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Cardinal Joseph Ratzinger
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O cardeal Joseph Ratzinger antes da eleição pontifícia

Getty Images

O cardeal Joseph Ratzinger antes da eleição pontifícia

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"Excelente professor", "grande teólogo", "delicado e atencioso". As memórias dos alunos portugueses do professor Ratzinger

Durante o seu longo percurso académico, Joseph Ratzinger cruzou-se com alguns portugueses nas salas de aula. Estas são as memórias dos alunos portugueses do Papa emérito Bento XVI.

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Em contraste tanto com o antecessor como com o sucessor, o Papa emérito Bento XVI, que morreu este sábado, 31 de dezembro, aos 95 anos de idade, fica na história dos líderes da Igreja Católica como um dos mais diretamente envolvidos na academia e na evolução do pensamento teológico. Durante o pontificado de oito anos, e sobretudo durante as décadas antes da eleição pontifícia, o alemão Joseph Ratzinger foi, na sua essência, um professor — e um dos maiores teólogos católicos do século XX.

Ordenado padre em 1951 (no mesmo dia que o irmão Georg, que seguiu o caminho da música sacra), Joseph Ratzinger dedicou-se desde o início da sua vida religiosa ao ensino e à investigação no campo da teologia. Primeiro na escola de Frisinga onde tinha sido aluno, depois no ensino superior nas cidades alemãs de Frisinga, Bona, Münster e Tubinga. Em 1969, mudou-se para a Universidade de Ratisbona, onde ensinou Dogmática, e a partir daí a sua atividade científica intensificou-se, levando-o a ocupar cargos na Comissão Teológica Internacional — a que viria a presidir anos depois, já como membro da Cúria Romana.

O Papa emérito Bento XVI com o Papa Francisco, que lhe sucedeu após a renúncia em 2013

L'OSSERVATORE ROMANO/EPA

Ao longo do percurso académico, durante o qual publicou dezenas de relevantes contributos para a teologia católica contemporânea, cruzou-se com um punhado de alunos portugueses, que o recordaram — em vários testemunhos, entrevistas e conferências nos últimos anos — como “um excelente professor” e “um grande teólogo”, mas próximo dos estudantes e capaz de traduzir a teologia para uma “linguagem muito acessível e muito bela”.

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Cardeal António Marto: “Era uma delícia escutá-lo”

Um dos alunos portugueses de Ratzinger foi o cardeal António Marto, antigo bispo de Leiria-Fátima. Numa entrevista de vida ao Observador em 2017, Marto lembrou esse episódio da sua vida, na década de 1970. “Eu nessa altura já tinha feito a licenciatura e estava a fazer o currículo para o doutoramento. Ele veio dar um curso intensivo sobre a Eucaristia, ainda me recordo. Como era famoso, toda a gente gosta de ser aluno de um professor com fama, e como eu sabia alemão — o curso era em alemão — inscrevi-me e frequentei as aulas dele também”, contou o cardeal.

“Era de facto uma delícia escutá-lo, era um homem que dizia as verdades profundas numa linguagem muito acessível e muito bela. Depois, era muito acessível, muito delicado, muito atencioso. Nos intervalos de aula, pedíamos um colóquio e ele acedia”, acrescentou o bispo emérito de Leiria-Fátima.

Entre 1970 e 1977, António Marto viveu em Roma para estudar Teologia na Universidade Gregoriana. Foi lá que o acaso o fez cruzar-se com Ratzinger. Quando o Colégio Português, onde vivia, foi vendido, António Marto e os colegas tiveram de procurar alojamento individualmente enquanto não era construída uma nova casa para os portugueses. Por saber falar alemão, bateu à porta do Colégio Alemão — onde Ratzinger se alojava nas deslocações a Roma.

