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“Na última década, começaram várias guerras” com “consequências devastadoras e arrastaram-se com crueldade horrível”. O secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU) começou desta forma o seu último discurso na Assembleia-Geral da ONU, que ocorre esta semana em Nova Iorque. Os conflitos e as tensões geopolíticas dominaram as intervenções de vários líderes estrangeiros que se seguiram à de António Guterres, que deixou uma garantia: “Jamais” deixará de acreditar que a “paz é possível” e que “vale a pena lutar pelo nosso futuro comum”.
António Guterres declarou que a comunidade internacional entrou numa nova “fase multipolar” e que esse caminho é “irreversível”, avisando, contudo, que o mundo corre o risco de entrar numa nova Guerra Fria com “blocos rivais”. O secretário-geral também mandou um recado às “superpotências”: “O vosso poder não é assim tão super. Esse poder tem limites”. As guerras na Ucrânia e no Irão demonstraram que países influentes como a Rússia ou os Estados Unidos da América (EUA) podem não atingir os seus objetivos com base na força.
Sem responder diretamente a António Guterres, o Presidente norte-americano, Donald Trump, que foi o terceiro a discursar depois do homólogo brasileiro Lula da Silva e do secretário-geral, fez um discurso totalmente distinto. Salientou que os Estados Unidos “estão de volta” e que começou uma “época dourada”. Na visão do chefe de Estado norte-americano, o país “está mais forte” do que nunca e que o mundo está a “usufruir disso” — e até mencionou que “invejam” a sua economia. “Estamos a resolver problemas que há demasiado tempo não estavam resolvidos.”
▲ António Guterres fez o último discurso na Assembleia-Geral das Nações Unidas
SARAH YENESEL/EPA
Um desses problemas consiste na guerra no Irão. Na Assembleia-Geral, Donald Trump não poupou nas críticas contra o regime “fanático e assassino” iraniano. As ameaças contra a República Islâmica foram constantes: o chefe de Estado ameaçou mesmo “aniquilar” o Irão. “Será rápido. Destruo o país. Vou levá-los ao inferno sem chance de sobrevivência e sem esperança de futuro.”
Para além do Irão, vários intervenientes aproveitaram a Assembleia-Geral para comentar a situação na Faixa de Gaza. O chefe de Estado francês, Emmanuel Macron, descreveu o que se passa no enclave palestiniano como um “espetáculo” que “envergonha” as Nações Unidas. A própria instituição foi criticada por muitos líderes estrangeiros precisamente por falhar um dos seus objetivos centrais — acabar com as guerras — e por já não servir como fórum internacional para promover a paz.
Na despedida, Guterres descreveu um mundo multipolar e deixou críticas à ONU
Neste mundo multipolar, António Guterres traçou o cenário atual, que disse ser marcado pela “fragmentação”, por um “cariz transacional” e por “tensões e desconfiança, um mercado fraturado, instituições fracas, pouca cooperação e jogos de soma nula”. “Essa é a trajetória hoje em dia”, lamentou António Guterres, antecipando que podem existir “tendências hegemónicas” e um cenário de “blocos rivais” — como na Guerra Fria — separados por “tecnologias, economia e sistemas seculares”.
Apesar de ser secretário-geral da instituição há dez anos, António Guterres deixou críticas ao funcionamento da ONU. O Conselho de Segurança — o principal órgão — tem de ser reformado, admitiu. “O Conselho de Segurança foi criado após a II Guerra Mundial. Mas o mundo mudou significativamente desde então. Uma mudança que está longe de estar refletida no Conselho de Segurança”, afirmou António Guterres.
O secretário-geral sublinhou que o “exemplo mais incrível” é África. “África não tem um lugar permanente no Conselho. Um Conselho de Segurança sem representação africana permanente é injusto e indefensável. Isto deve mudar”, disse. Esta crítica foi também feita pelo líder brasileiro, Lula da Silva, com mais intensidade: “Somos todos reféns do imobilismo de um Conselho de Segurança que não cumpre o seu papel”, salientou o chefe de Estado.
