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Adolfo Mesquita Nunes em entrevista ao Observador admite que irá apoiar João Almeida à liderança do CDS.

João Pedro Morais/Observador

Adolfo Mesquita Nunes em entrevista ao Observador admite que irá apoiar João Almeida à liderança do CDS.

João Pedro Morais/Observador

Entrevista a Adolfo Mesquita Nunes. O apoio a João Almeida, os maus resultados do CDS e o erro do "debate das correntes ideológicas" /premium

O ex-vice-presidente reflete sobre o que correu mal nas legislativas e anuncia o apoio a João Almeida, o candidato que não quer "fazer o debate das correntes ideológicas do CDS".

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Adolfo Mesquita Nunes chegou ao estúdio e espalhou as cábulas onde tinha tópicos que não podia deixar de referir na entrevista ao Observador. Há meses que se havia remetido a um semi-silêncio público sobre a vida interna do partido e sobre o que se passou nas últimas legislativas onde coordenou o programa eleitoral. Tinha, portanto, muito para dizer. Dispôs as páginas arrancadas do caderno como se fossem cartas num jogo de poker e pousou duas canetas: uma vermelha, outra azul CDS. O mais importante que tinha para dizer, vinha na cabeça: é João Almeida o candidato que vai apoiar, e explica porquê, mesmo que nos tempos em que a JP (Juventude Popular) ainda era JC (Juventude Centrista) tenham divergido muitas vezes.

Quanto ao passado, assume as culpas pela estratégia eleitoral falhada, e aponta erros à direção Cristas — de quem foi durante um tempo vice-presidente e a toda a hora conselheiro — por não ter percebido que não podia ter permitido debates internos tão pouco sincronizados com o discurso da líder, com duas eleições tão próximas, e com concorrência tão apertada. Mas aponta o dedo noutras direções e não poupa elogios à futura ex-presidente, de quem diz que foi a única oposição ao Governo de Costa.

[O melhor da entrevista a Adolfo Mesquita Nunes:]

“Cristas foi a única a fazer oposição ao Governo”

Foi coordenador do programa eleitoral do CDS, programa esse que não parece ter convencido os eleitores. Entre um resultado histórico do CDS nas autárquicas em Lisboa e um desaire eleitoral nas legislativas, o que é que falhou?
Acho que essa análise está a faltar ao debate interno do CDS. Não basta dizer que foram cometidos muitos erros, é preciso tentar perceber quais foram. É muito subjetivo, é a minha opinião, mas gostava de me centrar naquele ano de 2019 que é o ano em que o CDS entra com sondagens bastante razoáveis, com uma líder com uma popularidade aceitável.

E com o otimismo já conhecido de querer ser a candidata a primeira-ministra da direita.
Que já vinha de trás. Mas em 2019 entramos no ano com muito boas perspetivas. E em poucos meses, os resultados, as sondagens, a popularidade e a notoriedade do CDS degradam-se de forma significativa.

E qual é a explicação?
Há fatores de contexto, externos, e fatores internos. Como eu calculo que os internos seja o que vos apeteça mais, deixem-me despachar primeiro os externos para depois avançar para essa outra conversa.

Força.
Este foi o primeiro Governo, da história da democracia portuguesa sem qualquer oposição à esquerda. E isto concentrou no CDS as funções de oposição. O PSD teve outras opções e viveu outros processos. Era o papel que tínhamos de fazer porque não era possível termos um Governo com as esquerdas unidas sem que algum partido, num sistema parlamentar como o nosso, fizesse oposição. Mas essa oposição foi a mais para muitos moderados que, de alguma maneira, estavam mais ou menos satisfeitos com alguns aspetos do Governo – ou não viam apenas os aspetos negativos que o CDS elencava.

"Assunção Cristas foi a líder da oposição e a única a fazer oposição. Foi também o alvo único dos ataques mediáticos da esquerda parlamentar".

Era oposição a mais em que sentido? Assunção Cristas era demasiado agressiva? A moção de censura foi um erro?
Houve pessoas para quem a nossa vocação de oposição foi mais presente do que a vocação propositiva e achou que isso era a mais. E também foi considerada a menos por muitos setores da direita que, de alguma maneira, se revoltavam com o CDS pela inexistência do tipo de oposição que a esquerda costuma fazer aos governos.

Queriam o quê?
Estamos muito habituados, quando a direita está no poder, a que haja greves, manifestações, que os sindicatos venham para a rua, que cheguem aos jornais notícias permanentes. Como não existiu nada disto neste Governo, de alguma maneira houve setores que acharam que o CDS não estava a fazer o seu papel.

