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Filomena Cautela. "Colocas-te na televisão e toda a gente diz o que quer, como quiser. Essa corrosão já me está a fazer confusão" /premium

O Observador falou com a apresentadora após a estreia do "Programa Cautelar". Prefere focar-se nos elogios. "Isto não é jornalismo puro". E já olha para o que pode vir a fazer a seguir: teatro.

Filomena Cautela não tem tempo. Nem para avaliar, com pés e cabeça, como foi o primeiro episódio do seu mais recente programa, “Programa Cautelar” — visto por mais de 600 mil pessoas no último sábado à noite — nem para entrevistas. Aliás, a ter de acontecer, que seja por telefone e, eventualmente, para que fique tudo dito, dentro de uma casa de banho. Não há tempo a perder. Mas essa falta de poder estar a conversar sobre o que quiser não é por soberba sua, é mesmo porque em televisão está-se sempre a pensar no amanhã mesmo que o ontem ainda nem sequer tenha sido dissecado como deve ser.

Enquanto isso não acontece, as figuras públicas vão sendo escrutinadas nas redes sociais. Têm de lidar com pressão dentro e fora do ecrã. São escolhas, é certo, mas que podem ter um fim. É por isso que a apresentadora não quer estar nos palcos televisivos muito mais tempo. Ou, pelo menos, como está agora. Prefere pensar em retomar outras vidas, como a do teatro, bem mais sereno. “Estás constantemente numa luta contra a maré, em esforço. No teatro há mais tempo. A luta não é tão desgastante. A arte, na sua generalidade, é mais serena“, conta em entrevista ao Observador.

Neste novo formato que contará com seis episódios, a antiga apresentadora do “5 Para a Meia Noite” quer meter os portugueses a refletir sobre temas mais complexos, que podem ir da desinformação online (primeiro episódio) à guerra das audiências (segundo episódio). Com uma equipa de jornalistas e guionistas, onde se incluem nomes como Tiago Palma, Tiago Carrasco, Susana Romana ou Mariana Garcia, a também atriz quer estar atenta, sobretudo, à verdade. Mais do que ter graça. E é por isso que, apesar da falta de tempo, e da estreia já ter sido há uma semana, Filomena Cautela, se pudesse, mudava muito do que foi para o ar. “Mudava muita coisa. Para quem faz televisão, teatro, tudo o que seja efémero, não há muito a fazer. É um exercício ingrato e cruel. Podíamos ter ido mais a fundo em muitas questões. Havia muito mais para dizer, foi cortado muito texto no programa”, afirma.

Quanto a críticas sobre o seu “Programa Cautelar” — onde houve até espaço para o apelidar de “propaganda do governo” (sobre a carta dos Direitos Fundamentais da Era Digital), Filomena Cautela prefere olhar para o ponto de vista mais construtivo que foi surgindo nas redes sociais. Sente que o seu lugar, neste momento, “não é provocar mais” mas sim apresentar a versão dos dois lados de qualquer tema mais polémico. E está convencida que fez isso, junto da sua equipa, neste primeiro episódio. “Isto não é jornalismo puro”, chuta. E não tem de ser, por se tratar de entretenimento, diz. Ou infotainment. Ou outra coisa qualquer. Agora, é seguir em frente, as reflexões fazem-se depois quando a cortina cair de vez. “Não tenho mesmo saudosismo da televisão. Até porque ainda não parei de trabalhar. Quando nos sentamos após trinta furacões, e já não temos mais nada para fazer, aí é que começa a bater o saudosismo. É possível, sim”, termina.

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Podemos falar agora?
Não consigo muito, mas consigo.

Vou tentar ser direto.
Tenho pena que não seja ao vivo, por outro lado, vou fazer xixi enquanto falo consigo.

Por mim tudo bem.
Mas estou mesmo a entrar na casa de banho.

Certo.
Consegue perceber pelo eco?

Claro, mas também pode estar a mentir. Adiante. Disse na apresentação do programa que achava que o “Programa Cautelar” não ia ser muito visto. Pelos vistos foi: 640 mil pessoas. Estava à espera?
Ninguém da equipa estava muito à espera que isto acontecesse assim. Quem poderia prever que, de repente, num sábado à noite, em que estão 30 graus na rua, 640 mil pessoas conseguissem ver 45 minutos sobre desinformação online, passando por temas tão fáceis como a Primavera Árabe. Foi uma surpresa para todos. Esperei que tivéssemos muito mais destilamento de ódio. Tenho de fazer aquele exercício muito difícil que é: tendo em conta a quantidade de gente, e gente que admiro, que gostou do programa e que fez questão de o dizer publicamente, isso comparando com algumas pessoas que apareceram depois a dizer mal, sei que não posso estar a fixar-me só nos comentários construtivos. Por outro lado, há outras opiniões que até são fruto do que falámos no programa, e não posso ser cínica ao ponto de desprezar tanta gente que gostou.

