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Álvaro Almeida assumiu em fevereiro a direção executiva do SNS, depois de um mandato curto de Gandra d'Almeida.
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Álvaro Almeida assumiu em fevereiro a direção executiva do SNS, depois de um mandato curto de Gandra d'Almeida.

Álvaro Almeida assumiu em fevereiro a direção executiva do SNS, depois de um mandato curto de Gandra d'Almeida.

Diretor executivo do SNS: "Estranho muito que haja quem fale como ex-diretor executivo ao mesmo tempo que é candidato"

Álvaro Almeida desvaloriza alertas de Fernando Araújo, garante que o fecho de urgências “foi planeado” e é “semelhante ao da Páscoa de 2024”. Já o plano de verão "está delineado" e vigorará em maio.

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Este fim de semana de Páscoa ficou marcado pelo encerramento de várias urgências: oito no sábado e dez no domingo, a maioria na área da Ginecologia-Obstetrícia. Álvaro Almeida, diretor executivo do Serviço Nacional da Saúde (SNS), salienta, em entrevista ao Observador, que a situação não é muito diferente da do ano passado e critica os alarmismos públicos, nomeadamente por parte de Fernando Araújo que, ao Observador, falou de uma situação grave. “É um número [de encerramentos] que é o possível, tendo em conta os constrangimentos que não são de agora”, realça, garantindo que “felizmente, até este momento, não surgiu nenhuma dificuldade”.

Álvaro Almeida sublinha ainda que as urgências, apesar dos encerramentos, estão a funcionar e os serviços têm respondido, sem necessidade de acionar os meios complementares dos privados. Espera que nos próximos dois fins de semana, que também são prolongados, a resposta se mantenha. Assume, por outro lado, que o plano de verão já está delineado e entra em vigor a 1 de maio.

CEO SNS. “Alarmismos infundados sobre urgências”

Álvaro Almeida não se compromete com soluções, nomeadamente para dar resposta à falta de médicos obstetras nos hospitais da região de Lisboa, mas admite que a concentração de urgências é uma opção que está a ser estudada. No entanto, o responsável avisa que essa solução tem também dificuldades associadas, como a falta de espaço nos hospitais e a resistência dos médicos em se deslocarem para outra unidade hospitalar diferente daquela onde trabalham.

O diretor executivo do SNS critica Fernando Araújo, que o antecedeu e a Gandra d’Almeida no cargo, dizendo que não se sabe se fala como ex-diretor executivo ou candidato pelo PS a deputado. Quando ao lugar, assume que continuará “na Direção Executiva enquanto se verificarem duas condições: uma é o primeiro-ministro ser Luís Montenegro e a segunda é o senhor primeiro-ministro querer que eu continue como diretor executivo”. Mas espera deixar o SNS a responder “melhor às necessidades dos cidadãos”: “Esse é o meu objetivo”.

Álvaro Almeida entrou, como diretor executivo do SNS, em fevereiro deste ano, e é o terceiro em dois anos a ocupar o cargo depois de Fernando Araújo, nomeado pelo governo do PS, e de Gandra d’Almeida, já nomeado pela atual ministra, Ana Paula Martins, mas que saiu envolvido em polémica.

"Temos uma situação neste domingo de Páscoa que é semelhante àquela que existiu no domingo de Páscoa do ano passado. Ou seja, não sendo o ideal, também não é novidade, é um problema recorrente."

Neste fim de semana houve oito urgências encerradas no sábado. Estiveram 10 urgências fechadas neste Domingo de Páscoa. É um número aceitável?
Naturalmente que não é um número desejável. O desejável seria que não houvesse nenhum encerramento. Agora, é um número possível, tendo em conta os constrangimentos que não são de agora, são constrangimentos habituais, são constrangimentos que infelizmente se têm repetido ao longo dos últimos anos, mas os constrangimentos de hoje não são diferentes do que foram, por exemplo, no Domingo de Páscoa do ano passado.

Se nós virmos a região mais pressionada, que é a região de Lisboa e Vale do Tejo, neste momento temos cinco unidades de Obstetrícia encerradas, enquanto no domingo de Páscoa de 2024 tivemos também cinco. Três delas são exatamente as mesmas: Almada, Setúbal e Santarém. Duas são diferentes, está encerrada Abrantes, mas no ano passado estava encerrada Caldas da Rainha, que hoje está a funcionar, e hoje está também disponível a Amadora, que no ano passado esteve encerrada, e em contrapartida está encerrada Vila Franca [de Xira]. Ou seja, temos uma situação neste domingo de Páscoa que é semelhante àquela que existiu no Domingo de Páscoa do ano passado. Ou seja, não sendo o ideal, também não é novidade, é um problema recorrente.

