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Daniel Siad
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▲Daniel Siad, o alegado cúmplice de Jeffrey Epstein

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▲Daniel Siad, o alegado cúmplice de Jeffrey Epstein

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Daniel Siad. A morte do recrutador ligado ao caso Epstein que adensa o mistério em redor da rede sexual

É suspeito de ter recrutado mulheres para a rede sexual de Epstein, mas nunca foi julgado. A ser investigado em França por alegada violação e tráfico humano, Daniel Siad morreu sem dar explicações.

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Milhares de mensagens. Os ficheiros associados ao caso Epstein desvendaram a identidade de um homem que até então era pouco conhecido: Daniel Siad. Nascido na Argélia e com nacionalidade francesa e sueca, este fotógrafo e empresário terá sido um dos responsáveis por recrutar menores na Europa para a rede sexual montada por Jeffrey Epstein e a sua cúmplice e ex-namorada, Ghislaine Maxwell. Seria ele quem procurava jovens modelos em vários países, as aliciava e as apresentava ao milionário norte-americano.

Depois de todo o escândalo provocado pela divulgação dos ficheiros do caso Epstein, Daniel Siad estava a ser investigado em França. Era nos subúrbios de Paris que residia atualmente. E foi na sua casa que, esta segunda-feira, foi encontrado morto pela companheira de 28 anos. À imprensa francesa, a jovem relatou: “Estava no meu quarto, a falar ao telefone com a minha família e não ouvi nenhum barulho. Saí para ir à cozinha e ele estava lá deitado”.

O homem de 69 anos terá morrido após sofrer uma paragem cardíaca, apurou o Le Parisien, mas ainda será feita uma autópsia. As autoridades estão agora a investigar mais a fundo a causa da morte, tendo sido aberto um inquérito. O franco-sueco conhecia bastante bem Jeffrey Epstein e sabia os seus segredos. Afinal de contas, o empresário norte-americano tinha uma luxuosa mansão em Paris e França era um dos principais países onde recrutava jovens para a rede sexual.

▲ Jeffrey Epstein era próximo de Daniel Siad

JASON SZENES/EPA

Numa altura em que ainda se tenta entender a verdadeira dimensão da rede sexual montada por Jeffrey Epstein, muitas vítimas sentem que a morte de Daniel Siad vai complicar as investigações. À BBC, uma antiga modelo que esteve envolvida no escândalo lamentou que um “importante elo na cadeia simplesmente tinha desaparecido sem que tivesse havido sequer a hipótese de recuperar as informações que Daniel Siad pudesse saber — dado que nunca foi interrogado”. 

Jeffrey Epstein morreu na prisão em 2019. Jean-Luc Brunel — o homem que fundou uma agência de modelos e que terá sido um dos principais cérebros da rede sexual em França — também morreu nas mesmas circunstâncias em 2022. Enquanto era investigado e sem ser interrogado, Daniel Siad foi encontrado morto em casa em julho de 2026. Não há nada que permita inferir que estas mortes tenham sido planeadas ou que tenham uma ligação entre si. Mas o caso Epstein continua a envolver-se em contornos cada vez mais sombrios e inquietantes.

O discreto judeu nascido na Argélia que trabalhava para Jeffrey Epstein

Da vida de Daniel Siad pouco se sabe. Mesmo trabalhando no mundo da moda, o homem sempre manteve uma postura bastante discreta. Nascido em 1957 na Argélia, assumia-se como um “judeu berbere”, pertencente à comunidade judaica do Norte de África. Emigrou para a Suécia nos anos 80 e viveu em Estocolmo, segundo escreve o jornal sueco Expressen.

▲ Daniel Said

Foi fotógrafo de modelos, mas cedo passou a ser uma espécie de olheiro: recrutava as raparigas com mais potencial para que fossem representadas em grandes agências internacionais, segundo o próprio explicou. Como escreve o Guardian, viajava de Cuba à Suécia para encontrar as jovens que teriam mais chances de vingar no mundo da moda. Pelo menos esta era a fachada que gostava de apresentar.

