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No Natal, a Alemanha deverá aumentar o número limite nos ajuntamentos de cinco para 10 pessoas

Sergei Karpukhin/TASS

No Natal, a Alemanha deverá aumentar o número limite nos ajuntamentos de cinco para 10 pessoas

Sergei Karpukhin/TASS

Covid-19. Vamos ter uma terceira vaga depois do Natal? /premium

As medidas de contenção estão a levar a uma diminuição de casos. Mas o relaxamento no Natal vai trazer uma terceira vaga? Os especialistas antecipam o que pode acontecer em Janeiro.

Portugal vai ter uma terceira vaga da pandemia depois do Natal? As opiniões não são consensuais entre os especialistas: Carlos Antunes, matemático que trabalha em parceria com o epidemiologista Manuel Carmo Gomes no aconselhamento científico ao Governo, acha que dificilmente teremos uma terceira onda; Elisabete Ramos, presidente da Associação Portuguesa de Epidemiologia, considera essa hipótese muito provável; já o infecciologista Jaime Nina diz que não se pode falar em terceira vaga, mas sim na continuação da segunda vaga.

O que faz com que estes especialistas tenham visões tão diferentes? Qual foi o impacto das medidas impostas pelo Governo para travar o crescimento da pandemia no país? Independentemente das opiniões, a verdade é que vários países já se estão a preparar , cada um com a sua estratégia, para essa época de forma a que não haja um aumento de casos de Covid-19. O que será preciso fazer para travar essa subida nas infeções?

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Eu ainda tenho algumas dúvidas relativamente à terceira vaga“, afirma Carlos Antunes ao Observador. Para que isso aconteça, segundo o matemático, há que partir do pressuposto de que no final do ano não só o comportamento das pessoas vai mudar, levando a um aumento do número de contactos, como haverá medidas menos restritivas.

“Mesmo que se dê um alívio de medidas, não tenho a certeza que haja uma vaga efetiva. Poderemos ter uma estagnação dos casos, ou seja, se conseguirmos até final de dezembro baixar os casos para dois mil ou três mil e havendo aí um alívio, acredito mais numa estabilização, porque as pessoas já interiorizaram que é preciso levar mais à risca as medidas de distanciamento físico e as medidas de proteção individual”, considera o docente e investigador da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa.

O aumento do número de contactos e uma “ausência de decisão centralizada de combate” foi precisamente o que levou ao início da segunda vaga, explica o especialista. Isto é, houve um aumento significativo dos contactos com o recomeço da atividade em setembro, quer com a abertura das escolas quer com na deslocação das pessoas em transportes públicos para os empregos, que foi potenciada pela inação por parte do Governo, tendo permitido que esta vaga proliferasse e ganhasse dimensão, explica Carlos Antunes. Algo que não vai acontecer em janeiro, acredita, não só porque não vai “haver uma mudança drástica do comportamento” das pessoas, como as autoridades “vão estar mais atentas e não vão querer perder o controlo” da situação.

"Mesmo que haja um alívio de medidas, não tenho a certeza que haja uma vaga efetiva. Poderá haver um estagnação dos casos"
Carlos Antunes, docente e investigador da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa

Aliás, para o docente, mesmo que se assista a um aligeirar das medidas de restrições impostas pelo Governo na época do Natal — como por exemplo se está a assistir na Alemanha, que deverá aumentar o número limite nos ajuntamentos de cinco para 10 pessoas — e mesmo que haja “até um abuso” por parte das pessoas e tudo isto tenha repercussões no número de casos de Covid-19 no início do ano, não será suficiente para uma nova vaga.

A verdade é que o ponto de partida tanto da primeira como da segunda vaga em nada se comparariam a uma eventual terceira vaga. Ou seja, o número de casos com que começaram as duas primeiras ondas serão sempre muito inferiores ao que se iria verificar caso efetivamente houvesse uma terceira vaga após o Natal. “Temos um valor [um número de casos de Covid-19] muito elevado, o que quer dizer que ao mínimo sinal de que as coisas começam a piorar, vai haver uma ação mais imediata e vai haver uma resposta das próprias pessoas individualmente.”