"Era um homem que dizia as verdades profundas numa linguagem muito acessível e muito bela"
Cardeal António Marto, bispo de Leiria-Fátima

Um dia, quando preparava a tese de doutoramento — sobre o Concílio Vaticano II —, decidiu pedir ajuda a Ratzinger, que nos anos 60 tinha servido como perito nos trabalhos do concílio que revolucionou a Igreja Católica. “Um dia pedi-lhe um colóquio e ele dignou-se vir ao meu quarto”, contou Marto ao Observador. “No meu quarto existia um piano de colégio e quando ele entrou a primeira coisa que fez foi sentar-se ao piano e tocar. Depois atendeu-me. Era por causa do tema da tese, e como ele tinha sido perito no Concílio, quis fazer algumas interrogações para que ele me esclarecesse.”

“Ele tinha duas coisas. Quem o conhecia de perto, ficava encantado com o trato fino, delicado, atencioso e muito próximo, acessível”, descreveu António Marto. “Até mesmo depois de Papa tinha aspetos de ternura, o que é engraçado. Mas, por outro lado, mostrava uma certa timidez, sobretudo diante das multidões, talvez. Era mais próximo no trato pessoal, do que relativamente às multidões. Mas era um homem que não tinha sede de poder, como alguma vez se passou a imagem.”

Ouça aqui o episódio extra do podcast “A História do Dia” sobre o Papa Bento XVI.

Extra.Bento XVI, o Papa que mudou a História dos Papas

Numa conferência realizada em 2010 na Universidade Católica a propósito da visita de Bento XVI a Portugal, António Marto lembrou o professor Ratzinger e a sua “teologia sempre em diálogo com a cultura: com a sabedoria grega, concretamente platónica; com a filosofia medieval e com o pensamento moderno e contemporâneo”.

Marto e Ratzinger já só viriam a reencontrar-se quase trinta anos depois, em 2000. Nessa altura, Marto era diretor da Faculdade de Teologia da Universidade Católica do Porto e Ratzinger já ocupava um dos cargos mais altos na hierarquia católica: era prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé e braço direito do Papa João Paulo II. Ao Diário de Notícias, o cardeal contou que quis convidar Ratzinger a participar numas jornadas de teologia organizadas pela universidade. Queria aproveitar a tal fama de Ratzinger para que o evento chegasse a mais pessoas.

O cardeal António Marto foi aluno de Ratzinger num curso intensivo em Roma e pediu-lhe ajuda para a tese de doutoramento

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

“Fui a Roma, pedi-lhe uma audiência para o convidar a vir a Portugal participar numas jornadas de teologia. Precisava de um cartaz que atraísse as pessoas”, disse António Marto numa entrevista ao DN há 12 anos. Ratzinger aceitou e, em 2001, veio a Portugal para visitar o norte do país. No Porto, falou para uma sala com 700 pessoas — num português claro.

Em 2010, o ex-aluno de Ratzinger viria a ter um privilégio raro: lado a lado com o Papa Bento XVI, percorreu o santuário de Fátima cheio de peregrinos no famoso papamóvel. Depois desse momento, que António Marto recordou ao Observador como “um espetáculo”, o bispo de Fátima ouviu da boca de Bento XVI uma frase que, garante, nunca esquecerá: “Não há nada como Fátima em toda a Igreja Católica no mundo”.

Padre António Vaz Pinto: “Foi meu professor e meu companheiro de autocarro”

Outro dos alunos portugueses de Ratzinger foi o padre jesuíta António Vaz Pinto, também na década de 1970. Porém, ao contrário do cardeal Marto, o padre Vaz Pinto não se cruzou com Ratzinger em Roma, mas na Alemanha, onde o então sacerdote e professor ensinava habitualmente.

Depois de ter estudado durante a juventude no colégio de São João de Brito, em Lisboa, Vaz Pinto chegou a estudar Direito. No quarto ano do curso, abandonou a faculdade para se juntar à Companhia de Jesus. Em 1965, começou o noviciado em Braga, o primeiro passo de um longo percurso de formação, habitual entre os jesuítas. Depois de uma primeira licenciatura em Filosofia, em Portugal, em 1970, Vaz Pinto mudou-se para a Alemanha para estudar Teologia, tendo concluído a segunda licenciatura em 1975, em Frankfurt.

