Pela primeira vez em muitas semanas, Portugal vive dias mais calmos em termos de incêndios, havendo um fogo de grandes dimensões ativo, em Vila Real. Ainda longe de acabar uma altura crítica de combate aos fogos, o rasto da destruição ainda se sente no terreno, sobretudo em Arganil, distrito de Coimbra, onde lavrou o maior incêndio de sempre em território nacional.
Foram cerca de 64 mil hectares, agora traduzidos numa paisagem negra que traz à memória dos habitantes os 11 dias complicados que viveram até as chamas começarem a ceder aos meios. Outrora raros, os incêndios de grandes dimensões são cada vez mais uma presença assídua nos verões dos portugueses, sobretudo na Zona Norte e Centro, que têm sido mais fustigadas.
Dados do Centro de Estudos sobre Incêndios Florestais da Universidade de Coimbra, que analisou os cinco maiores incêndios de cada ano, desde 1980, mostram uma clara tendência. “Entre 1980 e 2002 havia apenas um incêndio registado com mais de 10 mil hectares de área ardida”, relata o especialista em incêndios florestais Domingos Xavier Viegas. Só em 2003 registaram-se cinco e “a partir de 2017”, passámos a ter vários incêndios de grandes dimensões”.
Não é fácil definir um “mega incêndio”, sendo que nem a própria definição é tida como correta pelos vários peritos ouvidos pelo Observador. Preferem falar em “incêndios de grandes dimensões” ou de “tamanho considerável” e refletem que bem mais difícil do que defini-los, é combatê-los.
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR
O que é um mega incêndio e como surge?
Taxativamente, Xavier Viegas diz que o conceito de mega incêndio “é relativo”, porque “o que para uns [países] pode ser muito grande ou extremo”, para outros pode não ser tanto. “Mesmo em Portugal o conceito de grande incêndio tem vindo a evoluir”.
Há muitos anos, um incêndio com mais de seis hectares já poderia ser considerado grande. Passou para dez, depois para 100, e hoje, estatisticamente, já se considera um fogo com mais de 500 hectares “um grande incêndio”.
Cientificamente, é considerado um mega incêndio o que tem “manifestações de comportamento extremo”. “Isso mede-se, por exemplo, quando a intensidade de propagação está fora do limite de extinção que atualmente está considerado em cerca de dez megawatts por metro. Além disso, quando as chamas têm mais que 15/20 metros, e não se consegue atacar diretamente, já temos um evento extremo, um mega incêndio”.
Entre os vários fatores que podem contribuir para um incêndio assumir estas proporções está a intensidade, propagação e comprimento das chamas. “Já temos visto aqui em Portugal, neste ano e no ano passado, incêndios em que muitas imagens eram o dobro da altura do pinheiro e, portanto, superiores em média 20 metros. Chamas de 40 ou 60 metros. Esse é o conceito de incêndio ou incêndio extremo”, conclui o professor jubilado da Universidade de Coimbra (UC) que coordenou a equipa da UC, designada pelo Governo da época, para estudar o incêndio de Pedrógão Grande.
Já Jorge Carvalho da Silva, da Associação Portuguesa de Técnicos de Segurança e Proteção Civil, foca a definição de um mega incêndio — que também diz não ter “uma definição oficial” —, no combate operacional. “Tudo o que envolva acima de 400 operacionais” é um grande incêndio, explica. Mantendo o foco na vertente operacional da questão, Ricardo Cunha, Presidente do Sindicato Nacional dos Bombeiros Sapadores, resume que é um mega incêndio quando tem características, nomeadamente em termos de elevada “carga térmica”, que “é quase impossível de combater com meios disponíveis” em Portugal.
PAULO CUNHA/LUSA
Deixar arder é a melhor forma de combate aos mega incêndios?
“Não é possível haver no nosso território, tão pequeno, um incêndio deste tamanho: houve falha de estratégia”, sentencia António Nunes, Presidente da Liga dos Bombeiros Portugueses, referindo-se ao incêndio que deflagrou em Arganil e lavrou durante 11 dias ininterruptos.
Para o antigo responsável pelo Observatório de Segurança, Crime Organizado e Terrorismo (OSCOT), “houve incapacidade absoluta de estratégia de parar o fogo”: “A Proteção Civil foi incapaz de encontrar uma estratégia para que o fogo não vagueasse, deambulando quase sozinho sem paragem. Há que estudar porque aconteceu isso”, acrescenta. Para António Nunes, o método de combate utilizado ocorreu porque a estratégia escolhida falhou e procurou-se deixar arder para “proteger as populações”.
Face às críticas, impera perceber como se combatem, atualmente, estes incêndios, o que conta com diversas condicionantes, sobretudo a orografia e as condições do clima. Mas, face às críticas, impera perceber quais são, ou podem ser, as táticas para combater as chamas nestes casos.
