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O presidente da Assembleia da República contorna o tema da sucessão de Costa no PS, mas aponta que não há só Medina e Pedro Nuno, mas também algumas mulheres.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

O presidente da Assembleia da República contorna o tema da sucessão de Costa no PS, mas aponta que não há só Medina e Pedro Nuno, mas também algumas mulheres.

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Ferro Rodrigues: “Não será de Belém que virão os principais problemas para este Governo” /premium

Presidente da AR já meteu papéis para a reforma e quer gozá-la depois deste mandato, diz em entrevista ao Observador. E acredita que não será de Belém que virão os maiores problemas para o Governo.

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Não é um “otimista a nível geral”, deve ser consequência dos 70 anos de sócio do Sporting, graceja Eduardo Ferro Rodrigues que veio a Alvalade ser entrevistado pelo Observador, no programa “Sob Escuta” emitido na rádio. Está pronto para praticar a reforma, cujos papéis já meteu há anos, e anuncia que é isso mesmo que fará depois de concluir o mandato do presidente da Assembleia da República. Tem “a certeza absoluta” que será o último cargo político que desempenhará.

É pelo cumprimento do tempo total dos mandatos e é esse mesmo conselho — ou quase aviso — que deita a António Costa, um político que não se “espantaria” de ver, “a médio prazo”, a ocupar um cargo europeu. Antes “deve cumprir o mandato” de primeiro-ministro”, argumenta. E também gostaria de ver Centeno “mais tempo” nas Finanças.

Continuando em mandatos, mantém que gostaria de ver Marcelo Rebelo de Sousa renovar o seu na Presidência da República e que o PS deve apoiá-lo mesmo que se perspetive um segundo mandato presidencial mais duro que o primeiro. É isso que defenderia hoje, se o partido debatesse o assunto.

Também fala do Sporting e de justiça e do caso Tancos, que preferia não voltar a ver tratado em comissão de inquérito — como quer o CDS — enquanto o processo decorrer na justiça. Não mostra grande receio com a entrada de discursos mais radicais no Parlamento a que volta a presidir na nova legislatura, diz que cada “novo partido que aparece acha que tem lições a dar a toda a gente. Depois ver-se-á”. É precisamente pelo novo quadro parlamentar que a conversa começa.

[Veja aqui a entrevista completa a Ferro Rodrigues:]

Esta é a legislatura com mais partidos no hemiciclo, com o Chega, Iniciativa Liberal e Livre a conseguirem eleger. Está otimista com a entrada destes novos partidos no Parlamento? Destes partidos em particular
Não é um problema de estar otimista ou pessimista, é um problema de aceitar aquilo que foi o desígnio do eleitorado. O eleitorado quis, havia mais partidos que não chegaram à possibilidade de ter qualquer deputado, o eleitorado escolheu que aqueles partidos tivessem um só representante e, portanto, a Assembleia da República tem que se adaptar a essas circunstâncias

Mas tem algum receio em particular quando olha para esta geometria?
Eu estou muito habituado a estar no debate político, há mais de 50 anos e, portanto, convivo bem com a diversidade e mesmo com algum radicalismo, só não convivo bem com má criação e com a utilização da mentira como instrumento político, mas esperamos que isso não venha a acontecer.

Isso é um receio que tem para esta legislatura?
É um receio que tenho sempre porque isso não é exclusivo deste ou daquele.

Sobre o Chega, já antevia a entrada de um partido deste género no Parlamento?
Não, penso que durante muito tempo éramos aliás uma exceção na regra europeia. Os partidos com aquele tipo de conotação tinham representação em praticamente todos os parlamentos da União Europeia exceto em Portugal. Aconteceu agora e vamos ver como é que as coisas se vão passar.

“Reforma do sistema político é absolutamente importante e, mais dia menos dia, vai ser necessário levá-la à prática”

Como classifica o Chega do ponto de vista ideológico?
É um partido que está no extremo da direita, isso parece-me óbvio. Se é um partido que respeita as regras democráticas ou não é uma coisa que vamos ver pela prática e pelo tipo de intervenção  que será feito dentro e fora do Parlamento.

Esta representação parlamentar de um partido de extrema-direita preocupa-o? Na Europa há esse crescimento, em Espanha o Vox está a ganhar terreno. Esse contágio para Portugal pode acontecer? Como o classifica?
A situação espanhola é muito diferente da portuguesa. Aquilo que faz o crescimento da extrema-direita em Espanha é fundamentalmente a questão dos nacionalismos espanhóis e do facto de a Espanha ter em si várias nações com aspirações a mais do que a autonomia e haver uma contracorrente muito centralista em relação a isso em que algum saudosismo em relação ao passado se mistura. Portugal não tem esses problemas.