"Três vezes por semana, íamos os dois a conversar no autocarro, do centro da cidade para a Faculdade de Teologia"
Padre António Vaz Pinto, ex-aluno de Joseph Ratzinger

Foi durante os cinco anos que passou na Alemanha que se deu o seu encontro com Ratzinger. Numa entrevista em 2018 à Angelus TV, Vaz Pinto, que morreu em julho de 2022, lembrou esse episódio da sua vida. “Tive um privilégio raro: foi meu professor num semestre que passei em Regensburg [Ratisbona], um famoso padre Ratzinger. O Papa Bento XVI”, contou o jesuíta. “Foi meu professor e meu companheiro de autocarro. Três vezes por semana, íamos os dois a conversar no autocarro, do centro da cidade para a Faculdade de Teologia.”

“Fazíamos o percurso a conversar e a falar sobre todos os assuntos”, detalhou Vaz Pinto numa entrevista ao Correio da Manhã em 2006, na qual caracterizou o professor Ratzinger como “uma pessoa muito competente e conhecedora, que não se exaltava”.

À Angelus TV, Vaz Pinto recordou-o como “um excelente professor”. Nas palavras do jesuíta, o Papa emérito Bento XVI era “muito bom, muito calmo, muito sereno, com aquele toque de timidez que é característico dele, muito arguto, muito respeitador, muito apreciado, e extremamente conhecedor”. “Era um grande teólogo”, acrescentou o sacerdote português, salientando a “inteligência e cultura” de Ratzinger.

Ratzinger foi professor de Vaz Pinto na cadeira de Eclesiologia em 1973, detalhou o jesuíta na mesma conferência de 2010, durante a qual lembrou o Papa emérito como “um homem muito culto, afável e tímido, mas com uma visão muito larga da realidade”. À agência Lusa, Vaz Pinto sublinhou também como Ratzinger era “muito delicado com os alunos, atento às suas dúvidas e procurando dar resposta às questões levantadas”.

O padre António Vaz Pinto fez um semestre na Universidade de Ratisbona na década de 1970, durante o qual foi aluno de Ratzinger

PAULO CARRIÇO/LUSA

Em 2013, o ex-aluno elogiou a “coerência” de Bento XVI ao renunciar à liderança da Igreja Católica. “Se há tanto de positivo no ir até ao fim de João Paulo II, também há muitíssimo de positivo na decisão lúcida e consciente de Bento XVI de dizer que chegou ao termo a sua missão”, disse Vaz Pinto à Renascença. “Há uma certa coerência que aqui se manifesta, porque a Igreja solicita que os bispos, aos 75 anos, solicitem a sua resignação.

“Ele foi eleito com 78 e agora fez 85 portanto se é muito duro o trabalho de um bispo diocesano, muito mais o de Papa, com toda a responsabilidade, complexidade e universalidade que tem nas costas, por isso nesse sentido tem toda a lógica que ele, se sente diminuir as forças, diga ‘então outro que venha’”, acrescentou o padre jesuíta.

Padre Henrique Noronha Galvão, o único português nos “Círculos Ratzinger”

O sacerdote português Henrique Noronha Galvão — que morreu em 2017 aos 80 anos — foi, provavelmente, o mais privilegiado dos portugueses que passaram pelas salas de aula de Ratzinger. Depois de se ter licenciado em Lisboa, o português mudou-se no final da década de 1960 para a Alemanha para fazer um doutoramento em Teologia Dogmática na Universidade de Ratisbona. Ali, viria a integrar um grupo muito seleto: o dos alunos cuja tese de doutoramento foi orientada por Ratzinger.

Numa entrevista ao Correio da Manhã em 2006, Henrique Noronha Galvão lembrou a primeira vez que leu o livro Introdução ao Cristianismo, uma das obras centrais do Papa emérito Bento XVI, publicado pela primeira vez em 1968. “Quando li o livro achei realmente que aquele era o teólogo com quem gostaria de trabalhar”, disse o sacerdote. Pouco tempo depois, o desejo viria a concretizar-se e Ratzinger era o seu orientador de doutoramento.

