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Sendo o custo final das obras públicas um grande mistério em Portugal, a audição parlamentar ao governador Mário Centeno sobre o projeto da nova sede da Banco de Portugal (BdP) teve a vantagem de deixar uma frase para a história da Assembleia da República. Afinal, qual o valor final dos dois edifícios que o ainda governador prometeu comprar à Fidelidade com a sua assinatura no contrato-promessa a pouco mais de dois meses do final do seu mandato? “O valor final a Deus pertence”, respondeu Centeno.
Estava em causa um dos vários pontos centrais da investigação do Observador que escrutinou um dossiê decidido pelo Conselho de Administração do BdP e que esteve na origem na chamada Mário Centeno por requerimento do CDS: o custo final do projeto da nova sede não era apenas 191,99 milhões de euros, como o banco central tinha anunciado a 2 de maio.
Como noticiamos, este era apenas o custo final do projeto em core & shell (edifícios em tosco), faltando o valor do recheio do edifício que o próprio consultores especializado do BdP estimou num “acréscimo de investimento de cerca de 43 milhões de euros.” Ou seja, um valor mínimo total de cerca de 234 milhões de euros..
Bem tentou o governador penitenciar-se “por invocar o nome de Deus em vão”, tentando corrigir o tiro com a argumentação de que o conhecimento sobre tal valor final “enfraqueceria a posição negocial” do Banco de Portugal para a chamada fase do fit out (o recheio) mas a frase já tinha sido dita — e marcado a audição.
Mas muito mais foi dito ao longo das mais de quatro horas de audição que teve vários de episódios de tensão entre Mário Centeno e os deputados do PSD, do CDS e da IL. Entre o deputado Alberto Fonseca (PSD) que “representa o pior da sociedade” só por ter feito uma pergunta sobre as nomeações “na 25.ª hora” e a pergunta retórica para o deputado Paulo Núncio (CDS) sobre se “sabe quantos são dois?”, o ainda governador revelou-se particularmente agressivo a responder aos deputados que o escrutinavam perante o silêncio do presidente Rui Afonso (Chega) — que mereceu um abraço de Mário Centeno após o fim da audição. Só o deputado Nuno Fazenda (PS) esteve sempre ao lado do ex-ministro das Finanças, com os seus rasgados elogios a uma das figuras “mais prestigiadas” da sociedade portuguesa.
A audição ficou ainda marcada por esclarecimentos que Centeno nunca tinha dado, por algumas perguntas que ficaram sem resposta e pela ligação que o deputado Paulo Núncio fez entre a adjudicação da Câmara de Lisboa da hasta pública dos terrenos da antiga Feira Popular à Fidelidade por 273,9 milhões de euros — um valor significativamente acima da base de licitação de 188,4 milhões de euros — e o facto de o Ministério das Finanças então liderado por Mário Centeno ter obtido o primeiro superávite da democracia portuguesa. Segundo Núncio, o excedente orçamental de 2019 foi de 249 milhões de euros.
Centeno desmentiu qualquer espécie de ligação entre a hasta pública e o superávite — e muito menos qualquer link entre essa questão e o interesse do Banco de Portugal sobre o projeto da Fidelidade.
Sobre o futuro, o ainda governador resolveu enfrentar Álvaro Santos Pereira — que já disse que, no seu lugar, sairia do BdP depois de liderar a instituição — e confirmou que vai ficar no banco central. Centeno confirmou ainda que o Conselho de Administração do BdP nomeou esta quarta-feira o seu chefe de gabinete para um novo cargo. Mas não disse qual.
O custo total da nova sede do Banco de Portugal? “O valor final a Deus pertence”
O contexto da chamada de Mário Centeno à Comissão Parlamentar de Orçamento, Finanças e Administração Pública foram os dois trabalhos da investigação do Observador em julho com base no acesso a centenas de documentos internos do BdP. O ainda governador começou precisamente por censurar tal revelação.
“O Banco de Portugal falhou momentaneamente com a divulgação de informação confidencial, quando reuniões do conselho de administração foram transmitidas de forma truncada”, disse, acrescentando em tom de censura que “dados expostos a sigilo foram expostos publicamente… Não podemos tolerar”, enfatizou.
