1245,8kWh poupados 1245,8 kWh poupados com a
i

A opção Dark Mode permite-lhe poupar até 30% de bateria.

Reduza a sua pegada ecológica.
Saiba mais

i

GONÇALO DELGADO/OBSERVADOR

GONÇALO DELGADO/OBSERVADOR

Crise agrava-se. Desce o número de cirurgias feitas e há mais 18% de doentes à espera para lá do tempo máximo

Quebra das cirurgias no SNS acentua-se e e número de doentes em lista de espera para lá do tempo máximo sobe 18%. "É preocupante", dizem administradores, que responsabilizam o Ministério da Saúde.

Os hospitais continuam a marcar passo na produção cirúrgica. Nos primeiros seis meses de 2026, o SNS realizou menos cerca de 20 mil cirurgias programadas, o que corresponde a uma diminuição de 4,7% em relação ao mesmo período do ano passado. Com a procura por cirurgias a aumentar, a quebra na produção teve o efeito esperado: o aumento das listas de espera. Em junho, mais de 278 mil pessoas aguardavam por uma cirurgia (mais 4,2% do que em junho do ano passado), segundo os dados mais recentes do Portal da Transparência do SNS. No entanto, o indicador que mais se deteriorou foi outro: o dos doentes que esperam por uma cirurgia fora dos Tempos Máximos de Resposta Garantida (TMRG) e que, em junho, eram cerca de 88 mil, mais 17,9% que no mesmo mês do ano passado.

Ao Observador, o presidente da Associação Portuguesa de Administradores Hospitalares (APAH) alerta que o SNS “não está a dar resposta” e considera “preocupante” o aumento expressivo do número de pessoas a aguardar para lá do tempo clinicamente definido. Xavier Barreto pede ao Ministério da Saúde que dê indicações claras aos hospitais para não condicionarem a atividade cirúrgica adicional. Já a Direção Executiva do SNS justifica a quebra na produção cirúrgica precisamente com a diminuição nas cirurgias extra.

A tendência de diminuição do número de cirurgias vem já desde o último semestre de 2025, e agravou-se em 2026. Entre julho e dezembro do ano passado, os hospitais do SNS fizeram menos 0,7% de cirurgias do que no mesmo período anterior. Mas o novo ano começou mal e o avançar dos meses tem vindo a confirmar a quebra nesta área.

▲ Cirurgias diminuíram 4,7% no primeiro semestre no conjunto do SNS. Na região de Lisboa, a quebra foi o dobro

GONÇALO DELGADO/OBSERVADOR

No primeiro semestre de 2026, foram realizadas 394.743 cirurgias programadas (convencionais e de ambulatório), menos 4,7% do que as 414.139 feitas no primeiro semestre de 2025.

Número de cirurgias diminuiu em dois terços das Unidades Locais de Saúde

A diminuição da atividade cirúrgica do SNS entre janeiro e junho de 2026 registou-se em três das cinco regiões de saúde do país: Norte, Lisboa e Vale do Tejo e Alentejo (LVT). A região de LVT foi a que teve a maior quebra da produção cirúrgica no primeiro semestre de 2026, com uma diminuição de 9,2% (menos cerca de 13 mil cirurgias). Segue-se o Alentejo, com uma quebra de 6% no número de cirurgias e a região Norte, com menos 4,2% (menos cerca de 7 mil cirurgias). A tendência de agravamento foi apenas contrariada pela região do Algarve, cujos hospitais realizaram mais 10,8% de cirurgias, e pela região Centro (mais 1,1%).

Numa análise mais fina, que inclui as Unidades Locais de Saúde (ULS) e os Institutos Portugueses de Oncologia (IPO), é possível perceber que a quebra na produção cirúrgica se verificou em cerca de dois terços das ULS e IPO — 28 em 42.

As ULS de Braga e de Santa Maria foram as que registaram uma maior quebra nas cirurgias. O hospital de Braga fez menos 28,9% de cirurgias (menos cerca de sete mil) no primeiro semestre de 2026 em relação ao período homólogo, enquanto a quebra na ULS de Santa Maria foi de 26,9% (menos cerca de oito mil). Também a ULS de Trás-os-Montes e Alto Douro, com sede em Vila Real, registou um decréscimo significativo na atividade cirúrgica, de 21,2%. Quase a par está a ULS do Alto Ave, com sede em Vila Nova de Famalicão, com menos 21,1% de cirurgias entre janeiro e junho, em relação ao primeiro semestre de 2025. O IPO de Lisboa fez menos 15,6% de cirurgias no primeiro semestre.

