Eduardo Barroso, mandatário da distrital de Lisboa de Marques Mendes, diz que o “almirante é incompetente” para o cargo de Presidente da República. No programa Vichyssoise, da Rádio Observador, disse ainda que “aquilo” que Gouveia e Melo fez na task force das vacinas “podia ter sido feito pelos gestores de supermercados” que asseguraram a reposição durante a pandemia. Confessa que falou com Marcelo sobre se devia aceitar o cargo e embora o “amigo desde os 16 meses” não tenha revelado o sentido de voto, não tem dúvidas: “Tenho a certeza de que ele vota Marques Mendes.”
Recusa-se a dizer o nome de André Ventura e diz que até acreditou que tivesse mesmo tido um problema de esófago, mas depois percebeu que foi tudo “muito bem coreografado”. Sobre António José Seguro diz que preferia que tivesse ficado afastado da vida política e recorda que, nas primárias, fez questão de “votar António Costa”. E conclui: “Já achava que não tinha perfil para líder partidário…”
Eduardo Barroso não se quer alongar sobre a continuidade da ministra da Saúde, mas confessa que lhe disse: “Pense na sua Saúde”. Na mesma ocasião pediu a Ana Paula Martins que não ficasse chateada por ele dizer que não tem habilidade política porque “é também por isso” que gosta dela. Disse ainda que ela “está-se a meter em demasiadas lutas ao mesmo tempo”.
[Ouça aqui a primeira parte da Vichyssoise:]
Greve de colaboradores, o trabalhador Luís e apoios cruzados
[Ouça aqui a segunda parte da Vichysoisse:]
“Almirante é incompetente para o cargo. É um homem que percebe de submarinos”
Disse que apoia Luís Marques Mendes porque quer votar num político que nos garanta a democracia. Com os outros candidatos a democracia não está assim tão garantida? Está em risco?
É muito pouco exigente o que a nossa Constituição define para se poder ser candidato à Presidência da República: ter de ser mais de 35 anos e ter os direitos civis. Permite que três milhões de portugueses que estão acima dos 35 anos se possam candidatar. Eu podia candidatar-me! Devia haver um currículo mínimo. E isso é que me fez tomar a minha opção. Devo dizer-lhe, como brincadeira: tive associações de doentes e alguns amigos que diziam: “Eduardo, vais-te candidatar à presidência da República?”. Mas como é que eu me posso candidatar à Presidência da República se eu próprio não votava em mim? Não se pode brincar à política. Não se pode, para o mais alto cargo político da nação, pensar que por ter mais de 35 anos e ter sido um cirurgião competente, dizer: agora vou-me candidatar à Presidência da República. Qual era esse currículo que era importante ter? Tínhamos de ter um democrata genuíno, ser um cumpridor da Constituição, e ter algumas coisas que me garantissem que ele ia ser competente; cultura geral é importante; cultura jurídica, cultura económica, e sobretudo uma cultura política. A experiência de ter exercido alguns cargos políticos, concorde eu com eles ou não, é fundamental. Luís Marques Mendes tinha, para mim, a garantia de ser um cidadão moderado, bem-educado – que também é importante, já agora, porque há sobretudo um candidato que é mal-educado, nem sequer é um problema ideológico…
Está a referir-se a André Ventura?
Claro. Eu nem queria…
Não gosta de dizer o nome dele, não é?
Não, não gosto de dizer. Aquilo é ignorância com ódio e com má educação, logo aí excluía-se. É importante ter tido alguns cargos políticos, ter a noção de como é que funciona um governo, uma Assembleia da República, como é que é ter sido líder parlamentar, autarca, secretário de Estado, como é que se faz um orçamento de Estado, ter sido ministro. Foram essas coisas que fizeram com que tivéssemos os últimos quatro presidentes da República, todos oriundos dos partidos, todos com experiência governativa ou autárquica, e com um currículo que… a gente concordasse ou não destes últimos quatro, eu só não votei num. Mas mesmo não tendo votado…
Foi o professor Cavaco Silva.
Não votei Cavaco porque votei no Jorge Sampaio, como é óbvio, mas reconhecia-lhe a legitimidade de concorrer. Nestas eleições não reconheço a um dos candidatos sequer isso…
O grande adversário de Marques Mendes é Gouveia e Melo ou André Ventura?
Temos oito candidatos. Quatro estão lá por tempo de antena, tempo de televisão, prova de vida da existência dos partidos a que pertencem, e a luta deles é os 5% para ter o apoio do Estado para a campanha. E depois temos quatro, dos quais dois vão passar à segunda volta, isso é óbvio. Desses quatro há um que me aterroriza pensar que sequer pode atingir essa parte; depois há um que é completamente incompetente para o cargo a que concorreu, e depois outro que eu pensei que se tinha afastado da política. Não sou militante de nenhum partido, mas sou um eleitor fiel do PS, nunca votei na AD e no PSD, nunca.