Tal como o Observador revelou, Mário Centeno decidiu, com o apoio da sua administração e a pouco mais de dois meses do fim do seu mandato, vincular o Banco de Portugal a um contrato-promessa com quatro sociedades do Grupo Fidelidade para a construção da nova sede do banco central. Fê-lo, apesar de ter sido avisado pelos assessores jurídicos e técnicos sobre 16 contingências graves e de alto risco que podem vir a colocar em causa o negócio, que só será concretizado no final de 2027. E decidiu comemorar esse acto com uma cerimónia do lançamento da primeira pedra que ocorreu pouco antes do Governo de Luís Montenegro anunciar que não seria reconduzido.
A informação publicamente divulgada sobre o negócio apontava para um investimento no valor de 191,99 milhões de euros, mas esse valor diz respeito apenas aos dois edifícios ‘em tosco’, sem contabilizar os acabamentos e recheio dos cerca de 29.000 m2 de área útil. Vários deputados, como Paulo Núncio (CDS), Marco Claudino (PSD) e Mário Amorim Lopes (IL), afirmaram que tal valor era enganador porque “qualquer cidadão que leia o comunicado de 2 de maio pensa que aquele é o valor final”, afirmou Amorim Lopes.
Segundo avaliações feitas por consultores imobiliários contratados pelo Banco de Portugal e por informação recolhida pelo Observador junto de diversas fontes, o custo total pode ficar entre 235 milhões — valor estimado por um dos consultores do BdP, tal como o relatório a que o Observador teve acesso atesta — e os 280 milhões de euros, valor estimado por fontes do mercado consultadas pelo Observador.
Durante largos minutos, Mário Centeno procurou detalhar os contornos do negócio e do projeto da nova sede do BdP. Porém, sobre o custo final do projeto, Mário Centeno não se quis comprometer. “O valor final a Deus pertence”, atirou, perante alguns risos na sala da Comissão de Orçamento e Finanças. “Este custo não existe hoje, porque as decisões que vão levar à constituição desse custo não foram tomadas. Alcatifas, moveis, decoração… são tudo decisões que vão ser tomadas”, afirmou.
“O Banco de Portugal segue as melhores práticas e aplica um inquebrantável rigor financeiro. O novo edifício é um processo com quatro décadas, é um tema antigo, atravessou o mandato de oito governadores e 22 ministros das Finanças, fez parte dos últimos três planos estratégicos”, adiantou Mário Centeno, no arranque dos seus esclarecimentos às questões do deputado Paulo Núncio (CDS).
Depois de ter sido duramente criticado por vários deputados sobre a sua tirada sobre o custo final da obra — “valor final a Deus pertence e o contribuinte que está aqui na terra a pagar”, respondeu Mário Amorim Lopes (IL) —, Centeno fez um pequeno ato de contrição e penitência mas o mal já estava feito.
“Não se deve invocar o nome de Deus em vão e eu fi-lo. Estava a tentar passar uma mensagem. Não há nenhuma dúvida ou risco em cima do valor de aquisição do imóvel nas condições contratadas que descrevi. O projeto que está a ser adquirido para as novas instalações não tem nenhuma incerteza sobre o seu custo. Esse valor está fechado”, declarou.
De seguida, o ainda governador prosseguiu com a explicação para a reserva sobre os valores a acrescentar ao negócio de 191,99 milhões de euros pela conclusão dos dois edifícios de Entrecampos: “Há um projeto apresentado com os valores máximos. Se eu vier para a praça pública com esse valor, eu vou ficar com esse valor como ponto focal do mercado e fico refém do mercado. Não tem a ver com a falta de transparência ou falta de capacidade para comunicar. Esse valor está a ser negociado, não está concretizado. É matéria negocial e decisória do Conselho de Administração do BdP”.
Centeno acrescenta informação a comunicado “objetivo e completo” mas ignora acréscimo de custo de 43 milhões de euros
Ao Observador, e no contexto do contraditório exercido por escrito pelo nosso jornal, fonte oficial da BdP tinha garantido que a banco central “divulgou publicamente, de forma objetiva e completa, todos os elementos relevantes relativos à concentração dos seus escritórios em Lisboa”. Após ter sido duramente censurado pelos deputados Paulo Núncio (CDS), Marco Claudino (PSD) e Mário Amorim Lopes (IL) sobre a “falta da transparência” da comunicação do BdP sobre o projeto da nova sede, nomeadamente em termos do modelo de negócio e do custo final, Mário Centeno evoluiu na linha de argumentação.