“A ONU está a falhar numa das missões mais elevadas: a de livrar a humanidade do flagelo da guerra“, considerou o Presidente brasileiro. Aliás, para Lula da Silva, a credibilidade das Nações Unidas nunca esteve num ponto “tão baixo”, uma vez que a capacidade de proteger os mais vulneráveis “nunca foi tão pequena”.
▲ Lula da Silva disse que credibilidade da ONU nunca esteve "tão baixa"
OLGA FEDOROVA/EPA
Quem se juntou às críticas foi o Presidente turco, Recep Tayyip Erdoğan. O chefe de Estado considerou que o poder de veto — reservado para os cinco membros permanentes do Conselho de Segurança (França, Reino Unido, Estados Unidos, Rússia e China) — não é “justo”, nem é capaz de “estabelecer a confiança”. “O Conselho de Segurança deve ser absolutamente reformado de acordo com o princípio de que o mundo ‘é maior do que aqueles cinco’.”
Apesar de todos os problemas de que a instituição sofre — e que foram sendo denunciados por líderes estrangeiros —, António Guterres pediu para que não se desistisse da ONU. “O mundo não precisa de umas Nações Unidas mais fracas. Precisa de uma ONU forte”, salientou António Guterres. A organização internacional serve para “construir um futuro que sirva a todos”. “O nosso futuro partilhado será moldado pela capacidade de a humanidade governar o poder com sabedoria”, assinalou.
Um dos poucos que pareceu defender a continuidade da ONU nos mesmos moldes foi o líder de França — um dos membros permanentes do Conselho de Segurança. Emmanuel Macron descreveu um mundo em que cada vez mais impera a “lei da selva”. “Queremos viver num mundo com o regresso da lei da selva ou queremos viver numa sociedade internacional civilizada?”, questionou o chefe de Estado francês. As Nações Unidas servem precisamente para “juntar os povos livres” e para reforçar o multilateralismo, defendeu.
▲ Presidente francês defendeu existência da ONU e alertou para "lei da selva"
Anadolu via Getty Images
Irão. O tema quente a que Trump dedicou grande parte do discurso
O tema já tinha sido abordado por António Guterres. Numa referência direta à guerra no Irão, o secretário-geral disse que os supostos cessares-fogo em vigor (seja com Israel ou com os Estados Unidos) são “fogos menores”. “Os civis continuam a pagar o preço”, sinalizou, apelando: “Os combates devem terminar”. Sobre o Estreito de Ormuz, o secretário-geral pediu que se respeitem os “direitos de navegação”: “Devem ser restaurados de acordo com o Direito Internacional”.
A guerra no Irão foi o tema que dominou o discurso de Donald Trump. O Presidente norte-americano usou a Assembleia-Geral para alertar para os perigos que representa um regime “que espalha morte e carnificina no Médio Oriente e além disso”. O chefe de Estado voltou à ideia de que o Irão é o “bully” do Médio Oriente, mas deixou de o ser graças aos ataques norte-americanos. “Quando entrei na arena política, garanti que o Irão nunca teria uma arma nuclear. Tentei negociações. Mas eles não quiseram e desistiram”, afirmou.
Apesar da ameaça de aniquilar o Irão, o líder norte-americano ainda espera um “acordo”. As expectativas de Donald Trump são elevadas. Se os iranianos aceitarem, será um “país melhor do que era antes” — talvez mesmo um dos “melhores do mundo”. E o chefe de Estado já tem uma data, prevendo que após as eleições intercalares norte-americanas, marcadas para 3 de novembro, será firmado um acordo.
O chefe de Estado norte-americano avisou ainda os iranianos de que um bom ou mau resultado do Partido Republicano nas eleições intercalares não terá qualquer impacto num eventual futuro acordo com o Irão. “Ganhámos há dois anos e meio [nas presidenciais]. Não estou no boletim de voto. Não vou dar crédito às eleições no que diz respeito ao Irão. Isso nem entra na minha mente”, alerta. Para Donald Trump, importa apenas um objetivo: “O Irão nunca poderá ter uma arma nuclear.”
