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DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

Entre a direita de Passos e a base do Chega, Ventura escolhe os seus. "Pagávamos o pato todo do jantar do PSD"

Líder do Chega levou puxão de orelhas de Passos, mas, no partido, acredita-se que 'não' à reforma laboral protege núcleo de votantes. Ainda assim, ninguém ignora risco de alienar eleitorado mais jovem

Prevaleceu o instinto de sobrevivência. À frente de um partido com uma massa heterogénea de eleitores (de ex-votantes do PCP a conservadores de direita, passando pelos antigos abstencionistas), André Ventura percebeu que não podia dar a mão a Luís Montenegro numa reforma laboral que, antecipa o líder do Chega, grande parte do seu eleitorado iria chumbar. A moeda de troca apresentada — descer a idade de reforma — é uma exigência que o PSD dificilmente (para usar um eufemismo) poderá acomodar, o que inviabilizará qualquer acordo nesse sentido. Com essa decisão, Ventura destapou a direita, mas, acredita-se na cúpula do partido, assegurou a simpatia da classe média baixa e dos mais velhos.

“Não nos podíamos suicidar”, diz ao Observador um influente elemento do Chega. “Aprovando a reforma laboral, pagávamos o pato todo do jantar do PSD. Os custos políticos seriam enormes. Os nossos eleitores, aquela classe média baixa, não querem esta reforma. E iam começar aos tiros contra nós”, continua a mesma fonte. Coisa diferente seria revisitar a lei laboral de uma forma “mais alargada”, com outro tipo de medidas e que fosse capaz de, ao mesmo tempo que se baixava a idade da reforma, abrir o “mercado de trabalho aos mais jovens”. “Com um pé num patim e outro noutro, como o PSD queria fazer, não.”

Apesar de tudo, esta leitura não é unânime entre as principais figuras do Chega, raro num partido pouco dado a auto-reflexões críticas. Aliás, para espanto de muitos, a ideia de baixar a idade de reforma como contrapartida para aprovar a reforma laboral do Governo ultrapassou pela esquerda a própria UGT. E isso tem provocado algumas dificuldades na transmissão da mensagem. “Estamos a defender o mesmo que o PCP… Não é fácil explicar”, reconhece ao Observador fonte do partido.

Sobretudo porque esta questão traz pelo menos três outras associadas: é o primeiro grande sinal dado pelo Chega de indisponibilidade para fazer parte da tal maioria de direita reformista pela qual tantos suspiravam nesse espaço político; é a primeira vez que fica para todos evidente a coincidência de posições entre o partido de Ventura e os partidos mais à esquerda; e, finalmente, é o Chega a dar um sinal ao eleitorado mais jovem (um dos pilares eleitorais) de que o partido privilegia os mais velhos numa discussão sobre reforma da lei laboral — sem que se perceba exatamente qual é a posição do partido sobre os baixos salários de entrada no mercado e os quase 20% de desemprego jovem.

"As declarações de Pedro Passos Coelho não têm efeito nenhum", defende um elemento próximo de André Ventura. "Não faz mossa. O eleitorado que anda atrás dele é o mais flutuante. Até podiam elogiar a nossa postura agora e depois iam criticar mais à frente", defende um elemento influente do Chega

Ventura fala para os ‘seus’ jovens

De resto, mesmo os indefetíveis de Ventura reconhecem que há o risco de o Chega ser engolido por esta dicotomia ‘mais jovens contra mais velhos’, ‘precários contra privilegiados’, ‘trabalhadores privados contra funcionários públicos’. E isto num momento em que, passada a febre da imigração, o país político se volta a centrar mais no debate sobre o aumento do custo de vida e nas dificuldades de acesso à Habitação, que afetam em particular os jovens. Nesta altura, falar sobre corrupção não chega, concede-se. “Estagnamos no soundbite e na gritaria quando precisávamos de dar um salto qualitativo. O voto do protesto já não sai daqui, esvaziámos a esquerda. Mas isso não é suficiente”, diz um elemento do Chega.

“Precisamos é de segurar o nosso núcleo eleitoral. E foi isso que fizemos”, contrapõe outro influente militante do partido, desvalorizando qualquer conversa sobre transferência de eleitorado jovem para outros partidos — a sondagem da Aximage para o Diário de Notícias, que apontava para a existência de um tombo considerável do partido nesse campeonato particular, é atirada para o plano da bizarria — ninguém acredita que, em poucos meses, o Chega tenha passado a ser apenas o 5.º partido mais popular entre os mais jovens, ainda para mais atrás do PS, há anos a debater-se com sérias dificuldades para convencer esses eleitores.