Fim de semana de Páscoa com oito urgências fechadas no sábado e dez no domingo

No ano passado, no conjunto, no entanto, estiveram encerradas seis urgências no sábado de Páscoa e 10 no domingo de Páscoa, menos duas ao todo em relação a este ano. Voltou a falhar a planificação? É o número com que nos temos que habituar?
Nós não podemos ver estas questões como meros números, porque o que importa saber é se a capacidade de resposta está disponível. Além daquelas que referi, as outras unidades estão em regiões onde existem alternativas e, portanto, não há um problema de fundo de capacidade de resposta. Mas se quiserem contar urgências fechadas, no primeiro trimestre de 2025 houve cerca de metade do número de dias de encerramento do que no primeiro trimestre de 2024. Portanto, não é que isso seja relevante, o que é relevante é saber se a capacidade de resposta está disponível ou não. Mas se quiserem contar, podemos contar e a questão é exatamente essa: houve menos encerramentos em 2025 do que em 2024.

Fernando Araújo. “Urgências? Situação é grave”

O seu antecessor, Fernando Araújo, disse na Rádio Observador que não terá havido um plano de contingência este ano, nesta altura. Houve ou não um plano de contingência e o que é que ele dizia? E que esforços é que foram feitos pela Direção Executiva do SNS junto das administrações hospitalares para minimizar o problema?
Eu não sei se o professor Fernando Araújo estava a falar como ex-diretor executivo, se estava a falar como candidato do Partido Socialista no círculo do Porto. Mas, em qualquer dos casos, obviamente, a Direção Executiva esteve a planear este fim de semana e está continuamente a trabalhar para garantir a resposta durante todo o fim de semana. Eu próprio, e com mais elementos da equipa, estivemos presentes em algumas unidades ontem; ainda hoje estamos em contacto contínuo com as unidades.

Estamos a assegurar que a capacidade de resposta não é esgotada, sobretudo na região de Lisboa e Vale do Tejo, que, como sabemos, é aquela que é mais pressionada. Mas, mais do que isso, temos protocolos de emergência definidos. Se houver um excesso de afluência nas maternidades da região de Lisboa, há a possibilidade, de acordo com esses protocolos, de transferir grávidas de baixo risco para hospitais privados, libertando as maternidades mais diferenciadas para os casos mais complexos. E, portanto, planeámos devidamente o fim de semana, estamos a acompanhar o problema e estamos a gerir continuamente todas as dificuldades que vão surgindo. Felizmente, até este momento, não surgiu nenhuma dificuldade. O SNS respondeu, a rede do SNS está a funcionar e tenho toda a confiança que continuará a funcionar, até porque, como disse, em termos comparativos, a situação hoje não é muito diferente daquela que se viveu no domingo de Páscoa de 2024.

Bebé nasce em ambulância no Seixal durante Páscoa com várias urgências fechadas

O que foi feito, concretamente, no que diz respeito ao recrutamento de recursos humanos, nomeadamente dos tarefeiros? A Direção Executiva ajudou os hospitais no recrutamento de tarefeiros para este fim de semana?
Muitas unidades do SNS têm falta de recursos humanos nos seus quadros e, como têm falta de recursos humanos nos seus quadros, habitualmente completam as escalas com recursos a prestadores de serviços. Ora, os prestadores de serviços têm menos disponibilidade para prestar serviço nestes fins de semana festivos e, portanto, é nestas alturas que o problema se faz sentir com maior destaque e é por isso que nós estamos, neste fim de semana, com os encerramentos que obviamente são constrangimentos que não são desejáveis, mas que não são, e isso é que é preciso dizer, contra alguns alarmismos que ouvi por aqui, que não há nenhuma situação de risco, a situação está controlada, não é nada pelo qual o SNS já não tenha passado. Repito, é uma situação semelhante à da Páscoa de 2024 e como na Páscoa de 2024 se conseguiu gerir, também se irá gerir hoje porque, como digo, a resposta existe. Há portas fechadas, mas o SNS continua a funcionar 24 horas por dia, 365 dias por ano.

