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Dançámos sozinhos, mas cantámos juntos: estes são os nossos 27 discos favoritos de 2020 /premium

Do hip hop mais criativo às canções feitas de intimidade e revelação. Do apelo à mudança ao delírio mais instrumental. Estas são as escolhas de um ano em que a música foi uma luta constante.

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Há coisas que não se alteram até num ano em que o mundo mudou tanto que ficou virado do avesso. Uma delas é a publicação de listas de fim de ano. É sempre um exercício inglório, condenado ao insucesso, mas porque não trazer alguma ordem ao caos provocado pela confusão dos dias (que este ano foi ainda maior, muito maior)?

Como habitual, propomo-nos a discutir o que de melhor se viu, leu ou ouviu de novo em 2020 — e neste caso específico, os discos novos que nos maravilharam e em que nos refugiámos neste ano pandémico. Tal como em anos anteriores, convidámos jornalistas, críticos e colaboradores que ao longo de 2020 escreveram sobre música para o Observador para destacarem os seus favoritos deste ano. O resultado foi este. Se quiser concordar, discordar, dizer-nos o que mais gostou de ouvir em 2020, o que descobriu aqui de bom e o que acha mau, pois faça favor.

André Almeida Santos

Bill Callahan — Gold Record (Drag City)

Dez novas canções sem discriminação. Isto é, singles. Do nada, Bill Callahan apresentou-se com um novo álbum que está entre os seus melhores, feito de ideias/canções que foram ficando para trás. Não é um álbum de demos revisitadas, mas de canções acabadas, gravadas num espaço de uma semana, despidas de banda e vestidas com a presença de Callahan, com a sua voz, diálogo, humor, naturalidade.

Vários Artistas — Documenting Sound (Documenting Sound)

Pouco mais de dois meses depois da Europa entrar em confinamento, a Boomkat, loja de discos online sediada em Manchester, deu início a uma série de 30 lançamentos em cassete que capturavam gravações de som dos artistas em casa. Sarah Davachi, Kevin Drumm, Mark Leckey, Félicia Atkinson, Dean Hurley, Special Guest DJ ou FUJI||||||||||TA são alguns dos convidados, de uma coleção que tem os seus altos e baixos, mas que é, acima de tudo, um documento cultural importantíssimo de 2020. Documenting Sound regista um período muito específico das vidas destes artistas e do mundo, priorizando a criação e não a sobrevivência de um meio. Bonito, resiliente, oportuno e importante. Quem disse que as lojas de discos são irrelevantes?

Nazar — Guerrilla (Hyperdub)

Desde meados da primeira década deste século que a Hyperdub, a partir de Londres, tem trabalhado um som que concilia as margens com o centro, descortinando o futuro através da eletrónica. Nestes dois anos editou álbuns que trouxeram uma relevância que a editora tinha perdido nos últimos tempos: For You And I, de Loraine James, no ano passado, e este Guerrilla, de Nazar. Se a Hyperdub começou com Burial a olhar para a memória da música de dança britânica como um ponto de partida para o apocalipse urbano, com Nazar – e em 2020 — partilha as mesmas visões de futuro mas com um olhar contemporâneo e mais universal, menos confinado à tradição ocidental. Um álbum para a guerra, onde o som de armas constroem beats, helicópteros causam terror, com o oportunismo pop de uma “M.I.A.” e o afinadíssimo tato – geracional – de construir música de dança de um quarto para o mundo.

DJ Python — Mas Amable (Incienso)

Ao longo de 50 minutos, o nova-iorquino Brian Piñeyro, enquanto DJ Python, monta um álbum de texturas variadas, com uma narrativa entre tendências da música ambiental feita nos últimos cinco anos, a eletrónica e diferentes tendências da dança. Tem temas absolutamente demoníacos, como “Juntos” ou “Alejandro”, mas Mas Amable está organizado para ser ouvido de uma ponta a outra, convida a reconhecer os sons que transitam de um tema para o outro, que se vão tornando familiares e permitindo a absorção da miscelânea imprevisível que se vai mostrando.

Jon Hassell — Vernal Equinox (Ndeya)

Houve um novo – e excelente – álbum de de Jon Hassell editado neste ano, Seeing Through Sound (Pentimento Volume Two), mas as boas notícias chegaram uns meses antes, com a reedição de Vernal Equinox, uma das obras mais visionárias de Jon Hassell, editada originalmente em 1978, na Lovely Music, Ltd., de Robert Ashley, que estava há muito tempo descatalogados. Um álbum de 1978 ainda pode ser um dos melhores álbuns de 2020, sobretudo numa altura em que alguma electrónica, música ambiente e jazz existem segundo as ideias de música do “quarto mundo” fundada por Jon Hassell.