Centeno confirmou que o contrato assinado foi de um edifício no estado ‘core & shell’, algo que não vinha referenciado no memorando de entendimento ou no comunicado final sobre o projeto, quando se comunicou um negócio por 191,99 milhões de euros.
MIGUEL A. LOPES/LUSA
“É verdade que estamos a comprar um edifício que se chama ‘core & shell’”, afirmou, corrigindo assim o comunicado de 2 de maio do BdP que omitia esse facto. Contudo, Centeno fez questão de tentar desmentir o Observador, afirmando que ‘core & shell’ não significava que fosse um edifício ’em tosco’. “Não é uma aquisição em betão armado. As fachadas estão totalmente acabadas no exterior e interior, tem pavimento sobrelevado… Não é um edifício em que poderíamos ir trabalhar, mas é muito além do que por vezes acontece nestes casos”, esclareceu.
Tal como o Observador noticiou no ponto 2 do trabalho publicado a 20 de julho, os edifícios em ‘core & shell’ podem incluir paredes, cobertura, janelas e outras características essenciais para a estruturação da edificação. No caso da nova sede do Banco de Portugal, as fachadas totalmente acabadas pelo exterior e interior fazem parte do contrato — exatamente como o nosso jornal noticiou e como Centeno disse no Parlamento. Contudo, o que o ainda governador omitiu é que fora do contrato-promessa por si assinado estão os acabamentos, personalizações, assim como pinturas, pavimento final, acabamentos interiores, instalação de elevadores e plataformas e outras infraestruturas interiores, mobiliário e loiças, entre muitas outras questões de pormenor que são obrigatórias num projeto com esta complexidade.
Mário Centeno ainda tentou criar a ideia que todos esses pormenores — ou os “milhares de decisões que o Banco de Portugal terá de tomar”, nas suas próprias palavras — poderia ficar por 700 mil euros (o custo do recheio do edifício da Marconi que foi recentemente alugado pelo Banco de Portugal para colocar 900 trabalhadores). E chegou mesmo a dizer que até se podia reaproveitar todo o material possível entre aquilo que é usado atualmente pelos funcionários da instituição para levar para a nova sede.
Os problemas são dois:
- ao contrário do que Mário Centeno insistentemente diz, não está em causa apenas e só o mobiliário — muito longe disso, como já vimos acima.
- Centeno faz questão de ignorar o parecer do seu próprio assessor técnico, a empresa Ficope, que informou o Banco de Portugal que o custo para o ‘fit-out’ andaria à volta dos 1.485 euros/m2, logo estaremos a falar de “um acréscimo de investimento de cerca de 43 milhões de euros”, lê-se no relatório já divulgado pelo Observador.
Repete-se: o custo total pode ficar entre 235 milhões — valor estimado pela empresa Ficope — e os 280 milhões de euros, valor estimado por fontes do mercado consultadas pelo Observador, tendo em conta o perfil do cliente Banco de Portugal para a fase de acabamentos do projeto.
Mário Centeno adiantou que o BdP já contratou uma empresa, chamada OpenBook, para gerir a fase do ‘fit out’ e recusou que a decisão de avançar com a opção de Entrecampos fosse uma opção pessoal, tendo lembrado que o tema foi “tratado” e “aprovado por unanimidade” pelo “Conselho de Administração do Banco de Portugal” e envolve os 1.500 trabalhadores da instituição.
E ainda fez um breve histórico do processo, lembrando que este é um projeto com mais de 40 anos que já resultou em “29 projetos em pelo menos 25 localizações. Entrecampos é uma palavra… Em 2018, o Banco de Portugal adquire um terreno no Alto dos Moinhos por 40 milhões de euros [para a nova sede do banco, no tempo de Carlos Costa]. Desde então teve despesas de 900 mil euros e até 2028 terá despesas programadas de 12 milhões”, explicou, aludindo ao terreno que a instituição tinha como uma das possíveis localizações.