"Se houver um excesso de afluência nas maternidades da região de Lisboa, há a possibilidade, de acordo com esses protocolos, de transferir grávidas de baixo risco para hospitais privados, libertando as maternidades mais diferenciadas para os casos mais complexos. E, portanto, planeámos devidamente o fim de semana."

Há vários meses que a Comissão Nacional de Saúde da Mulher pede que sejam criados incentivos para as equipas obstétricas de forma a fixar e atrair os médicos para o SNS e de forma a também minorar este problema que temos assistido. Mas a verdade é que os incentivos estão parados no Ministério da Saúde há meses e não avançam. Como é que olha para isto? Há falta de vontade política para resolver este problema?
Os incentivos não estão parados há meses no Ministério da Saúde. Estamos a trabalhar, a Direção Executiva, o Ministério da Saúde e a Comissão estamos a trabalhar nesses incentivos. Com uma dificuldade adicional, que é a de, neste momento, termos um governo de gestão e, portanto, não é tão simples produzir legislação como seria se o Governo não estivesse em gestão. E, portanto, o trabalho está a ser feito, não está parado, estamos a trabalhar com a Comissão e estamos a trabalhar com o Ministério da Saúde. A Direção Executiva está a participar nesse processo, precisamente porque esse é um elemento que consideramos fundamental para atrair mais obstetras para os quadros do SNS. Como lhe disse, este é o principal problema. Não é que os médicos não existam, não estão é nos quadros do SNS e, portanto, deixam o SNS vulnerável nestes momentos mais críticos. Agora estamos a trabalhar, não está parado, estamos a trabalhar na elaboração dos incentivos mas com a restrição que decorre de termos um governo de gestão.

Ainda há poucos dias foi noticiado que só metade dos médicos de Ginecologia/Obstetrícia é que trabalham no SNS. A maior parte trabalha nos privados. É possível chamá-los para o SNS?
Nós acreditamos que sim.

Qual é a perspetiva de reduzir este gap?
É nesse sentido que estamos a trabalhar, estamos a trabalhar no sentido de tornar mais atrativas as carreiras no Serviço Nacional de Saúde e menos atrativas as carreiras de prestadores de serviços. O conjunto de incentivos que está a ser preparado é um instrumento nesse sentido, mas não é o único instrumento. Estamos a criar melhores condições de trabalho para as equipas, estamos a repensar toda a organização dos serviços de obstetrícia. Não é só uma questão de incentivos, é mesmo uma reestruturação dos serviços de obstetrícia para que os médicos se sintam mais interessados em colaborar  com o SNS não através de prestações de serviços, mas enquanto elementos integrados nos quadros de pessoal. É esse o nosso foco neste momento no domínio da obstetrícia.

Consegue concretizar mais que planos são esses, que incentivos são esses para tentar atrair mais médicos?
Não vou estar aqui a revelar porque, como lhe disse, estamos a trabalhar e é um documento de trabalho que não está em condições de ser revelado. Aliás, não competiria à Direção Executiva revelar esse documento porque o documento só se materializa por vontade do Governo e portanto terá que ser o Governo a anunciar, se entender, e quando entender.

Há pouco fez referência ao facto do Governo estar em gestão. Já houve alguma medida que tivesse proposto e que tivesse ficado bloqueada no Governo (no gabinete da ministra da Saúde) por, precisamente, o Governo estar em gestão?
Há elementos de Conselhos de Administração de alguns hospitais que não estão a ser nomeados porque o Governo entende não nomear e portanto, nesse sentido, há alterações nos Conselhos de Administração que eu teria proposto se o Governo não fosse de gestão.

“Não atraímos profissionais para o Serviço Nacional de Saúde obrigando-os a trabalhar onde eles não querem”

Na região da margem sul do Tejo só há hoje uma unidade de urgência de obstetrícia e ginecologia aberta e referenciada, as outras estão fechadas. Porquê? É uma zona cinzenta?
As duas que estão fechadas [Setúbal e Almada] são as mesmas que já estiveram fechadas no Domingo de Páscoa de 2024, ou seja é uma região com problemas.

Mas não se esperaria que estivesse melhor. O facto de no ano passado terem estado fechadas deve descansar as pessoas que recorrem ao SNS?
Não. É uma região com problemas mas que, de facto, está melhor porque o número de encerramentos este ano foi muito inferior ao número de encerramentos no ano passado no primeiro trimestre e portanto sim, de facto, está melhor. Hoje concretamente no Domingo de Páscoa não está melhor, está na mesma, mas comparando o primeiro trimestre todo, houve menos encerramentos na Península de Setúbal este ano do que no ano anterior e, portanto, sim, está melhor.

