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▲Destroços após um ataque russo a Kiev

NurPhoto via Getty Images

▲Destroços após um ataque russo a Kiev

NurPhoto via Getty Images

"Duas crianças a lutar como loucas"? Longe do cessar-fogo, guerra escala com ataques da Ucrânia na Rússia e nova ofensiva planeada por Putin

Trump diz que, como "duas crianças loucas", é melhor deixar Rússia e Ucrânia lutar. Guerra escala: Kiev usa criatividade para atacar em solo russo, Moscovo prepara nova ofensiva no verão.

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“Às vezes vê-se duas crianças a lutar como loucas. Elas odeiam-se e estão a lutar num parque e tentamos afastá-las. Elas não querem ser afastadas. Às vezes, é melhor deixá-las lutar por um bocado e depois afastá-las.” O Presidente norte-americano, Donald Trump, caracterizou desta maneira a recente escalada do conflito na Ucrânia. Desde domingo, 1 de junho, as autoridades ucranianas já surpreenderam por várias vezes o Kremlin com ataques cirúrgicos e estratégicos dentro de território russo, causando baixas pesadas. A Rússia tem retaliado e prepara uma nova ofensiva para este verão.

Ao mesmo tempo em que se assiste a esta escalada recente na guerra, os dois países têm mantido os canais de comunicação abertos. Na Turquia, dirigentes russos e ucranianos têm tentado chegar a um consenso para alcançar uma trégua de 30 dias proposta por Donald Trump. Contudo, nenhuma das duas partes quer ceder. Limitam-se a tréguas mínimas e a troca de prisioneiros. Sem fim à vista, o conflito arrasta-se há mais de três anos e os recentes desenvolvimentos dos últimos dias indiciam uma intensificação.

Desde que regressou à presidência norte-americana, Donald Trump tinha o objetivo de terminar com a guerra. Porém, a missão tornou-se praticamente impossível. Apoiada pelos europeus e pela generalidade da opinião pública norte-americana (até mesmo entre republicanos), a Ucrânia não está disposta a entregar territórios ocupados pela Rússia. O Kremlin não cede também em nenhuma das suas reivindicações, pretendendo formalizar as anexações no país vizinho, afastando-o de vez da NATO.

Neste impasse, Donald Trump admitiu até que os Estados Unidos desistiriam de tentar chegar a uma solução de paz. A estratégia parece agora ter-se alterado. Em vez de abandonar por completo a mesa de negociações, o Presidente dos EUA dá sinais de acreditar que Rússia e Ucrânia ainda “têm de lutar mais um bocado”. Nesta situação, Kiev tem aproveitado para expor as falhas de segurança interna russas, ao passo que Moscovo reúne tropas perto da fronteira.

As operações subversivas da Ucrânia

A 1 de junho, a operação Teia da Aranha deu o mote para uma vaga de ataques precisos em solo russo. Usando camiões descaracterizados e drones, a Ucrânia atacou cinco bases aéreas russas e assegurou que destruiu 34% dos bombardeiros estratégicos russos, o que, a ser verdade, trata-se de pesadas perdas para a frota aérea da Rússia. As autoridades ucranianas celebraram a façanha militar e aproveitaram para transmitir a mensagem de que, afinal, ainda “têm cartas” e a guerra está longe de estar perdida para Kiev.

A Rússia avançou com uma “retaliação”. O Presidente russo, Vladimir Putin, avisou o seu homólogo norte-americano, numa conversa telefónica na passada quarta-feira, que teria de responder militarmente à Operação Teia de Aranha. Donald Trump mudou de tom. Em vez de lamentar as vítimas mortais que um ataque destes poderia causar, apenas disse que foi informado, não emitindo juízos de valor. E destacou, na publicação na rede social Truth Social, que o telefonema não “levaria à paz imediata”, apesar de ter sido construtivo.

