Depois de 77 dias de investigação e de várias horas de depoimentos naquele que é um dos períodos mais conturbados da política norte-americana dos últimos tempos, a Câmara do Representantes votou pela acusação de Donald Trump de dois crimes: abuso de poder e obstrução ao funcionamento do Congresso.

Esta quarta-feira, entre as 18h30 e 19h30 de Washington D.C. (23h30 e 00h30 de Lisboa), a Câmara dos Representantes fez a votação final desta importante fase do impeachment. É apenas a terceira vez que acontece desde a declaração da independência dos EUA, em 1776.

Poderá ser este o princípio do fim de Donald Trump? Não tão depressa, como se poderá perceber neste guia para o impeachment.

Primeiro, a Câmara dos Representantes. Depois, o Senado

Como é que se chega a este 18 de dezembro de 2019, em que a Câmara dos Representantes vota os dois artigos de impeachment (vulgo, acusações) que pendem sobre Donald Trump? Resposta: depois de vários passos formais e de uma investigação de 77 dias. Para recapitular o que se passou nesses dias, leia o próximo parágrafo — e se quiser saber já o que pode acontecer após a votação desta quarta-feira, avance para o ponto seguinte.

O primeiro passo foi dado pela speaker da Câmara dos Representantes, a democrata Nancy Pelosi, a 24 de setembro. Foi nesse dia que a democrata deu luz verde para começarem os inquéritos (que incluíram entrevistas à porta fechada com as testemunhas-chave que aceitaram falar), nos quais os democratas procuraram reunir as provas necessárias. A 31 de outubro, nova formalidade: os democratas, em maioria na Câmara dos Representantes, votaram a favor das regras processuais a aplicar neste impeachment. Depois, entre 13 e 21 de novembro, decorreram os testemunhos públicos, que renderam os momentos mais mediáticos de todo este processo. Foi com base em toda essa investigação que o Comité de Serviços Secretos da Câmara dos Representantes elaborou o seu relatório final, divulgando-o a 3 de dezembro. O passo seguinte foi dado pelo Comité Judiciário, que, após analisar o que resultou até então da investigação, propôs a votação de dois artigos de impeachment contra Donald Trump: abuso de poder e obstrução do Congresso. São esses dois artigos que vão ser votados numa sessão plenária da Câmara dos Representantes.

Qual foi o resultado da votação na Câmara dos Representantes?

A maioria da Câmara dos Representantes votou a favor da culpabilidade de Donald Trump nos dois artigos: o artigo referente à primeira acusação — abuso de poder — foi aprovado com 230 votos a favor e 197 contra; e o segundo artigo, referente à acusação de obstrução do funcionamento do Congresso, foi aprovado com 229 votos a favor e 198 contra. Esta votação foi praticamente a reflexão das duas barricadas partidárias que ali estão montadas, com os democratas em maioria.

Dos 232 democratas ali presentes, só houve três exceções à enorme maioria que votou a favor dos artigos de impeachment: o congressista Jared Golden, do Maine, votou a favor da acusação de abuso de poder e contra a obstrução ao congresso e Jeff Van Drew, de Nova Jérsia, e Collin C. Petterson, do Minesota, votaram contra os dois artigos.

Chegou a pensar-se que Ron Kind, democrata do Wisconsin, faria o mesmo, mas acabou por votar a favor das duas acusações. Aos votos favoráveis dos democratas juntou-se ainda o do independente, que deixou o partido republicano no verão, Justin Amash.

Já do lado dos republicanos, nenhum dos 197 congressistas votou a favor da acusação de Donald Trump.

Assim sendo, o resultado ficou em de 230 votos a favor e 197 contra a condenação de abuso de poder; e de 229 votos a favor e 198 contra na condenação de obstrução de justiça. Ou seja, o suficiente para Donald Trump ser destituído pela Câmara de Representantes, juntando-se, assim, à curta de lista de presidentes que já o foram em tempos idos: Andrew Johnson (1868) e Bill Clinton (1998-99).

