A relação entre Ucrânia e EUA parece viver os piores dias dos últimos anos e a troca de acusações entre os dois Presidentes teve eco em todo o mundo, com grande parte dos líderes mundiais a defender Kiev: Donald Trump disse que estava “muito desiludido” com Volodymyr Zelensky; o ucraniano reagiu pouco depois: vive “numa bolha de desinformação”.
O apontar de dedos começou com o Presidente dos EUA a acusar o homólogo ucraniano de abrir uma guerra que “nunca deviam ter começado”. Depois de Zelensky ter criticado a reunião entre EUA e Rússia “sobre a Ucrânia, sem a Ucrânia”, Trump atirou: “Hoje ouvi dizer ‘não fomos convidados’. Bem, vocês [Ucrânia] estão lá há três anos. Deviam ter acabado com isto há três anos. Nunca o deviam ter começado”. O norte-americano ainda disse estar desiludido com Zelensky, que descreveu como impopular.
A resposta do Presidente da Ucrânia não demorou muito, e chegou em várias declarações. Num primeiro momento, através do X, Zelensky não mencionou Trump, lembrou apenas que a “Rússia é dirigida por mentirosos patológicos que não são de confiança e que devem ser pressionados”.
Rescue operations are currently underway in Odesa following another Russian strike on the city's energy infrastructure. Once again, civilian energy facilities have been targeted – for nearly three years now, the Russian army has relentlessly used missiles and attack drones… pic.twitter.com/hpBolxxfS1
— Volodymyr Zelenskyy / Володимир Зеленський (@ZelenskyyUa) February 19, 2025
Porém, não fugiu ao tema e o ataque ao Presidente dos EUA chegou menos de uma hora depois: “Com todo o respeito pelo Presidente Donald Trump, como líder, está a viver neste espaço de desinformação”.
Zelensky aproveitou para falar sobre outros assuntos levados a debate pelo Chefe de Estado norte-americano; o acesso de Washington às reservas de metais de terras raras do país do leste europeu. “Não posso vender o nosso país”, disse, taxativamente, o Chefe de Estado que referiu estar apenas “a proteger a Ucrânia”.
Apesar de ter confessado que, durante a corrida à Casa Branca, falou com Donald Trump para dizer que estava “a contar com ele”, Zelensky assume que a conversa sobre a negociação de metais raros não é “séria” e tampouco ajudaria a relação entre os dois países.
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Antes de nova, e mais corrosiva, acusação de Trump, o Presidente da Rússia, Vladimir Putin, ainda apareceu na discussão para dizer que “ninguém está a excluir a Ucrânia” das conversas de paz.
Foi através de uma publicação na Truth Social que a conversa escalou. Num longo texto com várias críticas a Zelensky – e até a Joe Biden -, Trump disse que o ucraniano era um “ditador sem eleições”.
Um ditador sem eleições, Zelensky deve mexer-se rápido ou já não terá país. Entretanto, nós estamos a negociar com sucesso um fim da Guerra com a Rússia, algo que só ‘TRUMP’ e a administração Trump podem fazer. Biden nunca tentou, a Europa falhou em trazer paz e Zelensky provavelmente quer manter o ‘comboio de borlas’. Eu adoro a Ucrânia, mas Zelensky fez um trabalho terrível
O Presidente norte-americano disse que Volodymyr Zelensky era “um comediante sofrível”, que convenceu os EUA a gastar “350 mil milhões de dólares para ir para uma guerra que não podia ganhar”. O Chefe de Estado deixou Trump a falar sozinho e, até ao final do dia, não respondeu diretamente a estas acusações.
No entanto, a publicação na Truth Social teve eco um pouco por todo o mundo, com vários líderes a condenar as declarações de Trump.
Líderes internacionais reagiram
O chanceler alemão foi um dos primeiros a defender Zelensky – “o Chefe de Estado eleito da Ucrânia”. “O facto de eleições normais não ocorreram durante uma guerra está previsto na constituição ucraniana. Ninguém deve alegar o contrário”, respondeu, citado pelo jornal Der Spiegel.
Olaf Scholz disse que era “simplesmente errado e perigoso negar a legitimidade democrática de Zelensky”. O chanceler lembrou que foi a Rússia que começou a “guerra implacável”, da qual a Ucrânia se está a defender, “dia após dia”.
Numa chamada telefónica com o próprio Zelensky, o primeiro-ministro britânico, Keir Starmer demonstrou o seu apoio “ao Presidente ucraniano democraticamente eleito”. “É perfeitamente razoável suspender eleições durante a guerra como o Reino Unido fez [na Segunda Guerra Mundial]”, pode ler-se num comunicado de Downing Street.
O primeiro-ministro sueco, Ulf Kristersson, disse que a descrição feita por Trump era “incorreta”. “O Presidente ucraniano foi democraticamente eleito. Acho que ninguém quer eleições mais do que a Ucrânia, porque isso significaria que têm paz e que podem governar novamente o país”, defendeu.
Sem mencionar o Chefe de Estado dos EUA, o Presidente Francês, Emmanuel Macron, assumiu apenas que os aliados “estão com a Ucrânia”. Instado a comentar, o ministro dos Negócios Estrangeiros português, Paulo Rangel, confessou, em entrevista à RTP, que não queria criar ruído.
Ao lado de Trump surgiu apenas o seu vice-presidente, JD Vance, e a Rússia, pela voz do ex-Presidente Dmitry Medvedev.
“Trump está 200% certo. (…) Se me dissessem há apenas três meses que estas eram as palavras do Presidente dos EUA eu tinha-me rido muito”, escreveu no X o atual vice-presidente do Conselho de Segurança de Moscovo.
"A Dictator without Elections, Zelenskyy better move fast or he is not going to have a Country left." If you'd told me just three months ago that these were the words of the US president, I would have laughed out loud. @realDonaldTrump is 200 percent right. Bankrupt clown…
— Dmitry Medvedev (@MedvedevRussiaE) February 19, 2025
Por sua vez, Vance disse que Zelensky estava a receber “maus conselhos” sobre a forma de lidar com Trump. “A ideia que Zelensky vai mudar a opinião do Presidente [Trump] por falar mal dele à comunicação social… Todos os que conhecem o Presidente vão dizer que é uma forma atroz de lidar com a administração”.