Entrecampos excluída em 2022? Centeno diz que o projeto era diferente
O segundo capítulo da investigação do Observador sobre o negócio da nova sede do Banco de Portugal (BdP) revelou que a opção de localização da estrutura em Entrecampos tinha, afinal, sido excluída numa reunião interna que ocorreu a 5 de julho 2022 por não respeitar “regras basilares” de segurança definidas pelo BdP para o projeto. Mário Centeno participou nessa reunião.
Naquele momento, estavam em cima da mesa quatro opções:
- Alto dos Moinhos — um terreno adquirido no mandato do ex-governador Carlos Costa por cerca de 40 milhões de euros em março de 2018;
- Avenida de Berna — uma opção que dependia da aquisição de vários terrenos a outras tantas entidades públicas;
- Restelo — um terreno que era propriedade do Ministério da Defesa Nacional;
- Entrecampos — o projeto que nesta altura já era propriedade do Grupo Fidelidade.
A conclusão da reunião não podia ser mais clara: seguindo uma proposta do Departamento de Serviços de Apoio, foi decidido excluir as opções de Entrecampos e Restelo por não serem viáveis tecnicamente.
Mário Centeno começou por confirmar a realização da reunião mas lamentou que o seu conteúdo tivesse sido revelado “de forma inusitada” e considerou que transmitiu um “equívoco” por apenas “contar parte da verdade”. O ainda governador explicou que a opção de Entrecampos excluída em 2022 não corresponde ao projeto atual na mesma localização.
“A proposta de Entrecampos era para 50 mil metros quadrados. E não estamos a comprar um terreno, estamos a comprar um imóvel. Eram 309 milhões de euros por três edifícios separados, sem ligação entre eles sem ser ao nível do estacionamento”, referiu, deixando uma garantia: “Nessa reunião, nenhuma opção se mostrou viável”.
Lembrando que o Banco de Portugal foi ultrapassado “em cima da linha da meta” pela Caixa Geral de Depósitos para uma localização para as novas instalações no Parque das Nações, Mário Centeno explicou que em 2023 ressurgiu a opção de Entrecampos, “mas com condições diferentes”.
“Não é o mesmo projeto de julho de 2022. A Fidelidade mostrou abertura para analisar as nossas condições. A profundidade e o rigor da análise levou a que o acordo fosse prorrogado por quatro vezes. Foram mais de 100 reuniões. A 27 de janeiro de 2025 foi assinado o memorando de entendimento, que já tinha muito trabalho feito. Realizámos análises técnicas e jurídicas e pedimos duas avaliações ao mercado. O projeto é muito complexo”, enfatizou o governador do BdP.
Os 16 alertas vermelhos. “Alguns riscos são ultrapassados ou o projeto é adaptado”
Além desse diagnóstico sobre a localização de Entrecampos — que, depois, por decisão do conselho de administração do BdP liderado por Mário Centeno, acabou mesmo por vingar como a escolha final —, o Observador revelou que os relatórios de due diligence do escritório Sérvulo (assessor jurídico) e Ficope (assessor técnico) de outubro de 2024 indicavam claramente que existiam um total 16 contingências graves.
Entre tais contingências graves, encontravam-se as alterações “profundas” de projeto que teriam de ser feitas para acomodar todos os requisitos de segurança do Banco de Portugal, assim como riscos de chumbos pela Câmara de Lisboa ou pela CCDR de Lisboa e Vale do Tejo. Mais: esses riscos podem também ser parcialmente assacados ao BdP.
Centeno enquadrou as 16 contingências graves num processo evolutivo. “As avaliações técnicas identificam riscos, trazem conhecimento e permitem-nos corrigir. Os riscos foram analisados com o promotor: alguns riscos são ultrapassados ou o projeto é adaptado”, assinalou.
Entre os riscos apontados ao projeto, Mário Centeno assegurou que “não há lojas por debaixo do edifício”, que os lugares de estacionamento para o BdP estão “totalmente segregados” e que os demais riscos incluem “cláusulas contratuais” de proteção do Banco central. “Se não forem resolvidas, o Banco de Portugal sai do negócio sem nenhuma despesa”, declarou.
O ainda governador fez questão enfatizar que a concretização das novas instalações do Banco de Portugal em Entrecampos deverá permitir uma poupança superior a 140 milhões de euros em 25 anos. “A situação atual é ineficiente e traz custos incomportáveis. A sede mantém-se na baixa lisboeta e não vai mudar para esta localização, são os 1.500 trabalhadores que se vão mudar”, clarificou.