Porque é que que ainda não se avançou para a concentração de urgências na Península de Setúbal como defendem os especialistas?
Porque isso são alterações estruturais que não podem ser feitas de um momento para o outro porque os profissionais que neste momento estão disponíveis na região da Península de Setúbal estão adstritos, cada um deles, a uma Unidade Local de Saúde. Não podemos pura e simplesmente pegar nesses profissionais e mudá-los para onde nós queremos, o processo não pode ser feito assim.

Esse é um modelo que está a funcionar na zona Norte já há algum tempo….
Mas não é um processo que possa ser feito apenas porque a Direção Executiva decide e toca a mudar as pessoas. Tem de ser um processo que é conversado, analisado e discutido com as pessoas em causa.

Quando é que espera que essa concentração de urgências possa avançar?
Eu não espero que a concentração possa avançar nem deixo de esperar. Estamos a discutir com as pessoas as alternativas. Nós não podemos é forçar ninguém a trabalhar onde não quer, porque não atraímos profissionais para o Serviço Nacional de Saúde obrigando-os a trabalhar onde eles não querem trabalhar. Portanto, aquilo que nós estamos a fazer é analisar e estudar continuamente a melhor forma de organizar os serviços de Obstetrícia, nomeadamente na Península de Setúbal que é uma região crítica deste ponto de vista, mas não pode ser um processo pura e simplesmente de imposição, de uma decisão de concentração.

Concentração de urgências em Lisboa e Vale do Tejo: "Parece-me uma solução que, no mínimo, deve ser estudada"

Tem sentido resistência dos médicos?
Se tem acompanhado estas questões, saberá que essa questão já se colocava no tempo dos anteriores diretores executivos, nomeadamente do professor Fernando Araújo, e não avançou por alguma razão.

Estou a perguntar ao atual diretor executivo…
Eu estou a explicar que, se não avançou na altura, é porque havia dificuldades e eu estou exatamente a transmitir-lhe essas dificuldades.

Mas há uma resistência por parte dos médicos em deslocarem-se para outro hospital? É isso?
As pessoas têm as suas vidas num determinado local e naturalmente que têm resistência. Não é necessariamente bloqueio, não estou a dizer isso nem podem interpretar o que estou a dizer como tal, mas obviamente resistência sim porque se as pessoas estão num determinado local, naturalmente, preferem estar onde estão — por isso é que lá estão. Também, da mesma forma, isso tem impacto no resto do hospital e no resto das unidades portanto, repito, essas soluções, que eu não estou a excluir, só estou a tentar explicar, não são soluções que, por um passo de mágica, se consigam implementar porque é um assunto que já foi analisado e discutido há muito tempo e ainda não foi executado por alguma razão, foi porque há dificuldades que estamos a tentar ultrapassar.

A criação de urgências metropolitanas nomeadamente nesta área da obstetrícia é uma solução que vê com bons olhos para a região da grande Lisboa e não só para a Península do Sul?
A reorganização das urgências da obstetrícia está a ser analisada. A reorganização pode passar por aí. Como princípio geral, parece-me uma solução que, no mínimo, deve ser estudada. Agora, eu chamo a atenção para algumas outras dificuldades, além daquela que referi, que uma solução dessas enfrenta, por exemplo dificuldades de espaço. Porque, se nós vamos ter concentração, significa que aquela unidade que vai funcionar vai ter que dar resposta a um número maior de casos e é preciso que tenha espaço físico, para além de recursos humanos, para dar essa resposta e nem sempre isso acontece.

Portanto, e estou a falar apenas hipoteticamente, se houvesse, como já foi posta a hipótese pela Comissão Nacional da Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente, a criação de um centro materno-infantil na Península de Setúbal era preciso arranjar um espaço físico para isso, o que implica construção e a construção não é algo que se faça de um dia para o outro.