Ricardo Cunha enaltece que no caso do incêndio de Arganil, apesar da enorme área ardida, e comparando com outros fogos de menor dimensão, “não há muitas infraestruturas destruídas”, o que traduz a ideia que terá sido aplicada de “defender as pessoas, bens e infraestruturas”, deixando o mato a arder.
A prática de “deixar arder”, segundo Xavier Viegas, tem dois motivos para acontecer: quando não é possível fazer frente às chamas por serem demasiado violentas, ou, mesmo quando até é possível apagar o fogo, este está a lavrar em zonas de difícil ou impossível acesso.
Agência Espacial Europeia
“A posição de deixar arder vai ter que entrar no nosso vocabulário, mas noutro sentido. Por exemplo, nalgumas circunstâncias em que um incêndio está a propagar-se numa zona em que seguramente não vai causar danos em pessoas ou bens e que vai eliminar a biomassa e queimar mato ou outro tipo de combustível que existe. Se queimar [aquele local específico], não vai queimar em mais lado nenhum. Ora, isso pode não só não ser maléfico, como pode até ser benéfico, porque uma das estratégias que nós devemos usar de prevenção, a principal é reduzir a biomassa estática”, resume.
António Nunes entende que, como em Arganil, a estratégia de “deixar arder” tem como objetivo “salvar as aldeias” e é, por norma, o que está na base da decisão de combate às chamas. “Primeiro a defesa da vida. Numa aparente incapacidade de tomada de decisão, salva-se a vida”. Todavia, esta tática levanta problemas: “Quando deixamos arder a floresta, é verdade que preservamos bens e pessoas, mas porventura acabamos por” queimar território, levantando problemas económicos para pessoas que vivem “da floresta, do pastoreio, dos terrenos”, acrescenta o Presidente da Liga dos Bombeiros.
Xavier Viegas traz à memória o incêndio na Lousã em 2017, agora o segundo maior de sempre em Portugal, para comparar com o fogo de Arganil e explicar que mesmo os mega incêndios podem ser muito diferentes entre si e, por isso, obrigar a respostas diferentes.
“O incêndio que tivemos na Lousã em 2017, foi um incêndio que começou com causa humana e em menos de 12 horas atingiu esta área de quase 60 mil hectares. O incêndio de Piódão [Arganil] teve uma causa natural. Sabemos que foi uma descarga elétrica de trovoada, mas estamos a falar de um incêndio que tem mais de dez dias e uma propagação mais lenta. Ocorreu num território que é a Serra do Açor, com uma orografia muito acidentada que tornava difícil o combate. Não é que tivesse velocidades de propagação muito altas, estava a progredir em terrenos acidentados, onde não era viável colocar forças de segurança”.
Por isso, os “mega incêndios” podem ser potenciados pelos “ventos fortíssimos, ou ventos ciclónicos, que produzem propagações muito rápidas”. Ou fogos em orografia muito complexa que se tornam difíceis de combater.
▲ Incêndio em Pedrógão Grande fez 64 vítimas
Incêndio de Pedrógão Grande pode ter sido “catalisador” de “deixar arder”
Apesar de concordarem que há uma mudança de paradigma desde 2017, sobretudo, mas não só, com os incêndios de Pedrógão Grande, quem está no terreno diz que não houve grandes alterações práticas na forma de combater as chamas, tendo-se reforçado apenas a ideia de proteger as vidas.
“Houve um condicionamento de pensamento de dizer ‘Pedrógão Grande nunca mais’. Nesse ano morreram 112 pessoas, mas esquecem-se que em outubro houve 50 mortos. Pedrógão Grande foi concentrado, foi brutal, chocante. Em outubro foi mais disperso”, diz António Nunes.
Não tendo o rescaldo de Pedrógão Grande operado, segundo fontes ouvidas pelo Observador, grandes efeitos práticos no combate, o Presidente da Liga dos Bombeiros diz que “pode ter sido catalisador” desta estratégia de deixar arder. “Ninguém aceitaria hoje que houvesse uma aldeia em que morressem 10 ou 15 pessoas. Há uma componente histórica: Portugal não pode cometer esse tipo de erros”.
A estratégia de combate defendida pela Liga dos Bombeiros para estes grandes fogos é defendida há muito e aplica-se a todos os incêndios. Trata-se de um comando único nacional para melhor coordenar as equipas no Teatro de Operações. A ideia é contestada pelo sindicato dos sapadores, que defende antes a “prevenção e profissionalização do setor”. Com bombeiros e sapadores profissionais, “garantidamente”, os incêndios não chegariam “aos patamares atuais”, diz Ricardo Cunha, que assinala a situação em França: um fogo que começou a 5 de agosto, foi controlado dois dias depois e consumiu 16 mil hectares foi considerado o incêndio do século no país. Trata-se de pouco mais de um quarto da área ardida em Arganil.