Em entrevista à rádio Observador, Ferro Rodrigues garante que este mandato à frente do Parlamento será o último cargo político que ocupa

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Não teme que isso possa acontecer assim?
Somos todos portugueses, não temos problemas de nacionalidades, não penso que seja por uma questão de contágio. O que eu penso é que todos os democratas devem perceber que estes fenómenos também acontecem porque houve muita gente que ficou para trás no processo de globalização, e mesmo no processo de integração europeia, e que é muito fácil hoje em dia, esgrimindo um pouco com tudo e com o seu contrário culpabilizar as instituições, culpabilizar a globalização, culpabilizar sobretudo a União Europeia e não é por acaso que, normalmente, esses partidos são anti-europeístas. Aqui não se percebe muito bem ainda qual é a matriz ideológica do partido  de que falou e, portanto, vamos ver com a evolução dos acontecimentos e dos discursos como é que as coisas se vão passar.

Acha que há alguma responsabilidade dos chamados partidos tradicionais em fenómenos como este? De não terem sido capazes de dar algumas respostas que os eleitores precisavam?
Sim, os partidos podiam ter dado mais respostas, podiam ter cometido menos erros, mas há situações que são situações objetivas e que não dependem apenas da ação política. Recordo que a construção do Euro foi uma construção incompleta e que levou a que nós em Portugal tivéssemos sofrido bastante com a primeira grande crise do Euro que foi aquela que se verificou a partir de 2007. O Euro foi construído de tal maneira que é um grande benefício para as grandes economias, sobretudo a economia alemã e é uma situação muito mais difícil, sobretudo em momentos de crise para as economias com maiores vulnerabilidade e fragilidades como é a portuguesa e, portanto, houve aqui uma situação durante anos de grande sacrifício ao nível social e de muita fraqueza económica e financeira e é evidente que o populismo também vive e se alimenta dessas situações. Há uma parte que é uma parte objetiva e que não tem que ver — quaisquer que fossem as reações dos outros partidos — isso acabaria por acontecer.

“Não me parece que houvesse um excesso de masculinidade no Parlamento”

Joacine Katar Moreira assumiu a sua eleição como um sinal de amadurecimento democrático dizendo que se inaugurou uma nova era no ambiente institucional português em que a AR deixou de ser apenas frequentada por elites e que tinha chegado para fazer o combate à masculinidade no Parlamento — estou a citar —. Acha que estes problemas estão bem identificados? São problemas de que o Parlamento sofre?
[Risos] Não, não. Não me parece que houvesse um excesso de masculinidade no Parlamento, mas cada deputado está livre de se considerar como o que faz a diferença. Penso que todos esses deputados acham que fazem a diferença. A senhora por causa da masculinidade e por causa, enfim. Sobre as elites, há muitos anos que o Parlamento é um Parlamento sobretudo da classe média, não é propriamente um Parlamento de elites. Penso que não é.

Portanto, não se revê nesta caracterização?
Não, mas admito que cada um que entre para o Parlamento com o entusiasmo de ser o primeiro representante de um novo partido que aparece ache que tem lições a dar a toda a gente e que vai mudar tudo e que tudo muda com a sua presença. Depois ver-se-á daqui a um ano e meio, dois anos, qual é o balanço que se faz dessa influência nova no Parlamento.

Teve tempo de acompanhar a polémica do assessor de saias?
Não dei por nada, vi um senhor que estava junto da deputada quando a fui cumprimentar, mas não estava de saias, estava de calças, era outro senhor.

"Pelo menos cerca de metade da bancada do PSD terá votado em mim para presidente da Assembleia da República, o que significa o reconhecimento do papel independente que eu procurei desempenhar em toda a legislatura"

Disse numa entrevista que a sua eleição como presidente da Assembleia da República foi o primeiro resultado de um novo acordo político no Parlamento. Estava a referir-se à legislatura anterior porque nesta o PS já não tem o acordo político e nem sequer se mostrou disponível para assinar nenhum acordo com outros partidos. António Costa fez bem?
Vamos começar pelo princípio. Efetivamente quando fui eleito presidente do Parlamento em outubro de 2015 convém não esquecer que o Presidente da República era ainda o professor Cavaco Silva e o primeiro-ministro empossado era o Dr. Passos Coelho e, portanto, não havia ainda nenhum acordo assinado entre as diversas forças políticas que depois apoiaram o governo de António Costa e, portanto, tratou-se de uma eleição que não foi nas condições mais simples. Em voto secreto tudo era possível naquela eleição e foi um momento muito importante porque mostrou que mesmo sem acordo escrito era possível ter um primeiro resultado tangível que era a eleição do presidente da Assembleia da República.

Na altura temeu mesmo poder não ser eleito? Havia esse receio?
Sim, é evidente. Não havia nenhum tipo de contacto preferencial com as bancadas do PCP e do Bloco de Esquerda e d’Os Verdes.