Esta não é, contudo, a visão da presidente da Associação Portuguesa de Epidemiologia. Para Elisabete Ramos, “é muito provável” que se assista a uma terceira vaga: “Quanto mais doença houver na comunidade, mais provável é que cada um de nós possa contactar com alguém infetado. Se chegarmos ao Natal com números muito elevados, a probabilidade de os contactos ainda multiplicarem esses números vai ser muito grande“, afirma a epidemiologista, acrescentando que a probabilidade seria menor se Portugal chegasse aos números que teve em setembro, antes do início da segunda vaga, o que não vai acontecer “quase de certeza”.

"Se chegarmos ao Natal com números muito elevados, a probabilidade de os contactos ainda multiplicarem esses números vai ser muito grande"
Elisabete Ramos, presidente da Associação Portuguesa de Epidemiologia

Já o infecciologista Jaime Nina acredita que não se pode falar numa terceira vaga, mas sim na continuação da segunda vaga. “Só se pode falar em terceira vaga se a segunda desaparecer e a segunda vaga não está a desaparecer“, afirma o médico do Hospital Egas Moniz, em Lisboa. “O número de doentes em cuidados intensivos continua a aumentar, o número de doentes internados está estacionário, o número de novos casos tem vindo a oscilar, mas não tem havido uma diminuição espetacular.”

O professor de Infecciologia e Medicina Tropical da Universidade Nova de Lisboa diz que ficaria “muito admirado” se o número de internados em unidades de cuidados intensivos diminuir para os 300, mas admite “uma oscilação” no número de novos casos com as duas tolerâncias de ponto e os dois feriados.

É natural que haja uma pequena diminuição, mas será muito relativa. As mortes ou os internados não vão passar para metade ou para um terço. Haverá uma diminuição de 10% ou 15% e depois é capaz de subir, mas é tudo a mesma vaga, são pequenas oscilações da mesma vaga“, considera o especialista, acrescentando que é provável que se volte a assistir a um aumento do número de casos de Covid-19 já a partir do dia 13 de dezembro, isto é, cerca de cinco dias após o último feriado de dezembro — tendo em conta o período de cinco dias de incubação do vírus.

Uma semana depois, continua o médico, irá assistir-se a um aumento no número de internamentos e duas semanas depois irá subir o número de pessoas em unidades de cuidados intensivos e número de óbitos. No Natal “acalma outra vez”, porque as pessoas “ficam mais em casa e a maioria, ainda que contra vontade, já desistiu de passar o Natal em família”. Mas em seguida haverá novamente “um pequeno aumento” do número de casos, que só não será maior porque as medidas restritivas irão continuar, prevê o infecciologista.

Natal em Portugal será como o Dia de Ação de Graças nos Estados Unidos?

Nos Estados Unidos, contudo, deverá assistir-se precisamente ao oposto tendo em conta a movimentação de pessoas que houve no país devido ao Dia de Ação de Graças (Thanksgiving). Pelo menos é essa a previsão de Anthony Faucci, diretor do Instituto de Alergias e Doenças Infecciosas dos Estados Unidos.

Em duas ou três semanas, poderemos assistir a uma explosão de casos“, alertou Faucci, pelo que não deverá haver um relaxamento das medidas de restrição ou das recomendações de não viajar antes do Natal. “Não queremos assustar as pessoas, mas esta é a realidade.”

Carlos Antunes desdramatiza a situação ao considerar que o comportamento dos americanos “é completamente diferente do dos portugueses”. Além de as medidas contra a Covid-19 serem diferentes de estado para estado, há uma maior percentagem da comunidade americana, comparativamente à portuguesa, que não só não acredita na pandemia, como é contra as medidas de restrição.

“No caso dos Estados Unidos — e estou a analisar os estados no conjunto — houve três vagas, em que a segunda se sobrepôs à primeira e a terceira se sobrepôs à segunda. Eles efetivamente nunca controlaram as vagas e a Europa, no verão, conseguiu controlar, reduzindo para valores muito baixos a primeira vaga. As autoridades europeias e portuguesas estão muito atentas”, considera o investigador da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa.

Confinamento parcial não vai permitir uma rápida redução da incidência

A verdade é que, apesar de se notar uma diminuição no número de novos casos em Portugal, está a assistir-se a uma desaceleração muito mais lenta atualmente do que comparando com março e abril.