Os problemas não são fáceis de resolver. Mas parecia fácil? Quando chegou à Direção Executiva e quando este governo tomou posse e fez um plano de emergência…
Está a ser executado e o Plano de Emergência que está a ser executado garantiu que neste inverno as urgências estivessem muito melhor do que o ano passado. Não só houve menos encerramentos, como já referi, como houve tempos de espera menores, os tempos de espera reduziram cerca de 10% nas urgências nacionais. Houve muitos menos constrangimentos, houve muito menos notícias de problemas de ambulâncias à porta de urgências, como ocorreu em anos anteriores e, portanto, o plano de emergência do governo está a funcionar. Agora, é preciso ou não ter bom senso ou ter má fé, achar que alguém poderia dizer que ia resolver os problemas todos do SNS num instante.

Inverno: Número de urgências diminuiu no SNS e tempo de espera caiu 20%. Alguns hospitais de Lisboa, Alentejo e Algarve em contraciclo

“Quem nomeou 300 e tal pessoas para lugares de administração no SNS com um governo demissionário é que é responsável por essa situação de instabilidade”

Foram substituídas muitas administrações hospitalares, cerca de 15, muitas delas demitidas pelo Governo. Isso também não introduz instabilidade e não prejudica o trabalho nos hospitais, nomeadamente na procura de recursos humanos para esses hospitais e para as urgências em concreto? Não cria instabilidade estas mudanças nas administrações?
Essas alterações, ou a maior parte, foram realizadas antes de eu ser diretor executivo e, portanto, não conheço em detalhe as motivações. Só quero chamar atenção para um pormenor: quem criou a instabilidade foi quem nomeou 300 e tal lugares de administração com um governo demissionário, sabendo que o governo podia mudar logo a seguir, isso é que cria instabilidade… Quem nomeou 300 e tal pessoas para lugares de administração no SNS com um governo demissionário é que é responsável por essa situação de instabilidade. Este Governo o que fez foi — com exceção, se a memória não me falha, de cinco casos — substituir conselhos de administração que terminaram o seu mandato. Só em cinco casos, em cinco de 39 ou 42 se incluirmos os IPO, é que houve uma substituição do conselho e a maior parte por demissão dos próprios, foram os próprios conselhos que se demitiram. Quem fez nomeações com um governo de gestão é que é responsável por essa instabilidade.

De entre essas 300 nomeações de que fala, muitas seriam feitas de qualquer forma por causa da transformação das unidades em ULS, não é?
Não necessariamente. Aliás, o próprio facto de ter reformulado o Serviço Nacional de Saúde com um governo demissionário já é criador de instabilidade, porque está a introduzir uma reforma num período de alta incerteza política e de transição de governos e, portanto, fazer isso nessas circunstâncias é um fator de instabilidade. O decreto-lei saiu no dia da demissão do Governo. Era perfeitamente possível não avançar porque havia um governo de gestão. O avanço só se tornou inevitável depois da aprovação do Orçamento do Estado que já veio depois do Governo estar demitido.

Não formalmente.
Não formalmente, mas pelo menos de facto, toda a gente sabia que o governo ia ser demitido. E, portanto, avançar nessas circunstâncias [para a criação de 39 Unidades Locais de Saúde] é que foi altamente criador de instabilidade. Quem avançou nessas circunstâncias, quem tomou essa decisão é que criou os problemas.

Adiantou Lucindo Ormonde, diretor clínico adjunto da Unidade Local de Saúde Santa Maria

As urgências em Lisboa e Vale do Tejo são as que têm tido mais problemas

TOMÁS SILVA/OBSERVADOR

“Assegurámos este fim de semana que o SNS foi capaz de responder a todas as necessidades de toda a população e iremos continuar a trabalhar no mesmo sentido para manter este resultado”

Há mais fins de semana prolongados no calendário, os próximos dois fins de semana por exemplo. O que podem os portugueses esperar nas próximas semanas em relação a urgências e ao estado do SNS e o que é que está a ser feito para tentar acautelar essa mesma situação?
Estamos a trabalhar continuamente, 24 horas. Literalmente 24 horas. Recebi mensagens esta noite sobre casos que estavam a acontecer e que se resolveram sem problemas, mas estamos nós, Direção Executiva, a trabalhar continuamente para assegurar a resposta do SNS. Como fizemos este fim de semana, sabendo que são fins de semana, este e os próximos, muito complicados, mas assegurámos este fim de semana que o SNS foi capaz de responder a todas as necessidades de toda a população e iremos continuar a trabalhar no mesmo sentido para manter este resultado.