Há um certo tom mais saudável nas críticas? Não há muito ódio? Há talvez sobretudo desilusão pelas comparações que são feitas com formatos norte-americanos como o “Patriot Act”? Isso, por si só, já é uma vitória, não?
Sim. Não tenho visto muito essa crítica construtiva. Penso que poderá ser o efeito estreia e pode desaparecer rapidamente. Não me parece mesmo que se mantenha essa boa decência. Mas pode querer dizer qualquer coisa, sim. Que as pessoas querem outras coisas diferentes na televisão. Que seria muito atípico um programa destes estar em prime-time ao fim de semana. Talvez essa boa onda que existiu tenha a ver com isso, de estarmos cansados dos mesmos formatos.

Muitas das informações que surgem no programa são de conhecimento público. O formato parece estar mais direcionado para uma geração, a minha geração. Mas algum público tradicional da RTP pode não saber de onde vêm as fake news ou o que está a ser feito para as combater. O programa, afinal, dirige-se a quem?
Não estamos a fazer um programa a pensar no target. Predispomo-nos a falar de um tema, há um esforço grande para tornar o tema acessível, mas há coisas que têm de ser ditas. Pode não agradar ao target da RTP, mas tem de entrar. É importante essa voz estar presente.

"Damos todos peso ao que é verdade, ao que é importante partilhar, mais do que ao ter graça. A grande diferença deste programa para outros é essa. Ter graça é uma forma de trazer as pessoas connosco".

Olhando para o primeiro episódio, o que mudava? Já com alguma distância…
Mudava muita coisa. Para quem faz televisão, teatro, tudo o que seja efémero, não há muito a fazer. É um exercício ingrato e cruel. Podíamos ter ido mais a fundo em muitas questões. Havia muito mais para dizer, foi cortado muito texto no programa. Por isso é que pareceu mais acelerado. O próximo vai ser mais fácil, sobre a luta das audiências. Mas depois o terceiro já não [sobre racismo].

Essa ideia de deitar texto fora é das mais abordadas entre guionistas. Como é que funciona esse processo?
Temos uma equipa de jornalistas e guionistas. Começa com uma conversa entre todos, falamos do tema, o que queremos e depois há um longo processo de pesquisa. A partir daí, nós pegamos naquilo e tentamos perceber o que é essencial e o que pode não ser. Quando passa para os guionistas, há uma preocupação em fazer humor de uma forma respeitável e que não comprometa a passagem da informação. É um equilíbrio complicado e é o que dá mais trabalho.

O que tem mais peso: ter graça ou ter razão?
Não tenho razão em nada. O que fazemos é precisamente isso. Apresentamos os estudos mais fidedignos e, a partir daí, procuramos o que já está comprovadamente feito. Damos todos peso ao que é verdade, ao que é importante partilhar, mais do que ao ter graça. A grande diferença deste programa para outros é essa. Ter graça é uma forma de trazer as pessoas connosco. Para que fiquem curiosas, não se sintam excluídas. Queremos falar para mais pessoas, para que os temas, que habitualmente são mais complexos, aqui sejam mais fáceis de entender.

Passando para as críticas, tivemos dois momentos apelidados de “propaganda ao governo”: entrevista a Marcelo Rebelo de Sousa e uma visita ao parlamento para falar brevemente com o deputado socialista José Magalhães, o “pai” da carta de Direitos Humanos da Era Digital. Vamos ao segundo. Porque não fazer uma conversa com mais provocação? Ou porque não ouvir vozes contra o tal documento? O chamado contraditório…
A provocação está lá. Mais uma vez: estou a fazer há muitos anos o exercício de ter centenas de pessoas que gostaram, ficaram a descobrir uma data de coisas neste programa, mas dou mais atenção às críticas. É um exercício ingrato e que desrespeita as pessoas que não têm essa opinião. Nós não fazemos jornalismo puro. Queremos aguçar a curiosidade das pessoas para saberem mais sobre um assunto. É uma missão muito difícil e grande o suficiente para nós. Em relação ao contraditório, esse artigo 6º, o que fazemos é pôr a hipótese de poder criar censura e um controlo sobre o que é feito nas redes sociais, e depois vamos perguntar à pessoa que escreveu a carta porque é que não é bem assim. Se podia ter posto em causa? Já o fiz. O que tentamos ter é os dois lados. Se questionamos os dois lados até ao final da vida não consigo ter programa. O meu lugar não é provocar mais. É dar os dois lados. Depois as pessoas tiram as suas próprias conclusões. Só o facto de estarem a falar no assunto já me parece estupidamente positivo.