De acordo com Carlos Antunes, entre 20 e 30 de março a taxa média de novos casos diários baixou dos 10% para 0%. Ou seja, até 20 de março houve um aumento médio de casos relativamente ao dia anterior na ordem dos 10% ao dia e partir daí, esse aumento foi diminuindo, tendo chegado aos 3,6% a 26 de março e aos 0% no dia 30, que foi quando deixou de haver um crescimento da taxa média de casos diários — foi quando se atingiu o pico da primeira vaga. Ora, entre 7 de outubro e 22 de novembro, a taxa média de novos casos diários baixou apenas de 8% para 0%, ou seja, foram necessários 45 dias para se conseguir esta redução, enquanto que em março foram precisos apenas 10 dias.

“A desaceleração foi muito acentuada porque houve um confinamento total. Isto demonstra que este confinamento parcial, primeiro com as medidas do estado de calamidade e depois com as do estado de emergência, fez com que o aumento de casos se reduzisse de forma muito lenta“, explica o docente da Universidade de Lisboa, acrescentando que, se não foi possível desacelerar o aumento de novos casos diários como em abril, então “certamente” também não será possível reduzir a incidência de uma forma tão rápida.

"A desaceleração foi muito acentuada, porque houve um confinamento total. Isto demonstra que este confinamento parcial (...) fez com que o aumento de casos diminuíssem de forma muito lenta"
Carlos Antunes, docente e investigador da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa

“Em abril, com o esforço que fizemos, reduzimos de 700 casos para 350 — metade — em 30 dias. Se nós agora estamos com uma desaceleração muito mais lenta do que na altura, é de esperar que levemos mais de 30 dias a reduzir dos seis mil casos para os três mil. Ou seja, vamos chegar provavelmente no final de dezembro ainda acima dos seis mil casos, porque estamos a desacelerar de uma forma muito mais lenta.”

Isto demonstra, segundo o especialista, que as medidas de restrição impostas pelo Governo resultaram, mas não o suficiente. A consequência de não se optar por um novo confinamento geral, já que isso teria um peso muito grande na economia, foi uma “desaceleração dez vezes mais lenta do que em abril e isso indica que o impacto destas medidas vai ser dez vezes mais pequeno“.

Portugal já atingiu o pico da segunda vaga. Foi na terceira semana de novembro, segundo cálculos de conselheiros do Governo

A verdade é que, olhando para outros países que optaram por confinamentos gerias, a redução de casos foi muito mais elevada. A Irlanda, que confinou durante três semanas, conseguiu reduzir em 14 dias para metade o número de casos, tendo passado dos 1200 casos para os 600. E França, país em que foi imposto um confinamento geral de um mês, passou dos 50 mil casos para os 25 mil em 13 dias, recorda Carlos Antunes.

No Reino Unido, um estudo do Imperial College London dá conta de que houve uma diminuição em cerca de 30% no número de infeções por Covid-19 entre 13 e 24 de novembro. O índice de transmissão (o famoso R) no país, que assistiu a um novo confinamento geral a partir de dia 5 de novembro, está atualmente nos 0.88, ou seja, um infetado com o novo coronavírus contamina, em média, menos de uma pessoa.

No caso da Áustria, que de acordo com o investigador da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa o mesmo nível de incidência que Portugal — apesar de ter uma mortalidade superior —, já passaram 20 dias desde o pico da segunda vaga e o número de casos diários de Covid-19 ainda não baixou para metade. E o país também esteve em confinamento geral, mas ainda não se notam os resultados desse confinamento.

“A Áustria vai precisar de 30 dias para passar dos 7.200 casos para os 3.700, o que quer dizer que depois, para reduzir novamente para metade, para os 1.700 casos, vai precisar de mais um mês, e de outro mês para chegar aos 850 casos. Ou seja, com este ritmo, o país vai precisar de três meses para reduzir os casos para menos de mil.” E é precisamente isso que deverá acontecer em Portugal, antevê o especialista, que irá começar a calcular quanto tempo irá demorar o país a passar dos seis mil casos para os três mil, depois para os 1.500 e a seguir para os 750 casos diários.

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APA/AFP via Getty Images

Que impacto tiveram as medidas do estado de emergência?

E qual foi o impacto das medidas estabelecidas com o estado de emergência, nomeadamente o recolher obrigatório a partir das 23h aos dias de semana e das 13h aos fins de semana. De acordo com os especialistas, isso ainda não é claro.

Para Carlos Antunes, estas medidas, que começaram a ser aplicadas no dia 9 de novembro, consolidaram uma tendência de desaceleração a que já se vinha assistindo, mas isso não quer dizer que, se elas não tivessem sido impostas, a tendência se manteria.

