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Numa época em que era fácil para um engenheiro químico recém-formado conseguir empregos estáveis e bem remunerados na indústria petrolífera, Robert Langer escolheu um percurso mais incerto e arriscado, sempre com a mesma mentalidade: “Queria fazer algo que pudesse ajudar as pessoas”. Desde o desenvolvimento das primeiras nanopartículas utilizadas para a administração de medicamentos, à vacina de mRNA contra a Covid-19, teve sucesso nesse desejo: o engenheiro norte-americano é considerado internacionalmente como uma das maiores referências da atualidade.
Décadas depois de terminar a licenciatura, tornou-se uma entre apenas três pessoas vivas a receber as medalhas nacionais de ciência, mas também de tecnologia e inovação dos EUA. Aos 76 anos, Robert Langer é o engenheiro mais citado da história, com mais de 400 mil citações e mais de 1.600 artigos publicados nos últimos 50 anos. É, também, um de nove professores no Massachusetts Institute of Technology (MIT) com a mais alta distinção atribuída ao corpo docente. Tornou-se ainda um dos quatro fundadores da Moderna, a empresa que em mais de uma década se especializou em técnicas baseadas no “melhoramento de proteínas” através da manipulação do RNA mensageiro (mRNA).
Pioneiro da indústria da nanotecnologia com o desenvolvimento dos primeiros sistemas de libertação controlada para macromoléculas, Robert Langer abriu as portas a outras técnicas — também iniciadas nos seus laboratórios — que hoje em dia podem vir a ser fulcrais não só para o tratamento de diferentes tipos de cancro e outras doenças, mas também para a administração de vacinas de uma forma geral, como foi o caso das contra a Covid-19. Robert Langer também foi responsável pelo isolamento dos primeiros inibidores da angiogénese, o processo de formação de novos vasos sanguíneos a partir dos já existentes.
Estes inibidores revelaram ser muito importantes, uma vez que em pessoas com cancro, este processo alimenta o crescimento e propagação do tumor. A técnica também contribuiu para o desenvolvimento de novos tratamentos para a cegueira. Num outro registo, ajudou a estabelecer o campo da engenharia de tecidos, que mais tarde acabou por desenvolver a tecnologia de órgãos-em-chip — uma simulação da atividade de um órgão ou sistema inserido num chip, muito utilizado hoje em dia na área da investigação.
Agora, no próximo dia 27 de junho, esta figura incontornável do mundo da ciência vem pela primeira vez a Portugal, à NOVA Medical School, para a cerimónia de entrega da bolsa de investigação ao cancro “Ana Lázaro”, onde vai dar uma palestra sobre novas estratégias no combate ao cancro e avanços em vacinas de mRNA e receber ainda o título de Doutor Honoris Causa pela Universidade NOVA de Lisboa. Será a 45ª instituição a conferir-lhe este grau honorário, depois de Harvard, Yale e Oxford.
“Perguntaram-me: o que faz um engenheiro químico? E eu disse: Não tenho a certeza, mas acho que muita coisa relacionada com colunas de destilação”
Não sendo de uma família de cientistas, lembra-se qual foi o catalisador que o levou a seguir pelo mundo da ciência?
Houve vários fatores. Mesmo tendo em conta que a minha família não era “de ciência”, o meu pai e o meu avô costumavam jogar jogos de matemática comigo — o meu pai era muito inteligente, era muito bom a matemática e portanto jogava muito comigo. O outro fator que contribuiu para esta minha escolha foi o facto de, quando era um pequeno rapaz, oferecerem-me um “kit” de química da Gilbert que existia na altura, com um microscópio e tudo. Acho que era mesmo muito pequeno quando me ofereceram estes conjuntos, e gostei muito, creio que me tenham estimulado, na altura, e é assim a memória mais antiga que tenho da ciência na minha vida.
Cresceu, entretanto, com disciplinas de ciência na escola, mas como descobriu que aquilo que queria era a engenharia química?