Houve falta de comparência do PSD que também contribuiu para desgastar a liderança do CDS?
O PSD passou por outros processos, que são normais, com discussões também de liderança pelo meio e que, de alguma maneira, libertou o CDS para este papel. Não sei se foi intencional ou se foi em resultado destes processos, mas aquilo que eu constato é que o CDS se encarregou de cumprir essa função de forma mais presente que o PSD. E acho que começámos demasiado tarde a vocação propositiva do CDS.

E de que forma é que isso explica os resultados recentes?
Se Assunção Cristas foi a líder da oposição e a única a fazer oposição, ela foi também o alvo único dos ataques mediáticos da esquerda parlamentar. Ouvimos que ela era racista, de extrema-direita, fascista, que os incêndios eram por causa dos eucaliptos que ela tinha plantado, que as pessoas que viviam na miséria tinham sido despejadas por ela. Foi uma campanha mediática lançada pela esquerda a que o CDS não soube dar resposta. Que esta direção, esta direção de que eu fiz parte, não soube dar resposta. E que no último ano contribuiu bastante para a degradação da popularidade e da imagem, quer do CDS, quer da sua presidente.

E os novos partidos que surgiram à direita, tiveram algum efeito?
Como é evidente, gera concorrência. São partidos sem histórico e que, portanto, podem e têm mais espaço para fazer determinado tipo de propostas ou a ter determinado tipo de posicionamentos, o que condicionou desde logo as europeias e depois as legislativas.

Adolfo Mesquita Nunes chegou ao estúdio e espalhou as cábulas onde tinha tópicos que não podia deixar de referir na entrevista ao Observador.

JOÃO PEDRO MORAIS/OBSERVADOR

E os fatores internos?
Depois da Assunção Cristas se ter, no seu primeiro mandato como presidente do CDS, afirmado como líder da oposição e ter ganho mediatismo e prestígio, que vinha da sua função como ministra da Agricultura, depois de termos crescido nas regionais dos Açores e de termos crescido nas autárquicas com mais uma câmara e com o seu resultados extraordinário em Lisboa, o CDS chega ao congresso de Lamego numa tentativa de dar continuidade a uma estratégia de abertura e de crescimento que tinha começado com Paulo Portas em 2008 e que nos levou aos 10% e aos quase 12%.

O debate sobre “relativismo moral” (que não devia ter acontecido)


E é aí que as coisas começam a não correr bem?

O debate do congresso de Lamego, se bem se recordam, não teve a ver com crescimento. Teve a ver a descafeínização do CDS, com o relativismo moral, com a perda de valores, com os desvios à identidade do CDS. E não me surpreende que aos candidatos a presidente do CDS, hoje, os jornalistas façam essencialmente perguntas sobre aborto, sobre casamentos entre pessoas do mesmo sexo, adoção, sobre eutanásia. Não me surpreende porque nos últimos dois anos esse foi o debate em que o CDS se deixou levar. Um debate que tinha como pressuposto a ideia de que havia uma certa desvirtuação do partido. Eu acho que isto desfocou o partido, trouxe instabilidade interna e, sobretudo, comprometeu a abertura que a Assunção Cristas procurou fazer e falhou, porque não a fez. Não é possível fazermos a abertura de um partido e ao mesmo tempo estarmos em permanente discussão interna sobre estas matérias.

"O debate do congresso de Lamego, se bem se recordam, não teve a ver com crescimento. Teve a ver a descafeínização do CDS, com o relativismo moral, com a perda de valores, com os desvios à identidade do CDS".

E os candidatos a presidente continuam essa discussão interna?
É com muita surpresa e até estupefação que eu noto que de todos os candidatos a presidente do CDS, nenhum quer revogar a lei do aborto e nenhum quer revogar a lei do casamento entre pessoas do mesmo sexo. Isto é, de um debate que começa em Lamego, e persiste ao longo dos meses, esperar-se-ia dos seus protagonistas que trouxessem – nomeadamente a Tendência Esperança em Movimento (TEM), que é quem lidera este debate e por arrasto obriga as várias pessoas a irem-se posicionando -, chegar e dizer qualquer coisa sobre esta matéria. É com estupefação que eu leio na moção da TEM que o aborto tem de ser combatido, mas não com legislação punitiva. Curiosamente essa é a minha posição.