"Foi com muita alegria e satisfação que vi que pelo menos cerca de metade da bancada do PSD terá votado em mim para presidente da Assembleia da República"

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Mas foi o primeiro sinal de que havia ali uma maioria de esquerda que funcionava.
O próprio Partido Socialista também tinha eventualmente outros candidatos em vista, e portanto não é possível contar sempre com 100% de votos das bancadas do PS em votos secretos. Aquilo que aconteceu foi um exemplo e foi realmente o primeiro momento. Agora, eu devo dizer que esta eleição, há pouco tempo, no dia 25 de outubro, foi uma eleição, para mim, muito significativa e muito reconfortante, porque depois de um começo de legislatura anterior em que houve uma tensão muito grande entre o presidente da Assembleia da República, devido às condições novas em que foi eleito, e a oposição de direita, nomeadamente o PSD, foi com muita alegria e satisfação que vi que pelo menos cerca de metade da bancada do PSD terá votado em mim para presidente da Assembleia da República, o que significa o reconhecimento do papel independente que eu procurei desempenhar em toda a legislatura, e que fui ganhando essa perspetiva por parte dos partidos da oposição à medida que a legislatura se foi desenvolvendo. Mesmo aquele incidente final com a senhora deputada ainda líder do CDS-PP foi um incidente que me parece que correu mal fundamentalmente ao CDS-PP e não ao presidente da Assembleia da República.

Mas, quando fala desses momentos de tensão iniciais da legislatura — já recordou, aliás, ataques muito fortes de que foi alvo em entrevistas anteriores —, admite que em algum momento possa ter sido menos imparcial do que era suposto no cargo de presidente da Assembleia da República?
Não, não. Tive sempre uma imparcialidade total. Mesmo nos momentos em que houve algum confronto e alguma divergência, foi uma divergência em que eu estive sempre suportado pela posição constitucional. A posição constitucional e a posição regimental era a minha. Por exemplo, quando se tratou do primeiro inquérito à Caixa Geral de Depósitos, que houve uma forma de colocar o inquérito que era totalmente inconstitucional, que eu mandei para trás e depois foi revista essa formulação, e acabou por se desenvolver, com toda a normalidade, o trabalho da comissão de inquérito. Agora, evidentemente que eu não posso ser pressionável para fazer coisas que estejam foram do quadro da Constituição.

E acha que era isso que o CDS pretendia quando fazia aquelas críticas à condução dos trabalhos? Era pressioná-lo de alguma maneira?
Isso aí já era uma segunda parte, uma segunda derivada da questão. Não era só o CDS. Houve muitos deputados e deputadas do PSD, da última fila, que praticamente interrompiam de cinco em cinco minutos os trabalhos para protestar contra esta ou aquela decisão da mesa. Mas a mesa também tinha pessoas do PSD e do CDS, com quem, aliás, mantive sempre uma grande solidariedade. Acho que todos saíram, mesmo aquele que saíram do Parlamento têm uma excelente relação comigo. Posso dizer, por exemplo, pessoas como os antigos líderes da bancada do PSD. O Luís Montenegro e o Hugo Soares têm uma excelente relação pessoal comigo depois de tudo isso, portanto isso é muito reconfortante, porque na política as pessoas também vão aprendendo com os factos e com os erros.

“Desde que haja uma abstenção dos partidos mais à esquerda, todas as leis e os orçamentos passam”

Há pouco recuou a 2015 para contar a história de início e acabou por não responder ao fim da história, que era a questão do acordo escrito. António Costa fez bem ou não?
Como sabe, eu não estive envolvido — nem nessa altura nem nesta — em nenhuma negociação inter-partidária, mas aquilo que me pareceu por aquilo que ouvi das intervenções do secretário-geral e primeiro-ministro do Partido Socialista é que ele tentou que houvesse um acordo mais explícito, mas a partir do momento em que houve um partido, que foi o PCP, que disse definitivamente que não queria fazer nenhum acordo escrito e que se veria caso a caso como é que era a negociação, orçamento a orçamento, que o primeiro-ministro achou por bem não selecionar apenas o Bloco de Esquerda para um acordo escrito. É a análise que ele faz sobre a necessidade de ter um relacionamento ao mesmo nível com todos os partidos que apoiaram o Governo do PS nos momentos decisivos durante a legislatura anterior, e eu compreendo.

Ferro Rodrigues vê António Costa a ocupar um cargo internacional, mas só depois de cumprir este mandato até ao fim

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E é mais fácil assim, no Parlamento e com este desenho parlamentar, conseguir os acordos necessários, por exemplo, para a aprovação do Orçamento do Estado, já que o PS não tem maioria?
Como lhe digo, não estive em nenhuma negociação, mas em todos os Orçamentos do Estado, mesmo na legislatura anterior, houve sempre uma situação em que os parceiros do PS começaram por fazer grandes exigências que pareciam levar a que fosse impossível construir um orçamento apoiado por eles. Mas, no fim, e graças ao trabalho dos negociadores e dos dois secretários de Estado que estiveram no Parlamento, foi sempre possível deixar para a especialidade um conjunto de acertos e permitir que houvesse votos a favor nos quatro Orçamentos do Estado vindos desse lado. Ora, nesta nova legislatura nem são precisos votos a favor. Eu não estou a dizer isto para desprezar, acho que era bom que houvesse votos a favor, não apenas desses partidos, mas de outros também. Houve aqui uma alteração fundamental, convém não esquecer. O PS passou a ser partido com mais deputados, e era o PSD, e o PS tem mais deputados do que toda a direita junta. Portanto, desde que haja uma abstenção dos partidos mais à esquerda, todas as leis e os orçamentos passam. Agora, isto em relação a algumas leis não vai acontecer sempre, como não aconteceu também na legislatura anterior. O que eu digo é que na legislatura anterior, apesar de haver um acordo escrito, foi sempre necessário negociar orçamento a orçamento.