Perante representantes de 193 países, Donald Trump recusou o rumor de que os Estados Unidos estão a ficar sem munições. E deixou um pedido: que o mundo ajude os norte-americanos a “forçar o isolamento económico do Irão até deixarem de atacar navios” no Estreito de Ormuz. “O regime terrorista está a portar-se mal. Não porque são maus e confiantes. É porque estão fracos e desesperados”, referiu. O Presidente dos Estados Unidos assinalou também que, quando o “terror iraniano terminar”, o preço do petróleo ficará “mais baixo”.
A retórica norte-americana contra Teerão foi bastante dura. No entanto, à margem da Assembleia-Geral, ainda esta terça-feira, uma delegação norte-americana liderada pelo enviado especial Steve Witkoff reuniu-se com representantes iranianos, num encontro que durou três horas. O encontro correu bem, segundo Donald Trump, admitindo que está “muito satisfeito” com o seu desfecho.
▲ Donald Trump na Assembleia-Geral da ONU
OLGA FEDOROVA/EPA
Gaza. De Lula a Macron, quase todos os líderes relembraram ataques de Israel
O tema não foi indiferente a ninguém. As imagens da destruição na Faixa de Gaza, assim como a ofensiva israelita, motivaram vários comentários dos líderes estrangeiros. António Guterres começou por lembrar os “abomináveis ataques terroristas do Hamas em 7 de Outubro”. Porém, depois criticou duramente Israel: “O que se seguiu foi um ataque avassalador sobre os palestinianos em Gaza com uma dimensão de mortalidade e destruição sem paralelo em todos os meus anos como secretário-geral”.
António Guterres criticou também a expansão dos colonatos israelitas na “Galileia e na Cisjordânia ocupada”: “Estão a destruir o caminho para a paz e a agitar a possibilidade de uma limpeza étnica”. “Não podemos permitir que a solução de dois Estados desapareça diante dos nossos olhos”, pediu António Guterres.
A mesma mensagem trouxe Emmanuel Macron. Na Assembleia-Geral, o chefe de Estado francês elevou o tom e indicou que o que se passa na Faixa de Gaza é um “espetáculo que envergonha” as Nações Unidas. Condenando na mesma medida os colonatos da Cisjordânia, o Presidente de França defendeu que é necessário “respeitar o direito legítimo do povo palestiniano a existir”. E frisou que isso é “um requisito para a segurança da população de Israel” no futuro.
Na mesma linha, Lula da Silva afirmou que há um “genocídio” em curso em Gaza. “Gerações de palestinianos carregarão a dor e o trauma deixados pelo genocídio praticado pelo governo de Benjamin Netanyahu contra mulheres e crianças em Gaza”, disse o chefe de Estado, enfatizando também que os civis israelitas “pagaram o preço do radicalismo dos atos terroristas do Hamas”.
Ainda mais crítico foi o Presidente turco. Desde que começou a ofensiva israelita em Gaza, as relações diplomáticas entre a Turquia e Israel atingiram um ponto crítico. Recep Tayyip Erdoğan refletiu essas tensões e deixou duras críticas a Telavive: “Hoje, Gaza não é apenas o maior cemitério de crianças do mundo. É também o local com a taxa de amputações infantis mais elevada do mundo. Gaza tornou-se o campo de concentração mais desumano e vergonhoso do nosso tempo“.
Em resposta a estas duras críticas, a delegação israelita que estava presente no plenário da Assembleia-Geral decidiu abandonar o local durante o discurso do chefe de Estado turco. Recep Tayyip Erdoğan também não deixou de criticar o facto de as autoridades norte-americanas não terem emitido um visto para que o Presidente da Autoridade Palestiniana, Mahmoud Abbas, participasse na Assembleia-Geral.