Mas há outras matérias…
É verdade que as questões de relativismo moral não têm só a ver com o aborto ou com o casamento de pessoas do mesmo sexo que, apesar de tudo, são leis que já foram aprovadas. Eu gostava de fazer um percurso pelas últimas votações do CDS nestas matérias: o CDS foi contra as barrigas de aluguer, enviou esse diploma para o Tribunal Constitucional; foi contra a procriação medicamente assistida; foi contra a co-adoção; foi contra a eutanásia; foi contra a legalização da canábis; foi contra que o período de tempo que uma mulher tem de esperar para se casar segunda vez seja igual ao do homem. E perante estas votações, como é que ainda se pode presumir que aquilo que aconteceu no CDS nos últimos dois anos foi que se liberalizou demais, ou que se relativizou demais, ou que se desviou dos seus valores fundacionais (se é que estes são os valores fundacionais do CDS, essa é outra discussão)?

O eleitorado “moderninho” e os erros de avaliação

Recusa, portanto, que tenha havido no CDS uma posição mais liberal nos costumes para atrair outro eleitorado?
Como é que se pode dizer que os 4% a que chegámos foi porque o CDS quis agradar ao eleitorado “moderninho”? Como? Dizendo às mulheres que elas têm de esperar mais tempo do que um homem para casar segunda vez? Quisemos agradar o eleitorado “moderninho” votando contra a canabis? Independentemente das posições sobre isto – eu, por exemplo, fiz campanha pelo não à eutanásia…

O CDS podia ter votado de maneira diferente?
Não estou a dizer que devíamos ter votado de maneira diferente. O que estou a dizer é que não consigo encontrar nos últimos quatro anos um exemplo que me possam dar de relativismo moral. Mas, verdadeiramente, essa foi a discussão dos últimos dois anos.

Resumindo: o que está a querer dizer é que o resultado do CDS foi fruto de ataques que vieram de fora, nomeadamente da esquerda, e de ataques que vieram de dentro do próprio partido?
Essa conclusão eu não a tirei: não disse que eram ataques dentro do partido. O que eu disse foi que houve um debate dentro do partido, e que por um lado é um debate que eu compreendo pouco porque de acordo com o percurso que lhe fiz das várias votações, não encontro matéria nenhuma em que se possa dizer que o CDS se liberalizou e muitas das vezes me era de alguma forma assacada a responsabilidade de estar a liberalizar e de estar a desviar o partido com estas matérias, não sei como. E ao mesmo tempo não vejo nenhum candidato a dizer que é preciso revogar as leis que durante estes últimos anos tanto disseram que era preciso revogar.

"É com muita surpresa e até estupefação que eu noto que de todos os candidatos a presidente do CDS, nenhum quer revogar a lei do aborto e nenhum quer revogar a lei do casamento entre pessoas do mesmo sexo".

Mas qual é que acha que deve ser a posição do CDS em matérias ditas fraturantes?
Em primeiro lugar, o CDS tem de ter uma posição. E não acho nada que tenha de ser a minha. Em segundo lugar, o CDS tem de aceitar que há eleitores, militantes, dirigentes e representantes que pensam e que votam de forma diferente do pensamento maioritário do CDS nessas matéria. No eleitorado também há essas pessoas. Quando há dirigentes e militantes que pensam de forma diferente da maioria ou da direção numa determinada matéria é porque isso também acontece no eleitorado.

E por isso não concorda com as críticas de relativismo moral ou de que se está contra a génese do partido.
Essa acusação transmite para fora a ideia de que no CDS se discute a vida, a moral de cada um, se fazem censuras morais às vidas de cada um e que quem não pensa sobre estas matérias, ou não é de direita ou não deve votar no CDS. Como eu costumo dizer muitas vezes, isso era a mesma coisa que a Margareth Tatcher nos bater à porta para entrar no CDS e nós lhe dizermos: muito obrigado, mas não porque a senhora não revogou a lei do aborto.Essa acusação esbarra na realidade do nosso eleitorado ser diverso. E mesmo o eleitorado do CDS que pensa como o CDS nessas questões, pensa com graus de prioridade, intensidade e foco muito diferentes. E mais: a acusação de relativismo moral sempre que se fazem debates internos sobre estas matérias é de uma insuportável superioridade moral, que nem o eleitorado católico e conservador gosta de ter. Eu conheço-o muito bem porque fui candidato à câmara da Covilhã, e o eleitorado católico e conservador sabe que um dia vai prestar contas. A Deus. Não aos dirigentes do CDS. Isto não explica tudo, mas o que eu quero é contrariar a ideia de que o resultado de 4% foi porque o CDS foi um partido moderno e liberal. Com este percurso todo, não sei como é possível que se possa dizer uma coisa dessas.