Se for destituído na Câmara dos Representantes, Trump é obrigado a abdicar?

Não. Agora que foi votada a destituição de Donald Trump pela Câmara dos Representantes, esta quarta-feira, o processo passa para a câmara alta do Congresso, o Senado. Ali, ao contrário da Câmara dos Representantes, os republicanos estão em maioria e os democratas são a minoria, fazendo com que os resultados possam ser mais favoráveis a Donald Trump.

Como vai decorrer o processo de impeachment no Senado?

Resumidamente, como um julgamento.

Primeiro, a Câmara dos Representantes terá de designar um conjunto de congressistas que agirão como procuradores no julgamento no Senado.

Cumprida essa etapa, o presidente do Supremo Tribunal, o juiz John Roberts Jr., desempenhará a tarefa formal de fazer o juramento de todos os senadores. Depois desse ato solene, os senadores tomam decisões mais práticas, definindo as regras processuais a serem adotadas durante o julgamento no Senado. Entre as regras a definir está, por exemplo, a duração dos depoimentos.

Segue-se, então, um pedido para que o Presidente se apresente no Senado para responder às acusações contra si formadas. O Presidente pode recusar (o que equivale a uma declaração de inocência da sua parte) ou então pode estar presente.

Finalmente, o julgamento.

O funcionamento pode depender fortemente das regras anteriormente estabelecidas. Porém, de acordo com o The New York Times, logo ao início, o caso pode ser arquivado, se assim for solicitado por qualquer um dos senadores. Para tal, bastaria uma maioria naquela câmara, que é composta por 100 parlamentares.

Se o julgamento tiver seguimento, caberá aos procuradores designados pela Câmara dos Representantes fazer a acusação e a Casa Branca procurará defender o Presidente com advogados de defesa. Cada um dos lados fará as suas exposições iniciais, seguindo-se questões colocadas pelos senadores. É nesta fase que tanto a defesa como a acusação poderão chamar testemunhas — existindo a possibilidade de o Senado colocar um limite a essas convocatórias.

Seguem-se as alegações finais, a deliberação dos procuradores e, enfim, a votação.

O que já se sabe de um possível votação no Senado?

Em suma, que Donald Trump pode, para já, respirar de alívio.

Para ser condenado no Senado e efetivamente afastado do poder, Donald Trump teria de ser considerado culpado por dois terços do Senado — isto é, 67 deputados.

O facto é que, de momento, não há condições políticas para tal desfecho.

Neste momento, os 45 democratas e os dois independentes no Senado (entre os quais estão candidatos presidenciais, como Elizabeth Warren e Joe Biden) já anunciaram que são a favor do impeachment de Donald Trump. Acima desses 47 votos condenatórios estarão, à partida, os votos dos 53 senadores republicanos que, até agora, afirmaram que vão votar a favor da absolvição de Donald Trump.

As personagens do impeachment

Nem a Casa Branca teve tanto destaque mediático como tiveram duas salas da Câmara dos Representantes: o Comité dos Serviços de Informação. Foi por ali que passaram todas as testemunhas que aceitaram depor nas fases iniciais do processo de impeachment de Donald Trump — e mesmo alguns que por lá não passaram tiveram os seus nomes a serem repetidos em várias ocasiões.

Os presentes

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Sondland, o ex-amigo

Foi o testemunho mais surpreendente de todo o processo de impeachment — e, também por isso, aquele que mais agitou as águas contra Donald Trump. Gordon Sondland foi o homem escolhido a dedo pelo Presidente dos EUA para representar o país na União Europeia — um cargo que lhe foi atribuído depois de ele próprio, um milionário do ramo hoteleiro, ter feito uma contribuição de 1 milhão de dólares para o comité de organização da tomada de posse de Donald Trump.

