Quando Cláudio Neves Valente desistiu do doutoramento na universidade de Brown, nos EUA, escreveu na sua página no site do departamento de física uma mensagem que mostrava a deceção que o agora suspeito do atentado na mesma universidade tinha sentido durante os poucos anos em que esteve naquele departamento. E terminou com uma referência críptica a uma famosa frase do mundo dos videojogos: “All your base are belong to us“.

Essa é uma frase que se tornou um meme da Internet e que surgia na versão norte-americana (traduzida do japonês, desastradamente) de um jogo de computador chamado Zero Wing, que saiu em 1989. Esse era um videojogo de tiros, que teve muito sucesso nas salas de arcade, e cuja história se baseava em batalhas intergaláticas.

A referência a esse videojogo e a essa conhecida frase sustenta a ideia de que Neves Valente tinha crescido como um aficionado do entretenimento digital e da computação – o que é coerente com o facto de, apesar da formação em Física, ter acabado por trabalhar no portal Sapo, como programador informático, quando voltou a Portugal.

Antes de terminar a mensagem com essa frase, porém, Cláudio Neves Valente confirmava que tinha abandonado o doutoramento, sem o concluir, e que se tinha dececionado com as pessoas que tinha encontrado na universidade. A mensagem foi escrita em português e já não está disponível online, mas o Boston Globe conseguiu recuperar o texto.

“Ok! Estou de volta a casa e abandonei, de forma permanente, o PhD em Física na Brown“, escreveu Cláudio Neves Valente, de acordo com a tradução (de português para inglês) feita pelo Boston Globe. A mensagem continha um endereço de e-mail através do qual podia ser contactado e, também, previsões meteorológicas para Lisboa e para Providence, Rhode Island – mas tinha mais uma declaração:

“A moral da história é: o melhor mentiroso é aquele que consegue enganar-se a si próprio. Estas pessoas existem em todo o lado, mas muitas vezes proliferam nos sítios mais inesperados“, dizia Cláudio Neves Valente, deixando claro o ressentimento com que tinha saído dos EUA.

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O Observador falou com várias pessoas que contactaram com Cláudio Neves Valente, tanto quando estava no Instituto Superior Técnico como quando regressou a Portugal, para trabalhar como informático no portal Sapo, e essas fontes corroboraram a ideia de que o suspeito teve uma má experiência em Brown – o que não impediu que, mais tarde, voltasse para os EUA para viver.

Um antigo colega, que sabia que Cláudio Vicente tinha ido para Brown sem sucesso, encontrou-o em Portugal e questionou-o sobre a entrada na universidade norte-americana. “Ele disse-me, ‘pois, não gostei muito’. Foi com um bocado de desdém e não gostei muito. Mas ele também não me dava muita confiança”.

A ligação de Cláudio Valente à Universidade Brown cessou oficialmente em 2003. Sete anos depois, começou a trabalhar no portal SAPO em Lisboa, onde se manteve até 2013 “tendo saído por sua iniciativa”, detalha fonte oficial ao Observador.

Anos mais tarde, em 2017, Cláudio Valente conseguiu o estatuto de residente permanente legal nos EUA, através de um sorteio anual de vistos atualmente suspenso pela Administração Trump na sequência dos homicídios. A sua última morada conhecida foi em Miami, mas as autoridades acreditam que, no último mês, mudou-se para Boston. Quando já tinha sido identificado como o suspeito, foi encontrado morto com um tiro auto-infligido num armazém em New Hampshire. Tinham passado dois dias do homicídio do ex-colega.

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