As escolhas de André Almeida Santos

Gonçalo Correia

Adrianne Lenker — Songs (4AD)

Um músico com o coração desfeito isolar-se, pegar numa guitarra e fazer disso matéria-prima de canções é uma história tão velha quanto a história da música popular — fazê-lo como Adrianne Lenker é que é dificílimo. Em Songs, um dos dois discos que editou este ano, a vocalista e letrista dos Big Thief canta (bem) como um gato a lamber feridas mas é a maneira como constrói as canções que mais impressiona. Não é um disco de singles: embora tenha canções maiores (“Anything” e “Zombie Girl”), todas são acima da média.

Não vi ninguém descrever com mais acerto a escrita de canções de Lenker do que o seu colega de banda nos Big Thief, Max Oleartchick, que disse o seguinte à revista New Yorker: “Ela dá um significado grande ao momento em que está a segurar a guitarra. Nunca penso nela a brincar, a tocar uns riffs ou assim”. A guitarra para Lenker “é sempre este instrumento de feitiçaria; é sempre sagrado”, diz Oleartchick. E há realmente uma espécie de mundo encantado e hipnótico nas canções de Adrianne: tem originalidade e instinto a compor melodias, escreve letras espantosas, sabe cantá-las e os arranjos, por mais simples, distinguem as canções umas das outras e distinguem-na de outros que fazem canções à guitarra. É por isso que não é fácil atribuir-lhe referências, compará-la com compositoras e cantoras que vieram antes. É por isso que é única.

A louca e subtil beleza de Adrianne Lenker

Lina e Raul Refree — Lina_Raül Refree (Glitterbeat)

Perdoem-nos os puristas, mas já sabíamos que o fado cantado soa bem, muito bem mesmo, acompanhado por um piano — sabemo-lo das composições de Oulman para Amália (já reveladas até no seu formato mais puro, em ensaios com voz e piano), sabemo-lo por exemplo ao ouvir discos como o que juntou Carlos do Carmo a Bernardo Sassetti ou mais recentemente Camané a Mário Laginha. E sabemos que o fado pode ser cantado com outros instrumentos inusitados que não o piano ou as mais tradicionais guitarras portuguesas e violas: num disco recente de Carminho ouvíamos, além de piano, uma voz fadista conjugar-se muito bem com uma pedal steel guitar.

Mas este Lina_Raül Refree é outra coisa. Lina é uma fadista mais habituada a cantar nas casas de fado (onde não há distância para o público nem artifícios: há só voz, dramaturgia na interpretação das palavras, emoção), Raul Refree é um produtor e musico catalão que já trabalhou com Rosalía, Sílvia Perez Cruz, Lee Ranaldo ou Luísa Sobral. Juntos, pegaram em fados cantados por Amália, retiraram-lhes os instrumentos de acompanhamento mais tradicionais e preencheram-nos com teclados e sintetizadores. Eis um exercício bem conseguido de reinvenção da tradição: as versões, inesperadas, são todas ótimas, da tensão que se reconstrói nesta nova “Medo” a uma espécie de suspense noir de “Cuidei Que Tinha Morrido” ou “Maldição”, passando por uma interpretação muito original de “A Mulher Que Já Foi Tua”.

Tristany — Meia Riba Kalxa

É português um dos discos mais originais e livres que se ouviram nos últimos anos. O gosto pelo risco, por subverter as fórmulas de canções e géneros é notório em Meia Riba Kalxa, álbum de estreia do português Tristany — algo que não sustentaria por si só o destaque, não fosse este um exercício que nunca soa gratuito na subversão, nunca expansivo só pela mera vontade de “brincar” com os sons. “Rapepaz” é uma das mais bonitas canções escritas em língua portuguesa deste novo milénio, “Aciclas” é uma montanha-russa de ritmos, do rap ao funaná, “O Menino Ke Brinkava Com Bonekas” é uma espécie de soul-eletrónica comovente movida a Xanax, “Mark Landerz” tem rimas e um sentido de construção melódica absolutamente certeiros e as duas partes de “Verde” (a primeira com participação de Chullage) encerram o disco em beleza.