Como é que está a acautelar? O que é que está a ser preparado para tentar evitar que essa capacidade de resposta seja posta à prova?
O que está a ser preparado foi o que foi feito neste fim de semana. Assegurar que há sempre unidades capazes de responder em todas as regiões, assegurar protocolos que permitem responder ou que podem ser acionados em situações de maior pressão, que este fim de semana não foi preciso, mas se for preciso eles existem e portanto estamos a coordenar as várias unidades do Serviço Nacional de Saúde para garantir essa resposta em rede. Foi isso que foi feito e até agora funcionou. Estamos confiantes que continuará a funcionar também nos próximos fins de semana.

Em anos anteriores, nomeadamente no verão, culpou-se a má gestão das escalas de férias dos médicos, nomeadamente dizendo que isso levou ao encerramento de muitas urgências. O que é que foi feito entretanto, e o que é que está a ser feito neste momento para melhorar essa gestão das escalas de férias?
Foi recentemente publicado pela senhora secretária de Estado da Saúde um despacho que define os procedimentos a adotar no plano de verão. O plano de verão da Direção-Geral da Saúde e Direção Executiva já está publicado também. Agora terão que ser as unidades do SNS, as ULS e os IPO, mas sobretudo as ULS, a implementar os seus planos de contingência. O plano de verão começa a 1 de maio.

Grávida que esteve três horas na ambulância devia ter esperado no Hospital do Barreiro mas quis sair

Na semana passada houve uma grávida que esteve três horas à espera numa ambulância. Indicou que essa espera se deveu a um pequeno pormenor que não terá corrido tão bem e tinha sido da responsabilidade da própria. O que é que se passou em concreto?
O problema foi resolvido como deveria ser. Houve um pormenor que não correu tão bem que foi da responsabilidade da própria. O pormenor que não correu tão bem foi o facto de ela ter esperado na ambulância. Ela devia ter esperado, como lhe foi dito, no hospital do Barreiro, onde estaria sob monitorização, continuamente observada e com capacidade de resposta. O problema é que ela não quis, saiu do hospital contra parecer médico, saiu do hospital, e por isso é que teve que aguardar na ambulância, porque estava à porta de casa à espera de resolver este problema mas o que deveria ter acontecido é que todo o processo deveria ter sido conduzido com a senhora no hospital do Barreiro, como lhe foi dito para fazer.

E portanto foi ela que quis sair do hospital, é isso que está a dizer?
Sim, sim. Foi ela que quis sair, a informação que tenho do hospital do Barreiro é que foi a senhora que quis sair. Foi desaconselhada, mas ela insistiu e assinou alta contra parecer médico.

Diretor-executivo do SNS diz que grávida esteve três horas numa ambulância por “responsabilidade da própria”

Deveria ter esperado no Hospital do Barreiro, mas não esperou, foi para casa e à tarde esteve as três horas à espera numa ambulância. É razoável este tempo de espera na ambulância? O que é que falhou nesse caso em concreto?
Falhou é que nesse tempo de espera a senhora devia ter ficado no hospital a aguardar a transferência no hospital onde estava a ser observada, porque obviamente o Hospital do Barreiro tem todas as condições para lhe prestar assistência se fosse necessário. O facto de estar na ambulância é porque estava em casa e não no hospital. Esse é que é o problema aqui. E era porque se sabia que, naquele caso concreto, o que era preciso era uma transferência para uma unidade diferenciada que deveria ter sido, e que ela inicialmente recusou. E portanto, obviamente não devia ter estado três horas numa ambulância, devia ter estado, o tempo que fosse necessário, no Hospital do Barreiro sob observação. Mas isso é parte da responsabilidade da senhora porque não estava no Hospital do Barreiro.

Mas aí já estava referenciada, não deveria ter sido mais célere a resposta?
Os processos de transferência não são imediatos. Os processos de transferência demoram tempo porque há constrangimentos, é preciso ver onde é que há vagas, e era o caso aqui, e portanto aquilo que deveria ter acontecido é que esse processo devia ter decorrido com a senhora sob observação no Hospital do Barreiro. E não numa ambulância, com certeza.