Depois de, à porta fechada, ter feito um relato dos factos que em nada comprometia Trump, Sondland mudou completamente o texto e, no segundo depoimento, negou qualquer tipo de defesa do Presidente — com a agravante de este segundo testemunho ter sido transmitido em direto nas televisões.

De acordo com o relato de Gordon Sondland, ele próprio recebia instruções do advogado pessoal de Donald Trump, Rudy Giuliani, para saber como lidar com a Ucrânia. Além dele próprio, na qualidade de embaixador dos EUA, também recebiam ordens outros dois homens: o ex-secretário da Energia, Rick Perry, e o então representante especial dos EUA para as negociações de paz na Ucrânia, Kurt Volker. Todos juntos, formavam um grupo que se autodenominava “three amigos”, do qual Gordon Sondland disse ser “orgulhosamente sócio”.

E que ordens eram essas? De acordo com o segundo testemunho de Gordon Sondland, “o senhor Giuliani exigia que a Ucrânia fizesse uma declaração pública a anunciar as investigações sobre o servidor do Partido Democrata em 2016 e sobre a Burisma”. A ligação para Donald Trump ficou feita pelo próprio Gordon Sondland. “O senhor Giuliani estava a expressar a vontade do Presidente dos EUA e nós sabíamos que aquelas investigações eram importantes para o Presidente.”

“Houve um quid pro quo?”, perguntou o próprio Gordon Sondland, no seu segundo depoimento. “A resposta é sim.”

Neste “quid pro quo”, expressão em latim que marca este impeachment e que significa algo como “troca por troca”, Gordon Sondland refere que apenas presumiu que, em troca daquelas investigações na Ucrânia, os EUA concederiam ao Presidente da Ucrânia uma reunião com Donald Trump na Casa Branca, tal como o desbloqueio do pacote de assistência militar. Em caso de dúvida, atirou as culpas para cima de Rudy Giuliani. “Eu não disse que a Ucrânia tinha de fazer as investigações, acredito que o que eu disse foi que o senhor Giuliani disse que assim era”, sublinhou. “[Mas] ninguém me disse diretamente que a assistência militar estava ligada a algo, fui eu que presumi que estava.”

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Yovanovitch, “a mulher” que trazia “más notícias”

Marie Yovanovitch, também conhecida como Masha Yovanovitch, foi embaixadora dos EUA na Ucrânia até 20 de maio de 2019 — e é precisamente o facto de ter deixado de sê-lo, e as circunstâncias em que a sua saída se deu, que torna o seu testemunho importante para a acusação dos democratas contra Donald Trump.

O seu nome é um dos poucos que estão na célebre chamada entre Donald Trump e Volodymyr Zelensky, ocorrida a 25 de julho. Ali, o Presidente dos EUA referiu-se à diplomata sem poupar nas críticas: “A antiga embaixadora dos EUA, a mulher, só trazia más notícias e as pessoas com quem ela se dava na Ucrânia só traziam más notícias”. Mais à frente, depois de Volodymyr Zelensky ter dito que concordava com Donald Trump, o Presidente dos EUA arrumou o assunto Marie Yovanovitch ao dizer: “Bom, ela vai passar por algumas coisas”.

No seu depoimento na Câmara dos Representantes, Marie Yovanovitch recordou a sua reação quando leu aquelas palavras pela primeira vez, quando a transcrição daquela chamada foi divulgada pela Casa Branca, a 26 de setembro. “Fiquei chocada e devastada por figurar numa chamada entre dois chefes de Estado de tal maneira”, diz. “Foi um momento terrível. Uma pessoa que estava comigo quando eu li a transcrição disse que a minha cara ficou sem cor.”

Não foi muito diferente a sua reação quando soube que, enquanto testemunhava, Donald Trump escrevia no Twitter sobre ela. “Todos os sítios para onde Marie Yovanovitch foi ficaram mal”, escreveu o Presidente. Primeiro, Marie Yvanovitch. Depois, respondeu que aquele tipo de mensagem, enquanto decorria o seu testemunho, era “intimidante”.