Só votou no Marcelo para Presidente, que é seu amigo desde os 16 meses.
Conheço o Marcelo desde os 16 meses de idade. Somos amigos há 75 anos, eu sou a pessoa viva que o conhece há mais tempo. Quando os irmãos nasceram já eu era amigo do Marcelo. Eu ainda ia de fralda, tivemos aqueles 10 anos de convívio diário; sou completamente acrítico em relação ao Presidente Marcelo. É curioso, porque quando ele não era Presidente tinha muitos amigos da minha área política que diziam: não percebo essa tua amizade. Muitos deles, depois de ele ser Presidente, me disseram: Eduardo, tinhas razão, o homem é de facto excecional. Sou sempre a favor do que ele faz.
Também considera, como Luís Marques Mendes, que Gouveia e Melo diz demasiados disparates e há razões para a preocupação cada vez que ele fala?
Não acho que há preocupação, quanto mais falar melhor… Quero dizer acho o senhor almirante incompetente para o cargo, como me acharia a mim incompetente. Não estamos a falar de um insulto, estamos a falar de uma análise.
Acha que ele não tem o tal currículo mínimo.
Claro que não tem, é um homem que percebe de submarinos, como eu percebo de cirurgia; nunca fui presidente de Junta de Freguesia, nunca fui candidato a coisa nenhuma, como é que eu de repente vou ser candidato ao mais alto cargo político da nação? Isto é um absurdo. Mas garanto-lhes que tive essas pressões. Algumas associações de doentes disseram: as 7500 assinaturas, não se preocupe, a gente arranja. Eu disse: eu, Presidente? Mas se eu não voto em mim…! Quando digo que ele é incompetente, digo com a sinceridade com que o diria de mim próprio. Portanto, não estou a deixar nenhum insulto.
Mas essa incompetência para a candidatura tem-se notado nesta pré-campanha, quando se pronuncia?
Ele é preparado para aquelas entrevistas ao pormenor, e aquilo é um desastre total. Na última entrevista ele dizia: mas que não pensem, aqueles que me apoiam, que me vão influenciar ou que vão condicionar. Não, eles não pensam, eles têm a certeza. Têm a certeza absoluta, porque ele vai ter de ter uma assessoria que vai ter vários presidentezinhos com ele para poder ser presidente. Ele fez um grande trabalho. Foi o que o tornou notório, ninguém sabia quem era.
Na task-force da vacinação.
Eu fui vacinado, vi lá as coisas, funcionou bem; aquilo podia ter sido feito por aqueles gestores dos supermercados, porque eles garantiram sempre a comidinha, mesmo durante a pandemia, havia a carninha, havia o peixe, só não havia o papel higiénico e nunca percebi muito bem porquê. Ele fez aquilo bem, como teriam feito estes grandes gestores de stocks, e depois fez aquilo com os militares – lembro-me de ir às vacinas e estavam lá os militares também.
Dá segurança, não é?
Dá segurança. Mas isto é currículo para ser Presidente da República? Por amor de Deus.
Afinal concorda com o professor Cavaco Silva, que disse mais ou menos o mesmo.
Ah, disse? Está a ver, um presidente em que eu não votei – foi muito fácil para mim, estava cómodo, nunca me passou pela cabeça não votar em Jorge Sampaio, de quem fui amigo íntimo. Tenho algumas famílias fora da minha que são as minhas duas grandes famílias a seguir, que é a família Sampaio e a família Rebelo de Sousa. Fui íntimo de três presidentes da República.
“Nas primárias votei Costa. Já achava que Seguro não tinha perfil para líder partidário”
Disse que tinha sido sempre um fiel votante do Partido Socialista.
Se calhar fiel demais, mas pronto, tenho sido sempre votante, e até de um Partido Socialista que se beneficiava de ser um Partido Socialista mais definido à esquerda. Fui apoiante de Pedro Nuno Santos. A opção mais natural no seu caso seria alguém da área do Partido Socialista nas eleições, que existe, e até é apoiado oficialmente pelo partido, que é António José Seguro. Sou independente. Não faço ao António José Seguro nenhuma desconfiança de que não seja um democrata e um respeitador da Constituição, pelo amor de Deus.
Mas qual é que é o problema dele então?
