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Gero Jung: "Se Atenas não pagar, países mais pobres que a Grécia vão sofrer"

Gero Jung, economista-chefe da Mirabaud Asset Management, diz que "não é aceitável" que a Grécia queira continuar a gastar mais do que pode. E diz que Portugal precisa de mais flexibilidade laboral.

A Grécia não deverá sair da zona euro, acredita o economista-chefe da casa de investimento suíça Mirabaud Asset Management. Mas, se isso acontecer, o potencial para turbulência nas bolsas é grande porque a maioria dos investidores está a apostar que haverá uma solução benigna. O que “não é aceitável”, diz Gero Jung, que esteve em Lisboa esta semana para uma conferência da Mirabaud, uma gestora que caminha para os dois séculos de História, é que o governo grego continue a querer gastar mais enquanto depende do financiamento de países, em alguns casos, mais pobres do que a Grécia e que “também estão a passar por dificuldades”.

A Mirabaud está a recomendar aos clientes a aposta nas ações europeias e a desaconselhar o investimento nas ações americanas. É só porque os estímulos monetários estão a aumentar na zona euro e a diminuir nos EUA ou é porque acreditam mais no crescimento económico na Europa do que nos EUA?

É um misto dos dois. Por um lado, não há dúvida de que um programa de estímulos de um banco central que corresponde a um décimo do PIB anual da região é algo importante. E não podemos esquecer-nos de que os estímulos, na zona euro, ainda agora começaram e devem continuar até setembro de 2016, talvez até prolongando-se por mais tempo. Mas também é verdade que mesmo quando comparamos a evolução das taxas de crescimento dos EUA e da zona euro, o otimismo em torno dos EUA já foi incorporado no mercado. Assim, estamos um pouco mais prudentes em relação às ações dos EUA, até porque acreditamos que nos EUA o ciclo de subida de taxas de juro pode começar já no final deste ano. Acreditamos que, nos EUA, a subida do mercado já deu o que tinha a dar, até certo ponto.

E na Europa?

Na Europa, as ações já estão a subir quase 20% em 2015, acredito que é possível que subam ainda mais 10% face aos valores atuais, até ao final do ano.

Um risco a que aludiu na sua apresentação é, claro, a questão da Grécia. Como vê a situação a evoluir nos próximos tempos?

Acreditamos que os investidores estão a subestimar os riscos que teria uma saída da Grécia da zona euro, em parte devido aos estímulos do BCE. É por isso que os mercados estão relativamente calmos em relação a esse risco, o que pode ser um problema caso aconteça o contrário [a saída]. No entanto, isso não significa que sejamos da opinião de que um cenário de saída da Grécia é o mais provável. Acreditamos que é mais provável que não saia da zona euro do que o contrário.

"Não é aceitável é que o Estado grego continue a acumular défices como o governo quer fazer".
Gero Jung, economista-chefe da Mirabaud Asset Management

Acha que os investidores estão tranquilos porque acreditam que acabará por haver um acordo ou porque acham que mesmo que não haja um acordo e a Grécia saia isso não será um problema?

A primeira, na minha opinião. Será um desafio pagar ao FMI o que a Grécia lhe deve neste mês de junho. Nesta fase, os gregos começam a querer que se encontre uma solução: o país voltou à recessão, os bancos estão dependentes da liquidez de emergência do BCE, que pode ser cortada a qualquer momento. Tem de encontrar-se uma solução política e está a subir a pressão sobre o governo grego. Essa pressão vem do próprio partido, dos cidadãos e, não podemos esquecer-nos, dos credores – vale a pena recordar que o FMI, por exemplo, é uma comunidade de 188 países que inclui países mais pobres [do que a Grécia] que irão sofrer com isso se Atenas não pagar.

Mas a Grécia não deve tentar negociar condições mais suaves para o seu ajustamento?

O que, para mim, não é aceitável é que o Estado grego continue a acumular défices como o governo quer fazer. O Estado grego paga algo como 1,5 mil milhões de euros, todos os meses, em pensões e salários da função pública. E quando se olha para o contexto da zona euro, há que sublinhar que a Grécia tem 320 mil milhões de euros em dívida pública. Mas metade dessa dívida está no Fundo Europeu de Estabilidade Financeira (FEEF) e sobre essa dívida não se pagarão quaisquer juros até 2022 – há uma moratória de 10 anos. Em proporção do PIB, a Grécia gasta um valor na casa dos 2% do PIB em juros da dívida, o que é muito menos do que os outros países, incluindo Portugal e Espanha. Podemos perguntar-nos porque é que estamos a ter este impasse, tendo em conta que, por exemplo, o desemprego em Portugal e em Espanha também é elevado, ou seja, a Grécia não é o único país com dificuldades. E há outra questão, é que ainda que países como a Alemanha sejam os principais credores da Grécia, em termos de proporção do PIB são países como Malta ou Eslovénia que irão sofrer mais (em termos relativos) se a Grécia não pagar.

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“O desemprego em Portugal e em Espanha também é elevado, ou seja, a Grécia não é o único país com dificuldades”, diz Gero Jung.

Voltando à situação fundamental na Europa, o crescimento, que confiança lhe dão os últimos dados económicos de que a economia da zona euro está a recuperar de forma sólida?

Não acreditamos, de modo algum, que a zona euro esteja num boom. Mas há uma clara melhoria sobretudo nos países da periferia, como Espanha, Portugal, até a Itália. Por outro lado, vemos alguma desaceleração em alguns dados económicos avançados na Alemanha.

Estamos, então, a caminhar no sentido da convergência? A tão desejada convergência?

Sim, por um lado. De facto, não é algo necessariamente negativo que os países da periferia estejam a recuperar algum terreno face à Alemanha. Mas, por outro lado, isso torna mais difícil que haja surpresas positivas no crescimento da zona euro como um todo, dada a importância da Alemanha, e isso também é uma questão crucial, sobretudo para atrair investidores para a Europa.

Nos mercados de ações, em termos de preço [e não de avaliação, ou seja, do cálculo entre o preço e as perspetivas de lucros] as ações europeias estão nos níveis mais elevados de sempre, em muitas bolsas…

Sim, não podemos dizer que estejam baratas. Mas há que lembrar que temos na zona euro um comprador fortíssimo de ativos [o BCE] com menor risco (dívida pública e, também, dívida privada). Quem vende ao BCE tem de depois colocar o dinheiro em algum lado, e como as taxas negativas penalizam quem se “sentar” no dinheiro, isso obriga a que os investidores apostem em ativos com maior risco, como as ações.

"O crescimento económico só acontece quando existe uma de duas coisas (ou ambas): ou cresce a população ou cresce a produtividade".
Gero Jung, economista-chefe da Mirabaud Asset Management

Os países estão a aproveitar o tempo dado pelo BCE para fazer as reformas?

Como economista, quando olho para o crescimento económico, este só acontece quando existe uma de duas coisas (ou ambas): ou cresce a população ou cresce a produtividade. Estes dois fatores, que são cruciais, há muito pouco que um banco central pode fazer quanto a eles. Para o progresso económico, é necessário que haja progresso tecnológico e é necessário que haja um mercado de trabalho flexível. Isso está nas mãos dos governos, que têm de legislar.

Mas tem havido, ou não, progressos suficientes?

Os progressos têm sido demasiado lentos, de um modo geral. E o facto de os juros estarem tão baixos certamente não é um incentivo para que os governos façam mais nesse sentido. Porque o fariam, se sabem que, pelo menos para já, endividar-se é barato? Os estímulos do BCE estão a levar alguns governos a tirar o pé do acelerador no que diz respeito a reformas que são importantes para garantir o crescimento no futuro.

O facto de ser um ano eleitoral em vários países, incluindo Portugal e Espanha, pode estar a contribuir para isso?

Claramente as questões políticas têm importância. Há demasiada dívida na zona euro e é preciso que haja crescimento para que essa dívida seja reduzida, não basta austeridade. Mas o tipo de crescimento que é necessário é, também, um crescimento de longo prazo, e para isso é preciso reformas que tornem a economia mais flexível e eficaz.

“É preciso que haja crescimento, não basta austeridade. Mas tem de ser crescimento de longo prazo, e para isso é preciso reformas que tornem a economia mais flexível”, defende Gero Jung.

Os programas de ajustamento focaram-se demasiado na austeridade e menos nas reformas, como acusam alguns?

Provavelmente a questão da importância das reformas devia ser mais sublinhada pelos políticos da zona euro, não apenas a austeridade. Ainda assim, é um facto que nesta altura um país como Portugal tem um défice orçamental do que França. Têm sido feitos muitos esforços, não se pode esquecer isso.

Na sua apresentação, lamentou que Portugal continue, na sua opinião, a ter de fazer mais reformas no sentido de tornar a legislação laboral mais flexível. Porque tem essa opinião?

Li no último relatório do FMI que Portugal continua a ter trabalho a fazer nesse sentido. O que é que isto significa? Significa que ainda que possa haver algum otimismo no curto prazo, o crescimento potencial não está a aumentar. Significa que ainda não foi feito o suficiente para promover a flexibilidade da legislação laboral, porque isso aumenta o crescimento potencial futuro. Quando se olha para a exportação, verificamos que as perspetivas para Portugal não são tão positivas quanto as de Espanha. Isso deve-se, provavelmente, à insuficiência de reformas, o que pode ser compreensível tendo em conta que é ano de eleições e pode haver alguma fadiga em relação à austeridade.

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O gráfico do FMI de que fala Gero Jung.

Mas também é ano de eleições em Espanha e, aí, existe até uma incerteza maior sobre o resultado, com a ascensão de partidos como o Podemos.

Evitamos fazer comentários sobre partidos políticos específicos. Mas o que quero ver, enquanto economista, é que os governos tenham orçamentos mais equilibrados e que a economia seja mais flexível.

Mas, sabendo que Espanha está a crescer mais, preferiria investir em Portugal porque há, por sinal, menor incerteza no plano político?

Estamos otimistas em relação a todos os países chamados periféricos. Vemos pontos fortes e mais fracos em todos. Mas sem dúvida que, no que diz respeito a Portugal, estamos atentos às perspetivas de evolução das políticas públicas, tendo em conta as eleições de outubro.

"Em Portugal não foi feito o suficiente para promover a flexibilidade da legislação laboral, algo crucial porque aumenta o crescimento potencial futuro".
Gero Jung, economista-chefe da Mirabaud Asset Management

Porque acredita que o programa de estímulos do BCE poderá prolongar-se além de setembro de 2016 [quando é suposto terminar] tendo em conta que, ainda ontem, a inflação na zona euro surpreendeu pela positiva?

Por várias razões. Uma delas é que ainda temos muita dívida. Mas o efeito mais importante é que o efeito mais visível dos estímulos é a redução da taxa de câmbio do euro, ainda que os responsáveis não o admitam. Isso é muito importante para a economia da zona euro. Até setembro de 2016 não teremos tido progressos suficientes para que o BCE possa recuar.

Deixou de haver uma ameaça de deflação na zona euro?

Sempre achei que esses receios eram um pouco exagerados. Custa-me imaginar que o consumidor comum na zona euro possa entrar numa situação em que está a adiar investimentos porque daqui a um tempo o produto ou o serviço vai estar mais barato. Os consumidores não estão a consumir muito por outras razões, porque há desemprego, houve perda de rendimentos. É por isso que os preços estiveram a cair. E isso não é necessariamente mau, porque haver uma queda de preços temporária nos países da periferia significa que estes países estão a ganhar competitividade. Para isso é preciso, claro, que no resto da zona euro (nomeadamente na Alemanha) haja inflação maior, o que infelizmente não é o caso.

Não é uma boa altura para se “sentar” no dinheiro, com depósitos ou investimento sem risco.

Neste momento, depois de o BCE ter decretado taxas de juro negativas nos depósitos. Para nós, isso obriga a investir em ativos com mais risco, como ações, imobiliário. Para quem investe a prazo, para os filhos, depois da educação – que é, de longe, o investimento mais lucrativo a todos os níveis – deve investir-se as poupanças em ativos que consigam gerar rendimento apesar de não se esperar um crescimento muito elevado nos próximos anos. E se se manter tudo em depósitos, há o risco de uma subida grande da inflação que faça com que se perca muito dinheiro. É preciso ter uma perspetiva de investimento equilibrada, diversificada e, também, dinâmica.

Gero Jung é economista-chefe da Mirabaud Asset Management e membro do Comité de Investimentos da casa de investimentos fundada em 1819. Começou a carreira na gestão de investimentos em 1993. Foi economista da Zurich Financial Services antes de passar para o banco central, o Banco Nacional Suíço. Daí, trabalhou para o Fundo Monetário Internacional (FMI) como assessor do diretor executivo do FMI. Passou, também, pela UBS, ABN Amro, Deutsche Bank e, também, o Banco Mundial. É doutorado em Economia Internacional pela Universidade de Genebra.

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