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Depressão: tratar mais cedo, mais perto e melhor

A depressão custa mais de mil milhões de euros por ano em Portugal. Mais do que números, são vidas e projetos adiados. Hoje há mais respostas, mas o acesso continua muitas vezes tardio e desigual.

No início pode parecer apenas cansaço. Uma falta de energia que não passa com descanso. Dorme-se pior, acorda-se mais cedo, o dia começa antes de o corpo estar preparado. As coisas que antes davam prazer deixam de ter graça. Trabalha-se, cumprindo o que é preciso, mas tudo exige mais esforço. Durante algum tempo, quase ninguém repara. A tristeza pode ser atribuída a um período difícil. E, muitas vezes, sintomas como o cansaço, a falta de concentração, a insónia ou a irritabilidade são normalizados. Mas quando se prolongam e começam a comprometer a vida quotidiana, como o trabalho, as relações, a capacidade de decidir ou de sentir prazer, podem ser sinais de algo mais profundo: uma depressão.

Para o psiquiatra Gustavo Jesus, é fundamental estarmos mais despertos e sensibilizados para esta doença, uma vez que agir precocemente pode fazer toda a diferença na recuperação. Contudo, os mitos e estigmas que persistem fazem com que, erradamente, muitas pessoas adiem a procura de ajuda por acreditarem que precisar de apoio na área da saúde mental ainda é algo de “fracos” ou de “maluquinhos”, frisa o também diretor do Serviço de Psiquiatria e Saúde Mental da Unidade Local de Saúde Estuário do Tejo.

Ao longo de décadas, parte do imaginário coletivo sobre a psiquiatria foi moldado por filmes como Voando sobre um Ninho de Cucos, de 1975, que retratava os hospitais psiquiátricos como instituições rígidas e opressivas, marcadas por tratamentos coercivos e por uma relação distante entre profissionais e doentes. Esse retrato acabou por fixar uma imagem que ainda hoje influencia a forma como muitas pessoas olham para a psiquiatria. “Ficou muito gravado na ideia popular aquele modelo antigo, com tratamentos pesados e efeitos secundários muito visíveis”, explica Gustavo Jesus, contrapondo que hoje os tratamentos evoluíram muito.

O atraso no diagnóstico e tratamento pode fazer toda a diferença na recuperação. É também por isso que o peso da doença não se mede apenas em consultas ou medicamentos. Em Portugal, estima-se que a depressão tenha um custo global de 1,1 mil milhões de euros por ano, sendo 97,2% desse valor relativo a custos indiretos, como absentismo, presentismo, perda de produtividade e incapacidade prolongada. Além disso, no total, existirão em Portugal mais de 143 mil pessoas com depressão resistente ao tratamento e depressão com grave risco de suicídio – as formas mais graves da doença. Como explica Gustavo Jesus, fala-se em depressão resistente ao tratamento quando o doente não melhora com pelo menos dois tratamentos antidepressivos diferentes, administrados na dose adequada e durante um tempo apropriado.

A resistência, por isso, não pode ser lida apenas como uma característica da doença ou como uma fatalidade biológica. Existem fatores individuais que condicionam a resposta ao tratamento, mas há também fatores organizacionais, temporais e clínicos que pesam muito no desfecho. É por isso que reconhecer cedo, acompanhar de perto e ajustar a estratégia terapêutica a tempo pode evitar trajetórias mais prolongadas e incapacitantes.

1100000 M€

Custo anual estimado desta doença, o que corresponde a 0,6% do PIB de Portugal

97,2 %

Custos que são indiretos, como perda de produtividade, absentismo e incapacidade para trabalhar

143000

Portugueses que vivem com depressão resistente ao tratamento ou com depressão com grave risco de suicídio

2000000

Estimativa de dias de trabalho perdidos por absentismo e presentismo

50,6 %

Suicídios que podem estar associados à depressão resistente ou com grave risco de suicídio

Para o psiquiatra, os números nacionais mostram que a depressão não é apenas um problema clínico individual: é também um problema estrutural da sociedade contemporânea, sendo que Portugal está entre os países com maior prevalência de depressão. “Os custos são sobretudo indiretos, porque o peso maior está na incapacidade, nas baixas, no absentismo e também no presentismo”, sublinha. Isto é, muitas pessoas continuam a trabalhar, mas deixam de conseguir responder com a mesma energia. A doença instala-se, arrasta-se e começa a contaminar todas as dimensões da vida.

