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epaselect epa11989934 French President Emmanuel Macron (L) welcomes Ukrainian President Volodymyr Zelensky (R) upon his arrival at the Elysee Palace in Paris, France, 26 March 2025. French President Emmanuel Macron will host a meeting on Peace and Security in Ukraine with European and International leaders on 27 March 2025 in Paris.  EPA/YOAN VALAT
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YOAN VALAT/EPA

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Farto de ser “espectador”, como Macron assume a dianteira na defesa da Ucrânia

Presidente francês está apostado em liderar resposta europeia à Rússia. Conta com apoio britânico, mas — perante o vazio na Alemanha e alguma oposição interna na UE — o papel principal é dele.

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A 5 de março o Presidente francês fez um discurso à nação. Não foi sobre qualquer crise política interna, sobre o Orçamento do Estado, nem sobre a reforma das pensões. Foi sobre política externa e o papel de França na União Europeia e no mundo, num contexto de guerra em território ucraniano e uma nova presidência Trump.

Nesse discurso, Emmanuel Macron foi taxativo: “Perante este mundo de perigos, manter-nos como espectadores seria uma loucura.”

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▲ Emmanuel Macron na sua declaração à nação de 5 de março

AFP via Getty Images

Longe vão os tempos do início da guerra na Ucrânia, quando Macron ligava frequentemente a Vladimir Putin e sublinhava a necessidade de “não humilhar a Rússia”. Agora, o Presidente francês mantém uma chamada diária com Volodymyr Zelensky e tem impulsionado a autonomia europeia neste tema face aos Estados Unidos, amparado em grande medida pelo primeiro-ministro britânico Keir Starmer. Prova disso foi a cimeira desta quinta-feira em Paris onde, uma vez mais, reuniu NATO e países europeus para dar força a Volodymyr Zelensky.

Apesar de contar com o apoio de Starmer, o papel principal é de Emmanuel Macron. Com o Reino Unido fora da UE e vários países europeus como Hungria, Itália e Croácia a resistirem a algumas das propostas, Macron é o motor que puxa a locomotiva europeia. Nem Alemanha, nem Comissão Europeia — o político que surge no centro de tudo, a avançar com propostas, é mesmo o Presidente francês. A cimeira de Paris foi só o mais recente exemplo disso.

Sanções à Rússia são para manter (dizem todos menos a Hungria), tropas no terreno são para se enviar (com oposição de croatas e italianos)

Dois principais compromissos resultaram desta última cimeira, com graus de adesão variáveis dos vários presentes: manutenção das sanções europeias à Rússia e criação de uma força militar europeia que dê garantias de segurança à Ucrânia no terreno, após um possível acordo de paz assinado com a Rússia.

A necessidade da primeira medida foi sublinhada pelo chanceler alemão, Olaf Scholz, e pelo chefe de governo britânico, Keir Starmer. “Não faz sentido acabar com as sanções até a paz ser verdadeiramente restaurada e, infelizmente, estamos longe disso”, afirmou Scholz. Starmer reforçou e aproveitou para lançar farpas a Vladimir Putin: “Está claro que a Rússia está a tentar atrasar as coisas, está a fazer jogos. Isso tem de ter consequências”, disse, apresentando logo de seguida uma em concreto: “Tem de haver clareza total de que este não é o momento para levantar sanções. Pelo contrário.”

Aparentemente, essa é uma ideia que conta com amplo consenso europeu — o presidente do Conselho Europeu, António Costa, reforçou isso mesmo um dia antes. O único país dos 27 que tem levantado reservas nessa matéria tem sido a Hungria, embora, até ao momento, tenha sempre acabado por concordar com as sanções aplicadas a nível europeu. Em Bruxelas, já se discutem alternativas caso Viktor Orbán venha a fincar o pé. No último Conselho Europeu, por exemplo, uma declaração foi assinado por 26 dos países, com Budapeste a ficar de fora. “Este é o novo normal”, garantiu uma fonte diplomática europeia ao Politico.

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▲ Keir Starmer e Emmanuel Macron têm liderado uma série de cimeiras de apoio à Ucrânia

SOPA Images/LightRocket via Gett

Mais complicada é a segunda proposta do eixo franco-britânico, que se traduz num possível envio efetivo de tropas europeias para solo ucraniano. Macron chama-lhe “a coligação dos disponíveis”, que é como quem diz “daqueles que se quiserem juntar”. O plano, explicou esta quinta-feira em Paris, é enviar tropas “no dia a seguir” a um acordo de paz como uma forma de dar garantias de segurança a Kiev. “Não são forças de manutenção de paz”, “nem forças na linha da frente”, “nem forças que substituam o Exército ucraniano”, explicou. Seriam militares colocados em cidades importantes do país como Lviv ou Odessa, que podem dar apoio em termos de instrução aos ucranianos e funcionar como forças de dissuasão contra a Rússia.