PEDRO SARMENTO COSTA/LUSA
Xavier Viegas entende que a maior utilização de máquinas de rasto e a opção por retardantes de fogo, em vez de apenas água, poderiam contribuir para um melhor combate dos mega incêndios. “Uma das vantagens de usar retardante, que nós recomendamos, é para aumentar a eficácia. No caso de se usar apenas água, quando a água se evapora, não fica no chão ou nos combustíveis. Se houver algum produto químico inibidor da reação de combustão, esse produto químico mantém-se mesmo depois da água secar”.
Jorge Carvalho da Silva apela à mobilização de meios da Força Aérea para ajudar no combate, por reconhecer nesse ramo das Forças Armadas alguma “capacidade de posicionamento regional com bases aéreas disponíveis”, sem obrigar Portugal a comprar ou alugar aviões e helicópteros recorrentemente. O especialista em Proteção Civil explica que meios aéreos eficazes ajudariam a diminuir o impacto das chamas para que, quando chegassem os bombeiros, fosse mais fácil apagá-las.
Outra opção de combate que reúne mais consenso entre os vários peritos ouvidos pelo Observador é o fogo controlado, utilizado diretamente no combate às chamas, ou, sobretudo, de forma preventiva, como sugere Ricardo Cunha, que entende que este método deve ser aplicado no inverno, “para limpar o terreno”, facilitando a missão dos operacionais no verão, atendendo, mais uma vez, à orografia complicada dos terrenos em Portugal.
“É evidente que há também o uso do fogo como ferramenta tática que pode ser usada para evitar o fogo. Nalguns casos, pode ser usado também para atacar as chamas, é o contra fogo. Fazer com que o fogo vá ao encontro do fogo principal é muitas vezes a única forma de parar estes grandes incêndios, porque quando eles têm a intensidade de propagação muito elevada, não é possível fazer um ataque direto”, acrescenta Xavier Viegas. Porém, ambos os especialistas alertam que é necessária formação para recorrer a esta ferramenta de maneira correta.
▲ Xavier Viegas, especialista em incêndios florestais
JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR
Ondas de calor e falta de chuva: mega incêndios vão passar a ser mais recorrentes
O especialista em incêndios florestais acredita que as alterações climáticas são o principal motivo para a maior ocorrência de mega incêndios, “como se verifica em Portugal e em muitos países do mundo”. “Enquanto que em alguns países ter um incêndio maior” acontecia “esporadicamente”, agora, “fruto de algumas circunstâncias”, está a ser “mais consistente”. “Um dos indicadores que temos de referência é a precipitação, que tem vindo a reduzir”.
Com menos chuva, o solo e a vegetação ficam mais secos e, portanto, mais disponíveis para arder. Outro fator, aponta Xavier Viegas, é a maior frequência e extensão das ondas de calor. Assim, o especialista entende que os incêndios de grandes dimensões podem não só passar a ser mais recorrentes, mas também “mais graves”.
Jorge Carvalho da Silva acredita que sem políticas de inversão em dois pontos fulcrais (limpeza e combate com meios aéreos), “provavelmente, a recorrência passará a ser mais frequente”.
“Se nada mudar, é cíclico. Durante alguns anos não vai haver densidade para haver incêndio; se durante estes anos não se fizer nada, daqui a uns anos vamos lidar outra vez com mega incêndios”, frisa Ricardo Cunha, dos Sapadores.
MIGUEL PEREIRA DA SILVA/EPA
Quais as consequências dos mega incêndios?
O efeito nefasto dos incêndios de grandes dimensões afeta muitas áreas, com a principal, mais visível, a ser a paisagem escurecida e danificada, sendo necessário esperar vários anos até que a natureza se regenere e os montes, vales e encostas recuperem as cores, associadas à fauna e flora, outrora resistentes na floresta.
Mas estas consequências não ficam por aí. Com o interior cada vez mais desertificado, muitas das zonas afetadas pelos incêndios vivem nos meses de verão, em simultâneo, os mais críticos para os incêndios, uma fase de maior movimento, fruto do turismo e do regresso de muitos emigrantes durante as férias.
“Ao arder a floresta criamos condições para gerar receio nas pessoas em estar em alguma regiões do nosso País mais afetadas pelas chamas”, diz António Nunes.
“Se formos a quantificar economicamente o custo destas perdas é uma ou duas ordens de grandeza superior àquilo que se investe no país em prevenção e combate. As pessoas não têm noção disso. Mas a realidade é esta. É extremamente importante a questão do impacto ambiental e, desde logo, o impacto no solo. O risco que corremos em vários destes incêndios, de perda do solo, pode ser irreversível. E o problema dos mega incêndios é provoca destruição muito extensa de tudo o que era matéria viva que existia no terreno. A biodiversidade é prejudicada, a capacidade da natureza de regenerar é diminuída”, conclui Xavier Viegas.