“Se não é novo e não envelhece, então é uma canção folk”

A frase é de Llewyn Davis, a personagem-mártir deste género de canção ancestral que deve muito aos apartamentos acanhados de Greenwich Village, Nova Iorque, conforme os irmãos Coen demonstraram no filme “A Propósito de Llewyn Davis”. Na última década, o mártir solidário da canção folk é Robin Pecknold, o orfeu que concebeu melodias novas que não envelhecem e criou uma banda que suportou desde 2007 uma certa integridade arcaica do género. Em 2020, no auge da pandemia, o compositor dos Fleet Foxes estava sozinho num apartamento acanhado de Greenwich Village, diante de um hospital, atordoado com o fluxo de pacientes e incapaz de escrever qualquer letra para o quarto álbum da banda.

“A experiência deu-me uma nova perspetiva do que significa a comunidade”, revelou à Rolling Stone sobre o seu confinamento, período que finalmente soltou este mártir das amarras da misantropia bucólica. “Este é o meu álbum menos pessoal”, continua, “queria que fosse acima de tudo sobre o que sinto em relação às outras pessoas.” No entanto, a página do poeta continuava em branco. Junho trouxe o alívio das medidas de restrição em Nova Iorque, Robin Pecknold entra no jipe, percorre as Montanhas Catskill e é subitamente estimulado a escrever, anotando com urgência esta espontaneidade lírica. A inspiração no cenário campestre não é nova — nunca envelhece — e é o método de criação que tornou os Fleet Foxes no salvo-conduto para os últimos vinte anos de grandes canções folk. O lançamento de Shore no dia do Equinócio de Outono não é uma casualidade, sequer é esta viagem solitária pelas paisagens norte-americanas.

A generalidade da música dos Fleet Foxes é sobre a solidão. As canções descrevem um estado desolado que coexiste com cenários pastorais paradisíacos, mais inatingíveis que reais. O paradigma está no single que revelou o primeiro longa duração da banda de Seattle, “White Winter Hymnal”, onde o protagonista está como deitado numa várzea de olhos fechados e manifesta as palpitações da terra em arranjos transcendentes. Nos dois primeiros álbuns dos Fleet Foxes, em 2008 e 2011, os outros seres humanos — sejam amigos ou amantes — são uma presença distante que abandona fatidicamente o protagonista, ou meros assassinos de uma época medieval (“Tiger Mountain Peasant Song”). Em épicos de oito minutos, Pecknold descreve o refúgio da natureza, os rouxinóis e as folhas caídas ao sopé de um riacho, e consegue ilustrar seriamente, sem sarcasmo, a revelação que é um pomar de maçãs frescas durante o verão (“The Shrine / An Argument”). A graciosidade meticulosa das canções tem propriedades de abandono e esquecimento, as harpas e os oboés traçam locais particulares como Mykonos e Montezuma, uma odisseia com uma única paragem na ilha dos lotófagos.

A capa de “Shore”, o novo álbum dos Fleet Foxes

O terceiro álbum da banda, Crack-Up, de 2017, foi o momento derradeiro de cisão com o conceito de refúgio. No entanto, Robin Pecknold continuava sozinho, a cantar ao espelho. Crack-Up aplicava os métodos minuciosos de composição para canções fragmentadas, personagens que entram e saem de cena, imagens que se dissipam. As próprias melodias de um rapaz outrora pacato e gentil obedecem a esta condição depressiva. O desmatamento do bosque que abrigava os Fleet Foxes advém de todo o lado: a morte de afro-americanos às mãos da polícia; o amigo e cofundador da banda — Skyler Skjelset — que se distancia; o desamor; e uma tremenda insegurança. Em entrevistas, e algumas letras veladas, Pecknold confessava que não estava seguro em palco ou sequer em estúdio, e concentrava-se somente em duas novas paixões: as aulas na Universidade de Columbia e o surf. Foi precisamente a praticar esta última paixão que compreendeu que teria de gravar um novo disco de Fleet Foxes. No final do ano passado, Pecknold escorrega da prancha de surf e cai ao mar desamparado. É puxado pela corrente até dar à costa. O homem regressado à superfície, expurgado de ansiedade, não era o mesmo dos três álbuns anteriores.

A primeira canção de Shore, “Wading in Waist-High Water”, é um embuste. Mais de uma década depois da estreia em disco, Pecknold é versado na gestão de expectativas. A primeira voz em Shore é de Uwade Akhere, uma cantora praticamente desconhecida, colega de faculdade, que mimetiza os trejeitos de voz do compositor num embalo que acalenta. A trapaça é que o disco não é nada disto. Uma cadência de três notas soltas une o tema a “Sunblind”, uma canção dedicada ao músico recém falecido Richard Swift, com Pecknold surpreendentemente solto, desgarrado, a confessar-se mero discípulo de Elliott Smith, Nick Drake, Chris Bell e Judee Sill. Nada que não soubéssemos, mas é emocionante ouvi-lo em voz alta e sem vergonha, debaixo de uma música solar, de acordes abertos. E continua, numa espécie de In Memoriam da canção: Bill Withers, David Berman, John Prine. São os heróis que leva às costas e celebra de guitarra — “Martin or Gibson” — que concebem um mar de memórias de canções para mergulhar: “I’m gonna swim for a week in/ Warm American Water with dear friends”. Este cenário estapafúrdio é fascinante, nunca se ouviu Fleet Foxes sem as cantorias pueris, sem a obrigação de serem o adulto na sala. 2020 teve mais um volte face extraordinário: o trintão Robin Pecknold rejuvenesceu dez anos.