O problema é que, neste momento, não é certo quantos “disponíveis” existem para lá de França e Reino Unido. O Presidente croata, Zoran Milanovic, apressou-se a afirmar esta quinta-feira que “está fora de questão” algum soldado da Croácia ser enviado para a Ucrânia. E não foi o único. Em Itália, já há semanas que é ventilado o descontentamento com a ideia de envio de militares — “Não se enviam tropas como quem envia um fax”, avisou o ministro da Defesa Guido Crosetto, dirigindo-se a Macron.

Esta quinta-feira, a primeira-ministra Giorgia Meloni reforçou que Itália não tem qualquer desejo de participar num contingente militar ucraniano em território ucraniano. E sinalizou a sua oposição à postura de Macron noutra matéria, dizendo “esperar que haja participação de uma delegação norte-americana na próxima reunião de coordenação” — algo que contraria diretamente as iniciativas de Paris e Londres das últimas semanas, que procuram autonomia e distanciamento face à postura de Washington na questão da guerra na Ucrânia.

As críticas não têm feito Macron recuar. Esta quinta-feira, explicou que dentro de “três a quatro semanas” estarão definidas questões mais operacionais e um plano de ação. Sublinhou que é uma força voluntária e que não há qualquer problema em haver países europeus que se colocam de fora — “não precisamos de unanimidade para o fazer”. 

O tema levanta muitas dúvidas: “Mesmo se inicialmente colocarmos uma espécie de ‘capacetes azuis’ ou forças de treino no ocidente da Ucrânia — digamos, em Lviv —, pode haver um momento em que alguns são mortos por um drone russo. Ou pode haver um avanço russo bem sucedido no leste e criar-se o pânico entre civis. O que fará o Exército britânico nesse momento?”, questiona Andrew Marr, diretor da revista New Statesman.

Os Estados Unidos também têm desvalorizado essa proposta, com o enviado especial de Trump para a Ucrânia e Rússia, Steve Witkoff, a classificá-la como “simplista” e como uma “exibição”.

Mas as críticas não têm feito Macron recuar. Esta quinta-feira, explicou que dentro de “três a quatro semanas” estarão definidas questões mais operacionais e um plano de ação. Sublinhou que é uma força voluntária e que não há qualquer problema em haver países europeus que se colocam de fora — “não precisamos de unanimidade para o fazer”. Relembrou que a Rússia não tem nenhuma palavra a dizer sobre o que acontece em solo ucraniano, mas garantiu que a postura das tropas não será de confrontação com os russos: “É uma abordagem pacifista”, declarou.

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O piscar de olho à China e a necessidade de dar palmadinhas nas costas a Trump

Estas não foram as únicas medidas prometidas na cimeira de Paris desta quinta-feira.

Emmanuel Macron comprometeu-se com mais ajuda militar a Kiev, no valor de dois mil milhões. Questionado sobre se esse não é um compromisso financeiro demasiado elevado para um país como França, que enfrenta grandes dificuldades com a sua dívida pública, o Presidente não desanimou: explicou que será apenas o fornecimento de material que já existe no arsenal francês ou que pode ser produzido pela indústria militar do país (em concreto, mísseis Milan e MICA, sistemas de defesa anti-aérea Mistral, tanques, munições e drones).

A cimeira serviu ainda para Emmanuel Macron explorar outra das suas ideias relativamente a uma resolução para a guerra na Ucrânia: procurar envolver a China e levá-la a pressionar os russos. Em Paris, o Presidente afirmou esperar que “o Presidente Xi tenha um papel muito ativo em ajudar-nos a construir esta paz sólida e duradoura”. Em Pequim, onde está atualmente o ministro dos Negócios Estrangeiros francês, Jean-Noël Barrot, o diplomata foi ainda mais direto: “A China tem um papel em convencer a Rússia a ir à mesa das negociações com propostas sérias e de boa fé”, disse ao lado do homólogo chinês, Wang Yi.

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▲ O ministro dos Negócios Estrangeiros francês, Jean-Noël Barrot, com o homólogo chinês, Wang Yi

POOL/AFP via Getty Images

A estratégia de Macron tem claramente três elementos: demonstração de apoio europeu a Kiev (na forma de sanções à Rússia por um lado e no envio de uma força militar, dando aos aliados europeus a opção de se juntarem à opção que lhes for mais confortável); reforço da ajuda militar de França à Ucrânia; e procura de soluções diplomáticas alternativas, com a tentativa de envolvimento da China.

Mas pode este plano resultar se os Estados Unidos de Donald Trump — que mantiveram os europeus à margem na cimeira de Jeddah — insistirem na negociação direta com a Rússia? É difícil. E é por essa razão que Emmanuel Macron não desarma e continua a insistir num quarto ponto: a manutenção de uma relação saudável com o Presidente Trump.

