futuro Papa
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR
O patriarca latino de Jerusalém, Pierbattista Pizzaballa, tem sido igualmente apontado como uma possibilidade — sobretudo devido à proeminência que ganhou no último ano ao ser muito interventivo nos apelos à paz na Faixa de Gaza. Fontes ouvidas pelo Observador dizem, porém, que esta poderá ser uma possibilidade veiculada apenas por razões políticas.
Entre as fontes que o Observador consultou, há quem alerte para a necessidade de olhar para nomes que não surgem de forma tão persistente nestas listas. Por exemplo, o cardeal francês Jean-Marc Aveline, arcebispo de Marselha, que recebeu o Papa Francisco na sua diocese para uma visita focada nas questões das migrações, tornou-se no mais “bergogliano” dos bispos franceses. Alinhado com Francisco numa das suas maiores prioridades — o drama dos refugiados no Mediterrâneo —, Aveline foi criado cardeal em 2022 pelo Papa argentino e tem tido um percurso marcado pelo consenso no seu país.
O norte-americano Robert Prevost, prefeito do Dicastério para os Bispos, é igualmente visto como um forte candidato. Com experiência missionária no Peru, é descrito como um homem discreto e reservado, adepto da linha pastoral de Francisco e, sobretudo, como um americano que foge aos estereótipos dos restantes cardeais americanos — amplamente vistos como estando fora da corrida. O cardeal polaco Konrad Krajewski, o atual esmoleiro do Papa, é também apontado como uma forte possibilidade: muito associado às ações de caridade do Papa Francisco, é também uma figura que no passado colaborou com João Paulo II e Bento XVI, o que ajuda a criar em torno de si a imagem de um Papa de continuidade. Outros nomes, incluindo o do sueco Anders Arborelius, o do canadiano Michael Czerny, o do espanhol Cristóbal López Romero ou o do alemão Reinhard Marx, são também frequentemente incluídos em listas de papabili.
O que está na cabeça de um cardeal dentro da Capela Sistina?
Se chegou até este ponto do artigo sem a mínima ideia de quem será o próximo Papa, é porque está como a generalidade dos cardeais, que estão por estes dias a aterrar em Roma sem saber em quem votar no dia em que entrarem na Capela Sistina, quase todos pela primeira vez naquela circunstância, a ler artigos de jornal como este para perceber que cenários vão encontrar. Afinal, a versão mais alargada da lista dos papabili inclui mais de 15% dos presentes no conclave — o que ajuda a compreender porque é que este deverá ser um dos mais imprevisíveis conclaves da história recente.
Mais interessante do que uma lista de nomes, porém, é olhar para o modo como funciona tudo isto. Possivelmente, viu recentemente o filme Conclave: não sendo um documentário, também não está assim tão longe da realidade. Há grupos de pressão a influenciar os cardeais; há almoços e jantares nos restaurantes de Roma, nas embaixadas e em casas particulares; há lóbis que se organizam por grupos de interesse, línguas e regiões. Vários padres concordam, em conversa com o Observador, com uma ideia: sem negar a influência do Espírito Santo na eleição do novo Papa, a verdade é que numa religião que não acredita na magia, essa influência traduz-se em ações concretas de pessoas concretas.
Uma fonte próxima do colégio cardinalício revelou ao Observador que os grupos mais conservadores já se puseram no terreno. Nos últimos meses, os cardeais têm sido inundados de propaganda tradicionalista, incluindo livros e cartas enviados por famílias e fundações ultra-conservadoras, muitas nos Estados Unidos. Um desses livros enviados aos cardeais quando Francisco estava ainda vivo, mas gravemente doente, elencava as razões pelas quais o argentino devia renunciar. O próprio Papa, sabe o Observador, estava consciente de que, durante a sua doença, já se organizavam almoços de preparação para o conclave.
Outra fonte diz ao Observador que, para compreender o funcionamento interno de um conclave, é necessário compreender a “mentalidade de seminário”, já que, para muitos cardeais, um conclave é “uma reedição do tempo de seminário” — nas horas, nas rotinas, no regime de internato, nos pequenos grupos em rivalidade. É por isso que, diz a mesma fonte, os cardeais dificilmente cederão a pressões externas para influenciar o conclave, sejam pressões políticas (como a ideia de que Trump pretende influenciar o conclave no sentido de forçar a eleição de um conservador), sejam pressões públicas no sentido de eleger um cardeal pop-star. Ao mesmo tempo, os cardeais dificilmente votarão em quem quer abertamente chegar a Papa: quem não quer ser eleito cumpre precisamente o primeiro critério para ser escolhido, o de não ambicionar uma carreira, mas aceitar um serviço.