Teria sido precisamente nessa função de recrutador de modelos que se começou a relacionar com Jeffrey Epstein. Conhecendo várias mulheres, Daniel Siad é suspeito de as ter apresentado ao empresário norte-americano, que depois — juntamente com Ghislaine Maxwell — as integrava na rede sexual nos Estados Unidos. Num e-mail enviado ao milionário, divulgado pelo Departamento de Justiça norte-americano, o franco-sueco chegou a dizer que a sua profissão se assemelhava à de um “pescador”: “Às vezes apanho peixe suficiente, outras vezes não apanho nada.”

Numa entrevista à CNN Internacional transmitida em meados de junho deste ano, Daniel Siad tentou explicar que não sabia nada da “vida privada” de Jeffrey Epstein. “O meu trabalho foi estritamente profissional e nunca ouvi de ninguém nada negativo sobre ele”, defendeu-se. Na lógica do franco-sueco, ele estava simplesmente a apresentar modelos a uma agência associada ao empresário. “Ele [Epstein] disse-me que trabalhava como diretor de castings para a Victoria’s Secret”, assegurou.

Os e-mails que foram divulgados pela Justiça norte-americana mostram, ainda assim, uma realidade bem diferente. Daniel Siad escreveu uma vez que fez uma viagem por países como a Eslováquia, a Polónia ou a Hungria para recrutar jovens. “Tive de convidar os pais para almoço ou para o café. Tenho algumas raparigas que estão à minha espera na Polónia e tenho de lhes dar algum dinheiro”, escreveu o franco-sueco num correio eletrónico de 2009.

As comunicações com Jeffrey Epstein eram frequentes. Enquanto Daniel Siad viajava pelo mundo, fazia questão de prometer ao empresário acusado de montar uma rede sexual que poderia entrar em contacto com várias modelos. À CNN Internacional, Juliette, uma antiga modelo francesa, lembrou que conheceu o recrutador em 2004, que depois a apresentou ao norte-americano em Nova Iorque. Durante esse encontro, segundo conta, foi apalpada e disseram-lhe que precisava de ficar em forma para entrar numa agência de modelos.

Uma forma de tráfico sexual que seria encapotada por um corriqueiro trabalho na agência de modelos. É disto que o homem que morreu nesta segunda-feira é suspeito. No entanto, em várias entrevistas, garantiu que nunca soube que Jeffrey Epstein era “perigoso”. “Com o tempo, fui descobrindo que esse indivíduo cometia atrocidades. Felizmente, nunca lhe apresentei nenhuma menor — nem qualquer outra mulher que tenha sido abusada. Não tenho nada a lamentar.”

"Com o tempo, fui descobrindo que esse indivíduo cometia atrocidades. Felizmente, nunca lhe apresentei nenhuma menor — nem qualquer outra mulher que tenha sido abusada. Não tenho nada a lamentar."
Daniel Said

O FBI tinha outra perspetiva, tendo alertado para o trabalho que Daniel Siad fazia para o norte-americano em 2016. É certo, contudo, que o homem nunca foi formalmente acusado de nenhum crime em França ou nos Estados Unidos. Ou mesmo na Suécia, onde viveu algum tempo. Mas foi daquele país nórdico que uma modelo veio a público denunciar que Siad a tentou violar em 1990.

Como a divulgação dos ficheiros do caso Epstein veio mudar radicalmente a vida de Daniel Siad

Fevereiro de 2026. Após muita pressão exercida sobre o Presidente norte-americano, o Departamento de Justiça revelou milhões de ficheiros sobre o caso Epstein. Fotografias, recibos, trocas de e-mails: ainda que alguns documentos tivessem sido rasurados, foi divulgado um manancial de informação que denunciou a densidade da rede sexual montada pelo empresário.