E está confiante de que isso vai ser fácil nesta nova legislatura?
Não, mas penso que na legislatura anterior também não foi fácil. Acho que não vai ser fácil.

Mas será fazível e acredita que é possível a legislatura até ao fim.
Aquilo que fez com que a outra legislatura fosse levada até ao fim não foi tanto o facto de haver um acordo escrito, foi o facto de ter havido, do ponto de vista social, político e económico resultados tangíveis da ação do Governo. Portanto, nenhum partido estava em condições de criar uma crise política, porque seria severamente penalizado pelo eleitorado se criasse essa crise.

“Há um pessimismo 'crisista' que me parece um bocadinho excessivo, porque os resultados não mostram isso”

Isso quer dizer o quê? Se, por exemplo, a economia arrefecer nesta legislatura as coisas podem tornar-se mais complicadas?
Quer dizer que nós não sabemos qual é que é a evolução que vai haver nesta legislatura, embora haja um pessimismo ‘crisista’ que me parece um bocadinho excessivo, porque os resultados não mostram isso. Ainda ontem os resultados na Alemanha foram resultados bastante mais positivos do que aquilo de que se estava à espera na economia. Tudo depende, efetivamente, da capacidade que o Governo tiver de dar respostas sociais. Não podem ser maximalistas, porque não há dinheiro para tudo, mas dar respostas sociais, manter o equilíbrio nas finanças públicas e conseguir que o ritmo de crescimento económico pelo menos se mantenha ao mesmo nível, que foi aliás bastante melhor do que aquilo que era apontado pelos observadores quase até ao fim da legislatura, com a revisão dos dados que foi feita.

Nas últimas eleições legislativas houve uma taxa de abstenção recorde. Acha que a classe política, no Parlamento e não só, tem aqui uma reflexão a fazer? Recordo que no Parlamento foram conhecidos vários casos polémicos e manifestou-se várias vezes sobre eles.
Sim, sem dúvida nenhuma. Aliás, essa reflexão sobre os casos polémicos no Parlamento foi feita ainda durante a legislatura anterior, e foram introduzidas alterações e penalizações, que têm o seu efeito positivo no funcionamento do Parlamento e no comportamento individual deste ou daquele deputado. Agora, a abstenção é qualquer coisa que não se pode menosprezar, porque efetivamente representa uma situação em que há muitos portugueses que consideram que uma coisa são eles, os eleitos, os governantes, os presidentes, e outra coisa somos nós, o povo. Isso é muito grave, quando se deixa extremar essa situação. Mas estou convencido, embora não menosprezando esta questão, de que há uma parte substancial da abstenção que é uma abstenção falsa. Há muitos cadernos eleitorais que não estão atualizados, há muitos mortos que constam dos cadernos eleitorais, há muita gente que infelizmente emigrou. O Parlamento seguramente estará de acordo, em conjunto com o Governo, que se faça, como foi feito há 20 anos, uma atualização dos cadernos eleitorais. Uma coisa é a abstenção, outra coisa é a falsa abstenção.

Há pouco justificava isso com uma falta de proximidade entre os eleitos e os eleitores. Há uma reforma que tem sido sistematicamente adiada, que é a reforma do sistema político. É uma reforma secundária?
Não. Acho que é uma reforma absolutamente importante e que, mais dia menos dia, vai ser necessário levar à prática. O próprio primeiro-ministro foi o grande artífice dessa proposta de reforma quando era ministro no tempo do engenheiro António Guterres. Simplesmente, só se pode avançar com projetos que são estruturantes para a democracia quando há um consenso mínimo e básico. Quando digo mínimo e básico, é que eu penso que não basta que haja 50% de votos. Possivelmente, aquilo que o primeiro-ministro entendeu é que não havia condições, ainda, para que essa reforma fosse levada à prática. Agora, eu relembro que essa questão é uma questão em que o Parlamento pode ter iniciativa, nos grupos parlamentares. Não o presidente do Parlamento, que não tem iniciativa legislativa, mas os grupos parlamentares podem ter. Estamos no começo de uma legislatura. Vamos ver como é que esta legislatura se vai desenvolver.