“Os custos da depressão são grandes não apenas pelas baixas, que muitas vezes são prolongadas, mas também por esta perda de capacidade de trabalho que é menos visível. As pessoas podem continuar a trabalhar, mas com diminuição muito marcada da produtividade.” 
Gustavo Jesus, Psiquiatra

É aqui que entra uma ideia central desta discussão: a depressão resistente ao tratamento começa, muitas vezes, no atraso em pedir ajuda, no atraso em diagnosticar, na ausência de seguimento próximo e na tendência para aceitar melhorias parciais como se fossem recuperação. O estudo TRD Patient Voice mostra que 35% dos participantes demoraram mais de um ano a procurar ajuda profissional e que apenas 36% sentiram que o processo e o tempo até ao diagnóstico foram adequados.

73 %

Pessoas com depressão que vivem com o diagnóstico há mais de cinco anos

51 %

Pessoas que apresentam depressão moderada a grave

35 %

Pessoas que demoraram mais de um ano a procurar ajuda profissional após o início dos sintomas

72 %

Doentes que tiveram de alterar a medicação antidepressiva ao longo do tratamento

Falar de depressão na comunidade implica falar dos cuidados de saúde primários. O médico de família continua a ser, para muitos doentes, a principal porta de entrada no sistema de saúde e está preparado para acompanhar os casos mais comuns de depressão. É precisamente aí que uma intervenção precoce pode evitar agravamentos e trajetórias mais incapacitantes. “Quanto mais precocemente for feito o diagnóstico, mais provável é que não se desenvolva uma depressão resistente”, resume Gustavo Jesus.

Numa lógica ideal, explica o psiquiatra, os casos resistentes ao tratamento deveriam ser referenciados para a psiquiatria: isto é, doentes que já fizeram dois antidepressivos diferentes, em dose máxima eficaz e durante tempo adequado, sem resolução do quadro clínico. É nessa fase que a referenciação se torna decisiva, porque permite acesso a tratamentos mais diferenciados e às novas terapêuticas. O problema é que este modelo nem sempre funciona como deveria, seja porque há pessoas sem médico de família, seja porque falta continuidade e articulação entre profissionais.

“Temos cada vez mais pessoas sem médico de família, e o médico de família continua a ser a primeira linha de diagnóstico. Quanto mais precocemente for feito o diagnóstico, mais provável é que não se desenvolva uma depressão resistente.” 
Gustavo Jesus, Psiquiatra

Essa articulação é particularmente importante quando a resposta ao tratamento não está a ser suficiente. Melhorar “um pouco” não é o mesmo que recuperar. Gustavo Jesus insiste que o objetivo não pode ser apenas aliviar parcialmente os sintomas: tem de ser devolver funcionalidade e aproximar a pessoa do seu estado anterior e isso é possível com a medicação inovadora que deve ser disponibilizada nos hospitais. Caso contrário, ficam sintomas residuais, aumenta o risco de recaída e prolonga-se a sensação de nunca se ter saído verdadeiramente da doença.

Os dados dos doentes apontam precisamente nesse sentido. Entre os participantes do TRD Patient Voice, 72% já precisaram de alterar a medicação antidepressiva ao longo do percurso e 60% mudaram a terapêutica pelo menos duas vezes. Além disso, 32% apresentam um perfil compatível com depressão resistente ao tratamento e, nesse subgrupo, 66% referem níveis de satisfação terapêutica razoável, baixa ou muito baixa.