Isso foi imediatamente visível na visita de Estado de Macron a Washington, em fevereiro, em que o Presidente francês tentou manter o equilíbrio de contrariar Trump quando não concordava, mas mantendo o tom afável — “somos amigos pessoais”, chegou a dizer o chefe de Estado francês. Trump parece ter gostado: “O Presidente Macron para mim é um homem muito especial.” Gérard Araud, antigo embaixador francês nos EUA, disse à altura à BFMTV que Macron foi ao país numa “missão impossível”, mas que tinha conseguido sair-se bem.

Agora, o Presidente francês continua consciente da necessidade de não hostilizar Donald Trump. Na véspera da cimeira de quinta-feira, telefonou ao homólogo norte-americano, para evitar que viesse a ser apanhado de surpresa. Uma cortesia que pode fazer a diferença.

Sem Merz nem Von der Leyen com papéis de destaque, o palco é de Macron. E os franceses aprovam

O mesmo ex-embaixador francês em Washington, Gérard Araud, também disse na mesma entrevista que Emmanuel Macron é, neste momento, o único no xadrez europeu que pode assumir este papel: “Os europeus estão muito preocupados e ele foi lá tentar evitar o pior”, resumiu o diplomata. “Ele é o único que consegue fazer isto. Os alemães estiveram em eleições, os britânicos saíram da Europa.”

epa11922224 US President Donald Trump (R) meets with French President Emmanuel Macron (L) in the Oval Office at the White House in Washington, DC, USA, 24 February 2025.  EPA/BONNIE CASH / POOL

▲ Emmanuel Macron na Sala Oval com Donald Trump, na sua visita de Estado a Washington

BONNIE CASH / POOL/EPA

Consciente deste vácuo, o Presidente francês posiciona-se e assume a liderança europeia na questão da Ucrânia. Aparentemente está a trabalhar em conjunto com Keir Starmer, mas ambos têm consciência de que, com o Reino Unido fora da UE, o primeiro-ministro britânico não tem o mesmo espaço de manobra. Não por acaso, descreve o Le Monde, “os britânicos praticamente não pestanejaram quando Emmanuel Macron ultrapassou Keir Starmer ao ser recebido por Trump três dias antes, a 24 de fevereiro, muito embora Londres sempre tenha feito gala de que o líder britânico seja o primeiro líder ocidental convidado para a Casa Branca, quando esta tem um novo inquilino.”

Quanto ao resto, Friedrich Merz ainda está a aquecer os motores como chanceler alemão, mas não parece disponível para assumir o mesmo papel de liderança face ao Ucrânia, numa Alemanha historicamente avessa a envolvimentos militares. E, na Comissão Europeia, Ursula von der Leyen parece mais disponível para se posicionar nas questões económicas, como a discussão da questão de tarifas com os EUA.

Sobra Macron, que se tem acomodado a este papel com gosto. O homem que em tempos declarou a NATO como estando em “morte cerebral” é agora o maior defensor da promoção de uma estratégia de defesa europeia perante a “ameaça russa”. No seu discurso à nação no início de março, anunciou mesmo que está disponível a alargar o guarda-chuva nuclear francês ao resto do continente.

O Presidente francês ganha notoriedade fora de portas, mas não parece perder pontos em casa. As sondagens revelam que, após esse discurso, 52% dos espectadores consideraram o discurso “convincente”, 68% mostraram-se a favor de aumentar o orçamento militar e 61% concordou com a ideia de emprestar o guarda-chuva nuclear aos outros europeus.

Os adversários internos têm dificuldades em enfrentar Macron quando as questões são externas, notava uma fonte próxima do Presidente ao Le Figaro, que recordava como a questão da Ucrânia foi decisiva nas presidenciais de 2022 face a Marine Le Pen. “Toda a gente consegue ver que ele vai fazer o mesmo outra vez. O episódio 1 da segunda temporada começa esta noite às 20h!”, comentava a mesma fonte.

Mais: um estudo recente revelou que 77% dos inquiridos franceses consideram que a UE agora só pode contar consigo mesma. E, ao mesmo tempo, a taxa de popularidade de Macron — até há pouco tempo tão beliscada pelas eleições vencidas pela Frente Popular de esquerda e por um governo que caiu sem conseguir aprovar o Orçamento do Estado — vai voltando a subir.

Os adversários internos têm dificuldades em enfrentar Macron quando as questões são externas, notava uma fonte próxima do Presidente ao Le Figaro, que recordava como a questão da Ucrânia foi decisiva nas presidenciais de 2022 face a Marine Le Pen. “Toda a gente consegue ver que ele vai fazer o mesmo outra vez. O episódio 1 da segunda temporada começa esta noite às 20h!”, comentava a mesma fonte no preciso dia em que Macron fez o seu grande discurso à nação.

Em França, o papel principal voltou a ser de Emmanuel Macron. No palco europeu também. Não por acaso, na véspera desta cimeira de quinta-feira, Volodymyr Zelensky destacou o Presidente francês na entrevista que deu já em Paris: “A nossa relação vai muito além daquele que normalmente une dois Presidentes”, decretou.

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