Vê Costa num cargo europeu “a médio prazo”, mas antes “deve cumprir o mandato”

Já disse numa entrevista que não vê António Costa com uma vocação para Presidente da República, que ele — nessa matéria — é menos Sampaio e mais Guterres. Vê-o a assumir um cargo internacional como aconteceu com o outro ex-primeiro-ministro socialista, António Guterres?
Sim, vejo. Não imediatamente porque há um compromisso que o primeiro-ministro António Costa tem para o país, e também para o seu partido, mas a médio prazo não me espantaria. Tem essas qualidades e tem, sobretudo, uma qualidade essencial que é a capacidade de conseguir muitos consensos à volta das suas posições em conselhos europeus e ter posições muito firmes e muito marcadas sobretudo em matéria de reformas que são imprescindíveis para a União Europeia. É evidente que isso também vai depender da evolução do pensamento político sobre a Europa noutros países, mas eu penso que é uma questão para se colocar daqui a meia dúzia de anos.

Não acha que possa colocar-se durante este mandato? Há lugares que vão ficar vagos mais ou menos a meio da legislatura.
Penso que não, que neste mandato há uma palavra que António Costa vai certamente cumprir que é a de respeitar o compromisso que tem para com o eleitorado português.

Ferro Rodrigues entrevistado esta quinta-feira no programa "Sob Escuta" da rádio Observador

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Já houve, como sabe, casos — no Partido Socialista — de um primeiro-ministro que também tinha compromissos. Foi mais ou menos consensual a nível partidário…
Menos, menos consensual…. Do meu lado.

… Acabou por abandonar as funções de primeiro-ministro.
Não me parece que isso seja um bom exemplo. Aliás, como estará recordado também não foi apenas o facto de ter sido convidado, foi ter sofrido uma enorme derrota eleitoral nas Europeias de 2004 em que o Partido Socialista teve o recorde de sempre de votação e de percentagem e número de deputados eleitos e o primeiro-ministro de então, Durão Barroso, não foi apenas porque foi convidado ao fim de terem falhado três ou quatro tentativas de outros candidatos. Para decidir ir para essa aventura europeia foi também o facto de ter sido derrotado, penso eu, e por isso a minha reação naquele momento. Não vale a pena estar a fazer histórias do passado, mas como sabe — se estarão recordados — o meu amigo Jorge Sampaio tomou uma decisão que eu considerei que era uma decisão que punha completamente em causa a possibilidade de eu continuar como líder do PS, depois de todos os sinais que tinham sido dado ao contrário, e nessa mesma noite demiti-me de secretário-geral do Partido Socialista.

Ficou-lhe essa marca, António Costa não deve mesmo sair antes do fim do mandato?
Não, penso que deve cumprir. Deve cumprir a sua palavra.

Centeno: “Para estar num lugar de confiança do primeiro-ministro, é necessário também querer, e acho que ele quis agora, avançar para estas funções. O futuro dirá até onde é que vai. Gostaria que se mantivesse durante mais tempo”

Na organização que António Costa fez do atual Governo, as Finanças perderam algum peso, a tutela da Administração Pública, a explicação dada pelo primeiro-ministro é que era “uma verdadeira gestão de recursos humanos liberta da limitada visão financista do Ministério das Finanças”. Acabou-se esse jugo, é o que o PS quer dizer com isto?
Não, sei, não falo em nome do Partido Socialista. Nem em nome do Governo. O que me parece é que, em última análise, os ministros das Finanças sobretudo num país como Portugal que continua a ter necessidade de ter regras muito firmes de cumprimento dos seus orçamentos, têm sempre um papel em todos os ministérios, não apenas no seu. No caso antigo em que a administração pública estava debaixo da tutela direta do Ministério das Finanças, mas também no futuro. Com um Ministério de Administração Pública autónomo não quer dizer que o ministro das Finanças não tenha a última palavra sobre aquilo que pode ser afetado de recursos para aquele ministério.

A questão é se há aqui um sinal dado nesta altura de abrandamento desse peso financista…
Aquilo que me parece é que é necessário dar um sinal à função pública, aos trabalhadores da administração pública em geral, de que não estão esquecidos porque efetivamente foi uma das classes profissionais que mais sofreu com a crise e com as limitações que houve ao longo de muitos anos. Portanto, era preciso também dar esse sinal e um dos aspetos foi este de criar um Ministério para a Administração Pública que não tem só o papel da gestão dos recursos humanos, mas também outros papéis importantes.

Mário Centeno já colou, digamos assim, esta sua recondução no cargo ao tempo do mandato de presidente do Eurogrupo. Falávamos há pouco dos cargos internacionais, o do Eurogrupo termina a meio do próximo ano, está convencido que este poderá ser o último Orçamento do Estado que Centeno apresentará?
Não estou convencido de nada, não falei com ele sobre isso e, portanto, não sei qual é a opinião dele. Acho que o professor Mário Centeno fez um grande legado como ministro das Finanças, é mesmo, com exceção talvez de Sousa Franco, o único ministro das Finanças que conseguiu a proeza de ser o governante com mais popularidade de um governo. Penso que, evidentemente, para estar num lugar de confiança do primeiro-ministro, é necessário também querer, e acho que ele quis agora, avançar para estas funções. O futuro dirá até onde é que vai. Gostaria que se mantivesse durante mais tempo.

