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A 5 de março o Presidente francês fez um discurso à nação. Não foi sobre qualquer crise política interna, sobre o Orçamento do Estado, nem sobre a reforma das pensões. Foi sobre política externa e o papel de França na União Europeia e no mundo, num contexto de guerra em território ucraniano e uma nova presidência Trump.
Nesse discurso, Emmanuel Macron foi taxativo: “Perante este mundo de perigos, manter-nos como espectadores seria uma loucura.”
▲ Emmanuel Macron na sua declaração à nação de 5 de março
AFP via Getty Images
Longe vão os tempos do início da guerra na Ucrânia, quando Macron ligava frequentemente a Vladimir Putin e sublinhava a necessidade de “não humilhar a Rússia”. Agora, o Presidente francês mantém uma chamada diária com Volodymyr Zelensky e tem impulsionado a autonomia europeia neste tema face aos Estados Unidos, amparado em grande medida pelo primeiro-ministro britânico Keir Starmer. Prova disso foi a cimeira desta quinta-feira em Paris onde, uma vez mais, reuniu NATO e países europeus para dar força a Volodymyr Zelensky.
Apesar de contar com o apoio de Starmer, o papel principal é de Emmanuel Macron. Com o Reino Unido fora da UE e vários países europeus como Hungria, Itália e Croácia a resistirem a algumas das propostas, Macron é o motor que puxa a locomotiva europeia. Nem Alemanha, nem Comissão Europeia — o político que surge no centro de tudo, a avançar com propostas, é mesmo o Presidente francês. A cimeira de Paris foi só o mais recente exemplo disso.
Sanções à Rússia são para manter (dizem todos menos a Hungria), tropas no terreno são para se enviar (com oposição de croatas e italianos)
Dois principais compromissos resultaram desta última cimeira, com graus de adesão variáveis dos vários presentes: manutenção das sanções europeias à Rússia e criação de uma força militar europeia que dê garantias de segurança à Ucrânia no terreno, após um possível acordo de paz assinado com a Rússia.
A necessidade da primeira medida foi sublinhada pelo chanceler alemão, Olaf Scholz, e pelo chefe de governo britânico, Keir Starmer. “Não faz sentido acabar com as sanções até a paz ser verdadeiramente restaurada e, infelizmente, estamos longe disso”, afirmou Scholz. Starmer reforçou e aproveitou para lançar farpas a Vladimir Putin: “Está claro que a Rússia está a tentar atrasar as coisas, está a fazer jogos. Isso tem de ter consequências”, disse, apresentando logo de seguida uma em concreto: “Tem de haver clareza total de que este não é o momento para levantar sanções. Pelo contrário.”
Aparentemente, essa é uma ideia que conta com amplo consenso europeu — o presidente do Conselho Europeu, António Costa, reforçou isso mesmo um dia antes. O único país dos 27 que tem levantado reservas nessa matéria tem sido a Hungria, embora, até ao momento, tenha sempre acabado por concordar com as sanções aplicadas a nível europeu. Em Bruxelas, já se discutem alternativas caso Viktor Orbán venha a fincar o pé. No último Conselho Europeu, por exemplo, uma declaração foi assinado por 26 dos países, com Budapeste a ficar de fora. “Este é o novo normal”, garantiu uma fonte diplomática europeia ao Politico.
▲ Keir Starmer e Emmanuel Macron têm liderado uma série de cimeiras de apoio à Ucrânia
SOPA Images/LightRocket via Gett
Mais complicada é a segunda proposta do eixo franco-britânico, que se traduz num possível envio efetivo de tropas europeias para solo ucraniano. Macron chama-lhe “a coligação dos disponíveis”, que é como quem diz “daqueles que se quiserem juntar”. O plano, explicou esta quinta-feira em Paris, é enviar tropas “no dia a seguir” a um acordo de paz como uma forma de dar garantias de segurança a Kiev. “Não são forças de manutenção de paz”, “nem forças na linha da frente”, “nem forças que substituam o Exército ucraniano”, explicou. Seriam militares colocados em cidades importantes do país como Lviv ou Odessa, que podem dar apoio em termos de instrução aos ucranianos e funcionar como forças de dissuasão contra a Rússia.