Em Meia Riba Kalxa, disco em que Tristany se propõe a refletir, cantar e rimar aquilo que viu e aprendeu enquanto crescia na periferia e na linha de Sintra, cada canção parece poder conter três ou quatro canções diferentes em si e ouve-se de tudo: sons de ambiente e rua, conversa entre amigos, rap lo-fi, uivos, canto baladeiro e emotivo à Frank Ocean, canto árabe, hip-hop e R&B psicadélico, batidas de afro-dança à Príncipe Discos, pozinhos de jazz. Percebe-se que Tristany passou muito tempo a trabalhar cada tema e cada som — e este disco entra diretamente na lista dos melhores OVNIS da música popular portuguesa. Dos discos nacionais de 2020, atenção ainda a Vias de Extinção (Benjamim), Julio Resende Fado Jazz Ensemble (Júlio Resende), Eva (Cristina Branco), Revezo (Filipe Sambado), Não Fales Nela Que a Mentes (Nídia), Véspera (Clã), Kriola (Dino D’Santiago) e Madrepérola (Capicua).

Tristany chegou para cantar as dores e os sonhos, a Linha de Sintra e o amor, a periferia e o mundo

Fleet Foxes — Shore (Anti-)

Seria muito justo que estivesse aqui destacado Gold Record, mais um grande disco de Bill Callahan — como destaque mereceriam também outros bons álbuns editados este ano, como o celebrado Fetch The Bolt Cutters, de Fiona Apple, a eletrónica feita matéria de belas canções dançantes de Suddenly (Caribou), a folk apurada de Song For Our Daughter (Laura Marling), o excelente novo registo que aos 79 anos Bob Dylan ainda conseguiu encontrar para as suas canções em Rough and Rowdy Ways, o rap gourmet de Burden Of Proof (Benny The Butcher), o jazz de intervenção de Who Sent You? (Irreversible Entanglements) e o de Ambrose Akinmusire, a afro-pop de Twice As Tall (Burna Boy) ou o indie-rock de Every Bad (Porridge Radio) e Snapshot of a Beginner (Nap Eyes) *.

Se nenhum desses discos está aqui é porque os Fleet Foxes, banda de gente barbuda e campestre que gosta de fazer canções como se vivesse numa montanha de hippies que querem cantar epicamente as suas alegrias e as dores, fizeram o melhor disco da carreira. Três anos depois de Crack-Up, os Fleet Foxes elevam a fasquia, chamam outras vozes (o disco começa cantado por Uwade Akhere, que também cantará noutras duas faixas; mas as duas filhas de Hamilton Leithauser, dos Walkmen, Kevin Morby, Meara O’Reilly, Tim Bernardes e Juliet e Faye Butters também cantam), assinam grandes canções como “Sunblind”, “Can I Believe You”, “Jara”, “For a Week Or Two” e “Shore” e conseguem uma coisa difícil numa banda que vive tanto de um truque, as harmonias e crescendos vocais: conseguir que as canções se distingam minimamente umas das outras e tenham nuances próprias.

* E ainda podíamos falar de mais jazz eclético (Avishai Cohen, Jeff Parker, Jyoti, Tonny Allen & Hugh Masekela, Kassa Overall, Shabaka and the Ancestors), eletrónica (Against All Logic, Disclosure), hip-hop e R&B (Tom Misch e Yussef Dayes, Mac Miller, Jay Electronica, Ka, Nas, Pink Siifu & Fly Anakin, Quelle Chris & Chris Keys), do Brasil-maravilha de Carne Doce (Temporal) e Letrux (Letrux Aos Prantos), da energia de Yves Tumor (Heaven to a Tortured Mind) ou da soma ao cancioneiro clássico conseguida por Kevin Morby (Sundowner), Bill Fay (Countless Branches), Waxahatchee (Saint Cloud), Phoebe Bridgers (Punisher), Swamp Dogg (Sorry You Couldn’t Make It), Charley Crockett (Welcome to Hard Times), Tenci (My Heart Is An Open Field) e Jennifer Castle (Monarch Season).

No naufrágio de 2020, os Fleet Foxes dão à costa

Sault — Untitled (Black Is) (Forever Living Originals)

Durante uns tempos ninguém fazia ideia de quem fazia parte desta banda-mistério, que em 2019 editou dois álbuns e neste 2020 repetiu a dose. Aparentemente já se sabe alguma coisa: é garantido que do coletivo faz parte “Inflo”, produtor que trabalhou em discos recentes da rapper e cantora Little Simz (de quem é amigo de longa data) e do cantor e compositor Michael Kiwanuka. E acredita-se que também Cleo Sol (antiga colaboradora de Little Simz, autora de uma soul eletrónica que se ouve por exemplo no disco a solo que editou este ano: Rose In The Dark) e a rapper norte-americana Kid Sister (Melisa Young) fazem parte da cooperativa.