"O apoio é convicto, embora não deixe de ser inesperado porque eu e o João Almeida, durante muitos anos, tivemos divergências políticas muito sérias (...) Mas as coisas mudaram".

LUSA

Mas uma coisa é o que o partido aprovou no Parlamento, outra coisa era a perceção mediática que os eleitores tinham da líder do partido e desta direção e a influência que isso teve no resultado eleitoral.
Neste momento temos um deputado assumidamente liberal e temos cinco deputados democratas-cristãos, uns mais conservadores do que outros. Quando o CDS teve quase 12%, teve mais deputados liberais do que hoje existem, teve mais deputados conservadores do que hoje existem no Parlamento e teve mais deputados de direita do que hoje existem no Parlamento e teve mais deputados democratas-cristãos dos que hoje existem no Parlamento. A forma de termos estas correntes todas elas mais representadas no Parlamento é com CDS forte. Quando se começa a dividir e a enquistar e a dizer: os liberais vão para um lado, os conservadores vão para o outro, os democratas-cristãos vão para o outro, ficámos com um quadro parlamentar muito mais pobre. E, por isso, a minha ideia, a minha preocupação é que não seja entendido este resultado, que foi muito mau, como uma certidão de que a ideia de um partido que congrega estas correntes e que seja forte e focado na mensagem não faz sentido.  Mas atenção: eu fui vice-presidente e uma das consequências de se exercer um cargo de vice-presidente e de uma direção, é responsabilidade. Assumo essa condição, mesmo depois de ter deixado a vice-presidência do CDS para que não restem quaisquer dúvidas sobre que esta minha análise seja uma desculpabilização. Isso não vai muito bem com o meu género de atitude.

“Tenho muito orgulho em estar no mesmo partido de Nuno Melo”

Algures a meio do verão do ano passado houve a polémica com o famoso despacho das casas de banho.
Em que o CDS estava geralmente de acordo. O despacho tinha sido despropositado, retirava autonomia às escolas, que era onde a matéria deveria ser julgada. Todas as pessoas que se pronunciaram no CDS fizeram-no em sentido crítico e, portanto, estavam todos de acordo. E o que é que se discutiu? O tom. Que havia pessoas que utilizavam frases mais fortes e outras menos fortes. E as que utilizavam frases menos fortes é porque estavam feitas com a esquerda. Foi este o estado do debate sobre as questões morais a que chegou o CDS.

"Como é que se pode dizer que os 4% a que chegámos foi porque o CDS quis agradar ao eleitorado 'moderninho'? Dizendo às mulheres que elas têm de esperar mais tempo do que um homem para casar segunda vez? Votando contra a canabis?"

Foi o maior erro de Assunção Cristas?
Assunção Cristas teve muitas virtudes e muitos acertos. E eu gostava de falar neles, para não falar só de erros. Mas eu penso que esta discussão e este debate não podiam ser tidos desta maneira. Criou uma dessintonia entre aquilo que era o discurso e a tentativa de Assunção Cristas e da sua direção de abrir o partido e a discussão sobre se éramos relativistas morais. E nós não medimos o impacto desta dessintonia do ponto de vista eleitoral. Porque ela acabava por não agradar a ninguém: nem aos eleitores que querem um CDS mais moderno porque estávamos a falar de um relativismo moral e nem a algum eleitorado conservador que achava que, com estas discussões, o CDS estava de alguma maneira a abandalhar ou a aprovar matérias que não devia aprovar.

E no meio disso não houve nenhum erro de estratégia da própria direção no que diz respeito às duas campanhas eleitorais que houve em 2019?
Claro que sim.

Nas Europeias, a mensagem passava por assumir orgulho na direita e acabou por haver um ou outro tema ou declaração do cabeça de lista Nuno Melo, que se confundiam com as do recém-chegado André Ventura do Chega. Houve frases polémicas sobre o Vox. Isso também foi um erro ou não encontra aí nenhuma explicação para o resultado do CDS logo nessas eleições?
Para as eleições europeias, a estratégia foi muito similar àquela que tem sido seguida pelo CDS em todas as eleições europeias. Onde há uma elevada taxa de abstenção, é necessário focar a mensagem no eleitorado mais militante, que não quer abandonar o partido e, portanto, é o momento de dizer às pessoas: ‘Não vão para a praia, venham votar’. Normalmente é uma campanha que o CDS faz de uma maneira diferente.