"Estranho muito que haja quem fala como ex-diretor executivo [Fernando Araújo] ao mesmo tempo que é candidato, que é cabeça de lista pelo Partido Socialista no círculo do Porto, e recusa-se a falar enquanto tal"

“SNS está a responder como é suposto”, mas há quem esteja a criar “alarmismos sem razão”

No acesso dos doentes ao SNS, no último ano houve, como referiu, uma redução do tempo de espera nas urgências, houve também uma melhoria na área das cirurgias oncológicas, mas por outro lado há mais doentes à espera de uma cirurgia não oncológica e de uma consulta também de especialidade para lá dos tempos clinicamente recomendados. Como é que se ultrapassa esta situação?
Não tenho aqui os dados à frente porque pensei que a entrevista era sobre a situação das urgências, mas os últimos números que vi revelavam uma ligeira redução no número de pessoas à espera para lá dos tempos máximos de resposta garantidos e também uma ligeira redução no número total de pessoas na lista de espera. Esses eram os dados a 31 de março, não sei os dados mais recentes, mas não parece que haja um agravamento da situação, como sugere. Há uma ligeira melhoria.

Preocupa-o que ainda assim haja, por exemplo, cerca de metade das pessoas à espera de uma consulta de especialidade para lá dos tempos máximos recomendados?
Claro, preocupa-me, preocupa-me bastante. É uma das situações que não devia ocorrer. Se existem tempos máximos de resposta garantidos, era suposto que eles fossem cumpridos. Infelizmente não foi isso que aconteceu nos últimos anos. Aquilo que nós fazemos é trabalhar todos os dias para ir melhorando um pouco a situação. Não vamos resolver os problemas todos de um dia para o outro, não é possível, não é sério, não seria sério alguém afirmar uma coisa dessas. Aquilo que a nossa equipa, e quando falo da nossa equipa falo das 150 mil pessoas que fazem parte do Serviço Nacional de Saúde, está a fazer é a trabalhar para que a situação vá melhorando gradualmente, os constrangimentos vão reduzindo, mas sabemos que o progresso vai ser lento. Não há soluções milagrosas, até porque a pressão que o SNS está a enfrentar não é exclusivo do SNS, tem várias causas e é partilhada com vários sistemas de saúde.

No outro dia, eu tive um encontro com uma delegação do Serviço Nacional de Saúde inglês e basicamente a conversa foi: nós temos estes problemas e nós também temos. A situação era muito semelhante, o tipo de problemas são os mesmos, os tipos de pressões são os mesmos e, portanto, há aqui um problema que resulta da evolução epidemiológica, da evolução demográfica, resulta de um problema de recursos humanos. Todos estes problemas são problemas que o Serviço Nacional de Saúde enfrenta e que os sistemas de saúde europeus enfrentam todos e aquilo que nós tentamos fazer, e temos conseguido no último ano, o Governo tem conseguido no último ano e nós desde fevereiro temos colaborado nesse sentido, é gradualmente ir melhorando o acesso e ir melhorando a resposta do Serviço Nacional de Saúde, que, diga-se, também, em termos clínicos, é muito boa. Em termos clínicos temos respondido. Há dificuldades em termos de conveniência, em termos de conforto, em termos de facilidade de acesso, há certamente essas dificuldades, mas estamos a trabalhar para ir gradualmente melhorando.

"Continuarei na direção executiva enquanto se verificarem duas condições. Uma é o primeiro-ministro ser Luís Montenegro e a segunda é o senhor primeiro-ministro querer que eu continue como diretor executivo."

A rede com os privados tem funcionado?
Os privados fazem parte do SNS praticamente desde a sua criação. Há protocolos entre o Serviço Nacional de Saúde e privados para várias áreas há 40 anos. Há protocolos nas áreas das análises clínicas, da diálise, da hematologia, há protocolos com alguns hospitais de Misericórdia, o Hospital da Cruz Vermelha. Há uma série de relações entre o Serviço Nacional de Saúde e os privados que vêm de há décadas e que, portanto, fazem parte integrante do Serviço Nacional de Saúde que hoje nós temos. Sem essas relações seria muito difícil de trabalhar, porque estão de tal forma entrelaçadas com a rede pública que fazem parte do Serviço Nacional de Saúde como um todo e aquele Serviço Nacional de Saúde que nós hoje temos é fruto disso tudo. É fruto dessa relação, é também fruto dessa relação com o setor privado que é preciso manter, é preciso continuar a assegurar, porque sem essa relação a capacidade de resposta seria muito menor.