Misturando batidas de hip-hop, soul eletrónica, coros e uma produção de som de grande gabarito, este Untitled (Black Is) começa a grande nível e agarra rapidamente o ouvinte: “Stop Dem”, a segunda faixa, é uma espécie de canto negro comunitário com batidas a preceito; “Hard Life” tem uma grande voz a cantar e percussão forte mas transforma-se em canto emotivo e épico; “Don’t Shoot Guns Down”, tem pedidos à polícia para não disparar e com uma percussão que alimenta a tensão; e “Wildfires” é jazz e soul eletrónica (R&B moderno, digamos) bem misturadas no mesmo caldeirão. Daí vai sempre bem, sempre com groove, boas batidas modernas, palavras interventivas e necessárias. “Bow”, com Michael Kiwanuka, junta funk e africanismo a este caldeirão de música negra; “Black”, “Eternal Life” e “Monsters” levam o ouvinte para paisagens mais cósmicas na segunda metade. É um disco que dá seguimento ao que Solange Knowles fizera no ano passado em When I Get Home, mas tudo isso expandido para um som mais comunitário, coral e grupal.

Sault. Nunca os vimos, não precisamos: a música bastou-lhes para conquistarem 2020

As escolhas de Gonçalo Correia

Isilda Sanches

Molero — Ficciones Del Trópico (Holuzam)

Talvez tenha sido o confinamento e o tom assombrado do ano. Ficciones del Trópico foi como um raio de muitas luzes cintilantes a iluminar dias turbulentos. Esta fantasia musical em sintetizador é o álbum de estreia de Alexandre Molero, um venezuelano a viver em Barcelona, e sai pela editora portuguesa Holuzam. Um disco bonito e fascinante, inspirado num livro de viagens do séc XIX, que deixa a imaginação correr livre e faz-nos sentir como num sonho, num sono. Uma verdadeira pérola!

Sault — Untitled (Black Is) (Forever Living Originals)

Em vez de um, podia ter escolhido os dois álbuns de Sault saídos em 2020, mas achei por bem não me repetir. Sault é um fascinante mistério em tempos de sobreexposição. Ninguém sabe muito, mas sabe-se que o produtor britânico Inflo é o arquiteto desta experiência neosouljazzfunkdiscobreaks. Este Untitled (Black is) levanta o punho pelo movimento black lives matter, numa reação à morte de George Floyd, e foi feito em tempo recorde. É um disco simultaneamente clássico e experimental, inventivo e interventivo.

Vários — Breathing Instruments (Touch the Plants)

Não só tem uma capa adorável, é uma compilação maravilhosa. Kaitlyn Aurélia Smith, uma das grandes protagonistas da eletrónica mais ambiental e boss da editora Touch The Plants, pediu aos músicos convidados que criassem peças que acentuassem a forma como os instrumentos parecem respirar. O resultado assume diferentes formas, mas como um todo, o efeito da compilação é inspirador e quase terapêutico, capaz de criar uma verdadeira  bolha de satisfação em época conturbada. Além disso é uma boa montra de nomes ligados ao ambient.

Nidia — Não Fales Nela que a Mentes (Príncipe Discos)

2020 foi um ano tremendo para Nídia. Além deste álbum, editou um EP, um single e várias remisturas. É oficialmente um prodígio. Produtora arrojada e fértil, Nídia é uma das estrelas da Príncipe Discos e uma das heroínas da música eletrónica atual, e não apenas por ser mulher, mas por fazer música com pulsar rítmico dominador e também sabe puxar ao sentimento. Não Fales Nela Que A Mentes, segundo álbum de Nídia, não poupa na invenção rítmica mas tem a emoção toda no sítio e é isso que o torna especial.

O piri-piri e a batida de Nídia contra a mentira

Roisín Murphy — Roisín Machine (Skint)

Desde Overpowered, em 2007, que Roisín Murphy não lançava um disco tão entusiasmante. Roisín Machine mostra a ex-vocalista de Moloko a ser o que na verdade é: uma diva das pistas de dança, perfeita para delírios disco e house, seja em formato clássico ou tintados de experimentação. Roisín Machine é música para dançar, extremamente funcional, seja na exuberância ou na contenção, mas também é para ouvir com atenção, mesmo quando nos afasta da pista. É que além de tudo o resto, Roisín Murphy tem talento extraordinário para fazer canções.