“Não será de Belém que virão os principais problemas para este Governo”

Mudando um pouco de tema. Diz que vai muitas vezes reunir-se com Marcelo Rebelo de Sousa. Quando foi a última vez que reuniu com ele?
Agora tenho reunido mais por telefone, porque o Presidente da República teve aquela pequena intervenção cirúrgica, eu também estive um fim de semana fora do país, mas temos falado pelo telefone quase todos os dias. É uma relação muito amistosa em que há uma genuína preocupação nomeadamente em questões de saúde que, como sabe é uma grande especialidade do nosso Presidente da República (risos) e, portanto, é uma questão que atravessa muito as nossas conversas e também tudo o que se passa no país. Temos mantido essa frequência de contactos e com o primeiro-ministro também. Eu sei que também tem uma boa relação com o Presidente da República.

E mantém hoje aquilo que já disse no passado, que se as presidenciais fossem amanhã votaria em Marcelo Rebelo de Sousa?
Esse amanhã já foi há um ano, praticamente, mas se fossem amanhã mesmo, voltaria a dizer o mesmo. Repare uma coisa, eu sou um militante do Partido Socialista, desde 1986, uma coisa é o debate interno no Partido Socialista sobre as presidenciais e, se fossem amanhã, não deixaria de defender, nesse debate interno, que o PS apoiasse a candidatura do professor Marcelo Rebelo de Sousa. Eu, como militante, se o PS decidir o apoio a outra candidatura terei que me vergar a esses imperativos.

Hoje as condições já são diferentes, no sentido em que o quadro da legislatura em que vai haver presidenciais já está formado. Já houve eleições legislativas, as eleições serão em 2021, a questão é se, perante este quadro, o PS estará mais perto de declarar-lhe apoio nas presidenciais.
Não me faça perguntas sobre o Partido Socialista. Tive o cuidado nestes últimos quatro anos, embora seja o número um da comissão política da lista aprovada em congresso e apoiada pelo secretário-geral António Costa, eu tive o cuidado porque me parece que é incompatível ser o presidente da Assembleia da República e de todos os deputados e ao mesmo tempo ter uma intervenção partidária muito forte sobretudo em reuniões do partido. Limitei-me na legislatura anterior a ir às jornadas parlamentares e fazer um discursos de circunstância, às vezes até com humor do que propriamente com grande substância política.

Mas se houver esse debate no partido, vai intervir e interviria nesta altura a favor?
Se o debate fosse hoje eu continuaria a defender, para eleições de amanhã, que o Partido Socialista apoiasse o professor Marcelo Rebelo de Sousa.

Com o Presidente tem “falado pelo telefone quase todos os dias. É uma relação muito amistosa em que há uma genuína preocupação nomeadamente em questões de saúde que, como sabe é uma grande especialidade do nosso Presidente da República”

Alguma coisa em concreto pode acontecer e mudar essa sua posição?
Vamos ver como se processa agora a evolução dos acontecimentos. Estamos ainda no princípio, parafraseando um primeiro-ministro, esta legislatura ainda é um bebé. Espero que não seja abandonado na incubadora e, portanto, voltaremos possivelmente daqui a um ano ou coisa assim a colocar essa mesma questão,

O facto de se ter percebido que o PS não tem maioria absoluta, estando o quadro definido como está, é possível que Marcelo Rebelo de Sousa ceda àquela tentação que acontece frequentemente com os Presidentes de ter um segundo mandato mais duro com o governo?
Mas isso parece-me que faz parte da lógica dos Presidentes da República, de num segundo mandato serem mais afirmativos e mais exigentes, mas mesmo contando com isso continuaria a defender esta posição.

Mas o que é que poderia fazê-lo mudar?
Não faz sentido, podia acontecer coisas estranhíssimas que não vale a pena estar aqui a colocar, mas não vou aqui especular. Sabe que na legislatura anterior fui dos primeiros a dizer que o Governo não cairia certamente nunca por iniciativa do Presidente da República. Poderia cair por iniciativa da Assembleia da República. As condições para que isso acontecesse eram mais perigosas para o Governo na legislatura anterior do ponto de vista aritmético, do ponto de vista político vamos ver, mas julgo que não será de Belém que virão os principais problemas para este governo de António Costa.

Admite que este será o seu último cargo político? “Admito não, tenho a certeza absoluta mesmo”

Disse, numa entrevista à Lusa, que tendo em conta como as coisas têm corrido não vê nenhum motivo para sair da política sem mais nem menos, mas admite que este mandato como presidente da Assembleia da República será o seu último cargo político?
Admito não, tenho a certeza absoluta mesmo. Aconteça o que acontecer esta é a minha última eleição como deputado mesmo e, portanto, como presidente da Assembleia da República. Acho que se tudo correr normalmente acabarei as funções de presidente da Assembleia da República praticamente com 74 anos e julgo que já tenho direito a passar dos papéis aos atos. Ou seja, dos papéis da reforma que já os entreguei há muito tempo e que nunca recebi um tostão para uma presença mais forte junto da família que mesmo assim tem sido uma presença que tenho procurado sempre garantir.