▲ Delegação iraniana saiu da sala após críticas do Presidente turco
Getty Images
Por sua vez, Donald Trump usou uma narrativa totalmente distinta. Condenou duramente o Hamas por aquilo que fez no 7 de Outubro. E celebrou o fim da operação militar israelita, sublinhando que o seu plano de 20 pontos — com o apoio de 30 países — trouxe um cessar-fogo ao enclave palestiniano. “Estou honrado por liderar” o Conselho da Paz, assegurou ainda o Presidente norte-americano, agradecendo o apoio de vários países do Médio Oriente.
Ucrânia, Cuba e Venezuela. Os assuntos internacionais que não passaram despercebidos
Entre os vários conflitos internacionais, os líderes estrangeiros não esqueceram a guerra na Ucrânia. António Guterres disse que a “invasão em larga escala da Rússia” subjugou a Ucrânia — um “país soberano” — a uma “guerra brutal”. “Foi uma violação flagrante da Carta [das Nações Unidas]”, lamentando que os civis “continuem a morrer” longe da “linha da frente”. “Principalmente na Ucrânia e também mais recentemente em partes da Rússia, casas, sistemas de água e transportes estão sob ataques repetidos, ameaçando as cadeias de abastecimento de comida e energia globalmente.”
Sem nunca se comprometer, Donald Trump apenas indicou que o conflito na Ucrânia “vai acabar mais rápido do que as pessoas pensam”. “Chega. 25 mil pessoas estão a morrer por mês. As fotografias da linha da frente são horríveis, nem as quero ver…”, assinalou. O chefe de Estado norte-americano encontrou-se com o homólogo ucraniano, Volodymyr Zelensky, ainda esta terça-feira. Os dois líderes tiveram um encontro que classificaram de “positivo” e demonstraram que estão mais sintonizados do que no passado.
Recep Tayyip Erdoğan também dedicou um excerto do seu discurso à guerra na Ucrânia, esperando que “chegue ao fim com o respeito pela soberania e integridade territorial da Ucrânia”. O Presidente turco aproveitou para comentar que a situação de segurança na Europa não pode excluir a Turquia. “Uma Europa que exclua a Turquia da sua arquitetura de segurança não pode de modo algum ser mais forte ou mais segura”, destacou.
▲ Presidente turco defende aproximação à Europa e defende "respeito pela soberania e integridade territorial da Ucrânia"
Anadolu via Getty Images
António Guterres lembrou também os conflitos no Sudão e no Myanmar. E Donald Trump aproveitou para puxar os galões na Venezuela, sinalizando que a deposição de Nicolás Maduro é uma prova de que os Estados Unidos “não vão deixar que ninguém” seja uma ameaça. E ainda defendeu o acordo petrolífero com a presidência venezuelana, liderada agora por Delcy Rodríguez. “Os Estados Unidos e a Venezuela têm 60% do total do petróleo do mundo. E foi feito o melhor acordo. Foi uma guerra, mas é como se costuma dizer: aos vencedores, os despojos.”
O discurso do Presidente norte-americano ficou ainda marcado por críticas ao regime em Havana. Donald Trump confirmou que os Estados Unidos estão a colocar mais “pressão sobre o regime cubano” e apontou o dedo ao regime castrista: “É absolutamente um Estado falhado. Está a falhar como nunca e vai cair. O Marco Rubio [secretário de Estado] está a liderar as negociações com Cuba. Vamos ver o que acontece”.
A delegação cubana não gostou destas palavras e abandonou o plenário após estes ataques. Mais tarde, no X, o ministro dos Negócios Estrangeiros de Cuba, Bruno Rodríguez, rejeitou “as falsidades” ditas por Donald Trump.
“O Governo dos Estados Unidos mostra-se incapaz de aceitar que Cuba é, e tem o direito de ser, um país totalmente independente e soberano. Nenhuma das falsidades do Presidente dos Estados Unidos na ONU e nenhuma calúnia podem ou poderão negar esse facto.”