Uma pesquisa rápida nos arquivos do caso Epstein mostra que o nome de Daniel Siad aparece mais de duas mil vezes. Até então, o recrutador de modelos estava praticamente na sombra, mas este volume de menções revelou a profundidade da sua ligação com Jeffrey Epstein. Em França, o franco-sueco foi visto sobretudo como um associado de Jean-Luc Brunel — o poderoso agente de modelos e principal cúmplice do milionário norte-americano no país. Os dois trabalharam juntos para alegadamente angariar jovens para a rede sexual, embora as mensagens mostrem que Daniel Siad também trabalhou de forma independente.

Nos e-mails que trocava com o empresário norte-americano, o recrutador de modelos comentava o corpo das mulheres, fazia comentários sexistas e prometia apresentá-las a Jeffrey Epstein. Todas estas informações passaram para o domínio público, o que obrigou Daniel Siad a desdobrar-se em esclarecimentos e entrevistas. E uma mulher veio a público denunciar que foi alvo de uma violação.

No início dos anos 90, a antiga modelo sueca Ebba Karlsson tinha apenas 20 anos. Sonhava triunfar no mundo da moda e conheceu Daniel Siad em Estocolmo. “Ele era muito talentoso”, lembrou a mulher, citada pela AFP, expondo as suas táticas: “Ele aproveitava-se dos desejos e anseios das modelos e apresentava-se como uma espécie de salvador. Toda a gente ficava vidrada”.

Ebba Karlsson foi uma delas. Passou a ser ‘recrutada’ pelo homem, indo com ele para o Mónaco e depois para França, com base em promessas de que teria muito trabalho na área da moda. No entanto, isso não aconteceu e, como estava no estrangeiro sem uma rede de apoio, “tornou-se cada vez mais dependente” de Daniel Siad. Numa noite, numa casa perto de Cannes, o franco-sueco violou-a. A partir daí, segundo relata a antiga modelo, começaram a surgir mais oportunidades.

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▲ Ebba Karlsson, a mulher que quebrou o silêncio sobre Daniel Said

AFP via Getty Images

Uma das principais ocorreu na Elite — uma das mais prestigiadas agências do mundo, cujo ramo europeu era liderado por Gerald Marie. Num encontro com este famoso empresário, Ebba Karlsson recordou que se fecharam as cortinas. Gerald Marie disse-lhe que era “muito bonita” e que podia participar em filmes. E foi, momentos depois, agredida sexualmente. A antiga modelo depois voltou para a Suécia.

A ex-modelo guardou as histórias de assédio sexual — negadas categoricamente pelos dois homens — durante décadas, apesar de ter publicado livros sobre o assunto. Não sabia identidades, mas contava a sua história. Porém, depois de ver os ficheiros desclassificados pela administração Trump, reconheceu numa fotografia o rosto de Daniel Siad, que, segundo Ebba Karlsson, adotou identidades diferentes ao longo dos anos. E não perdeu tempo: entrou com uma ação judicial nos tribunais franceses no início deste ano.

Em França, Daniel Siad passou assim a ser investigado pela alegada violação de Ebba Karlsson. Em teoria, o crime teria prescrito por ter ocorrido há mais de 30 anos. Ainda assim, o Ministério Público francês abriu um inquérito através do órgão responsável pelo combate ao tráfico de seres humanos, dado que as queixas associadas a este tipo de rede podem beneficiar de exceções na lei (que poderiam resultar na condenação do recrutador de modelos) e permitir expor as ramificações do esquema de recrutamento.