As escolhas de Isilda Sanches

João Bonifácio

Run the Jewels — RTJ4 (BMG)

Há uma pandemia a matar gente em barda, neo-fascistas trepando pelas muralhas do poder acima, uma guerra entre feministas à procura de maior equilíbrio de género e os leitores de Jordan Peterson, e é neste clima que RTJ4 surge e se torna a banda-sonora perfeita para a distopia que são estes dias. os Run the Jewels (constituídos por El-P e Killer Mike) sempre tiveram esse lado de negrume social, mas o pesadelo de RTJ4 é mais assustador que nunca ao mesmo tempo que a música se tornou mais acessível, uma espécie de bomba apontada ao mainstream, capaz de enraivecer o mais pacato dos engenheiros e de fazer dançar os ratinhos usados em laboratório nas experiências com barbitúricos. Se não for o disco do ano é o disco do zeitgeist, que capta o cheiro a enxofre do ar e o devolve sob a forma de pólvora sonora.

Não é preciso procurar mais: os Run The Jewels fizeram o disco perfeito para um ano destruído

Adrianne Lenker — Songs (4AD)

Desde 2014 que Adrianne Lenker não pára: com os Big Thief, o seu quarteto revivalista de música tradicional americana, Lenker editou Masterpiece (2016), Capacity (2017), U.F.O.F. (2019) e Two Hands (4AD, 2019); a solo, deitou cá para fora Hours Were the Birds (2014), Abysskiss (2018) e, já no final deste ano, Songs e Instrumentals, o primeiro só voz e violão, o último um disco de instrumentais à guitarra, composto de apenas dois temas. Songs é uma espécie de anti-RTJ4: enquanto este usa a mais recente tecnologia para abordar os pesadelos externos (o colapso das democracias, as lutas entre classes), Songs recusa qualquer tipo de tecnologia e volta-se apenas para o interior. Sendo um típico disco de separação, Songs é composto de canções impossivelmente belas sobre um outro ausente, um disco desesperado com intrincados dedilhados de guitarra acústica, de onde brota uma tristeza sem fim. Cada canção de Songs é uma descida ao poço infinito da melancolia mas igualmente um milagre de beleza: “Two reverse”, “Anything”, “Come” ou “Zombie” fazem-nos questionar se somos dignos de receber estas pérolas, se estamos à altura delas. Abençoada Adrianne.

David Bruno — Raiashopping (Brandit)

Depois de Último tango em Mafamude e Miramar Confidencial, Raiashopping – o terceiro disco de David Bruno em três anos – é mais um tratado sociológico repleto de amor pela portugalidade, no caso pela raia, a zona junto a Espanha, e por aquela época nos anos 80 em que os tugas iam ao fim-de-semana a Espanha fazer compras, num ato de uma religiosidade superior a ir à missa. Apesar de continuar a soar a banda-sonora de filme porno dos anos 80 ou a banda-sonora de uma Miami Vice portuguesa, Raiashopping é o disco mais heterogéneo do líder dos Conjunto Corona: “Café Central” soa a GNR de fancaria, há guitarras wah-wah em “Praliné”, techno-xunga na espantosa “Festa da espuma”, e uma homenagem ao pimba luso na maravilhosa “Doucement”, dedicada ao emigrantado, e em que se canta : “Écoute bien, viens doucement/ Faites atencion avec le camiã/ Porque eles bêm tolos em contra-mã”. O maior génio luso desde Camões (ou Deco, ainda não tenho a certeza).

David Bruno: finalmente vale a pena ser português, baby

Kacy and Clayton & Marlon Williams — Plastic Bouquet (New West)

Todos os músicos se deparam com um problema quando chega a hora de compor o disco a seguir ao primeiro disco de sucesso. É suposto manter a fórmula do anterior, mudar tudo? Não há uma resposta, e o único facto certo é que pela primeira vez há uma expectativa e isso altera a abordagem de um criador às suas canções. O regresso de Marlon Williams aos discos depois da obra-prima que era Make Way For Love, um disco de folk futurista, sofisticado e sufocante, é uma espécie de fuga e recuo: fuga porque é um disco a meias com a dupla Kacy & Clayton, pela qual se apaixonou da primeira vez que os ouviu. E recuo por a sua matéria ser a folk mais pura e simples, que está na génese da sua música e abordou nos seus discos anteriores a Make Way For Love. Em apenas 29 minutos cria canções imaculadas como “Plastic Bouquet” (que podia ter pertencido a Hank Williams), “Light of love”, em que as vozes de Marlon e Kacy se cruzam na perfeição, ou “Arahura”. A beleza, às vezes, é algo tão óbvio como uma simples canção folk triste composta por um génio.