O problema é que, neste momento, não é certo quantos “disponíveis” existem para lá de França e Reino Unido. O Presidente croata, Zoran Milanovic, apressou-se a afirmar esta quinta-feira que “está fora de questão” algum soldado da Croácia ser enviado para a Ucrânia. E não foi o único. Em Itália, já há semanas que é ventilado o descontentamento com a ideia de envio de militares — “Não se enviam tropas como quem envia um fax”, avisou o ministro da Defesa Guido Crosetto, dirigindo-se a Macron.
Esta quinta-feira, a primeira-ministra Giorgia Meloni reforçou que Itália não tem qualquer desejo de participar num contingente militar ucraniano em território ucraniano. E sinalizou a sua oposição à postura de Macron noutra matéria, dizendo “esperar que haja participação de uma delegação norte-americana na próxima reunião de coordenação” — algo que contraria diretamente as iniciativas de Paris e Londres das últimas semanas, que procuram autonomia e distanciamento face à postura de Washington na questão da guerra na Ucrânia.
O tema levanta muitas dúvidas: “Mesmo se inicialmente colocarmos uma espécie de ‘capacetes azuis’ ou forças de treino no ocidente da Ucrânia — digamos, em Lviv —, pode haver um momento em que alguns são mortos por um drone russo. Ou pode haver um avanço russo bem sucedido no leste e criar-se o pânico entre civis. O que fará o Exército britânico nesse momento?”, questiona Andrew Marr, diretor da revista New Statesman.
Os Estados Unidos também têm desvalorizado essa proposta, com o enviado especial de Trump para a Ucrânia e Rússia, Steve Witkoff, a classificá-la como “simplista” e como uma “exibição”.
Mas as críticas não têm feito Macron recuar. Esta quinta-feira, explicou que dentro de “três a quatro semanas” estarão definidas questões mais operacionais e um plano de ação. Sublinhou que é uma força voluntária e que não há qualquer problema em haver países europeus que se colocam de fora — “não precisamos de unanimidade para o fazer”. Relembrou que a Rússia não tem nenhuma palavra a dizer sobre o que acontece em solo ucraniano, mas garantiu que a postura das tropas não será de confrontação com os russos: “É uma abordagem pacifista”, declarou.
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O piscar de olho à China e a necessidade de dar palmadinhas nas costas a Trump
Estas não foram as únicas medidas prometidas na cimeira de Paris desta quinta-feira.
Emmanuel Macron comprometeu-se com mais ajuda militar a Kiev, no valor de dois mil milhões. Questionado sobre se esse não é um compromisso financeiro demasiado elevado para um país como França, que enfrenta grandes dificuldades com a sua dívida pública, o Presidente não desanimou: explicou que será apenas o fornecimento de material que já existe no arsenal francês ou que pode ser produzido pela indústria militar do país (em concreto, mísseis Milan e MICA, sistemas de defesa anti-aérea Mistral, tanques, munições e drones).
A cimeira serviu ainda para Emmanuel Macron explorar outra das suas ideias relativamente a uma resolução para a guerra na Ucrânia: procurar envolver a China e levá-la a pressionar os russos. Em Paris, o Presidente afirmou esperar que “o Presidente Xi tenha um papel muito ativo em ajudar-nos a construir esta paz sólida e duradoura”. Em Pequim, onde está atualmente o ministro dos Negócios Estrangeiros francês, Jean-Noël Barrot, o diplomata foi ainda mais direto: “A China tem um papel em convencer a Rússia a ir à mesa das negociações com propostas sérias e de boa fé”, disse ao lado do homólogo chinês, Wang Yi.
▲ O ministro dos Negócios Estrangeiros francês, Jean-Noël Barrot, com o homólogo chinês, Wang Yi
POOL/AFP via Getty Images
A estratégia de Macron tem claramente três elementos: demonstração de apoio europeu a Kiev (na forma de sanções à Rússia por um lado e no envio de uma força militar, dando aos aliados europeus a opção de se juntarem à opção que lhes for mais confortável); reforço da ajuda militar de França à Ucrânia; e procura de soluções diplomáticas alternativas, com a tentativa de envolvimento da China.
Mas pode este plano resultar se os Estados Unidos de Donald Trump — que mantiveram os europeus à margem na cimeira de Jeddah — insistirem na negociação direta com a Rússia? É difícil. E é por essa razão que Emmanuel Macron não desarma e continua a insistir num quarto ponto: a manutenção de uma relação saudável com o Presidente Trump.