O problema dele é que desapareceu. Ele não tinha características… foi a tal votação que fui fazer, a minha mulher que era militante PS não votou, mas eu fui votar. E fui votar no António Costa, nas primárias. Já achava que ele não tinha o perfil para ser um líder partidário. Portanto, mais valia não ter voltado à política agora. Pensei que ele se tinha afastado, sinceramente, foi para outra vida mais civil e agora reaparece de repente. Nem assume as suas características. Por acaso deu-me uma grande tranquilidade ao não se assumir sequer como esquerda… agora é uma esquerda, como é que ele disse?
Moderna e moderada.
Moderno e moderado sou eu! E vou votar Marques Mendes, está a ver.
E acha que o PS geriu bem este apoio? Porque continua a ser uma coisa que está a ser difícil de digerir por parte de alguma ala do partido, os nomeados costistas…
Não sou militante do PS.
Como observador…
Como observador do Partido Socialista, tenho dois primos, mais que irmãos, que vão votar António José Seguro. Eu também não entendo como é que alguns militantes, até governantes do PS – um deles meu amigo íntimo, meu amigo querido por quem eu tenho uma ternura e uma consideração – agora aparece com o Almirante. Porquê? Se eles não queriam o Seguro, estavam caladinhos. É a mesma coisa com o Isaltino e o Almirante. Eu percebo que ele esteja magoado com Marques Mendes que definiu aquilo na altura [nas autárquicas de 2005], com o meu acordo, para quem tinha problemas com a justiça que não era candidato, e eu percebo que ele não lhe perdoa isso. Tudo bem, percebo, está magoado, as coisas pessoais são muito importantes. Mas porque não se limita a não votar e a manifestar que não vai votar e vai agora apoiar alguém, que ele próprio não sabe quem é? Ninguém sabe quem é aquele senhor.
Marques Mendes tem criticado o Governo em alguns aspetos, está a tentar provar a independência enquanto candidato, isto não pode afastar o eleitorado mais do PSD?
Eu não sou um comentador político, não percebo nada de política, portanto esses aspectos são para mim completamente irrelevantes. Eu fui íntimo de três presidentes da República, de um até íntimo desde os 16 meses, de outros tratava por tu, o outro era um tio querido, não é? E portanto, eu não tenho esta proximidade com o Luís Marques Mendes. Conhecemo-nos, é um amigo distante, é uma pessoa que eu considero, mas eu conheço, porque estive 10 ou 12 anos a ver religiosamente os comentários que ele fazia, portanto eu sei o que é que ele pensa, sei que é um homem ponderado, sei que é um homem inteligente, que tem uma cultura geral, que tem cultura jurídica, que tem cultura política, que tem experiência dentro do Governo. Como é que a gente pode pensar e eleger outro? Está a ver? Eu não chego ao ponto tão ridículo, entusiasmado, como dizia o meu doente e meu amigo, Almeida Santos que disse que não votar em Mário Soares na altura, em 86, era ensandecer, não é? A população em geral, os que votam até em partidos em que não entendo como podem votar, é que tem de ser conquistada e para esses há uma coisa que eles podem compreender: como é que a gente vai votar em alguém que não sabe o que é? É uma caixa de Pandora, pode sair uma coisa fantástica, pode sair uma coisa de que nos vamos arrepender seriamente. Não estamos em tempo de poder fazer isso, o mundo e Portugal não estão disponíveis para arriscarmos em alguém que ainda por cima pensa que quem o apoia depois não lhe vai cobrar esse apoio.
Eduardo Barroso: “Disse à ministra: ‘Pense na sua saúde’. É também não ter habilidade política que gosto de si”
Tem-se falado muito do trabalho da tutela na Saúde, acaba por ser um agente do setor e do SNS e está a presidir à Comissão Nacional para os Centros de Referência, com tudo o que tem acontecido, a ministra tem condições para continuar ou devia admitir-se?