Por outro lado, a ULS de Barcelos/Esposende (com mais 19,4%), a ULS do Baixo Mondego (mais 14,8%) e a ULS de Matosinhos (mais 11,1%) destacaram-se pela positiva, em contraciclo com a tendência de quebra global do SNS.

No final de abril, a ministra da Saúde, Ana Paula Martins, admitiu que se registou uma quebra na atividade do SNS nos dois primeiros meses deste ano, justificando o fenómeno com o pico da gripe, com a suspensão da atividade programada em muitas ULS e com o facto de o calendário ter tido menos um dia útil em janeiro e fevereiro de 2026. No entanto, e depois de ultrapassada a época mais crítica das infeções respiratórias no inverno (que obrigou ao cancelamento de muitas cirurgias), a atividade cirúrgica continuou em quebra nos hospitais nos meses seguintes, o que parece indicar que as causas são mais estruturais que conjunturais.

Já em março, o diretor executivo do SNS deu instruções aos hospitais para não aumentarem a produção assistencial (consultas e cirurgias) em 2026 e avisou que não haveria reforço de recursos financeiros e humanos este ano para além do que está previsto, como noticiou o Observador. A mensagem transmitida era a de que seria necessário conter a atividade assistencial, de forma a controlar a despesa do SNS, o que causou desagrado nos administradores hospitalares.

Direção Executiva trava aumento de consultas e cirurgias nos hospitais em 2026. Gestores avisam: “Listas de espera vão agravar-se”

O presidente da Associação Portuguesa de Administradores Hospitalares, Xavier Barreto, considera que a diminuição na produção cirúrgica no SNS é resultado de uma má gestão do tema da produção adicional, na sequência dos casos de abuso noticiados em vários hospitais, nomeadamente o que envolveu o médico dermatologista Miguel Alpalhão.

“O Ministério da Saúde não deu uma palavra de confiança aos hospitais quando a devia ter dado. Deveria ter liderado, deveria ter dito aos hospitais que a atividade adicional não devia parar”, critica Xavier Barreto, lembrando que alguns Conselhos de Administração, nomeadamente os mais afetados pelos casos noticiados na imprensa (como Braga e Santa Maria) decidiram limitar a atividade adicional, o que resultou em quebras significativas no número de cirurgias.

“Alguns hospitais ainda não retomaram a atividade adicional”, sublinha o presidente da APAH.

"Este cenário ainda pode piorar", antecipa Xavier Barreto, referindo-se aos impactos da paralisação das equipas de cirurgia, em resposta às alterações que o Governo introduziu nos pagamentos da produção adicional. "Em julho, muitas equipas pararam, porque não sabiam como iam ser pagas. E ainda hoje subsistem dúvidas", diz o presidente da Associação Portuguesa de Administradores Hospitalares.

A Direção Executiva do SNS admite a quebra de 4,7% no número de cirurgias no primeiro semestre, mas realça que essa diminuição ocorreu apenas na produção adicional. “Resulta da diminuição da atividade cirúrgica adicional, que registou uma quebra de 11,4%. Em contrapartida, a produção base aumentou 0,4%“, realça a DE-SNS, explicando que se encontram “em curso diversas medidas destinadas a reforçar o acesso a consultas e cirurgias e a promover uma recuperação mais célere da atividade adicional”.

Entre elas está, sublinha a entidade liderada por Álvaro Almeida, a portaria que regula as regras de pagamento da produção adicional, “no sentido do reforço dos incentivos à atividade adicional”, e a introdução do SINACC, “cuja implementação progressiva nas ULS permitirá aumentar a eficiência na gestão dos utentes em espera, agilizar o encaminhamento para resposta disponível e contribuir para a redução dos tempos de espera e da Lista de Inscritos para Cirurgia (LIC)”.

Utentes a aguardar cirurgia para lá do tempo máximo aumentam 18%

A verdade é que, com a procura por cuidados de saúde a aumentar e com a atividade cirúrgica do SNS em quebra, a Lista de Inscritos para Cirurgia tem agora mais doentes a aguardar do que há um ano. No final de junho, estavam à espera de uma cirurgia 278.304 pessoas, mais 4,2% do que as 267.023 pessoas que estavam na mesma situação no final do primeiro semestre de 2025.