32 %

Doentes que apresentam um perfil compatível com depressão resistente ao tratamento

66 %

Doentes com perfil de depressão resistente ao tratamento que reportam uma satisfação baixa ou muito baixa com o tratamento atual

40 %

Pessoas que sentem vergonha ou culpa por ter depressão

29 %

Doentes que nunca falaram do diagnóstico no trabalho por receio de repercussões

Este padrão mostra que ainda há respostas insuficientes e necessidades por atender. Ao mesmo tempo, a doença continua a ser acompanhada por um forte peso de estigma. Quatro em cada dez doentes dizem sentir vergonha ou culpa por ter depressão e 29% nunca falaram do diagnóstico no local de trabalho por receio de repercussões. Isso ajuda a explicar porque é que tantas pessoas escondem sintomas e adiam a procura de ajuda.

Há, no entanto, um ponto que Gustavo Jesus faz questão de sublinhar: a depressão resistente ao tratamento tem tratamento. Se durante muito tempo estes casos foram vividos como o fim de uma linha e até com ausência de esperança, hoje existem novas abordagens terapêuticas, farmacológicas e não farmacológicas, que podem fazer diferença em doentes que não melhoram com as estratégias convencionais. A inovação existe, mas nem sempre chega com a mesma rapidez a todos os contextos.

“Hoje existe uma terapêutica inovadora para a depressão resistente ao tratamento, com um perfil diferenciador face às opções anteriores e potencial para gerar ganhos importantes de eficácia, tolerabilidade e recuperação funcional”. 
Gustavo Jesus, Psiquiatra

O problema é que Portugal continua atrasado no acesso à inovação em saúde mental, o que faz com que estas respostas mais recentes não cheguem de forma igual nem atempada a todos os doentes que delas podem beneficiar, limitando o impacto que poderiam ter na vida das pessoas e das suas famílias. A inovação só muda verdadeiramente a vida dos doentes quando está integrada numa rede com boa comunicação entre níveis de cuidados, capacidade de seguimento e referenciação atempada, insiste.

“A depressão é uma doença que pode acontecer a qualquer pessoa.” 
Gustavo Jesus, Psiquiatra

O local de trabalho é um exemplo claro do muito caminho que ainda há para fazer. Apesar de se falar cada vez mais de saúde mental, muitos trabalhadores continuam a sentir que revelar um diagnóstico pode ter consequências negativas na carreira. Os dados mostram que 29% das pessoas com depressão nunca falaram do problema no trabalho por receio de repercussões.

Para o psiquiatra, isto revela uma distância entre o discurso público e a realidade organizacional. Para Gustavo Jesus é fundamental haver uma aposta clara na formação e sensibilização das chefias intermédias, que é quem acaba por estar no dia a dia com os colaboradores. A mudança não se pode fazer apenas com discursos da liderança máxima das organizações, reitera. “Num mercado em que reter talento é cada vez mais difícil, culturas hostis ou indiferentes tornam-se também um problema de competitividade”, acrescenta.

Esta lógica exige também combater a ideia de que a medicação psiquiátrica é sempre “para a vida”. Em muitos casos, um primeiro episódio pode ser tratado durante alguns meses, desde que exista acompanhamento próximo, revisão terapêutica e otimização da dose. Sem esse seguimento, aumenta o risco de recaída e de tratamentos mais prolongados no futuro.

No final, a questão é menos abstrata do que parece. Trata-se de reconhecer cedo, tratar melhor, seguir de perto e não deixar que uma depressão potencialmente tratável se transforme numa doença persistente e altamente incapacitante. Portugal tem hoje mais conhecimento, mais dados e mais opções terapêuticas. O desafio passa agora por transformar esse potencial em acesso real, garantindo que o sistema responde mais cedo, mais perto das pessoas, com melhor articulação entre níveis de cuidados e com acesso efetivo à inovação. “Mesmo que alguém esteja há bastante tempo sem melhorar, pode existir uma forma de ajudar”, conclui Gustavo Jesus.

Referências:
1 – Estudo Custo e Carga da Depressão Resistente ao Tratamento e Depressão com Grave Risco de Suicídio em Portugal;
2 – Estudo TRD Patient Voice – A Perspetiva dos Doentes com Depressão em Portugal.

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