Marie Yovanovitch queixa-se de não ter recebido explicações quanto ao seu afastamento. Durante meses, numa altura em que pouco mais do que conservador Fox News dava tempo de antena a Rudy Giuliani para que falasse das alegadas ilegalidades cometidas pelo filho de Joe Biden na Ucrânia, o ex-mayor de Nova Iorque fez várias afirmações críticas daquela embaixadora. Todas apontavam para uma ideia: a de que Marie Yvanovitch, nomeada para aquela posição pelo ex-Presidente Barack Obama, estaria a fazer vários esforços para impedir uma investigação que prejudicasse Joe Biden.

A ex-embaixadora recusou sempre essas acusações, recordando que desempenhou funções sob presidências tanto democratas como de republicanos. E acusou a atual administração dos EUA de ter posto em causa a política externa para a Ucrânia, a pretexto de motivos questionáveis: “A nossa política para a Ucrânia foi atirada para o meio da confusão e os interesses obscuros deste mundo ficaram a saber que é preciso pouco para afastar uma embaixadora americana que não lhes dá o que eles querem”.

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Adam Schiff, o dono da cave

Hoje em dia, para perceber se um político norte-americano está ou não na linha da frente de Washington D.C., basta fazer uma pesquisa no Twitter de Donald Trump e ver se é contemplado nos posts do Presidente. E a prova dos nove é ver se esse político tem alguma alcunha. No caso de Adam Schiff, as menções não só abundam como também há alcunha: Shifty Schiff, traduzível para algo como “Schiff Troca Tintas”.

Adam Schiff, congressista eleito pelo 28.º círculo eleitoral da Califórnia, é o presidente do Comité de Serviços Secretos da Câmara dos Representantes. Ganhou importância e exposição durante o processo de impeachment contra Donald Trump já que foi no seu comité que se desenvolveu toda a investigação — e com Schiff a fazer muitas vezes as despesas da oposição ao Presidente.

Insistente nas suas perguntas, com um ouvido treinado para o soundbyte, Adam Schiff não poupou no tempo necessário até conseguir que muitas testemunhas dissessem as palavras que ele mais queria ouvir — muitas vezes colocando perguntas apenas para que elas fossem repetidas na afirmativa pelos inquiridos.

No foco das críticas apontadas a Adam Schiff está uma entrevista que fez à porta fechada com o ex-representante especial dos EUA para as negociações de paz na Ucrânia, Kurt Volker. Perante a recusa daquele diplomata em dizer que tinha havido um quid pro quo nos contactos entre os EUA e a Ucrânia, Adam Schiff acabou por dizer: “Embaixador, está a fazer disto uma coisa muito mais complicada do que é preciso”. Este mesmo episódio foi ridicularizado por Donald Trump e por vários republicanos, que têm dito que Schiff se comporta como um “blogger” e que trata o comité que dirige como se fosse a sua “garagem”.

Ao fim de 77 dias de investigação, Adam Schiff disse que “a má conduta do Presidente é tão simples e terrível como isto: o Presidente Trump pediu a uma nação estrangeira, a Ucrânia, que anunciasse publicamente investigações contra o seu adversário e também sobre uma conspiração sem quaisquer bases promovida pela Rússia, de maneira a ajudar a sua campanha para reeleição”.

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Pelosi, a luz verde do impeachment

No fundo, estava tudo à espera da luz verde de Nancy Pelosi. A speaker da Câmara dos Representantes, e que ali lidera a maioria do Partido Democrata, fazia parte dos opositores a Donald Trump mais reticentes quanto à via do impeachment.