Gostaria só de acrescentar que não foi um percurso muito linear. O que aconteceu foi o seguinte — quase tenho vergonha em contar isto, mas é a verdade — quando andava no liceu, era muito bom a matemática e muito bom a ciências. Só não era muito bom em tudo o resto, como inglês, francês e coisas do género. Então, o meu pai e o meu orientador no secundário disseram-me: “Se és bom a matemática e a ciências, então devias ser um engenheiro”. Honestamente, não sabia muito bem o que era ou o que fazia um engenheiro. Ainda assim, candidatei-me e entrei na Universidade de Cornell. No meu primeiro ano em Cornell, tive grandes dificuldades em algumas unidades curriculares, mas gostei muito de química e era bom, até. Aí tive de fazer uma escolha, e foi engenharia química. Achava que os engenheiros dirigiam as carruagens dos comboios, não fazia a menor ideia. De qualquer forma, acho que correu tudo bem.
Não sabendo exatamente o que fazia um engenheiro, foi para engenharia. Quando escolheu a engenharia química, tinha alguma ideia do que se fazia na área?
Talvez também muito embaraçoso, mas não. Lembro-me, na altura, de pensar que seria só uma aplicação qualquer da química, mas não fazia mesmo a menor ideia. No meu segundo ano em Cornell, havia esta cadeira que era só focada em colunas de destilação. Por isso, perguntaram-me no final do ano: o que faz um engenheiro químico? E eu disse: “Não tenho a certeza, mas acho que muita coisa relacionada com colunas de destilação”. Não fazia mesmo ideia. É claro que a engenharia química nos anos 60, quando estava a tirar a minha licenciatura, [as colunas de destilação] eram uma parte importante do trabalho dos engenheiros químicos, mas certamente não era aquilo que esperava que fosse.
E lembra-se do momento em que percebeu que a engenharia química era mais do que colunas de destilação?
Na verdade, fiz outras cadeiras no meu terceiro e quarto ano, mas mesmo quando era mais novo conseguia ver que havia mais para além das colunas de destilação. Ainda assim, o número de possíveis vias a seguir não era 100% claro. Quando acabei a licenciatura não sabia muito bem o que queria fazer, mas lembro-me que quando me candidatei para fazer uma pós-graduação, uma das coisas que me atraiu no MIT [Massachusetts Institute of Technology] foi o facto de existirem tipo oito áreas diferentes de especialização de engenharia química, todas muito diferentes e, para mim, algumas delas pareciam interessantes. Havia aplicações mais na área da saúde, de eletricidade, de eletroquímica, coisas do género. Também fui aprendendo em trabalhos de verão. Trabalhei na General Electric e aprendi a fazer uma bateria. Também trabalhei num outro sítio chamado Schenectady Chemical, mas isso foi sobretudo pintar tubos.
E depois da faculdade, enfrentou muitas rejeições antes de encontrar uma oportunidade para exercer. Creio que os seus primeiros nove pedidos de financiamento foram recusados…
É verdade, vamos por passos. Primeiro, quando acabei os estudos no MIT, não sabia o que queria fazer. Recebi ofertas de trabalho de empresas petrolíferas, mas a ideia não me entusiasmava e sabia que queria fazer algo que pudesse ajudar outras pessoas. Tentei ir para professor, mas ninguém me contratava. Enviei currículos para hospitais e faculdades de medicina, mas ninguém me contratava. Consegui um primeiro trabalho num hospital pediátrico, onde senti que fiz coisas importantes mas quando acabei, tentei candidatar-me para trabalhar nos departamentos de engenharia química da universidade — da minha formação — e ninguém me aceitou. Finalmente, encontrei trabalho no departamento de nutrição. E claro, uma das coisas que é importante na carreira académica são as bolsas. É preciso pedir muitas bolsas e tem razão, os meus primeiros nove pedidos de financiamento de projetos foram rejeitados. Foi um período difícil, porque as pessoas sentiram que as minhas ideias implicavam juntar a engenharia química à área da Saúde e eles achavam que não era possível a engenharia química fazer coisas nestes ramos.
Acredita que estes nove pedidos seriam aceites hoje em dia?