Portanto, descarta a hipótese de, se o PS lhe pedisse, se assumir como uma alternativa a Marcelo Rebelo de Sousa numas eleições presidenciais?
Descarto. Aí, sou como o Dr. António Costa. Penso que a função presidencial é muito interessante, é o topo de uma carreira política, mas há pessoas que têm mais intuição e mais vontade para ter essa carreira e para finalizar a carreira política como Presidente da República do que eu. Portanto, não se me coloca essa questão sequer.

É contra inquérito a Tancos no meio do processo judicial: “Cria ruído absolutamente estranho”

Houve um tema que marcou a última campanha, e que até levou o CDS a anunciar a intenção de promover uma nova comissão de inquérito, ao caso de Tancos,  por causa de uma troca de SMS entre um deputado e o ministro da Defesa. O deputado do PS teria de ter dado conta do conteúdo da mensagem ao Parlamento?
Eu não sigo essas telenovelas ao pormenor. Nem as telenovelas mais atuais nem as mais antigas.

O Ministério Público valorizou muito esta prova na acusação.
O Ministério Público tem a sua posição e tem a sua autonomia. E a Assembleia da República não trabalha para o Ministério Público, assim como o Ministério Público não deve trabalhar para a Assembleia da República. São instituições completamente autónomas e não vou fazer nenhum comentário sobre um SMS que desconheço.

Acha que há questões políticas ainda por esclarecer, independentemente da forma como o processo decorrerá na justiça?
O que eu acho é que as questões já estão colocadas de forma tão avançada ao nível jurídico, ao nível das instâncias judiciais, com a abertura de uma fase de instrução a curto prazo, que o que seria de bom senso era as conclusões políticas serem tiradas depois dos resultados totais deste processo judicial, e não no meio, porque isso será criar um ruído absolutamente estranho, do meu ponto de vista, com um paralelismo entre uma ação política baseada numa acusação e não num julgamento.

Sócrates: “Vejo os grandes títulos, porque não o posso evitar, mas vamos ver agora como é que há a evolução dessa questão, porque até agora a única versão que existia era a versão da acusação e agora há uma outra versão”

Quando falou há pouco das telenovelas a que não assiste, das novas e das antigas, com as antigas presumo que se esteja a referir à questão dos interrogatórios de José Sócrates. Não tem acompanhado essa telenovela, como lhe chama?
Não, não. Não tenho acompanhado.

Mas incomoda-o ver um ex-primeiro-ministro do PS há tanto tempo…
Não apenas um ex-primeiro-ministro como uma pessoa por quem tenho consideração e que está numa situação em que vai ter de explicar aquilo que são as acusações. É, pelos vistos, aquilo que está a fazer, mas eu como digo não tenho acompanhado o pormenor e o detalhe. Vejo os grandes títulos, porque não o posso evitar, mas vamos ver agora como é que há a evolução dessa questão, porque até agora a única versão que existia era a versão da acusação e agora há uma outra versão. E, portanto, são as instâncias judiciais que têm de decidir o que é cai ou não cai da acusação e como é que depois, no caso de haver acusações que não caiam, o que é que em última análise os tribunais vão resolver, sabendo-se que este processo vai demorar certamente… ou morre já ou então vai demorar muitos anos ainda.

Há quase um ano, na abertura do ano judicial, dizia que “a justiça está sob suspeita”, referindo-se à desconfiança dos cidadãos no setor. Este caso concreto pode contribuir para melhorar essa perceção? Ou tem contribuído para a agravar?
Não sei se é o caso concreto ou se é o número de fugas de informação e de presença da comunicação social, de formas que muitas vezes não são aceitáveis, de tratar estes casos, que são casos muito sérios. Mas, quando disse isso, baseei-me no inquérito à opinião pública. Se é um facto que o Parlamento, embora tenha melhorado muito a sua imagem nesta última legislatura, e isso teve a ver com o facto de haver uma base parlamentar mais ampla do que era normal, o sistema judicial em Portugal, há três ou quatro anos, quando fiz essa intervenção, era realmente de todos os sistemas aquele que tinha maior grau de desconfiança. Tem de se atualizar esse estudo, esse inquérito, para saber se as coisas melhoram ou pioram com estes macro-casos.

Medina/Pedro Nuno: “Um é presidente de câmara, outro é ministro, portanto não devem ter muito tempo para andarem no fim de semana a trabalhar o chamado aparelho do PS”

Apesar de António Costa ter sido reeleito e de não se prever uma disputa pela liderança do PS para tão breve, a verdade é que este assunto vai mexendo nos bastidores e nas estruturas. Quem é que identifica como tendo potencial para suceder a António Costa na liderança do seu partido?
Neste momento, quem sucedeu a António Costa foi António Costa.