Ao longo de 2019, Pelosi defendeu frente a congressistas democratas mais radicais e também recém-eleitos para a Câmara dos Representantes, como Alexandria Ocasio-Cortez ou Ilhan Omar, que ainda não tinha chegado a ocasião para começar um processo de impeachment contra Trump. “Eu não quero andar a correr atrás do tempo. Vamos ser sofisticados em relação a isto, pode ser?”, disse numa conferência de imprensa. “Vamos proceder quando tivermos aquilo que precisamos para proceder e nem um dia antes disso.”

Esta conferência de imprensa decorreu a 26 de julho. Dois dias antes, o ex-procurador especial Robert Mueller falou ao Congresso sobre o caso de alegado conluio entre Donald Trump e o Kremlin na campanha de 2016 — algo que deu, definitivamente, como não provado, abrindo, ainda assim, a possibilidade de o Presidente ter obstruído o funcionamento da justiça naquele caso. Esse era o contexto por todos conhecido, mas poucos sabiam ainda que, cerca de 24 horas antes da conferência de imprensa de Nancy Pelosi, Trump tinha feito a chamada com o Presidente da Ucrânia que está no centro do atual processo de impeachment.

E foi a Ucrânia que mudou tudo. A 24 de setembro, dois dias antes de ser conhecido o relatório do denunciante da Casa Branca que deu origem a este caso, Pelosi admitiu que o dia tinha chegado. “As ações do Presidente até à data violaram gravemente a Constituição”, disse. E rematou com uma das frases que passaram a fazer, desde então, parte do seu léxico: “Ninguém está acima da lei”.

A partir desse momento, o impeachment na Câmara dos Representantes tornou-se numa mera formalidade, que decorreu entre as habituais linhas marcadas pelas trincheiras dos dois partidos. No Partido Democrata, em maioria naquela câmara baixa, a esmagadora maioria de congressistas reticentes quanto a um impeachment seguiram o exemplo de Nancy Pelosi e passaram a apoiar esse processo. No Partido Republicano, os congressistas dividiram-se entre o silêncio e o apoio inabalável do Presidente — postura que prometem manter os republicanos da câmara alta, o Senado, onde estão em maioria.

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Devin Nunes, o amigo português de Trump

Num processo que decorreu sem que nenhum soldado saísse da sua trincheira, foi ao lusodescendente Devin Nunes que coube coordenar a defesa do Presidente na Câmara dos Representantes. Ao longo dos 77 dias da investigação, este congressista da Califórnia procurou provar que as motivações por detrás de todo este processo são políticas e não jurídicas.

Porém, o facto de as testemunhas arroladas terem sido, sobretudo, pessoas críticas à administração de Donald Trump e cujos relatos comprometiam o Presidente, levou a que Devin Nunes poupasse nas suas perguntas àqueles que foram chamados a depor e aproveitasse ao máximo as declarações de abertura e encerramento de cada sessão.

“A queixa do denunciante foi um mero pretexto para os adversários políticos de Donald Trump fazerem o que andam a tentar fazer desde que ele foi eleito: atirar o Presidente para fora do poder”, disse Devin Nunes, numa dessas sessões.

Para o congressista republicano, esta administração tem sido alvo de uma sucessão “incrível de ataques”, culminando no atual processo, que diz ser um “julgamento-espetáculo”. “É o resultado de três anos de operações políticas e truques”, disse. “E, como qualquer julgamento-espetáculo, o veredito foi decidido ainda antes de o julgamento sequer ter começado. No final de contas, depois de terem denunciado ao longo de anos que o Presidente era um agente da Rússia e uma ameaça à democracia, como é que os democratas não iriam destituí-lo?”, lançou o republicano.

Devin Nunes acabou por ser lançado para o turbilhão desta investigação, quando o advogado de Lev Parnas (um dos homens que ajudou Rudy Giuliani a fazer a sua investigação independente, e na qualidade de advogado pessoal de Donald Trump, na Ucrânia) disse que o congressista lusodescendente se tinha encontrado, em dezembro de 2018, com o ex-procurador da Ucrânia para falar sobre os Biden. Nunes negou a acusação, que nunca foi acompanhada de provas.