É difícil dizer. Quer dizer, hoje em dia é difícil, porque nos Estados Unidos estão a dificultar a vida ao NIH (National Institute of Health). Por isso, é possível que hoje seja mais complicado, não sei. Acho que teriam uma maior probabilidade de ser aceites hoje, mas faço dois pontos: não tinha experiência, e lembro-me de ler uma coisa recentemente, mesmo antes de 2025, que os jovens cientistas normalmente não recebiam grandes bolsas, a idade média era 40 ou 43. E pronto, há uma grande vontade das pessoas em querer alguém qualificado e com muito trabalho feito, alguém que eles acreditam que possa ser bem sucedido. Creio que ainda seria complicado, mas mais fácil porque, de certa forma, ajudei a preparar o caminho para os engenheiros de hoje — muitos dos quais são meus alunos — fazerem este tipo de trabalho, mas penso que ainda não seria fácil.
E lembra-se qual foi o décimo pedido, aquele que foi finalmente aceite?
Foi uma bolsa relativamente pequena, foram 30.000$ (cerca de 26 mil euros) por ano para produzir [em laboratório] uma molécula chamada heparinase. Pode ser utilizada para degradar a heparina [medicamento anticoagulante, evitando os efeitos secundários de outros fármacos]. E depois também consegui uma, talvez tenha sido a 11ª bolsa, sobre sistemas de administração de medicamentos, mas só depois de ter sido recusado várias vezes. Foi um dos primeiros sistemas desse tipo, diria eu.
Como é que se passa de tanta rejeição para a criação de tantas empresas bem sucedidas?
A verdade é que recebi todas essas rejeições de financiamentos e ainda mais algumas na publicação de artigos, mas pontualmente conseguia bolsas e publicações. Também tive a ideia de começar a escrever patentes, porque senti que poderia ser útil. E 10 anos depois de ter começado, algumas empresas contactaram-me a dizer que queriam registar patentes e queriam que as consultasse. Fiquei entusiasmado com a ideia, eram empresas multibilionárias e deram-me bolsas e patentearam algumas coisas, mas algumas experiências não funcionaram e acabaram por desistir. Foi aí que um amigo meu veio ter comigo e disse-me: “Bob, devíamos criar a nossa própria empresa”. Assim foi, abrimos a empresa, consegui recuperar as minhas patentes e continuei só a fazê-lo. O que tenho a dizer é o seguinte: se não lutares por ti, mais ninguém o vai fazer. Nessa perspetiva, como as empresas grandes não desenvolviam as coisas, começámos empresas pequenas para as fazer. Foi algo que continuei a fazer ao longo dos anos, com alunos, porque quando trabalhas arduamente num laboratório, queres ver artigos científicos e resultados, mas acima de tudo queres ver o teu trabalho a ajudar pessoas. Por isso continuei só a criar empresas com os meus alunos.
“Conseguimos fazer vacinas de mRNA mais rápido do que fazer crescer os ovos que são necessários para uma vacina da gripe”
Antes de chegar à Moderna, em 2010, criou dezenas de outras empresas. Alguma delas foi responsável por um produto ou técnica subvalorizada na época, e que agora é visto como uma grande conquista?
Algumas empresas produziram novos produtos para tratar a esquizofrenia, o alcoolismo ou a diabetes tipo II. A Momenta foi muito bem sucedida, desenvolvemos vários novos fármacos. Acabou por ser adquirida por 6,5 mil milhões de dólares (5,6 mil milhões de euros) pela Johnson & Johnson. Há um outro exemplo engraçado… Abrimos esta empresa chamada Living Proof e a atriz Jennifer Aniston estava envolvida. Fizemos novos produtos capilares, sprays, entre 50 a 100 produtos diferentes. Depois acabou por ser comprada, também. Há vários exemplos, mas não receberam o mesmo nível de publicidade da Living Proof, que foi bem publicitada. E é óbvio que a Moderna recebe uma boa quantidade de publicidade, mas muitas destas outras coisas salvaram milhões de vidas ou ajudaram milhões de pessoas. Quando venci o Queen Elizabeth Prize for Engineering, que é o equivalente ao Prémio Nobel da Engenharia, diziam que mais de dois mil milhões de pessoas tinham usado produtos baseados no nosso trabalho, antes da pandemia.