Portanto não houve nenhum erro?
Houve. Não medimos que, de facto, havia duas campanhas muito perto uma da outra. E, portanto, esta estratégia que foi pensada e que faz sentido quando há mais espaço entre as campanhas, provocou confusão no eleitorado. Quanto ao Nuno Melo, o problema não são as coisas que o André Ventura diz em que ele tem razão. O problema são as coisas que ele diz que não tem razão. Que me encontrem frases do André Ventura sobre matérias do CDS ou políticas que o CDS tem há muitos anos, não me surpreende. Tal como não me surpreende se o PS tiver medidas sobre natalidade, que é uma preocupação do CDS há muito tempo. Essa tentativa já vinha de trás, do acosso da esquerda, de fazer do CDS um partido de extrema-direita, de colagem.

Não estávamos a fazer uma colagem de Nuno Melo. Estávamos a perguntar se a sobreposição de discurso, nalgumas matérias, pode ter sido prejudicial para o CDS junto do eleitorado.
Não penso que tenha sido isso. A estratégia foi a que costuma ser. Não medimos foi a dessintonia entre aquilo que era a postura de Assunção Cristas e depois aquilo que era necessário fazer para fazer uma campanha mais centrada no eleitorado tradicional e para logo depois a seguir fazermos uma campanha de novo de largo espectro. Foi um erro de avaliação. Mas, com isto, eu quero deixar aqui muito claro: tenho muito orgulho, e gosto muito, de estar no mesmo partido do Nuno Melo, um eurodeputado e deputado, que ao longo dos anos e do seu percurso político esteve a favor das liberdades, da direita das liberdades. Concordo com ele numas coisas, discordo dele noutras, ótimo. É isso que eu defendo para o CDS.

"Os que votaram no Chega, eu gostava que tivessem votado no CDS. Acho que é função do CDS ir buscar esses eleitores”.

Para terminar o balanço das eleições, o resultado das últimas legislativas é o fim político de Assunção Cristas?
Acho que um mau resultado numas eleições não determina a morte política de ninguém, muito menos no CDS, onde o professor Adriano Moreira continua a ser uma das nossas maiores referências. Mas recordo que a Assunção foi uma extraordinária ministra da Agricultura, foi uma enorme candidata à Câmara Municipal de Lisboa com um resultado histórico e, sozinha, fez oposição a um Governo muito apoiado pela esquerda. Tem evidentes qualidades que estarão, se ela o quiser, ao serviço do país e do partido, espero eu.

As razões do apoio a João Almeida

Mas para já, com Cristas prestes a sair, qual é o candidato que vai apoiar?
Neste momento, o balanço que faço é: de todos os candidatos — eu conheço quase todos e sou amigo de alguns —, qual deles faz um diagnóstico sobre o que se passou que me parece mais acertado. O resultado foi muito traumático: 4%. E portanto, é perfeitamente possível que, perante um resultado tão traumático, a necessidade de rutura seja grande porque não queremos continuar com resultados de 4%. E a importância do diagnóstico é essencial porque um diagnóstico errado provoca-nos ruturas no sentido contrário.

E quem é que faz o diagnóstico certo?
Apesar de já ninguém querer mudar algumas das posições em matérias chamadas de costumes, a verdade é que muitos candidatos continuam a falar na ideia de relativismo moral, na ideia de que, de alguma maneira, nos desviámos nos últimos tempos dos nossos valores, que caímos na tentação de renunciar ao que somos. Esse diagnóstico, para mim, está errado. E como está errado, leva a propostas políticas que depois poderão não dar certo. Eu vejo aí talvez, de alguma maneira, a continuação deste debate que o CDS não deve travar.

Mas onde é que se posiciona face a esses candidatos?
O candidato que eu apoio — ele não me pediu este apoio — é o João Almeida. Por causa do diagnóstico que faz e sobretudo na convicção de que não é necessário voltarmos a travar o debate das correntes ideológicas do CDS e de que nos desviámos e que agora temos de voltar aos valores fundacionais — que depois nunca ninguém descreve o que é. É o centrismo entre esquerda e direita? É o federalismo de Freitas do Amaral e Lucas Pires? O que são, no fundo, os valores fundacionais? Às tantas, fico com a ideia que é uma discussão que é sempre galvanizadora porque não há ninguém que não goste de falar de valores fundacionais, mas que depois, de alguma maneira, nunca é concretizada.

Portanto, está com João Almeida.
O que não significa que não seja amigo do Filipe Lobo D’Ávila e que ache que a sua posição ao longo dos últimos anos foi de lealdade na oposição, foi de seriedade. Disse-lhe em várias alturas, em debates internos no CDS, que admirava a forma como ele falava. O facto de eu achar que começa com este erro de análise inicial não significa que eu não respeite muito as opiniões dele e que não é uma pessoa de quem eu goste. Aliás, gosto bastante dele.