Maria. A companheira portuguesa do ex-mordomo de Epstein em Paris, que questiona o suicídio do milionário na prisão

Esta alegada violação da ex-modelo estava a ser investigada. E outras mulheres também o denunciaram judicialmente. Ao mesmo tempo, o Ministério Público francês, através de uma equipa especial dedicada ao tráfico de seres humanos, continuava a tentar apurar todas as ramificações do caso Epstein no país. Ainda assim, Daniel Siad nunca foi julgado — nem sequer interrogado pelas autoridades. O recrutador de modelos mantinha-se em liberdade em Paris, onde vivia com a companheira de 28 anos, mantendo a sua posição inalterada: a de que estava inocente e não sabia dos “crimes” de Jeffrey Epstein.

As mortes em redor do caso Epstein

O escândalo do caso Epstein rebentou na década passada, mas a Justiça norte-americana demorou anos até prender o milionário. Foi detido em 2008, mas libertado um ano depois após cumprir pena sob um regime de trabalho voluntário. Isso não significa que a rede sexual tenha desaparecido: continuou a existir na sombra, com ligações que se estendiam dos Estados Unidos à Europa. Só em julho de 2019 é que Jeffrey Epstein foi novamente detido, tendo morrido na prisão enquanto aguardava o julgamento. Entretanto, a sua cúmplice — Ghislaine Maxwell — cumpre atualmente uma pena de prisão de 20 anos por crimes relacionados com tráfico sexual.

Jeffrey Epstein passou pouco mais de um mês na prisão. A 10 de agosto de 2019, foi encontrado morto na sua cela, num caso classificado pelas autoridades como suicídio. O rosto central da rede tinha morrido — e deixado inúmeras respostas em aberto. O mesmo desfecho esperava Jean-Luc Brunel: preso em dezembro de 2020, o homem de confiança de Epstein em França foi encontrado igualmente morto na cela, em fevereiro de 2022, antes de ser julgado.

O prazo para contestar a apresentação dos nomes, acontece nove anos depois de Ghislaine Maxwell ter recebido uma queixa

▲ Jeffrey Epstein e Ghislaine Maxwell — os cérebros da rede Epstein

Patrick McMullan via Getty Image

Agora, foi a vez de Daniel Siad, se bem que os contornos da morte sejam distintos. O homem de 69 anos morreu em casa e nunca esteve preso. Mas a sua morte acaba por complicar as investigações. O franco-sueco conhecia como ninguém Jeffrey Epstein. Após a notícia da sua morte, Ebba Karlsson disse que ele “estava muito perto de ser preso”: “Trabalhámos tão arduamente para isso, para tentar ter justiça”.

Além de Ebba Karlsson, a advogada Anne-Claire Le Jeune, que representa seis mulheres que se queixaram das condutas de Daniel Siad, adjetivou que é “profundamente lamentável” que a “lentidão das investigações” tenha resultado na morte do homem “sem antes poder ser interrogado ou detido pela polícia”. “Privou as vítimas de um passo crucial na sua busca pela verdade e pela justiça”, acrescentou.

Atualmente, uma das poucas figuras centrais capazes de fornecer detalhes sobre o funcionamento da rede sexual é Ghislaine Maxwell. Contudo, a antiga namorada de Jeffrey Epstein dificilmente revelará novas informações: a ex-socialite britânica tem procurado aproximar-se de Donald Trump, na esperança de que os seus advogados consigam obter um perdão presidencial que a retire da prisão. Neste cenário, a mulher condenada a 20 anos de prisão não tem qualquer incentivo para falar publicamente ou fazer esclarecimentos adicionais.

Cúmplice e ex-namorada de Epstein invoca a quinta emenda e não responde a perguntas no Congresso

Até à sua morte, Daniel Siad negou categoricamente todas as acusações de ter trabalhado para recrutar modelos para a rede sexual de Jeffrey Epstein. A Justiça também nunca reuniu indícios suficientes para demonstrar que o franco-sueco tenha desempenhado um papel de destaque no esquema. Ainda assim, os ficheiros provam que, mesmo que não soubesse dos crimes do milionário, conhecia-o como poucos — e poderia ter fornecido informações cruciais para ajudar a compreender um dos maiores escândalos sexuais da história.

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