Perante a anuência norte-americana, que também nunca criticou diretamente a operação Teia da Aranha da Ucrânia, a Rússia respondeu esta sexta-feira de madrugada. Moscovo lançou um dos maiores ataques aéreos de sempre em território ucraniano, utilizando mais de 400 drones e 40 mísseis (alguns dos quais de cruzeiro). Morreram pelo menos quatro pessoas e 49 ficaram feridas. O porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, reconheceu que esta foi a retaliação contra os “ataques terroristas” ucranianos. “Tudo o que os nossos militares fazem todos os dias é uma resposta às ações do regime de Kiev, que ganhou todas as características de um regime terrorista.” 

Na ótica do Kremlin, a Ucrânia está a transformar-se num “regime terrorista”. Vladimir Putin descreveu, na quarta-feira, o governo ucraniano como “podre” e afirmou que estava a tentar “intimidar a Rússia”. Mas além da operação Teia da Aranha, Kiev avançou com outro ataque numa infraestrutura com especial importância para o Kremlin: atacou a ponte de Kerch, que liga a península da Crimeia à Rússia continental, e que se transformou num símbolo da anexação daquele território.

Na passada terça-feira, a Ucrânia atacou com o recurso a mais de mil quilos de explosivos a estrutura que sustenta a ponte. Numa “operação que foi preparada durante vários meses”, o Serviço de Segurança da Ucrânia (SBU) garantiu que, como consequência das explosões, os “suportes subaquáticos dos pilares” ficaram “severamente danificados”. A Rússia rejeitou esta versão e assegurou que a infraestrutura não ficou danificado — estando totalmente operacional e tendo reaberto o trânsito.

A Ucrânia voltou a atacar solo russo esta sexta-feira — refinarias de petróleo, uma fábrica e uma linha ferroviária em Belgorod. Para os ucranianos, é uma maneira de mostrarem que ainda têm meios de fazer frente à Rússia. Como explicou ao New York Times a analista russa do Instituto para a Guerra Kateryna Stepanenko, os ucranianos estão a “construir um novo tipo de guerra” com ofensivas criativas e fora da caixa. A mensagem que querem transmitir é que “nenhum lugar da Rússia está seguro”.

À BBC, o analista Anatolii Khrapchynskyi sinaliza que as operações lançadas pela Ucrânia desde a Teia da Aranha podem ser um “ponto de viragem da guerra”. “Foi um golpe significativo na imagem da Rússia e nas capacidades da Federação Russa. A Ucrânia mostrou ao mundo que a Rússia é atualmente fraca e não se pode defender internamente.”

Tida em Washington como a parte mais fraca na guerra, a Ucrânia pretende enviar um sinal à administração Trump de que ainda tem “cartas” para jogar, numa alusão às declarações do Presidente norte-americano de que os ucranianos estariam sem cartas e numa posição inferior face à Rússia e que, portanto, teriam de se submeter às exigências de Moscovo. Estes ataques dentro de solo russo são apresentados como um trunfo e podem mudar temporariamente a narrativa do conflito, segundo a CNN Internacional.

epa12127800 A handout picture made available by the press service of the 93rd Separate Mechanised Brigade of Ukrainian Armed Forces on 23 May 2025 shows a serviceman of the 93rd Kholodnyi Yar Separate Mechanised Brigade handling a drone on a frontline on the Druzhkivka district of Donetsk region, Ukraine, 22 May 2025 amid the ongoing Russian invasion. Russian troops entered Ukrainian territory on 24 February 2022, starting a conflict that has provoked destruction and a humanitarian crisis.  EPA/Press service of the 93rd Separate Mechanized Brigade HANDOUT  HANDOUT EDITORIAL USE ONLY/NO SALES

▲ Ucrânia ganha força com operações criativas

Press service of the 93rd Separate Mechanized Brigade HANDOUT/EPA

Os efeitos da mudança de narrativa? Dar uma posição mais vantajosa à Ucrânia na mesa das negociações. Os europeus (e a administração Biden) coincidiram durante três anos nesta ideia: a guerra terminaria como uma solução diplomática, mas só quando Kiev estivesse numa posição de força. Para Donald Trump, os ucranianos nunca tiveram qualquer vantagem face aos russos — nem deverão ter no futuro; ora, a Ucrânia está a tentar mostrar o contrário e espera sensibilizar a presidência norte-americana de que o conflito não está perdido.