As relações que ele mantinha com os alunos eram as normais de um professor com os seus alunos, ele próprio organizava um seminário só com os seus doutorandos todos os 15 dias e depois tinha connosco uma relação muito próxima, muito simples”, disse Noronha Galvão na mesma entrevista. “Ter sido aluno do Papa é um orgulho, mas também uma grande responsabilidade, estão sempre à espera de mais.”

"Ter sido aluno do Papa é um orgulho, mas também uma grande responsabilidade, estão sempre à espera de mais"
Padre Henrique Noronha Galvão, ex-aluno de Joseph Ratzinger

Em declarações à agência Lusa em 2010, o sacerdote confirmou a fama do professor relatada pelo cardeal Marto: “As aulas de Ratzinger eram sempre dadas num grande anfiteatro, porque havia sempre muita gente que queria assistir”.

Os encontros entre Ratzinger e os seus alunos de doutoramento viriam a manter-se, mesmo quando o padre foi nomeado bispo e o ensino deixou de ser a sua principal ocupação. “Logo que foi nomeado arcebispo de Munique começou a fazer reuniões com os antigos doutorandos durante as férias”, lembrava o padre português ao Correio da Manhã. Já nessa altura, os alunos anteviam um futuro luminoso para Ratzinger: “Quando foi nomeado arcebispo de Munique (em 1977), eu ainda frequentava a faculdade e os alunos comentavam que ele tinha pose de Papa”.

De Munique, Ratzinger seguiu para Roma por nomeação de João Paulo II. Em 2005, a profecia dos seus estudantes concretizou-se. Mas a tradição dos encontros com os ex-alunos não terminou com a eleição papal. Aliás, os encontros — os “Círculos Ratzinger” — ganharam contornos formais ao abrigo da Fundação Ratzinger e passaram a integrar a agenda oficial do Papa.

Todos os anos, entre o final de agosto e o início de setembro, o Papa Bento XVI interrompia os seus compromissos habituais e dirigia-se à residência de verão papal, em Castel Gandolfo, para se encontrar com o seu grupo de ex-alunos, cujas dissertações de doutoramento Ratzinger orientou na academia alemã nas décadas de 60 e 70 — na sua grande maioria importantes nomes da teologia dos dias de hoje. Do seleto grupo fazia parte apenas um português: Henrique Noronha Galvão.

O padre Henrique Noronha Galvão, que morreu em 2017, foi o único português a integrar o círculo de ex-alunos de doutoramento de Ratzinger, que se reunia anualmente

Fotografia retirada do site do Patriarcado de Lisboa

Nesses encontros, além das discussões teológicas de alto nível, com o Papa Bento XVI a querer ouvir o pensamento dos seus ex-alunos sobre cada momento da Igreja, o grupo aproveitava também para matar saudades dos tempos da academia na Alemanha e para contar novidades. “Está sempre muito curioso sobre o que se passa com cada um de nós e nos países a que pertencemos. São relações com muita simplicidade e afabilidade”, contava o padre português em 2006.

Essa proximidade valeu-lhe um privilégio em 2009: foi o primeiro português a saber que Bento XVI visitaria Portugal em maio do ano seguinte. O anúncio foi feito no encontro de ex-alunos naquele verão. Sobre aqueles encontros, Henrique Noronha Galvão descreveu-os à agência Lusa como “uma distração” para Bento XVI, que tinha ali um espaço para voltar a ser “o antigo professor”.

Ratzinger não tinha “o carisma das multidões como tinha João Paulo II”, disse o padre português na mesma ocasião. Era, pelo contrário, “um homem de estudo, de gabinete e da proximidade”. Por isso, quando estava com um grupo pequeno, estava “à vontade” e até com “muito sentido de humor”.

 
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