No entanto, foi um outro indicador a ter um crescimento mais significativo: os doentes que esperam para lá dos TMRG, ou seja, do tempo clinicamente recomendado. Eram 88.077 doentes em junho de 2026, mais 17,9% do que um ano antes. Com esta deterioração, a percentagem de doentes que aguarda fora do TMRG passou de 28% do total de inscritos no primeiro semestre de 2025 para 31,6% do total no mesmo período de 2026.

A ministra da Saúde, Ana Paula Martins, acompanhada do diretor Executivo do Serviço Nacional de Saúde (SNS), Álvaro Santos Almeida (E) e pelo presidente do conselho de administração da Unidade Local de Saúde do Alto Alentejo (ULS ALTO ALENTEJO), Miguel Lopes, no início de uma visita ao serviço de urgências do Hospital Dr. José Maria Grande, em Portalegre, 25 de novembro de 2025. A visita de preparação do SNS para o período de inverno, realizou-se no âmbito de um périplo da ministra pelas Unidades Locais de Saúde (ULS) de todo o país para conhecer a resposta aos desafios da época. NUNO VEIGA/LUSA

▲ Direção Executiva do SNS justifica quebra das cirurgias com diminuição da produção adicional mas não comenta aumento dos doentes em lista de espera

NUNO VEIGA/LUSA

No entanto, há ULS onde mais de metade dos doentes aguardam para lá do tempo clinicamente recomendado. É o caso, por exemplo, da ULS Loures-Odivelas (63%), a ULS do Estuário do Tejo (55%) e da ULS do Algarve (51%).

Protesto dos médicos e cancelamento de cirurgias pode vir “a piorar” a situação, admitem administradores hospitalares

O presidente da Associação Portuguesa de Administradores Hospitalares avisa que o “SNS está a receber mais doentes e não está a dar resposta”, o que, diz, “tem consequências ao nível dos doentes que esperam para lá do tempo máximo de resposta, e que é o mais preocupante”, sublinha. Xavier Barreto lembra que “se o TMRG foi definido é porque existe uma janela terapêutica para intervir”. Não sendo respeitada, “presume-se que o quadro clínico se possa vir a agravar”, vinca.

Governo quer descontar preço das próteses ao valor a pagar às equipas de cirurgia. Médicos recusam e já há operações canceladas

O presidente da APAH estima que a redução do número de cirurgias que se registou até junho “dificilmente será recuperada até final do ano, com consequências ao nível dos tempos de espera”, e admite que o cenário ainda poderá vir a agravar-se no segundo semestre de 2026, uma vez que os dados mais recentes — referentes ao primeiro semestre — ainda não refletem a paragem das equipas cirúrgicas que se registou a partir de julho, quando os médicos recusaram o conteúdo de uma portaria que define as novas regras de pagamento da produção adicional e que foi publicada no final de junho.

“Este cenário ainda pode piorar. Em julho, muitas equipas pararam, porque não sabiam como iam ser pagas. E ainda hoje subsistem dúvidas”, garante Xavier Barreto. Recorde-se que muitos hospitais foram obrigados a suspender as cirurgias programadas em julho devido à contestação dos médicos (sobretudo ortopedistas, oftalmologistas e neurocirurgiões) ao conteúdo da portaria n.º 281/2026, nomeadamente devido à alteração que prevê que o valor das próteses e dispositivos médicos implantáveis seja descontado no valor a pagar às equipas cirúrgicas.

Ofereça este artigo a um amigo

Enquanto assinante, tem para partilhar este mês.

A enviar artigo...

Artigo oferecido com sucesso

Ainda tem para partilhar este mês.

O seu amigo vai receber, nos próximos minutos, um e-mail com uma ligação para ler este artigo gratuitamente.

O seu plano não inclui a oferta de artigos

Para poder oferecer artigos aos seus amigos, faça upgrade para um plano de subscrição superior.

Ofereça até artigos por mês ao ser assinante do Observador

Partilhe os seus artigos preferidos com os seus amigos.
Quem recebe só precisa de iniciar a sessão na conta Observador e poderá ler o artigo, mesmo que não seja assinante.

Este artigo foi-lhe oferecido pelo nosso assinante . Assine o Observador hoje, e tenha acesso ilimitado a todo o nosso conteúdo. Veja aqui as suas opções.

Atingiu o limite de artigos que pode oferecer

Já ofereceu artigos este mês.
A partir de 1 de poderá oferecer mais artigos aos seus amigos.

Aconteceu um erro

Por favor tente mais tarde.

Atenção

Para ler este artigo grátis, registe-se gratuitamente no Observador com o mesmo email com o qual recebeu esta oferta.

Caso já tenha uma conta, faça login aqui.