Queria largar agora um pouco o “Programa Cautelar” e falar do seu trajeto até aqui. Esta mudança radical no formato foi um clique durante a pandemia?
Não sei se foi. Já tinha vontade de fazer algo do género há muito tempo. Fazer entretenimento puro durante muitos anos, tendo uma consciência social, é difícil. Quando decidi sair do “5 para a Meia Noite” teve a ver com cansaço, por exemplo, ou com o facto de que, com os meios que tinha, o programa já tinha crescido até onde podia comigo ao leme. Mas o clique pode ter chegado durante a pandemia, sim. Estava em casa fechada, e tive uma proposta: “O que queres fazer?”. Ter esta abertura da RTP, estando completamente fechado, não se poder fazer grande coisa… achei que a informação complexa estava cada vez mais distante das pessoas. Há muitos assuntos que devemos perceber, que o serviço público tem alguma responsabilidade em tentar que mais gente entenda. O meu ímpeto foi ter tido a oportunidade de criar um projeto novo. E de achar que também não vou fazer televisão durante muitos mais anos. Acho mesmo que não vou. Se quiser sair, preferia sair com um programa deste género e não com algo que não corresponde ao que sou profissionalmente.

Tenho-a ouvido dizer isso várias vezes. Porque acha que o seu ciclo televisivo está a chegar ao fim?
Há uma pressão muito grande na televisão de hoje. Tem a ver com redes sociais, com o facto de toda a gente achar que pode dar uma opinião sobre tudo. São sinais dos tempos. Tudo bem. Mas quando fazes as coisas de forma honesta, sem intenção maldosa, e tu, de repente, colocas-te na televisão e toda a gente diz o que quer, como quiser, é algo que destrói, corrói e cansa. Essa corrosão já me está a fazer confusão. Tenho a sorte de ter outros interesses. Sempre fiz teatro. Sempre gostei. Deixar de fazer televisão não me vai fazer grande mossa. Gosto muito de ler. Estou bem [ri-se].

É ao teatro que tem mais vontade de regressar?
Sim. Sempre trabalhei como atriz. Até ao ano passado fiz teatro. Mas estar dedicado só a isso é algo que me faz falta. Em televisão é tudo muito desgastante, então como eu trabalho… nunca fui de dizer para escreverem os textos, ir para o teleponto, dizer aquilo e meter-me logo em casa. Não. Nunca trabalhei assim. E não o fazer é muito desgastante. Porque estás constantemente a pôr-te em causa. Essa responsabilidade de estar num fórum que fala para tanta gente começa a pesar-me. E a crueldade, por vezes, é difícil de lidar. Ao contrário de outras pessoas, que dizem para não ligar, eu não consigo. As palavras tocam-me. Não me apetece viver o resto da minha vida a levar com isso.

Então o teatro é um lugar seguro para onde quer regressar?
É um tipo de trabalho mais sereno e mais prolongado. A televisão é tudo para ontem. Tem de estrear, depois disso já acabou. Nós estreamos o “Programa Cautelar” e nem sequer tive tempo para curtir o que as pessoas disseram de bem. Já estou a pensar no outro. Estás constantemente numa luta contra a maré, em esforço. No teatro há mais tempo. A luta não é tão desgastante. A arte, na sua generalidade, é mais serena.

Há uma luta maior relacionada com as questões inerentes à profissão.
Sim. Há não sei quantos anos, porque a minha memória cronológica não vale nada, essa foi uma das razões para começar a fazer televisão. Tenho essa noção. Fui cobarde ao perceber que me angustiava demasiado ser atriz e não saber se tinha trabalho na semana a seguir. Ou até ter de ceder muito para ter trabalho, que talvez não me interessasse assim tanto. Essa angústia fazia-me mal. Foi aí que procurei outras saídas.

