Era a carta fora do baralho no elenco convidado para as jornadas parlamentares da Aliança Democrática e trouxe mesmo um (longo) discurso, em muitos momentos, surpreendente. Entre referências e citações de Donald Trump, Jair Bolsonaro, Jorge Nuno Pinto da Costa ou Felipe Scolari, o cardeal Américo Aguiar fez uma intervenção no seu estilo descontraído em que deixou avisos sobre populismos e deu algum respaldo às políticas de imigração da AD — assim como à ministra da Saúde, Ana Paula Martins.
Antes do início da intervenção, o bispo de Setúbal distribuiu até pela plateia um livro com documentos sobre o processo sinodal de 2021 a 2023, e arrancou a intervenção lembrando lições de compaixão pelo “próximo” tiradas do Evangelho. Mas depressa se meteu na política, sem pudores em falar de temas da atualidade e em deixar avisos e conselhos à governação da AD.
Desde logo, num dos temas mais divisivos da atualidade — o da imigração –, Américo Aguiar sugeriu que concorda com a filosofia de “imigração regulada” descrita pela AD, considerando que neste dossiê Portugal está “no fio da navalha”. “Criámos a expectativa, não temos capacidade de corresponder e estamos a desrespeitar a dignidade dessas pessoas”, argumentou, fazendo o paralelo com um caso em que alguém quer receber mil pessoas em casa, apesar de só ter capacidade para vinte.
Pediu que os imigrantes que o país recebe efetivamente sejam bem acolhidos — “gostava de que a situação fosse acolhida com amor, e algum interesse”, tendo em conta as necessidades da economia — e deixou uma crítica implícita ao Chega, por ter usado nomes de crianças estrangeiras no Parlamento: o cardeal, que até fica “divertidíssimo”, durante os crismas, a reparar na diversidade de nomes que encontra, disse que “pontualmente” pode ser verdade que haja algum aluno sem escola por causa de vagas para imigrantes, mas não é assim que se resolve o problema — e aconselhou a AD a assegurar uma formação eficaz de língua portuguesa, argumentando que a barreira linguística cria desconfiança.
O discurso foi sempre na linha de olhar para os outros, neste caso os cidadãos comuns, e tentar compreendê-los e resolver-lhes os problemas, evitando que se virem para soluções populistas (ou não fosse o tema do discurso, que Hugo Soares explicou que daria latitude ao cardeal para “dizer o que bem entendesse”, “não deixar ninguém para trás”).
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR
“Estou convencido de que andamos todos a trabalhar para o mesmo quando falamos do bem comum, independentemente do partido e das ideologias”, começou por dizer, lembrando o “amigo” Jorge Nuno Pinto da Costa para dizer que “opinião pública e publicada” não são a mesma coisa (uma referência que Hugo Soares e o Governo, que tanto protestam contra a “bolha mediática”, terão apreciado), e transmitiu uma ideia: quando o cidadão tem a perceção de que o dia a dia no Parlamento “não tem nada a ver com a sua vida e que a malta ainda lhe estraga a vida”, isso leva-o a “desertar” e procurar quem faça eco dos seus problemas, acreditando que outros podem merecer a sua confiança.
“Dizem que o Presidente Trump, na sua primeira eleição, sempre que fazia um comício falava dos problemas daquele estado e as pessoas ficavam maravilhadas, porque sabia que naquela terra havia um semáforo avariado”, recordou. “Às vezes falta-nos isso. Falta que as prioridades sejam menos discussão ideológica”. Mais uma referência: “Como diz Bolsonaro, sobra mês no fim do salário”. (A menção a outro brasileiro, Felipe Scolari, foi para dizer que enquanto selecionador nacional devolveu o orgulho dos portugueses em cantar o hino).
Aqui, Américo Aguiar sugeriu que a solução passa por encontrar consensos políticos para que as reformas existam e os problemas tenham resposta. Desde logo quando o tema é pobreza: “Quantas vezes já ouvi os pactos da Justiça, da Educação… Tenho a sensação de que mudam os ciclos e mudam as coisas. Os povos não podem esperar”, apelou. “Temos de fazer tudo ao alcance para que a máquina do Estado possa corresponder e que nenhum português se deite sem uma refeição, sem os mínimos dos mínimos”.
Dentro das muitas preocupações que enumerou incluiu ainda o estado das prisões portuguesas, digno do que vê nos “filmes” sobre “prisões de África ou da América Latina”, ou a “estabilidade” dada às IPSS e misericórdias. E chegou a lançar uma farpa sobre a troika, brevemente, dizendo que esses tempos ainda ocupam a memória de muitos portugueses.
Mostrando-se alinhado com a AD em vários temas, como a intervenção dos privados na Saúde, Américo Aguiar pareceu ainda defender a ministra da Saúde. “Andar a pedir todos os dias demissões é uma coisa que chateia”. Disse acreditar que nenhum dos ministros fez asneiras “de propósito”, mas que o cidadão comum “fica chateado”, citando agora um sketch muito popular dos Gato Fedorento. O resumo: “O cidadão não tem esperança de que alguma coisa possa mudar, e quando não temos esperança qualquer um pode tomar conta da barca”.
Admitindo que não percebe muito de Saúde, o cardeal defendeu ainda assim que com os recursos que existem não é possível ter todas as urgências abertas e é preciso consensos para resolver o problema do cidadão. “Isto tudo junto é um molotov, uma receita que alguns até podem ajudar a fazer, para que estoure”, acrescentou, em mais um aviso dirigido a quem legisla e governa.
O cardeal quis ainda lamentar a “globalização da indiferença”, comparando a indiferença que sente que existe pela situação da Ucrânia como a que chegou a existir durante o Holocausto, e falou da situação no Médio Oriente, “Terra Santa”: “é “inaceitável o que se passa para os povos que lá vivem, seja de A ou B”. “O 7 de outubro não devia ter acontecido, ponto final. Mas depois tudo o que aconteceu já nos passou da mão e do coração. Dá a sensação de que o mundo não tem regulador”. E o “polícia” EUA tem a esquadra “desamparada”, ironizou.
Ao longo da hora e meia em que falou e respondeu aos deputados, Américo Aguiar ainda conseguiu revelar um pouco sobre o conclave em que foi escolhido o Papa Leão XIV (adiantou que não é nada parecido com o filme “Conclave”, que estreou no final do ano passado), admitir o nervosismo que sentiu durante a Jornada Mundial da Juventude e lamentar a “falta de pedagogia” na política (“toma-se uma decisão, mas ninguém explica ao tuga”). Uma tarde cheia.
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR