Ainda estamos em agosto e o ano de 2025 já é o quarto pior no que toca à área ardida desde o início do século. Além de ter ocorrido o maior incêndio até agora em Portugal — Arganil com mais de 64 mil hectares — o mês fica ainda marcado pela ocorrência do terceiro maior fogo de sempre — o de Trancoso no distrito da Guarda — com uma área ardida estimada de 49.324 hectares. Estes são dados do relatório de 23 de agosto do Instituto da Conservação da Natureza e Florestas, ainda provisórios, e que cobrem a área bruta, faltando avaliar se sobreviveram manchas verde nestes imensos territórios.
2025 é já o terceiro ano deste século com mais fogos com uma área ardida superior a 10 mil hectares, apenas ultrapassado por 2003 e 2017, de acordo com as estatísticas do Instituto da Conservação da Natureza e Florestas (ICNF), consultadas pelo Observador. Isto quando ainda faltam dois meses críticos para fechar a contagem. Em 2024, setembro foi o mês em que os incêndios queimaram mais em todo o ano e recuando a 2017, o ano marcado por Pedrógão Grande, os incêndios de maior dimensão ocorreram não nos meses do verão, mas excecionalmente em outubro, devido a uma combinação de circunstâncias climatéricas. Não é apenas Portugal, o ano de 2025 também está a ser muito mau em Espanha.
Portugal continental sofreu 37 super incêndios com mais de 10 mil metros quadrados de área ardida desde o ano de 2000.
As estatísticas do ICNF identificam qual terá sido a origem destes mega-incêndios, pelo menos durante a década de 2011 e 2020 para a qual existe mais informação sobre as causas. Nesse período, registaram-se 17 grandes fogos e em oito deles o incendiarismo (fogo posto) é a causa apontada, variando a explicação entre o vandalismo e outras situações que incluirão as queimadas feitas fora do quadro legal.
Durante esta década, 2017 destaca-se pela negativa em todos os indicadores. Recorde de área ardida — 560 mil hectares — recorde de mega incêndios com mais de 10.000 hectares — 12 — e recorde de número de mortos — 109.
Este é também o ano em que o incendiarismo surge mais vezes como estando na origem de grandes incêndios. É o caso da Sertã (distrito de Castelo Branco), concelho onde começaram em dois meses distintos, um em julho e outro em setembro, dois dos maiores fogos desse ano. Cada um deles representou uma área ardida superior a 30 mil hectares. O fogo posto surge também como a origem do incêndio em Alvaiázere no distrito de Leiria que em agosto desse ano queimou quase 23 mil hectares.
Mas é no dia 15 de outubro de 2017 que surgem mais incêndios de grandes proporções que têm como causa identificada o incendiarismo. Na Figueira da Foz (distrito de Coimbra), o fogo que atingiu Quiaios deixou para trás uma área ardida de 19 mil hectares. Os fogos de Vouzela (distrito de Viseu) e de dois registados no concelho de Seia (Sabugueiro e Sandomil), cada um com mais de 10 mil hectares de área afetada, também foram atribuídos a incendiarismo.
Já o relatório da comissão técnica independente que se debruçou sobre o outubro negro de 2017 concluía que 40% dos 10 casos analisados tinham tido como origem causas intencionais, acrescentando que estas são as que “apresentam maior dificuldade na compreensão e antecipação, por não ser conhecido o seu móbil, exceto posteriormente, se capturado e obtido confissão dos autores”. À data da publicação deste relatório em 2018, não havia desenvolvimentos sobre estas origens.
Três anos depois, o grande incêndio de Proença-a-Nova, que em 2020 queimou quase 15.000 hectares, também tem uma causa intencional.
Entre as outras causas apontadas estão os reacendimentos (a segunda mais comum), as causas naturais (sobretudo raios) e ainda os acidentes ou negligência. É nesta categoria que está a causa do fogo em Pedrógão em junho de 2017 cuja origem identificada foi a descarga de uma linha elétrica. É também à rede elétrica que é atribuída a causa do incêndio da Lousã, igualmente em 2017 (mas em outubro). No caso do grande fogo de Tavira no Cachopo em 2012, a causa apontada foi a projeção de partículas de sobrantes em combustão junto de um parque eólico.
Numa lista de 17 grandes fogos, há também casos cuja causa é desconhecida. Já em outros três fogos em Portugal — o da Chamusca de 2003, o de Góis de 2017 e do Piódão de agosto deste ano — partilham a mesma causa. Um raio numa tempestade seca.
As estatísticas do ICNF têm dados menos completos para a primeira década do século. Entre 2001 e 2011, estão identificados 11 fogos com mais de 10.000 hectares de área ardida, a maioria dos quais ocorreu no ano de 2003 — que é o segundo pior em área total ardida: 426 mil hectares, a maioria dos quais queimados durante uma onda de calor em agosto. Da lista consultada pelo Observador, apenas estão identificadas quatro causas. Uma é natural, mais um raio que desta vez caiu no concelho da Chamusca (distrito de Santarém). As outras três — Nisa, Silves e Pampilhosa da Serra — são o incendiarismo.
Depois de 2020, o ICNF não disponibiliza estatísticas com as causas por cada incêndio.
Em 2023, a AGIF (Agência de Gestão de Incêndios Florestais) publicou a primeira, e única até agora, investigação de peritos à gestão dos grandes incêndios rurais do ano anterior, que não identifica causas para cada uma das ocorrências.
No fogo de maior dimensão investigado, o da Serra Estrela (em 2022), conclui-se que o concelho da Covilhã apresenta um padrão histórico de elevado número de ignições. Só nos dois meses anteriores ao início deste grande fogo — 6 de agosto — foram registadas 39 ocorrências, todas dominadas. “A causa oficial ainda não foi divulgada, mas é sabido que várias destas ignições são de origem criminosa, com ou sem dolo — incendiarismo ou negligência. Assim, conclui o relatório divulgado em 2023, a ignição que deu origem à ocorrência de Garrocho apenas se destacou pelas proporções que tomou, mas decorreu na sequência de um padrão de ignições que vinha a ser registado na área”.
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Mega-incêndios tendem a concentrar-se num só ano
Os dados estatísticos do ICNF permitem perceber que a prevalência de mega incêndios tem vindo a aumentar. Desde 2000 e até agosto deste ano, estão assinalados 37 incêndios com mais de 10.000 hectares de área ardida. Onze destes fogos aconteceram na primeira década do século, estando a maioria deles concentrada em 2003, o ano em que a área ardida em Portugal ultrapassou os 420 mil hectares.
Na década seguinte, foram registados 17 fogos com mais de 10 mil hectares de área ardida, a maioria dos quais em 2017, ano em que a área ardida atingiu uma magnitude recorde de 537,131 mil hectares.
A evolução estava a ser positiva na década em curso, com apenas três fogos (Serra da Estrela, em 2022; Castro d’Aire e Vila Nova de Paiva em 2024) acima da faixa dos 10.000 hectares, mas 2025 veio estragar o resultado. Até agora, já houve seis mega-incêndios acima dessa fasquia — Arganil, Trancoso, Sátão, Freixo de Espada à Cinta e dois no Sabugal.
Se alargarmos o âmbito da análise, até 23 de agosto, estavam catalogados 25 fogos com mais 1.000 hectares ardidos, o número mais alto desde 2017, e que só contabiliza os dados de oito meses. Já em área média ardida por fogo, 2025 segue com o recorde dos últimos dez anos de 36,7 hectares, valor que supera mesmo o ano de 2017 onde essa media foi de 16,3 hectares.
A análise ao histórico dos grandes fogos mostra um padrão de concentração de grandes fogos num só ano — 2003, 2017 e agora 2025. As ocorrências mais significativas verificadas nestes anos surgem em contextos de muitas ignições e fogos ativos em simultâneo, acompanhadas de condições climatéricas adversas — ondas de calor (2003), seca (2017) ou as duas condições combinadas com vento. Estes cenários severos obrigam à dispersão dos meios de combate por vários teatros de operações, como vimos acontecer, sobretudo a partir de 14 de agosto, o que dificulta o controlo das ocorrências e prolonga o tempo de vida do incêndio.
Os incêndios mais duradouros tendem a ser os que consomem mais área, mas nem sempre é assim. Os fogos de outubro de 2017 duraram no máximo três dias, porque deflagraram num clima de pré-tempestade Ophelia que ajudou a propagar as chamas com o vento, mas acabou por ajudar a apagá-las com a chuva.
Uma tempestade seca esteve na origem do fogo que começou em Piódão na madrugada do dia 13 agosto e espalhou-se a sete concelhos de três distritos — Arganil, Pampilhosa da Serra e Oliveira do Hospital (distrito de Coimbra), Seia (Guarda) e Fundão, Covilhã e Castelo Branco (distrito de Castelo Branco). Esteve ativo em pelo menos uma das muitas frentes até às 12h00 do passado domingo, o que totaliza 270 horas (cerca de 11 dias). No entanto e até ser considerado extinto terá demorado ainda mais tempo.
▲ A serra de Monchique no Algarve tem sido das mais atingidas por mega-incêndios
FILIPE FARINHA/LUSA
No caso de Trancoso, um incêndio que se juntou a outro em Sátão, formando um complexo único que apanhou 11 concelhos da Guarda e Viseu, as chamas começaram a 9 de agosto. Apesar deste grande fogo ter entrado em resolução no dia 17 de agosto, o que perfaz cerca de 192 horas, a sua extinção, de acordo com os dados do ICNF, só foi declarada uma semana depois, a 24 de agosto.
Na lista dos mega incêndios até 2020, para os quais existe mais informação, há quatro que atingiram ou ultrapassaram a fasquia das 200 horas (cerca de oito dias). Dois deles foram em Monchique — em 2003 um fogo consumiu 13.144 hectares e demorou 249 horas a ser extinto e em 2o18 um outro queimou uma área de 26.763 hectares, durando 200 horas. Os outros dois incêndios aconteceram no distrito de Castelo Branco — o de Oleiros em 2003 com uma área ardida de 11.300 hectares e 261 horas até ser extinto — e o de Proença-a-Nova do mesmo ano no qual arderam 13.5o0 hectares e que demorou 271 horas a ser extinto.
Em comum estes fogos têm o terreno onde se localizam, montanha e serra de difíceis acessos, e uma elevada percentagem de floresta queimada na área total ardida. São fatores que também contribuem para o tempo e a dimensão dos mesmos. Outra variável que pesa é a quantidade de combustível no terreno que é maior quando as áreas afetadas estão há mais anos sem arder.
O grande incêndio da Serra da Estrela que atingiu 27 mil hectares em 2022 chegou a ser declarado em resolução nove dias depois ter começado, a 15 de agosto, mas houve reativações e só ficou dominado a 17 de agosto, lavrando por mais de 10 dias. O fogo iniciado na Covilhã propagou-se aos concelhos de Guarda, Manteigas, Gouveia, Celorico da Beira e Belmonte, abrangendo uma extensa área protegida.
▲ Fogo na Serra da Estrela em 2022 demorou 10 dias a ser controlado
NUNO ANDRÉ FERREIRA/LUSA
A área ardida apresentava muitas zonas com limitações de acesso e mesmo nas estradas existentes havia necessidade de realizar longos percursos para transitar entre várias áreas. Estas terão sido também condicionantes para o grande fogo do Piódão (Arganil) que afetou não só a Serra da Estrela (em concelhos que não tinham sido atingidos em 2022), mas também a Serra da Gardunha. Assim como as condições atmosféricas marcadas por uma ausência prolongada de recuperação das condições de combate durante a noite com a descida da temperatura e aumento da humanidade.
Há ainda outro paralelo que salta à vista e prende-se com estratégia do ataque ao incêndio e uma aparente prática do “deixa queimar que é mato” que tem sido associada ao combate a grandes fogos em contextos de montanha e, em particular, em parques naturais, como o que queimou uma parte substancial da Peneda Gerês no início de agosto.
“Ardeu tudo” na serra e população critica combate ao fogo na Peneda-Gerês
O incêndio de Ponte da Barca não atingiu os 10 mil hectares, ficou-se pelos 7.164 hectares, mas foi um dos primeiros fogos de grande dimensão este ano e um dos que demorou mais tempo a ficar extinto, quase nove dias.
A investigação de 2022 ao fogo da Serra da Estrela, tendo como base a análise dos sinais de rádio do SIRESP (sistema de comunicações de emergência) “revelou a grande assimetria entre o tempo despendido pelos corpos de bombeiros e pelo FEPC [Força Especial de Proteção Civil] nas povoações e estradas, por comparação com o espaço rural”.
Uma das recomendações deste relatório é a de “que seja substancialmente aumentada a prioridade dada pelo comando das operações à defesa dos territórios rurais e que isso se reflita no planeamento e execução das operações no terreno, nomeadamente através do aproveitamento das oportunidades proporcionadas pelas áreas sujeitas a gestão da vegetação para prevenção do perigo de incêndio”.
De acordo com o Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF), e a partir de dados provisórios até 23 de agosto, a área ardida em Portugal estava próxima dos 250 mil hectares, das quais quase metade — 114.233 hectares correspondia a povoamentos florestais.
Na análise mais fina feita pelo Centro de Estudos Florestais do Instituto Superior de Agronomia aos cinco incêndios com área superior a 10 mil hectares a 21 de agosto, os matos eram a maior ocupação afetada, seguida pela floresta que representava pouco mais de um terço. A análise foca-se nos fogos do Piódão, Trancoso, Sabugal, Sátão e Freixo de Espada à Cinta e tem por base os mapas do European Forest Information System (EFFIS) e estima que tenham sido afetados 72,4 mil hectares de floresta dos quais o pinheiro bravo representava dois terços da área queimada.