Porém, durante a investigação, ficou provado que Devin Nunes manteve vários contactos telefónicos, em abril, com Rudy Giuliani e com o próprio Lev Parnas, ficando no ar a suspeita de que também ele terá ajudado nos esforços de tentar conseguir junto da Ucrânia informação que pudesse comprometer Joe Biden e sua campanha.

Os ausentes

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O denunciante

Foi com ele que tudo começou — mas sobre ele não se sabe praticamente nada.

De acordo com o The New York Times, trata-se de um agente da CIA, do sexo masculino, especializado na Ucrânia e que, por ter trabalhado temporariamente na Casa Branca, ouviu a chamada entre Donald Trump e Volodymyr Zelensky e, a partir dela, apresentou uma queixa contra o Presidente. A seguir a estes dados terem sido publicados por aquele jornal — o que lhe valeu várias críticas e obrigou a uma defesa dessa opção por parte do diretor executivo, Dean Baquet –, a especulação em torno da identidade do denunciante continuou.

“Toda a gente em Washington sabe quem ele é, já agora”, disse Donald Trump, numa entrevista no The Dan Bongino Show, da Fox News. “Toda a gente sabe quem é o denunciante e o nome tem de ser revelado.”

Menos hesitantes do que Donald Trump, o facto é que alguns destacados republicanos têm utilizado as redes sociais e também os meios de comunicação social conservadores dos EUA para avançar um nome em específico: Eric Ciaramella, ex-diretor do Conselho de Segurança Nacional para a Ucrânia. A primeira vez que o seu nome surgiu foi no site Real Clear Investigations e desde aí tem sido repetido por meios como o Breitbart News e o Washington Examiner. Além disso, políticos republicanos como o senador Rand Paul, o congressista Dan Bishop e o filho mais velho do Presidente, Donald Trump Jr., também já o fizeram. Muitos deles deram atenção a uma fotografia em que Eric Ciaramella aparece a apertar a mão a Barack Obama, acusando-o de ter ligações profundas aos democratas.

Os advogados do denunciante recusam responder às notícias que apontam para qualquer nome. “Não vamos confirmar nem negar qualquer nome que seja publicado ou promovido pelos apoiantes do Presidente”, disseram, em novembro. “Ao ser revelado qualquer nome, está a ser posta em causa a integridade do sistema de denúncias, o que vai dissuadir futuros denunciantes.”

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Giuliani, o ponta-de-lança de Trump

Se houve algum nome tão ou mais repetido do que o de Donald Trump durante as sessões que marcaram até agora o processo de impeachment, esse nome é o de Rudy Giuliani. O ex-mayor de Nova Iorque e antigo candidato às primárias republicanas de 2008 ganhou um papel na campanha de Donald Trump numa altura em que este era ainda um intocável para o establishment republicano. Foi um dos seus principais conselheiros e defensores durante a campanha e integrou a equipa de transição já depois da vitória eleitoral — mas, para sua desilusão, acabou por não ser recrutado para o cargo de Secretário de Estado, como cobiçava.

Porém, mais tarde, em abril de 2018, quando Donald Trump começava a ser cercado com vários relatos do alegado conluio com o Kremlin, lembrou-se do seu amigo Rudy Giuliani e contratou-o para ser seu advogado pessoal, sem vínculo com a Casa Branca. A partir daí, Rudy Giuliani passou a ser uma presença assídua nos canais de notícias por cabo nos EUA, defendendo sem hesitação o seu cliente. E foi também nesses canais, em particular na Fox News, que Rudy Giuliani começou a falar de Joe Biden, do seu filho Hunter, e das alegadas ilegalidades em que este teria estado envolvido quando fez parte do conselho de administração da energética Burisma.