"Houve uma dissintonia entre aquilo que era o discurso e a tentativa de Assunção Cristas e da sua direção de abrir o partido e a discussão sobre se éramos relativistas morais. E nós não medimos o impacto desta dissintonia do ponto de vista eleitoral".

E do Francisco Rodrigues dos Santos?
Tenho grande consideração pessoal por ele. Aliás, dou-me pessoalmente bastante bem com ele e resisto sempre e resistirei sempre àquelas tentativas normais jornalísticas de criar antinomias para criar factos políticos à volta disso. Não concordo com ele em muitas das coisas — o que é normal. Mas tem uma ótima moção. Aquilo que eu sinto na moção é que lhe falta a concretização destes aspetos do desvio aos nossos valores. Ele começa a moção a dizer que caímos na tentação de renunciar ao que somos — e é uma frase forte. Eu discordo. O que não significa que a moção não tenha aspetos positivos.

É um dos que critica o tal relativismo moral de que falava?
Nunca lhe ouvi acusações de que esta direção estava a desviar o partido do sentido certo, durante estes anos. Hoje leio na moção que caímos na tentação de renunciar ao que somos e, na sua apresentação, refere desvios do passado e desvios à nossa identidade. São posições perfeitamente legítimas. Eu discordo delas. Sem prejuízo da sua moção — que é boa —, há outros aspetos que não constam da moção e que também são relevantes. Um candidato não é apenas a sua moção nem o seu discurso de apresentação. É também o tom, o seu imaginário, aquilo que o galvaniza, aquilo que são as suas prioridades, aquilo que é a sua forma de estar, quem são os seus apoiantes, o que é que os seus apoiantes vêem nele. Este foco na ideia de que renunciámos ao que somos, receio que perpetue este debate interno sobre quem é que se desvia, quem é que não se desviou. Eu sou de direita. Não me faz confusão nenhuma que o CDS diga que é de direita e que se assuma de direita. Às vezes há esses equívocos. Há pessoas que acham que são donas da expressão e que só elas é que podem ser direita e que os outros não são.

E essa foi uma indireta para Francisco Rodrigues dos Santos ou também não?
Não. Eu digo as coisas que penso e digo diretamente. Acho que o Francisco parte do diagnóstico errado. O que não significa que não tenha sido leal à anterior direção, o que não significa não tenha evoluído em várias determinadas matérias, porque evoluiu. Na matéria do aborto, já antes da moção, ele evoluiu na sua posição. E é normal que dentro do partido existam pessoas com sensibilidades diferentes. É normal, é aceitável, é desejável que ele esteja no partido. Embora me pareça que, fazendo um diagnóstico errado, possa ter uma linha política também errada, sem prejuízo das boas ideias que tem na sua moção.

"A todos os candidatos digo que fiz uma opção de afastar-me da política profissional".

JOÃO PEDRO MORAIS/OBSERVADOR

Se ele sair vencedor deste congresso. Está disponível para trabalhar ao lado dele, mesmo que numa posição mais resguardada que é aquela que adotou nos últimos meses?
A todos os candidatos digo que fiz uma opção de afastar-me da política profissional. Neste momento, é tempo destes protagonistas constituírem as suas equipas e poderem levar a sua estratégia avante, sem prejuízo de eu ser do CDS e de estar disponível, dentro das minhas possibilidades, para colaborar e cooperar.

O futuro do CDS e a concorrência do Chega e do Iniciativa Liberal

Nenhum deles lhe causa urticária para pensar num afastamento mais radical.
O que é o afastamento mais radical?

Eventualmente sair mesmo do partido se, por exemplo, a Tendência Esperança em Movimento, acabar a liderar o CDS.
Não creio que exista essa possibilidade. E portanto, não creio que exista essa consequência.

"Eu sou de direita. Não me faz confusão nenhuma que o CDS diga que é de direita e que se assuma de direita. Às vezes há esses equívocos. Há pessoas que acham que são donas da expressão e que só elas é que podem ser direita e que os outros não são”.

Acredita na tese de que a sobrevivência do CDS pode estar em risco devido ao crescimento da Iniciativa Liberal e do Chega?
Já o disse, houve mais deputados liberais no parlamento quando o CDS teve 11,7% do que hoje. Os partidos não são donos dos votos. Esta ideia da régua e esquadro pode ser um bocadinho tentadora, mas ela é muito limitada. Agora apareceu um partido liberal e portanto o CDS vai ter de largar o seu liberalismo. Ou a de que apareceu um partido mais conservador, o CDS vai ter de largar…

Não é uma questão de largar, é de passar a ter uma concorrência direta.
Isso é outra coisa.