Kacy, Clayton e Marlon Williams: o trio que precisávamos ouvir para dizer adeus a 2020

Samuel Úria — Canções do Pós-Guerra (Valentim de Carvalho)

Onze anos depois de Nem Lhe Tocava, o seu primeiro disco oficial, Samuel Úria oferece-nos o seu melhor disco, o mais sujo, mais solto e mais negro, marcado pela sombra malévola de Tom Waits, notória em “Fica Aquém”, blues disfuncional que abre com um piano maligno e é servida por percussões sombrias e coros grandiosos, ou em “A Contenção”, com um piano repetitivo a martelar neuroses. Não deixa de ser um disco de Úria: estão lá os coros (como na estupenda “As traves”), está lá a folclore delicada a que nos habituou (em “A menina”), estão lá as baladas (como “Cedo”). Mas acima de tudo há aqui uma rugosidade que andava ausente dos anteriores discos de Úria e que permite a Canções do Pós-Guerra distorcer o passado da folk e dos blues e soar a fora do seu tempo, fora deste mundo, para lá de todas as etiquetas. Um grande disco em qualquer língua e qualquer época.

“Canções do Pós-Guerra”: o disco da liberdade para Samuel Úria

Porridge Radio — Every Bad (Secretly Canadian)

O indie-rock tal como o conhecíamos – canções sensíveis escritas por rapazes branco, cultos e zangados por não terem namorada – morreu e ainda bem, que já não havia saco para tanto choninhas; agora o indie-rock é feito por mulheres zangadas, com ovários valentes e garganta sem fundo e está melhor que nunca. Every Bad é uma maravilha do princípio ao fim – logo na primeira canção, “Born confused”, há acordeões, violinos, berraria e êxtase. Ao segundo tema, “Sweet”, há uma barulheira de enlouquecer vizinhos, e daí para a frente alterna-se entre refrões grandiosos e petardos de violência. Como se não bastasse, “Don’t ask me twice” oferece-nos um dos mais grandiosos refrões do ano. Fora com os rapazinhos brancos, queixinhas e sensíveis, vivam as mulheres de ovários grandes, irritadas e barulhentas, o mundo é delas.

Sault — Untitled (Rise) (Forever Linving Originals)

Ninguém sabe quem os Sault são, se são muitos ou poucos ou um só tipo sozinho, eles nunca deram uma entrevista, não há um vídeo – os factos reduzem-se a isto: em 2020 lançaram dois discos sem nome (o primeiro ficou conhecido por Black Is, o segundo por Rise, que como que sintetizam a música de dança dos últimos 30 ou 40 anos, do funk digital ao house de club, em que percussões brasileiras se cruzam com linhas de baixo pesadonas, numa sucessão de faixas inacreditáveis como “I just want to dance”, a quarta faixa de Rise. Mas qualquer faixa dos dois discos podia ser destacada – por exemplo, “Why we cry why we die”, de Black Is, é uma batida, um órgão, várias vozes e uma comoção imensa. Isto não é só acerca de dançar, é toda uma cultura negra resumida em canções que se recusam a obedecer a regras. É a grande surpresa do ano, o par de discos vindos de lado nenhum que nunca mais esquecermos.

As escolhas de João Bonifácio

Luís Freitas Branco

Fiona Apple — Fetch The Bolt Cutters (Epic / Clean State)

Foi há cerca de um milhão de anos. Numa sexta-feira, dia 17 de abril, auge do confinamento nacional, recordo passear o cão pelas ruas desertas da capital e ouvir pela primeira vez o cataclisma de Fetch the Bolt Cutters. O choque foi instantâneo, Fiona Apple a metralhar numa bateria eletrónica, numa cadência de engrenagens e ruídos sem livro de instruções, de melodias emperradas, entregue ao abismo da paixão, a decorrer furiosamente pelas roldanas da canção. E mesmo agora, um milhão de anos depois, a minha deliberação é a mesma: Fetch the Bolt Cutters não só é o melhor álbum de 2020 como abre um precedente incómodo para a década que se avizinha — é possível fazer melhor?