▲ A vacina de mRNA da Moderna contra a Covid-19 foi a segunda a entrar em circulação, depois de ter recebido luz verde da FDA em novembro de 2020
AFP via Getty Images
É impossível escrever Moderna sem mRNA. Em 2010, quando fundou a empresa, qual foi a motivação para dar atenção a esta técnica?
Derrick Rossi, um cientista de Harvard, já tinha feito algum trabalho importante na área e veio ter comigo para me mostrar. Algumas pessoas já tinham tentado começar empresas dedicadas ao mRNA, mas a grande maioria encontrou problemas a arranjar financiamento. E foi este o problema do Derrick Rossi: ele disse-me que tinha umas ideias diferentes e aconselharam-no a vir falar comigo. Nós pensámos: bom, podemos criar uma empresa que melhore as proteínas. Então falámos com o Ken Chien, um cardiologista e com o Noubar Afeyan, um engenheiro que começou um fundo de investimentos de risco, a Flagship Pioneering. Eu já tinha estado envolvido numa das primeiras empresas a utilizar engenharia genética para criar proteínas, mas aqui pensei que poderia ser muito melhor, porque conseguíamos fazê-lo mais rapidamente e de uma forma mais barata. Conseguíamos fazer proteínas que nunca tinham sido feitas. Tudo o que tínhamos de fazer era pegar num pouco de mRNA e colocá-lo numa nanopartícula — algo que eu tinha passado anos a fazer, trabalhar em novas nanopartículas. E assim foi, acreditei que poderíamos fazer a diferença e nós os quatro criámos a empresa.
E quando é que o foco passou para o cancro e o tratamento de doenças?
De imediato. Não tanto o cancro de início, mas começámos logo a olhar para muitas coisas diferentes.
Lembra-se dos primeiros ensaios clínicos que fizeram, da primeira vez que conseguiram ter algo aprovado pela FDA?
Na verdade, a primeira coisa a ser aprovada foi a Covid. Quer dizer, aprovação final, não os ensaios clínicos. E isso foi em novembro de 2020. Foi emocionante. Só de ver que algo que fizemos podia fazer tanta diferença no mundo, e claro que fez.
E antes da Covid, alguma vez pensou que a investigação em que estavam a avançar iria culminar numa tecnologia que viria a receber um prémio Nobel?
Claro, acho eu, sempre tive esperança que fosse algo importante. Não se sabe necessariamente sobre prémios ou nada do género. Quer dizer, eu não recebi um prémio Nobel. Recebi outros prémios, mas senti que iria ser algo importante, por isso fico feliz em ter conseguido contribuir.
Como é que foi a vossa primeira reunião durante a pandemia? O que vos fez pensar que seria possível criar uma vacina de mRNA para a Covid-19, uma vez que era tão diferente do trabalho que tinham vindo a desenvolver?
No final de 2019, tínhamos em curso oito ensaios clínicos de vacinas diferentes. Por isso, quando apareceu a Covid, o nosso CEO, Stefan von Fell, queria ver se seria possível fazer uma vacina para podermos ajudar. E assim foi.
Que tipo de vacinas é que estamos a falar?
Foram várias. Estou a tentar lembrar-me de todas. Havia uma de Zika, do vírus Epstein-Barr, do VIH, da gripe… Tínhamos uma grande variedade.
Recorda-se do momento “Eureka” em que perceberam que a vacina contra a Covid poderia funcionar e chegar ao mercado?
Sim, até acho que houve dois. O primeiro foi durante a fase inicial do ensaio, quando recebemos os primeiros dados em maio de 2020 e eram promissores. Quando decifraram o código, penso que foi num domingo de novembro, quando vimos que a eficácia era de 94% — algo incrivelmente elevado — penso que foi um momento “Eureka” para todos verem os resultados, porque se tratava de um ensaio cego. Sim, e obviamente, a vacina foi desenvolvida muito rapidamente.
Estava à espera que o processo fosse tão rápido? Desde o início dos ensaios até entrar em circulação?