“De 8 a 12 de novembro a incidência aumentou, só depois de dia 13 é que começou novamente a diminuir, o que quer dizer que, passados cinco dias de as medidas entrarem em vigor, houve um maior controlo [da pandemia]. O problema é que esta evolução é muito irregular, não há uma evidência clara de que as medidas adotadas no dia 9 vieram desacelerar ainda mais, vieram apenas consolidar o que vinha a ser verificado. Mas também não podemos dizer que se não adotássemos estas medidas continuaríamos nessa tendência, provavelmente não, iríamos aumentar na mesma.”

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Já a presidente da Associação Portuguesa de Epidemiologia recorda que o impacto das medidas tomadas só são visíveis ao fim de duas a três semanas, ou seja, ainda não sabemos quais os efeitos do confinamento parcial a que se assistiu no fim de semana anterior, nos dias 28 e 29 de novembro, e muito menos os do fim de semana passado, que inclui a ponte desta segunda-feira e o feriado de 1 de dezembro.

Começamos a ver que há de facto uma decréscimo da velocidade [dos novos casos] e até já parece ter começado a inverter, mas na realidade até ao momento é impossível dizer que foi exatamente por causa destas medidas“, nota Elisabete Ramos, considerando que o que se está a assistir neste momento é “provavelmente” consequência das restrições aplicadas nos concelhos “com pior cenário”, em especial no Norte, ainda antes de o país ter chegado à situação atual. “Os efeitos destas medidas do fim de semana eu diria que só dentro de uma semana é que serão visíveis.”

O que fazer para evitar uma terceira vaga?

Para Elisabete Ramos, para controlar esta terceira vaga que “muito provavelmente” surgirá depois do Natal, são mais importantes os comportamentos individuais do que as medidas restritivas impostas pelo Governo. Isto é, reduzir “ao máximo os contactos fora do núcleo mais próximo” e, quando esses contactos acontecerem, tê-los “sempre na maior segurança possível”.

“Evitar contactos com grande grupos de pessoa e, por exemplo, evitar que [os contactos] sejam na hora das refeições ou num momento em que não seja possível manter a distância e barreiras que possam minimizar estes contactos”, afirma a epidemiologista. “É preciso imaginar que de facto este vai ser um Natal em que a melhor prenda é a criatividade.”

"É preciso imaginar que de facto este vai ser um Natal em que a melhor prenda é a criatividade"
Elisabete Ramos, presidente da Associação Portuguesa de Epidemiologia

Isso não quer dizer, contudo, que as medidas de caráter geral não sejam importantes e a especialista acredita que serão tomadas medidas restritivas para a época do Natal, mas não haverá nenhuma “que seja chave” e é preciso que as pessoas se mentalizem que está nas suas mãos evitarem o aumento de casos.

Mesmo que haja uma medida que impeça a deslocação entre concelhos, ainda é possível que haja muitos contactos entre famílias, por isso acima de tudo vai depender muito de como cada família se conseguir estruturar para vivenciar essa época com o menor risco possível.”

O cenário ideal? “Idealmente deveríamos caminhar para uma posição em que não é preciso medida nenhuma, porque cada um de nós consegue tomar a atitude correta em cada momento, mas isso é muito utópico.”

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Já Jaime Nina, apesar de não acreditar numa terceira vaga, sublinha a importância de uma vacina contra o novo coronavírus e o aumento da oferta de testes, em particular dos testes de antigénio, para reduzir o aumento de novos casos.

“A coisa mais importante que o Governo devia fazer — e está a fazer — é preparar tudo para que, assim que houver uma vacina, vacinar o maior número de pessoas possível. Se se conseguir vacinar dois terços da população a pandemia pára, pura e simplesmente. É como se desligasse o interruptor“, indica o médico do Hospital Egas Moniz, lembrando, contudo, que este cenário depende de várias hipóteses, nomeadamente de que haja efetivamente uma vacina — até ao momento ainda nenhuma foi aprovada — e que ela chegue a Portugal em número suficiente para imunizar grande parte da população.

Quanto aos testes, Jaime Nina considera que se devia aumentar o número de testes que se fazem à população, recorrendo aos testes de antigénio que, além de serem mais baratos, têm resultados bem mais rápidos do que os PCR e não implicam uma formação muito técnica para a sua utilização.

Para o infecciologista, devia apostar-se em testar as “pessoas que podem pôr em perigo ou contagiar grupos vulneráveis” como os profissionais de saúde e os funcionários dos lares de idosos.

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