No fundo, Rudy Giuliani agiu como ponta-de-lança de Donald Trump na Ucrânia, dirigindo vários esforços para chegar ao Presidente da Ucrânia e também ao ex-procurador ucraniano, Viktor Shokin, homem cuja demissão foi exigida por Joe Biden em 2016, à altura vice-Presidente dos EUA, perante as várias acusações de corrupção que pendiam sobre ele. Perseguindo as mesmas pistas que à altura já tinham sido descartadas, Rudy Giuliani conduziu vários esforços e coordenou várias pessoas da administração de Donald Trump e da diplomacia norte-americana para reunir provas que substanciem a acusação de Joe Biden pediu a demissão de Viktor Shokin apenas para proteger o seu filho.

Rudy Giuliani, que nos primeiros dias a seguir a ter sido conhecida a queixa do denunciante se desdobrou nas habituais entrevistas em prime-time nos canais de informação, tem guardado silêncio ao longo do processo do impeachment. Aos vários pedidos para testemunhar na Câmara dos Representantes, tal como para divulgar documentação relevante para o caso, respondeu sempre negativamente. Porém, admite vir a testemunhar no Senado, após ter sido convidado pelo republicano Lindsey Graham — mas numa sessão externa ao processo de impeachment.

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Bolton, o falcão que viu o “negócio de droga”

Quis a ironia do destino que uma das peças mais ansiadas pelos democratas para montar o puzzle do impeachment contra Donald Trump fosse John Bolton: o “falcão” neoconservador que arquitetou a guerra do Iraque de 2003 e que o atual Presidente chamou para ser seu conselheiro de Segurança Nacional numa altura em que a tensão com o Irão e com a Coreia do Norte atingia níveis preocupantemente altos.

John Bolton saiu da Casa Branca a 10 de setembro, poucos dias antes de se começar a ouvir falar do caso da Ucrânia. À altura da sua saída, John Bolton insistiu que tinha saído pelo próprio pé e Donald Trump informou que, pelo contrário, ele tinha sido despedido. O choque de narrativas sugeria que os dois homens se tinham desentendido — e, quando foi conhecido o caso da Ucrânia, foram muitas as cabeças que se viraram para John Bolton.

Os democratas na Câmara dos Representantes solicitaram o testemunho de John Bolton, mas os advogados do ex-conselheiro para a Segurança Nacional rejeitaram esse pedido — e o facto é que Adam Schiff e a sua equipa se cansaram de esperar por ele.

Embora as razões para o aparente silêncio de John Bolton não sejam oficialmente acontecidas, é frequentemente referido que o facto de o ex-conselheiro para a Segurança Nacional ter um contrato milionário para escrever um livro com as suas memórias na Casa Branca o fez optar por guardar tudo o que tem para aquelas páginas.

Em resposta à assessoria jurídica da Câmara dos Representantes, o advogado de John Bolton, Charles Cooper, diz que o seu cliente “esteve pessoalmente envolvido em muitos dos eventos, reuniões e conversas sobre os quais vocês já receberam testemunhos, tal como esteve envolvido em muitas outras reuniões e conversas relevantes que ainda não foram discutidas nos depoimentos”.

Apesar de o próprio John Bolton não ter testemunhado na Câmara dos Representantes, o seu nome acabou por surgir várias vezes. A mais relevante foi durante o testemunho de Fiona Hill, ex-diretora para a Europa e Rússia no Conselho de Segurança Nacional, que trabalhou de perto com John Bolton.

No seu testemunho, Fiona Hill contou que John Bolton lhe pediu para avisar o responsável jurídico do Conselho de Segurança Nacional de que estavam a ser feitos esforços por parte de Gordon Sondland, Rudy Giuliani e também o chefe de gabinete de Donald Trump, Mick Mulvaney, para conseguir informação comprometedora para Joe Biden junto da Ucrânia. Eloquente como é seu costume, Fiona Hill recordou o que lhe disse John Bolton à altura: “Eu não faço parte do negócio de droga que o Sondland e o Mulvaney estão a armar”.

