Foi num posto de abastecimento de combustíveis que Vítor (nome fictício) conheceu o homem que o levaria à cadeia. Numa altura em que o estivador do Porto de Leixões, de 35 anos, acumulava dívidas junto dos bancos e pedia dinheiro emprestado ao pai para satisfazer a adição ao jogo online e aos casinos, uma proposta para “ganhar dinheiro” foi difícil de recusar.
A oferta foi feita por um homem que desconhecia, que lhe propôs um trabalho no interior do porto. Vítor acedeu, partilharam números de telefone e começaram a trocar mensagens, de três em três dias. Era através do telemóvel que o estivador também se isolava da família, preferindo passar o tempo em aplicações de jogos.
No dia 12 de agosto de 2024, Vítor e o homem que o convencera encontraram-se num parque de estacionamento: estava na altura de passar à ação. Em breve, ia chegar um contentor que era necessário mover de forma a torná-lo acessível a terceiros e abrir. Depois, bastava retirar “entulho” de dentro de dois bidões. Tudo em troca de 10 mil euros, relata o acórdão do Tribunal de Matosinhos que condenou Vítor. Para fazer o que era preciso, foram-lhe entregues pelo traficante três sacos e uma rebarbadora.
▲ Crime deu-se no Porto de Leixões, no verão de 2024
DR
Se o contentor não abrisse, Vítor estava “lixado”
A 14 de agosto, o contentor já estava no Porto de Leixões — e Vítor recebeu o aviso.
Cerca das 20 horas, entrou na sala de operações onde os contentores são arrumados à distância e fez o que lhe fora pedido: deixou aquele que tinha o número indicado no chão. O próximo passo foi pegar na rebarbadora e nos sacos e dirigir-se e ir até lá. Conseguiu quebrar o selo, mas assustou-se ao ver uma carrinha da manutenção do porto. Fugiu para o carro e informou o seu cúmplice que não tinha conseguido abrir o contentor, para receber uma resposta: ou o fazia até à meia-noite, ou “estava lixado”.
Eram já 21 horas quando Vítor regressou para trabalhar e, no fim da jornada, se abeirou novamente do contentor. Quando finalmente o abriu, viu lá vários bidões. Ao abrir os dois que lhe tinham sido assinalados, cortou-se no pulso esquerdo e começou a sangrar muito. Mesmo assim, à meia-noite e meia tinha conseguido encher dois sacos com entulho — e reparou que os bidões tinham um fundo falso. Depois de ter abandonado o porto de Leixões, entregou a rebarbadora e os sacos cheios de entulho ao cúmplice, mas tinha que “se manter contatável”: a noite de trabalho ainda não tinha terminado.
▲ Polícia Judiciária prendeu Vítor em dezembro de 2024
Lusa
“Vais meter estes três gajos dentro da mala da tua carrinha”
Quase três horas depois e por mensagem, Vítor foi chamado até a um parque de estacionamento. Se não aparecesse, iam buscá-lo a casa, prometia o traficante. “Vais meter estes três gajos dentro da mala da tua carrinha e vais entrar com eles”, ordenou. “Depois vais indicar-lhes onde está o contentor e vais esperar por eles.”
Faltavam cinco minutos para as quatro da manhã quando Vítor entrou novamente no porto de Leixões. No porta-bagagens, levava os três homens, mas alegou que só vinha buscar o telemóvel de que se tinha esquecido.
Ao pé do contentor, os três homens saíram do carro e voltaram com três sacos cheios de cocaína. Mais uma vez, Vítor entrou em pânico e fugiu. Para trás, ficaram os três homens, que acabaram surpreendidos por seguranças do porto. Restou-lhes saltar a vedação — o que conseguiram fazer — e deixar para trás um dos sacos, onde estavam 25 embalagens de cocaína. As imagens acabaram captadas pelas câmaras de videovigilância.
Analisada a droga, apurou-se que tinha um grau de pureza entre 94,1% e 98,2%, e era suficiente para pelo menos 119.156 doses.
O Tribunal de Matosinhos condenou Vítor no início de outubro pelo crime de tráfico de estupefacientes a três anos de prisão efetiva, pena atenuada por ter denunciado o homem que o convenceu, numa decisão que ainda não transitou em julgado. Desde dezembro de 2024 que se encontrava em prisão preventiva.