Mas essa é a questão: o CDS é capaz de sobreviver à concorrência?
Primeiro é preciso saber se é para ficar com os restos. Se é para ficar com os restos, eu acho que não vale a pena. Nós começámos a crescer significativamente com o regresso de Paulo Portas em 2008. E atravessámos a barreira dos dois dígitos no momento em que nos tornámos o partido da direita contemporânea. O CDS não tinha problemas de contemporaneidade naquela altura. Os jovens votavam em nós, colocámos o nosso património ideológico ao serviço das apreensões das pessoas naquele momento. Não contestávamos essas apreensões, dávamos-lhes resposta. Não podemos cair no risco de andar à procura de problemas para as nossas soluções. É o contrário: temos de arranjar soluções para os problemas das pessoas.

Foi o que fizeram quando eram o partido dos agricultores, ou dos pensionistas?
São temas que somámos e respondemos aos problemas da contemporaneidade. Agora, claro que, por exemplo, o problema da segurança é um enorme problema. E não pode ser o André Ventura ou o Chega a poder falar ou a ter propostas – se é que tem propostas e não apenas declarações.

Esse também é um nicho do CDS.
Não acho um nicho. Acho uma preocupação, uma apreensão das pessoas. E aquilo que é a verdadeira função de um partido político é pensar como é que se coloca o património ideológico que é de direita e vai até ao centro, como é que se coloca esse património ao serviço das apreensões das pessoas. E elas existem, porque estamos num mundo cada vez mais imprevisível onde há uma maior apreensão das pessoas com o seu futuro. Isto aplica-se quer aos setores mais vulneráveis da sociedade, que não sabem se vão arranjar emprego, se vão conseguir comprar ou arrendar uma casa, se o curso que estão a tirar é o que lhes vai dar saídas profissionais, se o emprego que têm vai existir nos próximos dez anos, se estão a viver melhor do que os pais, que pressentem uma maior desigualdade, que têm menores oportunidades. Como também para os setores mais dinâmicos: numa concorrência que é global, não há nenhum empresário que não pense o que lhe vai acontecer se entrar um grande concorrente. Eu não sou de fechar a concorrência, sou é de dar instrumentos para que estes empresários possam vencer.

Já houve momentos em que o CDS teve resultados historicamente baixos, incluindo o do famoso “partido do taxi”. E o partido recuperou depois, mas fê-lo num contexto que era diferente. Não havia outros partidos à direita no parlamento. Apesar de defender um caminho para reverter essa perda de eleitorado, o CDS está em condições mais difíceis para o recuperar?
A realidade é um filme e não uma fotografia e vamos entrar num novo ciclo político. As forças e pressões eleitorais e sociais vão no sentido da concentração e da aliança, de tirar de lá os incumbentes. Nestas eleições houve maior liberdade de voto, mas a pressão vai ser no sentido de maior convergência. Se é pré ou pós eleitoral, isso depois se verá, mas essa vai ser a pressão e o CDS vai ter de perceber o que quer nesse posicionamento, onde vai entrar nesse ciclo político. Quer competir com partidos mais pequenos que o seu e tentar esquartejar ideologicamente o eleitorado e dividir? Ou quer fazer parte desse movimento conseguindo representar a direita contemporânea, criando pressão nos eleitores que votaram nos outros partidos para que regressem aos partidos em que votaram e que já exerceram funções governativas muito difíceis?

Mas há risco ou não?
Só não quero é que façam título com esta frase, mas risco há sempre. Seis meses, em política, é muito tempo. Estes partidos novos que começaram também têm o risco de não singrar. Também têm risco de desinsuflar. O risco é natural a um sistema político que está mais fragmentado, num tempo muito veloz.

O Chega é uma ameaça maior do que o Iniciativa Liberal?
O Chega não é o centro da vida política portuguesa, nem o centro da reflexão da direita portuguesa. Esta permanente referência dá uma dimensão que é contrária à das minhas convicções. Populista acho que é, mas falta mais tempo para o conhecer. Agora uma coisa que eu sei, aqueles eleitores que votaram nele eu gostava que tivesse votado no CDS. E portanto acho que é função do CDS ir buscar esses eleitores.

A entrada na Galp e a recusa da “política profissional”

Estaria disponível para ser novamente candidato autárquico e, em vez da Covilhã, ser um sucessor de Assunção Cristas em Lisboa?
O CDS viveu um momento muito difícil com 4% e houve cinco pessoas que se posicionaram como candidatos a líder do CDS: o Abel, o Carlos o Francisco, o Filipe e o João. Este é o momento de falarmos desses protagonistas. Qualquer outra declaração vinda de um terceiro sobre disponibilidades futuras era um despropósito.