O estado de emergência de Fiona Apple cruzou-se com o nosso e deu-nos (mais) uma obra-prima

Mac Miller — Circles (Warner / REMember Music)

Há um prenúncio de morte neste álbum póstumo de Mac Miller. O músico parte de uma solidão demolidora, apregoa a calamidade deste mundo, num flow aparentemente despreocupado, e parece — erradamente sabemos hoje — permanecer à tona. E ao mesmo tempo são melodias imediatas, carregadas de esperança, de um compositor que é mais um artesão de grandes canções que um rapper inflexível, a reinventar Arthur Lee e Four Freshmen pelo caminho. Uma das tragédias deste ano é compreendermos a envergadura do compositor e multi-instrumentista Mac Miller somente dois anos após a sua morte. Resta-nos este disco para repetirmos uma certeza elementar de 2020: vai ficar tudo bem.

Moses Sumney — Grae (Jagjaguwar)

O último álbum de Moses Sumney é uma obra-prima impressionista de tons delicados, que deve tanto ao silêncio como ao ruído da existência. Grae é um álbum sobre o isolamento na ilha particular de Moses Sumney: uma ebulição de neo soul, R&B sumptuoso, falsetes inconcebíveis e sobretudo, camadas e subcamadas de orquestração. É certo que existe recheio dentro destes arranjos primorosos, a começar por uma série de reflexões sobre a masculinidade e a identidade afro-americana, mas o que fica para a posteridade são 65 minutos de melodias transcendentes.

Ninguém manda na estranha beleza de Moses Sumney

Waxahatchee — Saint Cloud (Merge)

A sobriedade não é particularmente divertida, ainda mais debaixo de uma pandemia. A vantagem de acalmar os cavalos e assentar a poeira é conseguir finalmente respirar fundo, enfrentar os prados seguintes com uma nova clareza. A abstinência é de Katie Crutchfield, que depois de anos na cavalgada de digressões internacionais decidiu abrandar o regime rigoroso, regressar a casa e fazer um ajuste de contas à vida. O resultado é Saint Cloud, um álbum de puro Americana ao longo do Mississippi, percurso transformador para a compositora de Waxahatchee que saiu do outro lado com um hino ao amor-próprio: “Fire”.

B Fachada — Rapazes e Raposas (Mbari) 

É curioso que 2020 tenha sido um ano particularmente criativo para a música portuguesa, desde a mestria de Benjamim, Cristina Branco e Capicua, à renovação da canção por Filipe Sambado, Pongo e Vaiapraia. Mas é ainda mais curioso — para não dizer assombroso — que o álbum português mais urgente surja do eremitério de B Fachada, nem tanto pelo reconhecimento que em 2020 fomos todos padeirinhas a fazer pão azedo, e mais pela certeza que este anti-herói de fábulas e viola braguesa está a avisar-nos que andamos distraídos, que continuam predadores à solta: “E a cada mais 1000 anos que durarmos/ Hão-de ser 1000 anos de destruição/ 1000 anos de egoísmo e esquecimento/ 1000 anos de homicídio e desencontro”.

El-Rei Dom B Fachada, veio por entre a trovoada para salvar o verão

As escolhas de Luís Freitas Branco

Miguel Branco

Fiona Apple – Fetch the Bolt Cutters (Epic)

É verdade que esperámos oito anos. Mas todos concordaremos que a espera — bom, talvez pudesse ter sido mais curta, teríamos, possivelmente, menos cabelos brancos e menos ansiedade de envelhecer sem mais discos de Fiona Apple — neste caso rendeu. Fetch the Bolt Cutters é mais uma obra-prima da nova-iorquina. É um diário confessional, com todas as emoções, hesitações, ironias, lamentos e tem tudo isso na elasticidade da voz — às vezes tão frágil e exposta — e na forma como pressiona as teclas do seu piano tão particular. Fiona Apple não sabe fingir e isso torna-nos a todos privilegiados, a sinceridade das frases que ocupam um estranho tempo da melodia, a opção de ter o piano estupidamente alto, todas essas escolhas livres e próprias de alguém para quem a música é revelação. O melhor de tudo: é perfeito. É de uma beleza inigualável. É anti-bullying (“Shameika”), é informativo (“Newspaper”), é cósmico (“Cosmonauts”). Já temos o que ouvir por mais 8 anos.