Isso foi imediatamente visível na visita de Estado de Macron a Washington, em fevereiro, em que o Presidente francês tentou manter o equilíbrio de contrariar Trump quando não concordava, mas mantendo o tom afável — “somos amigos pessoais”, chegou a dizer o chefe de Estado francês. Trump parece ter gostado: “O Presidente Macron para mim é um homem muito especial.” Gérard Araud, antigo embaixador francês nos EUA, disse à altura à BFMTV que Macron foi ao país numa “missão impossível”, mas que tinha conseguido sair-se bem.
Agora, o Presidente francês continua consciente da necessidade de não hostilizar Donald Trump. Na véspera da cimeira de quinta-feira, telefonou ao homólogo norte-americano, para evitar que viesse a ser apanhado de surpresa. Uma cortesia que pode fazer a diferença.
Sem Merz nem Von der Leyen com papéis de destaque, o palco é de Macron. E os franceses aprovam
O mesmo ex-embaixador francês em Washington, Gérard Araud, também disse na mesma entrevista que Emmanuel Macron é, neste momento, o único no xadrez europeu que pode assumir este papel: “Os europeus estão muito preocupados e ele foi lá tentar evitar o pior”, resumiu o diplomata. “Ele é o único que consegue fazer isto. Os alemães estiveram em eleições, os britânicos saíram da Europa.”
▲ Emmanuel Macron na Sala Oval com Donald Trump, na sua visita de Estado a Washington
BONNIE CASH / POOL/EPA
Consciente deste vácuo, o Presidente francês posiciona-se e assume a liderança europeia na questão da Ucrânia. Aparentemente está a trabalhar em conjunto com Keir Starmer, mas ambos têm consciência de que, com o Reino Unido fora da UE, o primeiro-ministro britânico não tem o mesmo espaço de manobra. Não por acaso, descreve o Le Monde, “os britânicos praticamente não pestanejaram quando Emmanuel Macron ultrapassou Keir Starmer ao ser recebido por Trump três dias antes, a 24 de fevereiro, muito embora Londres sempre tenha feito gala de que o líder britânico seja o primeiro líder ocidental convidado para a Casa Branca, quando esta tem um novo inquilino.”
Quanto ao resto, Friedrich Merz ainda está a aquecer os motores como chanceler alemão, mas não parece disponível para assumir o mesmo papel de liderança face ao Ucrânia, numa Alemanha historicamente avessa a envolvimentos militares. E, na Comissão Europeia, Ursula von der Leyen parece mais disponível para se posicionar nas questões económicas, como a discussão da questão de tarifas com os EUA.
Sobra Macron, que se tem acomodado a este papel com gosto. O homem que em tempos declarou a NATO como estando em “morte cerebral” é agora o maior defensor da promoção de uma estratégia de defesa europeia perante a “ameaça russa”. No seu discurso à nação no início de março, anunciou mesmo que está disponível a alargar o guarda-chuva nuclear francês ao resto do continente.
O Presidente francês ganha notoriedade fora de portas, mas não parece perder pontos em casa. As sondagens revelam que, após esse discurso, 52% dos espectadores consideraram o discurso “convincente”, 68% mostraram-se a favor de aumentar o orçamento militar e 61% concordou com a ideia de emprestar o guarda-chuva nuclear aos outros europeus.
Mais: um estudo recente revelou que 77% dos inquiridos franceses consideram que a UE agora só pode contar consigo mesma. E, ao mesmo tempo, a taxa de popularidade de Macron — até há pouco tempo tão beliscada pelas eleições vencidas pela Frente Popular de esquerda e por um governo que caiu sem conseguir aprovar o Orçamento do Estado — vai voltando a subir.
Os adversários internos têm dificuldades em enfrentar Macron quando as questões são externas, notava uma fonte próxima do Presidente ao Le Figaro, que recordava como a questão da Ucrânia foi decisiva nas presidenciais de 2022 face a Marine Le Pen. “Toda a gente consegue ver que ele vai fazer o mesmo outra vez. O episódio 1 da segunda temporada começa esta noite às 20h!”, comentava a mesma fonte no preciso dia em que Macron fez o seu grande discurso à nação.
Em França, o papel principal voltou a ser de Emmanuel Macron. No palco europeu também. Não por acaso, na véspera desta cimeira de quinta-feira, Volodymyr Zelensky destacou o Presidente francês na entrevista que deu já em Paris: “A nossa relação vai muito além daquele que normalmente une dois Presidentes”, decretou.