Mas ainda sobre o teatro, sobre o que se questiona quando o faz?
Tudo. A arte na generalidade tem uma forma de tocar nas pessoas que joga com o emocional e não com o racional. E quando tu consegues ir direitinho ao coração das pessoas, sem passar pelo filtro racional, é uma maneira mais pura de tocar nas pessoas. É mais bonito. É muito difícil alguém ver um espetáculo e dizer que é ideológico. Quando vais ver, estás mais aberto, mais predisposto a receber. Gosto muito disso. E parece-me mais eficaz.

Passados estes anos todos, já não se leva a sério? Julgo ter lido que quando era mais nova essa era uma luta constante.
Essa preocupação está sempre lá. Tem a ver com a essência da pessoa mesmo que lute contra isso. É essa a resposta.

"Nós estreamos o 'Programa Cautelar' e nem sequer tive tempo para curtir o que as pessoas disseram de bem. Já estou a pensar no outro. Estás constantemente numa luta contra a maré, em esforço".

Certo. Não sendo influencer ou ativista, onde se coloca? Tendo em conta que o artista sofre — ou quer sofrer — uma pressão enorme para dizer qualquer coisa sobre determinado assunto.
Mesmo nas minhas redes sociais já fui muito mais agressiva e direta. Tem a ver com a idade, começamos a escolher melhor os fóruns. A forma. As plataformas. Percebi isso cedo. Reduzir a opinião sobre assuntos complexos a caracteres limitados é sempre uma porcaria. Vai poluir constantemente. Não me parece que em alguma discussão no mundo tenha saído algo de bom e esclarecedor de uma caixa de comentários.  Quando estás numa rede social, sem ver ninguém, sem sentir o outro, a defender o teu ponto de vista com caracteres limitados, é difícil aprenderes alguma coisa. Muitas vezes, as discussões são ocas e com agressividade fácil. O que me preocupa como cidadã pode ser discutido noutras plataformas mais saudáveis. Mas sim, acho que todas as pessoas, incluindo artistas, devem expressar a sua opinião quando acharem que é sólida o suficiente para o fazerem.

Nesse ruído todo, que papel tem e terá a televisão? Tem sido o veículo para esse clima mais agressivo. Ou programas como o seu podem ter mais espaço depois desta era pandémica, onde nos fartamos todos de ver as mesmas coisas?
Se o mundo digital e televisão não se começarem a aproximar, correm o risco de se tornarem obsoletos. Sendo que a segunda se vai tornar mais rapidamente. Se trabalharmos sempre para os mesmos públicos, a mesma faixa etária e em prol daquilo que achamos que dá audiência em Portugal, vamos entrar num ciclo sem retorno. Será fácil a televisão tornar-se obsoleta. Há muita gente que já nem tem o aparelho. Se não as puxarmos para a televisão, chegará uma altura em que ninguém a vê.

E criamos bolhas e bolhas…
Sim, sim. Vai ser cada vez mais reduzido até desaparecer. Se essa aproximação não existir, não será bom para ninguém.

Aqui há uns tempos também li que se sentia outsider. Quando sair da televisão, gostava que este caminho fosse recordado como?
Prefiro que as pessoas não me recordem.

Está de passagem, só.
Sim, sim. Não tenho ambições de ser lembrada por isto ou por aquilo. Ou que o trabalho fique para a posteridade. Tenho gosto que os projetos falem para alguém e que contagiem de forma positiva. Fora isso, quando sair da televisão, não vai demorar muito até deixarem de se lembrar de mim. O trabalho na televisão é ingrato, temos exemplos de grandes nomes que vão sendo esquecidos. No outro dia, estava a ver programas que fiz e que ninguém se lembra, mas foram momentos muito impactantes. Mas já ninguém se lembra hoje. Não tenho essa pretensão.

"Será fácil a televisão tornar-se obsoleta. Há muita gente que já nem tem o aparelho. Se não as puxarmos para a televisão, chegará uma altura em que ninguém a vê."

Nada de saudosismos.
Não tenho mesmo. Até porque ainda não parei de trabalhar. Quando nos sentamos após trinta furacões, e já não temos mais nada para fazer, aí é que começa a bater o saudosismo. É possível.

Mas isso depois tem a ver com a solidão que se sente depois de anos rodeado de público.
A nossa geração já percebe o imediatismo das coisas. Sabemos o que são fenómenos. As celebridade vão sendo substituídas como carne para canhão. Hoje em dia és o maior, no dia seguinte já ninguém quer saber. Tenho plena consciência que o que está a acontecer agora são fenómenos de imediatismo. E isso não me incomoda.

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