As razões do apoio a João Almeida: "Por causa do diagnóstico que faz e sobretudo na convicção de que não é necessário voltarmos a travar o debate das correntes ideológicas do CDS”

Então e se entre esses protagonistas, João Almeida, que apoia, o convidar para algum cargo volta a rejeitar?
O meu apoio é um apoio de militante. Não é para ser dirigente. O apoio é convicto, embora não deixe de ser inesperado porque eu e o João Almeida, durante muitos anos, tivemos divergências políticas muito sérias e teve consequências no relacionamento pessoal. Mas as coisas mudaram. Para quem nos acompanha há muitos anos, há pessoas a sorrir com este apoio.

Quais foram essas divergências?
Foi no tempo da Juventude Centrista e já são completamente descontextualizados no momento de hoje, mas há coisa que se dizem sobre o João que me impressionam. Uma delas é essa ideia de seguidismo face à Assunção que faz dele uma espécie de presidente por procuração. Não é só a circunstância do João ter sempre apresentado moções em todos os congressos e de ter manifestado sempre as suas opiniões nos sítios certos.

Quando é que se reaproximaram?
Volto a estar mais presente com o João quando fomos ambos deputados e tivemos juntos da comissão de Orçamento e Finanças e tivemos de defender e discutir o orçamento do enorme aumento de impostos. Foi o João Almeida quem mobilizou os deputados do CDS e outros do PSD para conseguir baixar aquilo que era a sobretaxa prevista que era de 4%. Passámos várias noites a procurar cortes de despesa que pudesse mitigar isso e conseguimos que passasse para 3,5%. Se ele fosse um seguidista e não tivesse as suas convicções, isto não teria acontecido.

"Eu não sou político profissional nunca fui, a não ser nos quatro anos em que estive em funções".

JOÃO PEDRO MORAIS/OBSERVADOR

Quem é que diz que João Almeida é seguidista?
Tenho ouvido, nas redes sociais… não gosto desses argumentos. Como se ele fosse uma continuidade acrítica do que quer que fosse.

A sua decisão de sair da vice-presidência do CDS e ocupar o lugar de administrador não executivo da Galp foi bem percebida no partido?
Tem de perguntar às pessoas do partido. Tenho muita dificuldade em falar de mim próprio nesses termos.

Porque fez essa opção?
Eu não sou político profissional nunca fui, a não ser nos quatro anos em que estive em funções.

Todos os políticos dizem isso…
Eu não digo que não sou político, mas que não quero ter vida profissional na política. E disse-o em 2015 quando deixei funções, tem a ver com razões pessoais e não vou fazer um confessionário aqui. Tenho 42 anos e nunca me vi até hoje nessa circunstância. É uma opção coerente. Tirando só quatro anos e outros dois em que fui assessor, a minha vida profissional, que começou em 2000, foi sempre no privado.

"Quando uma pessoa não se candidata a presidente, não vira as costas. Há outras formas de estar na vida pública sem ser presidente ou vice presidente do partido".

Admite que haja quem olhe para si como alguém que pôs a carreira à frente e não esteve disponível para a causa pública?
Se essa pessoa achar que a única forma de estar na causa pública é ser deputado, ou ser dirigente partidário, diria que esse entendimento é bastante limitado. Eu sou comprometido como o meu partido, não viro as costas. Quando não se candidata a presidente, uma pessoa não vira as costas. A única forma de estar na vida pública não é ser presidente ou vice presidente do partido.

Não houve uma influência do seu passado político no CDS, na escolha que a Galp fez? Por vezes fala-se muito em portas giratórias.
A minha experiência diz-me que a única forma que temos de comprovar isso é deixar correr o tempo e que o nosso trabalho e exemplo possam demonstrar que quem pensa assim está errado. Quando fui convidado para secretário de Estado ouvi de tudo e achei que a única forma de responder a isso era com o trabalho. Se há pessoas que pensam nisso, só posso esperar que daqui a algum tempo vejam que isso não se confirmou.

Não esteve disponível agora para se candidatar à liderança. Encerrou essa porta definitivamente?
Acho que há cinco protagonistas neste momento, aparecer um terceiro com manifestações de disponibilidade ou de indisponibilidade era um absoluto despropósito nas véspera de um congresso. Não vale a pena contribuir para esse ruído.

[A entrevista na íntegra:]

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