(JUSTIN LANE/EPA)

Joe Biden, o alvo

Entre as poucas coisas que se mantêm de 2016 para 2019 na política norte-americana, uma delas é esta: os escândalos relacionados com a Ucrânia não parecem afetar sobremaneira Joe Biden.

Em 2016, Joe Biden exigiu a demissão do então procurador-geral da Ucrânia, Viktor Shokin, em troca do descongelamento de um pacote de assistência financeira àquele país. À altura, chegou a ser colocada a hipótese de ser uma forma de chantagem por aquele procurador ter investigado a Burisma, empresa energética ucraniana que contava com Hunter Biden, filho do ex-vice-Presidente, no conselho de administração. Essa ideia, porém, foi descartada à altura, já que não foi só Joe Biden a pedir a demissão de Viktor Shokin: foi também o FMI, a Comissão Europeia e congressistas norte-americanos de ambos os partidos. Entre estes, Viktor Shokin era unanimemente tido como um homem corrupto — e Joe Biden ficou livre de suspeitas.

Em 2019, depois de várias tentativas por parte de Rudy Giuliani para colocar este tema nas manchetes dos jornais, não colou — e mesmo depois de este caso ter sido amplamente divulgado nos media, por força do impeachment contra Donald Trump, Joe Biden continuou como favorito nas eleições primárias do Partido Democrata. Já o era quando anunciou a sua candidatura a 25 de abril de 2019 e continua a sê-lo, tantos meses depois.

É isso que sugerem as sondagens a nível nacional, onde Joe Biden continua a ser favorito — embora o seu otimismo tenha razões para guardar várias reservas, já que há sondagens para os primeiros estados das primárias, o Iowa e o New Hampshire, que o colocam atrás de Elizabeth Warren e de Pete Buttigieg. A sua prestação nestes dois estados iniciais pode definir a longevidade da sua campanha.

Até agora, Joe Biden tem procurado não falar do impeachment — tendo aberto uma exceção apenas para dizer que apoiava a destituição de Donald Trump. “Donald Trump violou o seu juramento, traiu esta nação e cometeu atos que merecem uma destituição. Para preservarmos a nossa Constituição, a nossa democracia e, no fundo, a nossa integridade, ele deve ser destituído”, disse Joe Biden.

(SERGEY DOLZHENKO/EPA)

Zelenksy, o homem do outro lado da linha

Dificilmente Volodymyr Zelensky imaginava — e muito menos idealizava — que o seu primeiro ano como Presidente da Ucrânia fosse marcado por um processo de impeachment do Presidente dos EUA. Mas assim foi: depois daquela chamada a 25 de julho e de todos os factos que a rodearam, este ex-comediante (que chegou a interpretar o papel de Presidente num popular programa de televisão ucraniano) foi engolido pelo turbilhão do impeachment norte-americano-

Ao longo de todo este tempo, Volodymyr Zelensky tem negado ter havido um quid pro quo. “Não falei com o Presidente dos EUA nesses termos de ‘eu dou-te isto e tu dás-me aquilo”, disse, numa entrevista à revista alemã Der Spiegel. O Presidente da Ucrânia também revelou indignação com as acusações em causa, dizendo que não quer “dar a impressão de que a Ucrânia age como um pedinte”.

Enquanto isto acontecia, Volodymyr Zelensky reunia-se com Vladimir Putin a 9 de dezembro em Paris, com a mediação do Presidente francês, Emmanuel Macron, e a chanceler alemã, Angela Merkel. Daquela reunião de várias horas resultou um acordo para um cessar-fogo a ser aplicado até ao final do ano, tal como troca de prisioneiros de guerra entre os dois países.

[Impeachment motiva protestos contra Trump:]

(Artigo atualizado às 7h20 de 19 de dezembro com os resultados da votação)