Depois é preciso perceber que jovens é que votam no Chega e que simpatia é que podem ou não ter pela reforma laboral apresentada pelo Governo. Os eleitores mais novos que poderiam alinhar com a agenda do Executivo serão, em teoria, os mais qualificados, com o curso superior ou a frequentar o ensino universitário — e não são ‘esses’ jovens os grandes apoiantes do Chega. André Ventura sabe bem onde está o seu mercado laboral.

Existe, todavia, uma evidente tensão interna no partido, reflexo das dificuldades que o próprio André Ventura tem demonstrado ao longo de todo o debate. Em rigor, o Chega já teve três posições diferentes sobre a lei laboral. A última — fazer da redução da idade de reforma uma exigência para aprovar a reforma de Luís Montenegro — valeu um valente puxão de orelhas do ídolo Pedro Passos Coelho, com a agravante de o antigo primeiro-ministro ter respaldado por completo a tese alimentada por Montenegro de que Ventura é o “chegano mais socialista” do país, causou naturalmente embaraço.

Há um par de meses, Pedro Passos Coelho disse em público aquilo que diz em privado há anos: Luís Montenegro estava a desperdiçar a grande oportunidade de reformar verdadeiramente o país aos ombros de uma maioria única de direita; Montenegro estrebuchou e reagiu mal aos recados; na resposta à resposta, Passos mandou o primeiro-ministro ir trabalhar, para grande gáudio do presidente do Chega. Desta vez, no entanto, foi Ventura a vítima de Pedro Passos Coelho.

“Além do absurdo e irrealismo, a proposta de baixar a idade da reforma mostra populismo em excesso. Eu, que tanto tenho defendido que o PSD procure a maioria que não tem com a IL e com o Chega, que são partidos não socialistas… Quando as coisas assumem este carácter, pergunto: são não-socialistas? Nem os socialistas têm coragem de baixar a idade da reforma”, atirou Passos, durante um encontro à porta fechada para estudantes da Nova SBE, em Lisboa.

Com a conivência do antigo primeiro-ministro, que nunca mexeu um dedo contra o líder do Chega, Ventura está há anos a tentar fazer crer que é o único e legítimo herdeiro de Passos. Mas, pela primeira vez, o ídolo de carne e osso cortou a eito. Fosse outro o autor das críticas e talvez a reação do líder do Chega fosse mais dura. No entanto, em dois momentos, em declarações no Parlamento e depois em entrevista ao canal Now, Ventura limitou-se a concordar em discordar. “É legítimo. Já discordámos no passado, certamente discordaremos no futuro em muitas matérias”, concedeu o presidente do Chega.

“As declarações de Pedro Passos Coelho não têm efeito nenhum“, defende um elemento próximo de André Ventura. “Não faz mossa. O eleitorado que anda atrás dele é o mais flutuante. Até podiam elogiar a nossa postura agora e depois iam criticar mais à frente”, insiste a mesma fonte. No dia em que o pacote laboral foi chumbado em sede de concertação social, o líder do Chega não resistiu em dar uma alfinetada discreta ao antigo primeiro-ministro, recordando o período da troika e a mágoa dos pensionistas com a direita. “Respeito que ele seja contra a descida da idade da reforma, tal como não concordei com a descida das pensões.”

Até ao momento, o líder do Chega não dá mostras de ter vontade de ceder nesta frente. “Isto não é uma questão de linha vermelha ou roxa ou amarela ou verde. É uma questão de dizer ao Governo [que] numa reforma do trabalho faz sentido começar a pensar gradualmente na descida da idade da reforma. É bom senso. Se queremos fazer uma reforma laboral, vamos fazê-la para todos os intervenientes, não é só para alguns. E quem é o maior interveniente de uma reforma laboral? Que diabo? É quem trabalha.”

Com a morte da reforma laboral em sede de concertação social, o debate passa agora para o Parlamento. A ministra Palma Ramalho já apelou ao sentido de responsabilidade de Ventura. O líder do Chega não parece, para já, muito preocupado com as vontades do Governo. “Se não for aprovada a legislação laboral continuará a haver inverno, primavera e verão”, despediu-se Ventura. Com ou sem as pressões de Pedro Passos Coelho sobre o Chega, Luís Montenegro não terá vida facilitada.

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