Acho que foi rápido por vários motivos. Primeiro, a tecnologia, em si, é rápida: conseguimos fazer vacinas de mRNA mais rápido do que fazer crescer os ovos que são necessários para [fabricar] uma vacina da gripe, o que demora entre um ano a ano e meio. Estas conseguimos fazer quase num dia, ou menos. Claro que para fazer amostras suficientes precisamos de mais algum tempo. Mas acredito que as agências reguladores fizeram a coisa mais lógica. Milhões e milhões de pessoas morreram. Dizem que 20 milhões de vidas foram salvas por causa destas vacinas. Mas por causa da crise que se instalou, as autoridades aceleraram o processo de validação.
“As pessoas acreditaram em algo que não tinha qualquer mérito científico. Mas propagam estas coisas e alimenta-se o ciclo [de desinformação]”
De uma forma geral, porque acha que as diferentes vacinas foram sujeitas a tanto ceticismo da população?
Essa é uma ótima questão para a qual não tenho uma resposta. Há muitas [razões]. Há pessoas que são antivacinas de uma forma geral, para além das vacinas mRNA: pessoas que apontam principalmente para a associação ao autismo, o que remete para um artigo publicado e desmentido há vários anos. As pessoas acreditaram em algo que não tinha qualquer mérito científico. Mas estas pessoas propagam estas coisas e alimenta-se o ciclo. Não sei, não sei mesmo responder. Penso nisso frequentemente e fico desiludido. Não só no mito, quer dizer há tantas inverdades por aí, espalhadas pelas fake news… Não sei responder.
Acredita que as pessoas aceitam mais a ciência ou as vacinas porque se está a falar mais no tema agora?
Não sei a resposta. Acho que depende do sítio. Os Estados Unidos são engraçados nesse sentido. Há certamente pessoas antivacina. Acho que é complicado porque há pessoas que simplesmente não gostam de vacinas e vê-se muito no Texas, principalmente miúdos a apanhar sarampo porque não se vacinam. Acho que é trágico. Com as vacinas de mRNA contra a Covid, quer dizer, é só preciso olhar para os dados e ver a quantidade de pessoas que foram salvas. Ainda assim, há pessoas que, por alguma razão, sentem que não… O que vou dizer é o seguinte: para qualquer medicamento, há sempre um rácio de risco para recompensa, certo? Não há nenhum medicamento, nada, que seja completamente seguro. Por isso é óbvio que dá para encontrar casos de efeitos secundários e as pessoas focam-se só nisso, em vez dos efeitos positivos.
Alguns governos chegaram a impor ordens de vacinação à população. Quase cinco anos depois, acha que foi boa ideia?
É uma questão complicada. Não sou político. Não sei responder. Acho que é uma decisão difícil. Acho que as pessoas não têm uma compreensão completa de tudo. É uma decisão a tomar. Provavelmente há pessoas mais equipadas do que eu para tomar essa decisão.
Considera que devia ter havido uma melhor comunicação das farmacêuticas ou mesmo do Departamento da Saúde para falar com as pessoas, de modo a que estejam mais confortáveis a tomar as vacinas?
As empresas farmacêuticas fizeram aquilo que puderam. Também só existem algumas, a Pfizer e a Moderna, que acho que fizeram aquilo que conseguiam fazer no momento. Não é como se pudessem colocar anúncios na televisão a publicitar as vacinas. Acho que esse é o papel dos governos, para mostrar confiança. Ou então as pessoas simplesmente não confiam nos governos, não sei. Acho que não é uma boa ideia as empresas publicitarem demasiado. O que devem fazer — e o que fazem — é publicar nas revistas científicas que são avaliadas por outros cientistas, como o New England Journal of Medicine. Acho que esse é o rumo certo, onde tens médicos e outros especialistas a rever a informação.
▲ Robert F. Kennedy Jr. assumiu a liderança do Departamento da Saúde dos EUA em fevereiro de 2025
ADAM DAVIS/EPA
Com Robert F. Kennedy Jr., um conhecido cético das vacinas, a liderar o Departamento da Saúde dos EUA, pode gerar-se um entrave ou a criação de obstáculos para se aprovarem novos tratamentos? Será esta uma má altura para tentar desenvolver novos fármacos?