Fui nomeado por este cargo para o qual tenho um perfil adequado de Presidente do Conselho Nacional dos Centros de Referência pelo Manuel Pizarro, que também não entendo, agora também aparece a apoiar o almirante. É uma coisa que eu não percebo nada, porque é toda a Saúde, o Francisco Jorge, o Correia de Campos e agora o Pizarro. Tenho muitos amigos que são militantes do Partido Socialista, e esses eu compreendo que tenham uma disciplina. Não deviam apoiar outro candidato que não fosse apoiado pelo seu partido. Eu não sou militante, estou livre e não tenho essa fidelidade que eles deviam ter. Mas sei em quem eles votam na segunda volta. Se a segunda volta for entre o almirante ou for o outro de que eu não digo o nome, e o Luís Marques Mendes, tenho uma grande esperança que votem no candidato que eu apoio com convicção. Quando Marques Mendes me telefonou e disse “olha Eduardo, já sei que você me apoia”, porque eu tinha escrito um artigo no Diário de Notícias em que dizia, “Sou candidato” e depois o artigo acabava a dizer, sou candidato a não votar em mim próprio se me passasse pela cabeça ser Presidente, porque não percebo nada disto. E ele percebeu, pelo artigo, que estava ali um apoio implícito a um perfil como ele. E ele disse “Eduardo e tal, você quer apoiar-me?” Eu disse, apoio publicamente com certeza. Não estava à espera que me dissesse para ser mandatário distrital. Mas antes disso eu até lhe disse “olhe, você pense dois dias nisto, porque eu com o meu coração ao pé da boca posso tramá-lo com alguma coisa que diga”. E também fui ouvir dez, ou meia dúzia dos meus amigos de luxo. Não queria que eles soubessem pela imprensa. O irmão, os primos-irmãos, enfim, alguns amigos, muitos amigos. Daniel Sampaio, o Marcelo, os meus amigos. Claro que eu não vou dizer o que eles me disseram, não é? E nem vou dizer quem foi o mais crítico.
Não me diga que Marcelo disse que Marques Mendes não chegava lá…
Não, o Marcelo disse ‘ó Eduardinho”… não sei se ficou contente ou não ficou, não é isso que estou a transmitir. Mas é evidente, toda a gente sabe em quem vota. Eu não lhe perguntei em quem é que ele vai votar nas presidenciais mas eu tenho a certeza de que ele vota Luís Marques Mendes. Isso é óbvio. Quer dizer, é óbvio porque é um homem coerente, é um homem sensato, é um homem inteligente, é um homem sensível, é um político de categoria, portanto em quem que é que vai votar? O meu irmão é que me disse “eh pá, mas não te metas nisso, apoia, mas mandatário é demais”. Mas porquê? Se apoio é vestir a camisola. Este apoio envergonhado é uma vergonha. Então estou aqui a apoiar alguém que eu acho que tem o perfil para ser o nosso Presidente.
Não disse se achava que a ministra tinha condições para continuar.
Eu tenho um cargo de nomeação governamental, que não foi ela. Ela está a fazer um trabalho notável na implementação dos centros de referência. Se quer a minha opinião, ela está-se a meter em demasiadas lutas ao mesmo tempo. Demasiadas, umas reformas, outras lutas. Mas eu não sou consultor dela. Gosto dela como pessoa, mas percebe-se que está desgastada. Eu disse-lhe: “Pense na sua saúde. E não fique ofendida de eu dizer que não tem habilidade política, porque é por não ter habilidade política que eu também gosto de si”. Mas posso não concordar com algumas coisas que ela pode fazer. Não tenho essa obrigação.
“Queria regresso de Amorim e Gyokeres ao Sporting com Mendes como Presidente”
Vamos agora à fase do Carne ou Peixe. Em 2026, preferia ver Marques Mendes Presidente da República ou o regresso de Rúben Amorim e Vítor Gyokeres ao Sporting?
Isso é como perguntar a um bebé ou a uma criança, gostas mais do pai ou da mãe. Gostava que eles voltassem ao Sporting com Marques Mendes convidado para a tribuna como Presidente da República.
Se tivesse de ser o médico do Presidente, preferia ser o médico de Gouveia Melo ou de António José Seguro?
Já não posso ser médico nenhum. Fui médico dos outros três. Eu operei os três enquanto Presidente. O Jorge Sampaio, o Marcelo, com gravidades diferentes e o próprio tio [Mário Soares], mas foram coisas muito simples.
Preferia ter como paciente aquele jogador do Benfica que levou um pisão na cabeça na final da Taça de Portugal ou André Ventura que teve aqueles problemas de esófago?
Não. Eu aí senti-me enganado porque eu acreditei naquilo. Eu disse à minha mulher: isto é verdadeiro, aquilo de levar a mão ao pescoço, aquilo foi muito muito coreografado.
Mas preferia ser o médico que avaliava o Belotti quando levou aquele arranhão na cabeça na final da Taça ou Ventura com esses problemas de esófago?
Nenhum deles era da minha especialidade.
Quem convidaria para comer uma feijoada: Manuel Pizarro ou Ana Paula Martins?
Podia convidar eventualmente os dois, mas se tivesse de escolher só um, acho que o Manuel Pizarro tem mais intimidade e tem mais proximidade para vir comer a feijoada comigo. Com a Ana Paula Martins talvez comesse um de linguados fritos com arroz de tomate.