Rússia deverá avançar com nova ofensiva

A Rússia vai retaliando contra os ataques de Kiev dentro do seu território. Com drones e mísseis, o país tem atacado praticamente todos os dias vários alvos dentro de território ucraniano. No horizonte, ainda assim, existe outra ambição: levar a cabo uma poderosa ofensiva no nordeste da Ucrânia este verão. Moscovo tem mobilizado milhares de homens para a fronteira, junto de Sumy.

O Presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, já denunciou que a Rússia mobilizou 50 mil homens para perto da fronteira. Moscovo pretende levar a cabo uma ofensiva de larga escala, de modo a criar uma zona tampão de cerca de dez quilómetros — e evitar novas incursões a território russo, como aconteceu em agosto do ano passado, em Kursk. Nos últimos dias, as tropas russas já fizeram alguns avanços.

Na província de Kharkiv, praticamente controlada na íntegra pela Ucrânia, a Rússia também está a mobilizar homens para perto da localidade de Kupiansk, que já controla. No total, Moscovo terá cerca de 125 mil homens em prontidão de combate entre Kharkiv e Sumy, ao mesmo tempo que vai fazendo avanços lentos nas regiões do Donbass, Kherson e Zaporiíjia.

De acordo com a análise do jornal Telegraph, a Rússia não terá nenhum interesse territorial em Kharkiv e Sumy, para além de criar essa zona tampão para proteger o seu território de novas incursões. Em vez de iniciar uma guerra para controlar partes da Ucrânia, Putin terá a intenção de obrigar a Ucrânia a dividir forças — e abrir novas frentes. Com combates em Sumy e em Kharkiv, as tropas russas ambicionam esgotar as tropas ucranianas e obrigar a que saiam das províncias de Donetsk, Lugansk, Kherson e Zaporíjia, regiões que estão de facto anexadas pela Rússia desde setembro de 2022, após referendos contestados à luz do do direito internacional.

Contrariamente a Sumy e Kharkiv, o Kremlin nunca escondeu que pretende conquistar aquelas quatro províncias e que não está disposto a abrir mão das mesmas. Naquelas regiões, as tropas russas vão avançando no teatro das operações, mas de forma lenta e à custa da vida de vários homens. De acordo com o relatório desta sexta-feira do think tank norte-americano Instituto para a Guerra, as baixas diárias russas são, em média, 1.140. Em termos concretos, Moscovo “sofre desproporcionalmente grandes baixas para ganhos territoriais marginais”.

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▲ Tropas russas sofrem inúmeras perdas diárias

AFP via Getty Images

Pela conquista de um quilómetro quadrado de território ucraniano, a Rússia sofre 167 baixas, de acordo com as estimativas ucranianas. Ora, tendo em conta estes dados, fica a dúvida se as tropas leais ao Kremlin têm capacidade para abrir novas frentes e se vão ser bem-sucedidas. No terreno, na província de Sumy, as tropas russas avançaram, mas de forma tímida: ainda assim, controlaram já quatro aldeias.

No entender do Instituto para a Guerra, ainda assim, esse “elevado número de baixas e perdas materiais” em troca apenas de “ganhos marginais territoriais” no teatro de operações são “insustentáveis a médio prazo”. “É improvável que resulte em ganhos rápidos e significativos”, destaca o think-tank norte-americano. Dito isto, será então difícil para a Rússia alargar com êxito a ofensiva para outras províncias ucranianas. 