“Este é um investimento, não é um custo. É um princípio básico da contabilidade. O Banco está simplesmente a trocar componentes do seu ativo por este novo imóvel. Não se destrói riqueza, damos-lhe outra forma. Dois terços do financiamento é feito através da alienação dos outros edifícios e da venda do terreno do Alto dos Moinhos. São 120 e poucos milhões de euros”, referiu.
Avaliação mais baixa era de 156 milhões? Não conta. Era apenas um draft. E os juros explicam o resto
Outra das questões levantadas pela investigação do Observador prende-se com as avaliações realizadas pelas duas consultoras imobiliárias especializadas contratadas pelo Banco de Portugal: a Iniciativ Ability Consultoria e a Savills. O Observador teve acesso a cinco relatórios de avaliação realizados por aquelas duas consultoras entre julho de de 2024 e fevereiro de 2025 — em contextos muitos diferentes.
Acresce que a instituição liderada por Mário Centeno informou em maio de 2025 que assinou o contrato-promessa com o Grupo Fidelidade pelo valor determinado pela “avaliação pericial independente mais baixa, entre as solicitadas pelo Banco de Portugal” aos terrenos de Entrecampos. Ou seja, cerca de 191,99 milhões de euros. Porém, o Observador demonstrou que o valor mais baixo de tais avaliações foi de 156 milhões de euros para a compra dos dois edifícios que deverão ser a nova sede do banco central.
Sempre num contexto sem ‘fit out’, as diferentes avaliações foram evoluindo da seguinte forma:
- julho de 2024. A Iniciativ Ability avaliou o “Projeto Atual” em dois valores: um de 159.357.277 euros que avaliou o “open space seguindo os standards de mercado” e outro de 156.115.334 euros;
- julho de 2024. A Savills avaliou o “Projeto Atual” em 164.400.000 euros;
- 2 de agosto de 2024, a Iniciativ Ability apresentou um novo relatório de avaliação em que altera de forma muito significativa o seu intervalo de avaliação: entre 187.946.800 euros (open space seguindo os standards de mercado) e 184.429.882 euros (valor de nível de acabamento projeto, sem ‘fit out’).
- 22 de janeiro de 2025. A Savills avaliou o “Projeto Atual” em 191.990.000 euros;
- 10 de fevereiro de 2025. A Iniciativ Ability avaliou o “Projeto Atual” em 206.266.792 euros como “open space seguindo os standars de mercado – sem fit out”.
Mário Centeno explicou que as duas últimas avaliações foram relatórios finais, enquanto que as restantes representavam apenas drafts. O que, na ótica de Centeno, explica o facto de o banco central ter afirmado publicamente que o valor da avaliação mais baixa era de 191,99 milhões de euros — e não de 156,1 milhões de euros.
E salientou o peso da variação das taxas de juro nas avaliações realizadas ao custo do projeto de Entrecampos. Recordando que as taxas de juro atingiram um pico em julho de 2024, Centeno enfatizou que, “num projeto desta dimensão, a taxa de juro tem um impacto enorme. Por cada 0,25% de variação da taxa de juro, o valor altera-se em 10 milhões de euros. Quando o valor da taxa desce, o valor da avaliação sobe”, declarou. Enfatizando ainda que os dois edifícios de Entrecampos que o BdP prometeu comprar representam “um imóvel complexo, grande e com diferentes valências”.
Garantindo que no período da realização das avaliações a taxa de juro teve “uma descida de 75 pontos base”, Centeno estimou que o impacto na avaliação do projeto tenha sido “até 30 milhões de euros” Logo, essa é a explicação para a variação das avaliações reveladas pelo Observador, garantiu Centeno.
Apesar disso ter sido perguntado, o ainda governador ignorou o facto das avaliações da Iniciativ Ability terem subido cerca de 28 milhões de euros entre julho e 2 de agosto de 2024. Isto é, em menos de um mês.
Mário Centeno enfrenta Álvaro Santos Pereira. “É evidente que vou ficar no Banco”
Mário Centeno foi também questionado sobre o seu futuro depois de deixar o cargo de governador do Banco de Portugal — no qual será sucedido por Álvaro Santos Pereira. A pergunta fazia todo o sentido porque Álvaro Santos Pereira tinha sido bastante claro na sua audição parlamentar de indigitação — e que foi confirmada esta tarde, com a aprovação do relatório da Comissão de Orçamento, Finanças e Administração Pública.