Mas olhando para o futuro.
Eu estou no PS desde 1986. Na altura em que entrei para o PS havia três ou quatro candidatos que toda a gente sabia que eram candidatos àquilo que era a herança partidária e política de Mário Soares. Vítor Constâncio, Jaime Gama, António Guterres, Jorge Sampaio. Isso não foi um drama. Foi um enriquecimento para o Partido Socialista ter essas quatro figuras como figuras que estavam presentes, de uma maneira ou de outra, com as suas ambições legítimas. E todos eles acabaram por ter um papel importante no país. Jaime Gama como presidente da Assembleia da República, António Guterres como primeiro-ministro e depois, agora, como secretário-geral das Nações Unidas, Vítor Constâncio como secretário-geral do PS e mais tarde como governador do Banco de Portugal, e Jorge Sampaio como presidente da Câmara de Lisboa e Presidente da República reeleito. E na altura essas pessoas — foi há trinta e tal anos — tinham mais ou menos a idade que têm agora aqueles que fala como hipóteses para o futuro.

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ANTÓNIO COTRIM/LUSA

Aquilo que está a dizer é que tem experiência em vê-los crescer e caminharem para a liderança do PS. O que perguntamos é exatamente isso. Quem é que vê na pole position?
Não há pole position nestas coisas. É uma questão de vontade, de determinação e de capacidade. Lembro-me de que quando Vítor Constâncio se demitiu havia a expectativa de ser António Guterres a suceder-lhe, mas Jorge Sampaio antecipou-se e declarou a sua candidatura a secretário-geral do PS e, portanto, impediu de certa maneira que houvesse outras candidaturas alternativas. Mais tarde, António Guterres acabou por defrontar o Jorge Sampaio num congresso e de vencer esse congresso devido aos maus resultados que Sampaio teve em 1991. Jaime Gama foi candidato contra Vítor Constâncio e depois contra Jorge Sampaio, perdeu em ambas as eleições internas no Partido Socialista, mas depois acabou por ser presidente da Assembleia da República durante seis anos.

Está a fazer uma revisão do passado sem se comprometer com nomes para o futuro, que era o que lhe estávamos a perguntar.
Claro. É que julgo que isso depende muito mais de cada um daqueles que se julgam com capacidade e com vontade do que de outros. Não sou comentador político, muito menos sobre questões internas do Partido Socialista.

Mas é um conhecedor profundo do Partido Socialista. Como é que olha para esta marcação Pedro Nuno Santos — Fernando Medina?
Que tipo de marcação, diga-me lá?

Marcação de terreno. É notório, não é?
Não sei. Eu não vejo assim essa notoriedade tão grande. Mas sabe, eu não estou muito ligado ao aparelho do PS, não sei exatamente o que é que cada um desses militantes do Partido Socialista… Um é presidente de câmara, outro é ministro, portanto não devem ter muito tempo para andarem no fim de semana a trabalhar o chamado aparelho do PS.

Mas têm percursos paralelos àqueles que exemplificou do passado.
Sim, mas isso parece-me uma riqueza. Penso que, inclusivamente, há mais pessoas, algumas mulheres, com capacidade no Partido Socialista. Ana Catarina Mendes. Eu não vi a entrevista ontem, mas disseram-me muito bem da entrevista da Mariana Vieira da Silva. Há muitas pessoas da geração dos 40/50, e até mais novos em alguns casos, que poderão desempenhar esse papel. Agora, não é por o presidente da Assembleia da República dizer que gosta mais de A ou de B que as coisas se passarão. Vai depender, sobretudo, da vontade política e da capacidade, e do entusiasmo. Porque é preciso fazer estas coisas com entusiasmo.

Seria “suicidário” avançar para o Sporting

Antes de começarmos esta entrevista, falava do seu sportinguismo. É sócio há 70 anos do Sporting.
O que é um mau sinal, porque quer dizer que fiz 70 anos agora há pouco tempo.

E há aqui uma coincidência. Hoje veio a Alvalade, que é onde estão as instalações do Observador. Imagina-se a lançar-se para esses campeonatos?
Não, não, porque isso seria uma coisa suicidária. Eu não sou propriamente um suicida. Acho que o Sporting está numa situação muito difícil, muito difícil, por responsabilidades de várias direções. Mas aquilo que se passou nos últimos cinco anos foi muito grave e teve consequências terríveis do ponto de vista da confiança das instituições no clube. Esta direção tem tentado responder a isso, mas ao mesmo tempo alienando uma parte do património desportivo, dos ativos desportivos, e isso tem consequências no terreno dos resultados. Portanto, não sou por natureza muito otimista, e em relação ao Sporting, possivelmente o facto de ser sócio do Sporting há 70 anos também contribui para não ser propriamente muito otimista ao nível geral. Sabe que, quando nasci, o Sporting ganhava todos os jogos e a pergunta que se fazia era “Por quantos ganhou hoje?”, porque foram aqueles anos em que em sete campeonatos ganhou seis, no final dos anos 40 e no princípio dos anos 50. Depois, infelizmente, começou a ganhar só de quatro em quatro anos. Agora, parece que é de 18 em 18. O último que ganhou foi em 2002, vamos lá ver se em 2020 é possível alguma coisa. Mas já me parece muito difícil, muito complicado, com estes dez pontos de atraso.

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