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IGOR MARTINS / OBSERVADOR

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Dupla Gouveia e Rio. Almirante recruta ex-líder partidário que tem sonho antigo para Belém

Gouveia e Melo apresentou de surpresa Rio como mandatário nacional. Ambos convergem na radiografia que fazem ao país, na visão que têm e nas críticas que fazem a Marcelo e Mendes.

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Rui Rio chegou a ter um plano sério, em 2015, para avançar para Belém. Francisco Pinto Balsemão puxou por ele, Passos Coelho chegou a ser abordado, mas Marcelo impôs-se e o portuense recuou. O sonho é agora, parcialmente, recuperado. Num momento quase teatral, Gouveia e Melo subiu ao palco da Alfândega do Porto para fazer um anúncio: “O mandatário nacional vai entrar nesta sala”. Estava escondido. Pausa. Suspense. Ação. Era Rui Rio, que chegava entre aplausos e surpresa geral. De seguida, Gouveia e Melo saiu de cena: “O palco é seu”. E foi.

O antigo líder do PSD quis demonstrar que não estava ali apenas para dar o nome, mas como uma espécie de conselheiro-in-chief. Rui Rio começou por explicar porque decidiu largar as pantufas e ir à luta. Diz que não era mesmo sua “intenção voltar aos palcos da política nacional”, mas que ficar a assistir ao que se passa no mundo e no País sem agir seria de uma “passividade cúmplice.”

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Rui Rio explicou depois que está mesmo envolvido no projeto e agradeceu a Gouveia e Melo por o deixar “contribuir” para a “construção de um Portugal melhor”. Em 23 minutos — mais tempo do que qualquer discurso como candidato —, o antigo líder do PSD fez uma radiografia dos males do regime (e do País em geral), na linha da que tem feito o almirante.

O antigo autarca do Porto — que tem reduzido a sua intervenção pública a pouco mais que comentários de astronomia no X e a sua intervenção cívica ao Grupo dos 50 que pretende reformar a Justiça — não perdeu a oportunidade para impor a reforma da Justiça como uma bandeira da candidatura de Gouveia e Melo.

Rui Rio disse que o “País não pode continuar a adiar uma profunda reforma da Justiça.” Voltando a atacar violentamente o Ministério Público (e a Comunicação Social), num tom e em territórios que Gouveia e Melo antes nunca tinha pisado: “Num verdadeiro Estado de Direito Democrático não pode haver julgamentos populares por inadmissíveis quebras sistemáticas do segredo de justiça. Os julgamentos fazem-se nos tribunais e não nas páginas dos jornais.”

Os ataques à dupla Mendes e Marcelo (da dupla Gouveia e Rio)

É público que Rui Rio tem Marques Mendes um dos ódios de estimação — o que é recíproco. Junta-se, aliás, ao grupo de outros históricos anti-Mendes, como Isaltino Morais, também apoiante de todas as horas do almirante. Numa crítica velada a Marques Mendes (e Marcelo), Rui Rio defendeu que Portugal “precisa de um Presidente da República que não se perca comentário avulso e conjuntural, em detrimento do que verdadeiramente nobre e estruturante.” E, indo outra vez às canelas da dupla Mendes-Marcelo, acrescentou que Gouveia e Melo é capaz de ser um Presidente que “aproveite a comunicação social para falar com os portugueses, mas que não caia na tentação de fazer dela um modo de vida.”

Embalado pelas críticas que Rio fez minutos antes — e puxando por críticas que são feitas de forma recorrente a Marcelo e Mendes — Gouveia e Melo prometeu no seu discurso “ser um presidente imune às intrigas partidárias, à maledicência, à prática de ‘bota-abaixo’ e da crítica e comentário inconsequente.” Mira apontada, lá está, ao presidente-comentador ou ao candidato-a-Presidente-comentador.

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Os políticos acima dos políticos

Gouveia e Melo tem-se afastado do partidos como se fossem uma espécie de lepra. Ainda assim foi buscar para mandatário nacional não uma pessoa da sociedade civil, mas um homem que foi da JSD, deputado, secretário-geral do PSD, vice-presidente do PSD, autarca durante doze anos e presidente do PSD durante mais quatro.

Mas Rio não é um político como os outros. Ou, pelo menos, não se apresenta assim. Ele que como líder do PSD pediu um banho de ética, destacou que “a ética e os princípios são hoje muitas vezes substituídos pela corrupção, pelo amiguismo e pelo tráfico de influências, tem vindo a generalizar-se na nossa sociedade e tem também contribuído de forma preocupante para o referido desencanto.”

Já o almirante — acabado de ser legitimado por um antigo líder do partido do Governo e atualmente maior partido português — atirou-se aos políticos e aos que, no espaço público, criticam a ideia de um militar na Presidência. Gouveia e Melo disse ser necessário que o país se liberte de “velhos do Restelo” e de “fantasmas do passado”. O almirante quis ainda aproveitar a “oportunidade” para chamar a atenção para “uma reação corporativa e profundamente antidemocrática, que tenho vindo a assistir nos últimos tempos.”

Essa ideia, denuncia, é “uma reação de uma determinada franja da sociedade instalada. Se por um lado são arautos da democracia e apelam à resistência e ao dever cívico dos cidadãos para participarem ativamente na política e na vida da comunidade; por outro atacam ferozmente qualquer cidadão que atente imiscuir-se na definição política que eles próprios criaram.” E acrescenta: “A política não é um clube fechado onde só se entra por convite, muito menos poderá estar refém de qualquer casta. A democracia não é isso!”

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Os centristas com pensamento convergente

Rui Rio tem, como tento demonstrar, vários traços (até de personalidade) em comum com o almirante. Também ele resistia a classificar-se de direita e insistia ser do centro, tendo sempre como referência o PS e o seu PSD. Neste particular fez questão de citar duas frases de duas figuras que, “em face da oportunidade que estas eleições presidenciais podem representar, nos devem mobilizar e encorajar”. Além da primeira pessoa do plural, para criar a simbiose com o almirante, as citações que se seguiram foram do fundador do PSD, Francisco Sá Carneiro, e do fundador do PS, Mário Soares. Reivindicando para o “nós“, que acabara de criar, o “centro”.

Rui Rio admitiu mesmo que aceitou o convite porque viu “nesta candidatura uma convergência de pensamento, relativamente à situação do Pais e às ações concretas que urge implementar.” Além disso, continuou, sente que “o candidato tem a visão correta, a capacidade necessária e a determinação para continuar a servir Portugal.” E, num rol de elogios, disse ainda ver nele “a sobriedade, a coragem e a frontalidade, que quero que caracterizem o nosso Presidente da República.”

O antigo líder do PSD vê Gouveia e Melo como o melhor intérprete para a função de Presidente da República. E não tem pudor em pedir maior influência presidencial. Apesar de destacar que, como disse o almirante na apresentação de Lisboa, “o Presidente não governa”, Rio lembra que o chefe de Estado tem “uma representatividade democrática reforçada, que lhe confere uma força e um poder que podem influenciar decisivamente o curso da vida nacional”.

Rio projeta em Gouveia e Melo o Presidente que gostaria de ser, caso algum dia tivesse avançado com uma candidatura a Belém. Segundo as palavras do próprio, o almirante tem a capacidade de ser um chefe de Estado “independente dos interesses corporativos dominantes e capaz de incentivar as ruturas indispensáveis à reposição da qualidade da nossa democracia e ao esvaziamento do populismo que degrada”. Ventura, ainda que ao de leve, também levaria aqui a sua pancadinha de Rio.

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