Há ainda a ter em conta aquilo a que um padre ouvido pelo Observador chama o “efeito Francisco”. Na prática, “um Papa que chegue à janela do Vaticano e volte a usar a murça e a cruz de ouro, a comunicação social vai cair-lhe em cima”, diz a mesma fonte. Por isso, os cardeais não deverão correr o risco de eleger alguém que desde o primeiro dia cause a impressão de recuo.
▲ Depois da morte do Papa Francisco, os cardeais terão de escolher um novo caminho para a Igreja
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Trata-se de uma ideia partilhada por outras fontes ouvidas pelo Observador, que acreditam que é necessário um Papa que tenha um pontificado capaz de fazer a “síntese” do pontificado de Francisco: se o argentino foi um homem da prática, é necessário agora alguém que, alinhado com Francisco, possa transpor essa prática para o papel, de modo a que as reformas implementadas por Francisco possam ser operacionalizadas. Efetivamente, tal como sucedeu com a morte de João XXIII a meio do Concílio Vaticano II, muitos dos processos abertos pelo argentino estão ainda em curso — da reforma da Cúria aos grupos de trabalho sobre assuntos como o celibato ou a ordenação de mulheres —, e caberá ao próximo Papa consolidar esses processos ou, no limite, revertê-los.
Nesse sentido, o Observador ouviu opiniões divergentes: se há quem diga que é necessário um Papa jovem que possa ter um pontificado longo com tempo para consolidar as reformas e a própria nova linguagem inaugurada por Francisco, há também quem considere que um pontificado curto, de transição, poderia ajudar a passar para o papel as realidades abertas pelo argentino, antes de se dar início a um novo capítulo. Nesse sentido, a reforma institucional da Cúria Romana, que abriu a porta à entrada de leigos nos mais altos cargos do governo da Igreja, onde antes só estavam cardeais, deverá ser um dos assuntos mais sensíveis a dividir os cardeais.
Várias fontes dizem ao Observador que a Igreja se encontra, agora, numa encruzilhada que, em alguns aspetos, se compara ao que aconteceu em 2005, quando os cardeais tiveram a difícil tarefa de substituir João Paulo II. Com uma agravante: no tempo das notícias rápidas, das redes sociais e ainda na ressaca do escândalo dos abusos, os cardeais estão particularmente atentos para evitar eleger qualquer cardeal com controvérsias no passado, mesmo que aparentemente inofensivos, para evitar minar o pontificado à partida.
O que se segue para a vida da Igreja Católica? Depois de vários dias de congregações gerais decisivas e de um conclave imprevisível, saberemos se a decisão dos cardeais recaiu numa alta figura da Cúria Romana, num desconhecido das periferias ou na solução de compromisso que poderá passar pelo cardeal Pietro Parolin. Logo no primeiro dia, quando o novo Papa surgir na varanda da Basílica de São Pedro, será possível ter um vislumbre do que será o novo pontificado, até pelo nome que for anunciado ao mundo — um Francisco II, um Bento XVII ou um João Paulo III trarão, necessariamente, programas diferentes.
Independentemente do nome escolhido, contudo, é certo que o novo Papa encontrará na sua secretária vários desafios. Um dos primeiros prende-se com o processo sinodal em curso. Aberto em 2021 e entretanto prolongado, o sínodo encontra-se agora numa fase de implementação de três anos — que será crucial para perceber se as ideias de sinodalidade e horizontalidade na gestão e na tomada de decisão vão ou não chegar a cada paróquia, cada diocese, cada movimento da Igreja Católica. No verão deste ano, os grupos de trabalho sobre os temas mais quentes, incluindo a ordenação diaconal de mulheres ou o celibato, devem apresentar as suas conclusões.
Por outro lado, há reformas institucionais em curso — mas também uma mais ampla reforma de mentalidades. No seu pontificado, marcado por uma abordagem pastoral à realidade contemporânea, Francisco colocou as pessoas à frente das polémicas, a realidade à frente das ideias, a escuta à frente da condenação. Quando, em Lisboa, gritou um dos seus lemas — “todos, todos, todos” —, fê-lo de forma incondicional, abarcando naquele “todos” até os que discordam de que a Igreja seja para “todos, todos, todos” e acreditando que é da tensão entre posições diferentes que nascem frutos. A operacionalização destas ideias numa estrutura pesada como o Vaticano, contudo, tem demorado. Resta saber se o sucessor de Francisco optará por pegar nos processos abertos pelo argentino ou se seguirá outro rumo.