A terceira, “Can I Believe You”, comprime uma série de vocais que Pecknold recebeu pelo Instagram. Sim, Fleet Foxes e Instagram numa mesma frase — está aberto o precedente para o Tik Tok. O rapaz de gostos envelhecidos, de métodos arcaicos, confessa-se cansado do martírio, e ainda mais surpreendente, deixou-se das letras subtis, obtusas, que pareciam servir somente para deitar na canção no momento certo. Hoje, Pecknold é como qualquer outro cantor de folk contemporâneo, sem rodeios, com uma metafísica ligeira, pronto a declamar uma constatação universal. Em “Jara” homenageia o professor, cantor e ativista chileno Victor Jara — numa toada marchante de loops e ritmo que retorna em “Quiet Air/Gioia” — e desarma-nos com esta confissão:

“And you were off on a wandering mile
I was holding a weak excuse
I was heavy beneath blue”

Surpreendido pelo frenesim das ruas, pelas marchas de punho erguido, constata que é caricato continuar entretido com as desgraças da sua existência. Mas num golpe inesperado de humanidade, confessa que não se levanta do sofá. Em “Featherweight” prossegue a constatação que existe um mundo além do seu umbigo que deveria explorar: “I was staging life as a battleground/ No I let that grasping fall”. Pecknold viu 2020 a desgraçar-se à sua frente, as comunidades a dissolverem-se, e decidiu cantar, por todo este álbum, que vai ficar tudo bem, mesmo que evidentemente não acredite — ainda é a mesma pessoa que resumiu a humanidade como flocos de neve na tempestade. Esta mentira benevolente é bom sinal, é uma prática das pessoas normais.

[ouça “Shore” na íntegra através do YouTube:]

A imagem cinematográfica de Shore é o dar à costa. E nesta praia está mais uma surpresa: uma data de gente. O compositor solitário foi ao encontro da sua comunidade e convidou Daniel Rossen e Christopher Bear, o vocalista e o baterista dos Grizzly Bear, um colega da faculdade, e até, imaginem, alguém nascido no longínquo Brasil: Tim Bernardes. Esta disposição de festa está na alegre “Maestranza”, uma lembrança de quando estávamos rodeados de amigos:

“Sunday end
Ache for the sight of friends
Though I’ve been safe in the thought
That the line we walk
Is the same one”

O amigo célebre do passado que nos visita é Brian Wilson, que faz a contagem no início de “Cradling Mother, Cradling Woman”. Este trecho é retirado de um outtake de “Don’t Talk (Put Your Head on My Shoulder)”, que como toda gente sabe — ou deveria saber — está na caixa de CDs das sessões de Pet Sounds. “Cradling Mother, Cradling Woman” é o apogeu deste álbum, que interliga o compositor de 34 anos com o adolescente de Seattle obcecado com os Beach Boys. Memórias como esta são uma temática recorrente em Shore, a começar pela redondinha “Young Man’s Game”. Segundo Pecknold, os lapsos de memória do seu avô levaram-no a uma série de reflexões bem humoradas sobre o seu legado, neste naufrágio de 2020 que não é certamente para velhos:

“I could dress as Arthur Lee
Scrape my shoes the right way
Maybe read Ulysses
But it’s a young man’s game”

Na majestosa “Going-to-the-Sun Road” arrisca dar ao pé na estrada, reencontrar a sua terra natal, à boleia de um cartão postal, com o mesmo cravo que ocupava a mente de Brian Wilson. A viagem tem um propósito, assegura que ele está bem é quieto, e que estes passeios pela memória já ninguém lhe tira, ou como canta Tim Bernardes:

“A estrada do sol
O começo de tudo
E as nuvens que agora se afastam
Mostrando um caminho que está sempre lá”

O caminho prossegue em “For a Week or Two”, mais uma lembrança de um retiro, desta feita à beira de um riacho, debaixo dos passarinhos. E até aqui, que seria uma oportunidade ideal para os Fleet Foxes nos encherem o olho com arranjos sublimes, é direto na melodia e nas descrições. Em “A Long Way Past the Past” ameaça que vai mudar a melodia, dar um guinada à Crack-Up, ou uma curva suave como os dois primeiros álbuns, mas é uma apenas a permanência da sumptuosidade, que certamente não é o primeiro instinto para quem compôs coisas como “Third of May/Ōdaigahara”.

O quarto álbum dos Fleet Foxes começa por anunciar o fim do verão: “Summer all over”. E depois desculpa-se: “Blame it on timing”. Isto tem razão de ser, Shore é um álbum de verão que chegou atrasado, o que introduz uma estação desconhecida no universo da banda: o primeiro álbum é a primavera; o segundo é o outono, Crack-Up é o inverno, e este é o verão. É certo que não se trata de qualquer verão, é de grande aprumo, de uma certa minúcia e pomposidade, a época balnear possível para os Fleet Foxes. E se este álbum de verão é estranho num outono que se adivinha desgraçado, Robin Pecknold sugere que ninguém tem de obedecer à estação que a terra nos impõe: “And I’m not the season I’m in”.

Não eram necessárias mais duas obras-primas, e ainda menos outro álbum de cisão, queremos os Fleet Foxes sempre com esta alegria de canções pop, uma banda-sonora para sorrir embasbacado ao pôr de sol. Na última canção, em “Shore”, Pecknold diz que, “I want to record/ While I see it all”, ou seja, existe uma urgência de gravar esta leveza clarividente, antes que a memória o atraiçoe. Shore é precisamente o que é necessário em 2020, o extraordinário é de mais.