Em declarações à Deutsche Welle, o especialista militar Mykhailo Samus clarificou que a Rússia, com esta ofensiva a mais duas regiões, está à procura de obter “posições vantajosas na fronteira, onde poderá obter controlo operacional”. Porém, Moscovo não tem,  neste momento, capacidade para lançar uma ofensiva de larga escala na região de Sumy, refere a mesma fonte. E sublinha que não faz sentido estrategicamente, uma vez que Moscovo não ganharia qualquer vantagem tática.

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▲ Destroços após um ataque com drones em Sumy

Global Images Ukraine via Getty

Ao longo de mais de três anos de guerra, as tropas ucranianas aperfeiçoaram a forma como lidam com um exército maior. E vão tentar reagir a uma possível ofensiva de larga escala. Seja em Sumy, seja em Kharkiv, Mykhailo Samus não antevê grande sucesso para os militares russos, recordando o que se passou no ano passado — quando a Rússia já tentou controlar Kharkiv. “Há um ano tentaram atacar toda a região de Kharkiv. Penetraram seis ou sete quilómetros perto da cidade de Vovchansk. Um ano depois, podemos ver que [os avanços] pararam por ali.”

Seja ou não bem-sucedida, esta ofensiva manda claramente um sinal: que a Rússia não está interessada num cessar-fogo a curto prazo. Apesar de se sentar à mesa das negociações com a Ucrânia, como ficou demonstrado esta semana em Istambul, Moscovo deve manter-se ao ataque e não deverá parar até alcançar os objetivos a que se propôs no campo de batalha. Em simultâneo, ao estarem na ofensiva, os russos — mesmo que os avanços sejam lentos e marginais — ganham força na mesa das negociações.

“A Rússia está habituada à ideia de combater e negociar ao mesmo tempo“, analisou ao New York Times Samuel Chaparah, cientista político no think tank norte-americano RAND. O especialista considera, ainda assim, que a liderança russa não deverá aceitar o cessar-fogo de 30 dias proposto pelos Estados Unidos e pelos europeus. Só vai cessar as hostilidades quando perceber que vai obter os maiores ganhos possíveis em território ucraniano.

"A Rússia está habituada à ideia de combater e negociar ao mesmo tempo."
Samuel Chaparah, cientista político no think tank norte-americano RAND

A Rússia tem mais armas e mais homens do que a Ucrânia. Aproveitando-se dessa vantagem numérica, deverá continuar a guerra, ainda que isso suponha inúmeras baixas. O país está totalmente mobilizado para a economia de guerra e tem-se apoiado em aliados, como a Coreia do Norte ou mesmo a China, para sustentar o seu esforço de guerra. Em sentido inverso, a Ucrânia mantém o apoio da Europa (e, em menor escala, dos Estados Unidos) — mas a mobilização de tropas continua a ser o calcanhar de Aquiles de Kiev e dificilmente vai conseguir superar a Rússia neste quesito.

Outrora uma bandeira da campanha para as presidenciais de Donald Trump, um cessar-fogo parece estar muito longe. Com menos homens, a Ucrânia deve continuar a desafiar a Rússia debaixo do seu nariz com métodos engenhosos e criativos — que demonstrarão as falhas de segurança russas. Por sua vez, Moscovo deverá continuar a insistir na mesma estratégia: manter a ofensiva numa guerra de atrito, que pode ganhar novos contornos se tiver sucesso em Sumy e Kharkiv.

O Presidente norte-americano já parece ter assumido que as duas partes em conflito vão manter esta estratégia. Em relação à Ucrânia, Donald Trump conta com a oposição total dos seus aliados europeus em que o país seja obrigado a ceder o seu território; sobre a Rússia, o chefe de Estado está reticente em aplicar novas sanções. Sendo assim, as “duas crianças” vão continuar a “lutar” — e as baixas militares e a destruição não devem parar tão cedo.

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