O Partido Socialista tem acusado a ministra da Saúde e também o primeiro-ministro de estarem ausentes durante estes problemas que estamos a enfrentar nas urgências. Sente que tem que ser o diretor executivo a dar a cara para não beliscar de certa forma a ministra da Saúde, que agora também está envolvida numa luta política, uma vez que vai ser cabeça de lista em Vila Real?
O diretor executivo tem como função coordenar a rede do SNS e, portanto, tem que ser o diretor executivo a assegurar essa coordenação. As questões políticas não são comigo, não tenho funções políticas neste momento e, portanto, a questão política terá que ser colocada ao Governo. Agora, também lhe digo que estranho muito que haja quem fale como ex-diretor executivo ao mesmo tempo que é candidato, que é cabeça de lista pelo Partido Socialista no círculo do Porto, e recusa-se a falar enquanto tal, nomeadamente, penso que a própria Rádio Observador terá feito o convite para um debate entre Fernando Araújo e Paulo Rangel, que foi recusado por Fernando Araújo, pelo que sei, não é?

Portanto é Fernando Araújo que está a politizar também um pouco a questão da saúde?
Não sei, não sei em que condições é que ele falou ontem, é difícil perceber. Num contexto destes, se falou na condição de perito, se falou na condição de ex-diretor executivo, que acho muito difícil porque ele sabe qual era a situação na Páscoa do ano passado e sabe que não é muito diferente da atual, ou se falou como candidato do Partido Socialista no círculo do Porto.

Falou enquanto ex-diretor executivo do SNS.
Como é que se faz essa distinção? Sendo que o próprio invocou declarações de uma responsável do Partido Socialista durante a sua intervenção. Então como é que é uma intervenção como diretor executivo e vai citar uma reação do Partido Socialista?

A saúde volta a estar politizada então com Fernando Araújo como cabeça de lista pelo Porto?
Essa é uma resposta que serão os analistas políticos que terão que fazer. A minha função neste momento é explicar como é que o Serviço Nacional de Saúde responde às dificuldades que tem, sendo que este fim de semana é um fim de semana complicado, mas durante o qual o SNS respondeu. As declarações de quem é candidato a deputado, isso terá de ser o próprio a analisar, ou melhor o próprio a pensar se deve fazê-las neste momento em que é candidato, ou se não as deveria fazer num debate com Paulo Rangel, um debate entre candidatos.

Sendo militante do PSD, nomeado pelo Governo da AD e a um mês das eleições, não está também, de certa forma, a contribuir para partidarizar a questão das urgências?
Então explique-me uma coisa. O senhor professor Fernando Araújo, que é candidato, ontem falou como ex-diretor executivo e eu hoje estou a falar como defensor do Governo, é isso que está a insinuar?

Não estou a insinuar nada, estou a colocar a questão se não está a politizar-se demasiado o tema da saúde, tendo em conta os problemas que existem?
A razão porque quis dar esta entrevista ao Observador é porque vi criar alarmismos infundados que podem causar perturbação na população e quis dar uma palavra de confiança de que está tudo a funcionar como é suposto. A minha preocupação é apenas assegurar à população e aos cidadãos portugueses que o SNS está a responder como é suposto, contrariamente a outros que criam alarmismos sem razão. Se são para fins políticos ou não, isso aí é competirá aos analistas avaliar.

Existe uma gestão sem qualquer tipo de ideologias. É possível esse cenário?
Não, não foi isso que eu afirmei.

É possível gerir a questão da saúde sem qualquer tipo de ideologias. É esse o desejo ou o objetivo?
Não, nunca assumi, nunca disse isso, nunca pensei isso. Naturalmente que a gestão do SNS reflete uma política de saúde. E eu estou a executar a política de saúde deste Governo, não é a política de saúde de outro governo qualquer. Portanto, tudo aquilo que o diretor executivo faz é no quadro da política de saúde definida pelo governo atual.

Se o PSD perder as eleições dia 18 de maio, sai da Direção Executiva?
Eu não faço cenários, mas eu fui nomeado por este Governo, chefiado pelo primeiro-ministro Luís Montenegro. Continuarei na Direção Executiva enquanto se verificarem duas condições. Uma é o primeiro-ministro ser Luís Montenegro e a segunda é o senhor primeiro-ministro querer que eu continue como diretor executivo.

Neste mandato à frente da Direção Executiva, que objetivos é que quer atingir?
Como disse, queria assegurar que o Serviço Nacional de Saúde melhora continuamente, gradualmente, mas continuamente, para que, quando o meu mandato terminar, o SNS responda melhor às necessidades dos cidadãos do que está a responder hoje. Esse é o meu objetivo.

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