“Eu sei o que eu faria: eu sendo governador, nunca ficaria no banco depois de ser governador – mas cada um faz o que quer”, afirmou o novo governador do BdP.
Após sucessivas questões sobre o seu futuro, Mário Centeno foi taxativo: “É evidente que vou ficar no Banco de Portugal”. Recordando que tem 35 anos com funcionário do banco central, Centeno respondeu assim ao deputado Paulo Núncio (CDS): “Sabe o que são 35 anos? Está disponível para respeitar uma carreira de 35 anos? Acho que toda a gente vai estar”, afirmou, numa alusão indireta a Álvaro Santos Pereira.
“Sou funcionário do Banco (de Portugal) há 35 anos, tenho uma carreira no Banco. O Banco de Portugal tem regras muito claras sobre o que os trabalhadores fazem depois de saírem do Conselho de Administração. Há inúmeros casos — Helder Rosalino, José Matos, Vítor Constâncio —, o meu caso não é diferente”, resumiu, referindo-se, sem ser explícito, ao cargo de consultor do Conselho de Administração do Banco de Portugal — algo que só pode acontecer se o novo governador o nomear.
Se Mário Centeno insistir em fazer declarações públicas sobre políticas públicas ou macro economia, os deputados do centro-direta alertaram para o risco de o Banco de Portugal falar a duas vozes: a voz do governador Santos Pereira e a voz do funcionário Centeno.
Centeno confirma que nomeou Álvaro Novo para novo cargo mas diz não qual é
A questão das nomeações polémicas de Álvaro Novo (reconduzido perto do final do mandato de Centeno diretor do gabinete de apoio ao governador) e de Rita Poiares (mulher de Ricardo Mourinho Félix, ex-secretário de Estado de Centeno e que também foi para o BdP pela mão de Centeno) marcam os últimos dias do mandato de Mário Centeno, depois do jornal Eco ter noticiado os dois movimentos.
A maior parte dos deputados classificaram estas duas nomeações como “nomeações na 25.ª hora”, censurando o facto de se terem verificado nos últimos dias do seu mandato.
Mário Centeno garantiu que há uma continuidade na gestão do Banco de Portugal que não se comprime na transição de mandatos mas começou por abrir uma polémica com o deputado Alberto Fonseca (PSD) — o primeiro a tocar no tema, sem mencionar o nome de Rita Poiares, tendo sido acusado por Centeno de representar “o pior da sociedade” só por estar a exercer o seu direito de escrutínio enquanto deputado.
Mário Centeno relativizou a polémica em torno da recondução de Álvaro Novo para chefe de gabinete a poucos meses do fim do mandato como Governador do Banco de Portugal e garantiu que esse percurso termina com o seu fim de mandato.
“Foi uma recondução feita para completar o tempo do meu mandato e foi feita de acordo com as regras que vigoram desde 2016. É evidente que nem eu nem o meu chefe de gabinete tivemos a ideia e nem foi nossa intenção prolongar o cargo além do tempo que o cargo tem naturalmente na sua decorrência. Eu ainda não sei quando será esse dia e tenho de prover todas as soluções em todos os momentos no Banco de Portugal”, enfatizou.
E acrescentou: “Não é o professor Alvaro Santos Pereira que substitui o chefe de gabinete, porque a função do diretor de gabinete termina no dia em que Mário Centeno deixar de ser governador”.
No final, e após várias insistências do deputado Paulo Núncio (CDS) sobre se o Conselho de Administração do BdP tinha nomeado novamente Álvaro Novo para um novo cargo no Banco de Portugal na reunião desta quarta-feira, Mário Centeno lá respondeu afirmativamente. “Se considera isso uma nomeação, foi”, concluiu.
Contudo, não adiantou o cargo para o qual o seu amigo próximo foi nomeado. “Todas as decisões do Banco são tomadas em sede de Conselho de Administração. Não há nenhum fim de mandato, o Banco de Portugal não termina nem se renova no dia em que sair. Não há 25.ª hora, porque há uma continuidade do serviço. Todas são feitas pelo conselho de administração e não há rigorosamente nada escondido”, disse.