A minha esperança é que façam boa ciência. Mas não sei, tenho algumas preocupações com pessoas que ele escolheu [para integrar as agências federais]. As pessoas que escolheu para a FDA [Food and Drug Administration] parecem ter um bom histórico na ciência. Pelo contrário, no CDC [Centre for Disease Control & Prevention], algumas pessoas não têm um bom histórico, certamente no tema das vacinas, e alguns chegam a ter claros conflitos de interesse. Por isso não sei responder a isso exatamente. Estou sempre à espera do melhor. Espero que o RFK Jr. e os outros consigam colocar a vida da população à frente dos seus preconceitos. É esperar para ver.
Faço esta pergunta porque há cerca de um mês, a Moderna decidiu retirar um pedido de aprovação para uma vacina combinada contra a gripe e a Covid, devido às grandes exigências desta nova FDA…
Pois, não sei. Já não pertenço à administração da Moderna. Estive lá durante 14 anos, desde o início até setembro passado. Por isso não estou envolvido nessa decisão. Mas acredito que este novo grupo de pessoas na FDA têm padrões diferentes. Estas coisas acontecem, mas acho que é uma situação diferente.
Algumas pessoas estavam a interpretar isto como se a Moderna não tivesse dados suficientes nos seus ensaios, não necessariamente a ter em conta os novos critérios da FDA…
Não acho que [a Moderna] esteja mal preparada. Acho é que há pessoas diferentes a chefiar o departamento das vacinas. Acho que a empresa é ótima, estão muito, muito preparados, diria eu.
Com a sua experiência enquanto membro do conselho científico da agência, acha que a FDA mudou muito nestes últimos 30 anos, desde que se juntou?
De uma forma geral, acredito que a FDA tem sido sempre uma ótima organização. Acho que sempre fizeram um bom trabalho científico. Têm acesso a técnicas mais modernas, que era o que nós discutíamos quando eu presidia o conselho científico. Agora, estas técnicas modernas são a inteligência artificial, que querem trabalhar; órgãos-em-chip, que começou a partir do nosso trabalho há muitos anos e estão a considerar acelerar o processo de aprovação. Há várias coisas que eu considero que são boas na FDA. Temos de ver o que vai acontecer.
Entre 1995 e 2002 foi o presidente do conselho científico da FDA. Qual era o seu papel exatamente?
Quando se está no conselho científico o papel é aquele que acabei de mencionar: a ciência. Queriam que eu garantisse que têm acesso à ciência para fundamentar decisões. As minhas decisões eram sempre baseadas em fundamentos científicos, não políticos, só ciência. Tinha de garantir que a direção tinha acesso às tecnologias mais atualizadas. Por exemplo, se fosse hoje, seria o facto de terem a melhor inteligência artificial disponível, os melhores revisores. Era mais para tentar dar conselhos sobre ciência. Não me envolvi realmente nas decisões políticas. Contrataram-me especificamente para ser um especialista em diferentes temas. Não era nada político, era um grupo de conselheiros para tentar ter a certeza que a FDA tinha acesso aos melhores e mais recentes dados científicos.
É o engenheiro mais citado da história, com mais de 400 mil citações desde o início da sua carreira. Desde o isolamento dos primeiros inibidores da angiogénese, ao desenvolvimento da vacina contra a Covid. Qual é a contribuição que quer que fique associada ao seu nome? Quando as pessoas pensam no Professor Robert Langer, ficarem imediatamente a pensar numa contribuição…
Se tivesse de escolher apenas uma contribuição científica, provavelmente apontaria para o facto de ter conseguido comprovar que era possível utilizar nanopartículas para “entregar” grandes moléculas, como medicamentos, a locais específicos no corpo. Foi nesta matéria que recebi várias das minhas rejeições, no início da minha carreira, e consegui provar que era possível. Desenvolvemos as primeiras técnicas para o fazer. E claro, isso levou à criação de vários outros produtos, como as que menciona, a vacina contra a Covid, mas outras tantas também.