B Fachada – Rapazes e Raposas (Mbari)

Deem-se dois meses a Bernardo Fachada no campo e vejamos como ele levanta um pomar. Um pomar talvez não, talvez não tenha essa ambição colorida e desmedida vivacidade e seja mais vegetação de meia altura, ervas daninhas que servem de refúgio para fábulas e que são trincheira para contos e animais. O que importa dizer é que Bernardo Fachada é, de facto, um caso de enorme raridade na música portuguesa, pela consistência duradoura da sua obra, pela dimensão inventiva, pela escrita, pela independência. E este Rapazes e Raposas — é quase absurdo entrar nesta lógica em alguém como B Fachada — é um dos seus discos mais diversos e intensos. Tanto nos canta os sons do bosque, mais castanhos e profundos (oiça-se “Natureza Radical”, “Canção de Rejeição”, “A Mula e a Raposa”, “Prognósticos), como nos devolve o ritmo do encontro dançado (“Trad-Mosh”, “Padeirinha”, “Lambe-Cus”). Mas este é também, possivelmente, dos objetos mais políticos do cantor lisboeta. E isso só expande as possibilidades. Lembremo-nos: “Como qualquer ego filho-da-puta / ainda posso fundar um país / à porrada”.

Kali Uchis – Sin Miedo (de Amor y Otros Demonios) ∞ (Emi/Interscope)

Em 2018, devo ter sido aquele amigo chato que força as pessoas a ouvir discos que não conhecem (melhor do que ser aquele amigo que envia vídeos despropositados e acha que isso é que é amizade) e devo ter sido fervoroso em relação a Isolation, primeiro LP de Kali Uchis, devo ter dito que cortava o mindinho só para que o escutassem. Em 2020, fui apanhado de surpresa, neste ano em que Kali Uchis editou Sin Miedo (de Amor y Otros Demonios) ∞ e provocou uma espécie de tontura, um reequilíbrio de forças. Isolation perdeu fulgor — calma, continuas cá dentro, sempre. De facto, o primeiro disco em castelhano da cantora é um manual de contemporaneidade bem executada — tem canções de ontem e outras que parecem vir de há três décadas. E também é múltiplo, talvez bipolar (daqueles que com a medicação certa conseguem ser funcionais) na vertente emocional. Consegue ser zapping choroso no sofá (onde até a publicidade nos relembra o amor perdido ou incompreendido) e logo sair para a festa, meio enraivecido. É soul como é reggaeton. Como ser melhor?

Vaiapraia – 100% Carisma (Maternidade / Tons To Tell)

Toda a realeza, um dia, segue diferentes matrimónios. Rodrigo Vaiapraia largou as Rainhas do Baile — que sempre o tinham acompanhado neste furacão queer-punk; e que apesar da saída ainda se podem escutar algures por aqui — e nem por isso deixou de dançar. Quatro anos depois de 1755, o músico de Setúbal mostra-se menos violento, mais “é-possível-dizer-o-que-queremos-sem-berrar”. Isso não significa que o berro e o sentimento de urgência se tenham esfumado, pelo contrário, mas é bom vê-los mais contidos, sobrepostos, empacotados a seu gosto em estruturas de canções punk profundamente livres. No fundo: é bom saber que Vaiapraia nem sempre vai a correr. A isto acresce uma profundidade e uma autenticidade na sua escrita que a cada canção parece mais refinada — aliás, nunca pensámos utilizar o adjetivo “refinado” para abordar este artista. Isso é significativo. É um disco que nos diz que somos “um pêssego fora da estação”. Ainda assim: melhor isso que fingir ser outra coisa. Foi editado em junho e segurou-nos até 2021. E não estamos propriamente a emagrecer.

Vaiapraia. Rodrigo já não baila com as Rainhas, mas deem-lhe um palco e ele mostra-vos o que é charme

Nídia – Não Fales Nela Que A Mentes (Príncipe Discos)

Desde 2017 que sabemos que Nídia É Má, Nídia É Fudida. E logo aí, respeitinho, que por ser dessa maneira ganhou o mundo em digressões diversas e duradouras, onde sempre se imagina gente, sem jeitinho nenhum mas com muita vontade, a tentar dançar a batida desta produtora essencial da nossa praça. Em 2020, Nídia parece ter reduzido o franzido do seu rosto, pelo menos a avaliar pela menor dose de intensidade de Não Fales Nela Que A Mentes, um objeto que em comparação quer ser menos coisas, ser menos tudo em simultâneo. E isso é profundamente bom. É uma Nídia que traz um balanço mais difuso, que aproxima a sua batida de linguagens mais próximas quer do rap, como de texturas que mais sugerem paisagens desérticas, urbanas, praias no sul de França — tudo mais próximas das avenidas do que das tribos que ocupam florestas. Ao mesmo tempo, Nídia editou o single “Badjuda Sukulbembe”, um objeto com dois temas: “Tarraxoz Academy” e “Cheirinho”. O primeiro é mais um imperdível baile — com direito a churrasco e uma enorme bassline chamuscada — da produtora do Vale da Amoreira. Nídia, não nos deixes.

As escolhas de Miguel Branco

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