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Os metais raros estão entranhados na nossa vida. Não há carros, nem smartphones, nem computadores sem eles. E, no entanto, pouco sabemos sobre eles. De onde vêm, como se extraem, como se compram e se vendem?
Guillaume Pitron passou grande parte da sua vida a investigar isso mesmo. O jornalista francês, que trabalhou para órgãos como o Le Monde Diplomatique e a National Geographic, fez vários documentários que o levaram a tentar visitar minas guardadas a sete chaves na China, conhecer uma tribo sul-africana que faz a sua própria mineração e entrevistar empresários poderosos em bares de hotéis espalhados um pouco por todo o mundo.
Em 2018 publicou um livro sobre o tema em França. Na altura, parecia uma obra ainda mais rara do que os metais de que fala. Mas agora, depois de o Presidente norte-americano ter colocado a expressão nas bocas do mundo com uma proposta de acordo sobre terras raras na Ucrânia, o livro ganhou outra relevância. E, por sorte, vai ser publicado em Portugal, no próximo mês de abril pela Zigurate, com o título: A Guerra pelos Metais Raros — O Lado Negro da Transição Energética e Digital.
▲ A capa de "A Guerra dos Metais Raros". de Guillaume Pitron (Zigurate)
Pitron explora no livro não só o funcionamento deste mercado, mas também as suas implicações. Os metais raros são essenciais para a chamada “indústria verde” — não por acaso, são essenciais para a construção das baterias dos carros elétricos, por exemplo —, o que tem influenciado a perceção de que são uma excelente solução para o mundo se afastar dos combustíveis fósseis.
Só que, como explica o jornalista, nem tudo é assim tão simples. Esta indústria, diz Guillaume Pitron, “nunca será uma indústria ‘verde'”. “O que fez dela tão suja é o facto de termos feito outsourcing de tudo. Externalizámos os custos sujos, toda a poluição associada à extração e ao refinamento, para países com menos regulação ou nenhuma. E é por isso que estávamos tão contentes. Era o mundo maravilhoso da globalização: os chineses ficam mais ricos e nós ficamos mais limpos. Mas é um teatro de sombras”, sentencia.
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Apesar disso, o jornalista continua um crente de que o foco neste tipo de exploração é o certo — “não acho de todo que devamos continuar a apostar no petróleo” — e apresenta alternativas para “limpar” a extração e refinação de metais raros: em particular a aposta na produção em países ocidentais, com regulações ambientais mais apertadas. O problema, diz, é poucos parecem interessados em explicar isso, repetindo a palavra “hipocrisia”. E deixando um alerta: para termos energia mais “verde”, teremos de vir a pagar mais pelos nossos carros, smartphones e computadores.
O que são os metais raros? “Não vivemos um minuto das nossas vidas sem eles. E nem sabemos que eles existem”
Estamos num momento em que se fala muito de metais raros, mas a maioria das pessoas não sabe exatamente de que se fala. Portanto começaria precisamente por aí: o que são os metais raros?
Ora, o que são metais raros? Bem, na crosta terrestre existe aquilo a que chamamos de metais básicos e abundantes: o alumínio, a bauxite, o zinco, o cobre, o ferro. E depois existem metais a que se chamam raros porque são muito mais raros do que estes, milhares de vezes mais raros. Mas falamos em termos de conteúdo, porque na verdade eles não são assim tão raros, no sentido em que os encontramos em quase todo o lado na terra. Estão espalhados por dezenas de países, mas como estão tão diluídos é muito difícil extraí-los da terra, refiná-los e produzir estes metais de forma 100% pura.
Para além disto, estes recursos têm propriedades químicas muito mais interessantes do que os metais básicos. E, graças à tecnologia, ao longo dos últimos 40 anos tornámo-nos capazes de os usar. Sabíamos que existiam, mas até às décadas de 1970, 1980, não conseguíamos usá-los.
Não existia essa tecnologia para os extrair?
Exato. Agora usamos propriedades magnéticas ou óticas que permitem a miniaturização e assim conseguimos obter mais de uma menor quantidade destes metais. Eles tornaram-se incontornáveis: usamo-los para tudo nas nossas tecnologias modernas e nem reparamos.
Como nos nossos smartphones, nos nossos carros…
Isso mesmo. E encontramos todo o tipo de metais nas tecnologias “verdes”. Por exemplo, o metal mais importante da transição energética é o cobre, que é um metal abundante necessário para os transportes elétricos, porque é usado nos fios elétricos. O cobre e o alumínio são essenciais para a eletricidade e não são raros. Mas depois a tecnologia “verde” também precisa de metais raros. Por exemplo, na bateria de um carro [elétrico] encontramos cobre, que não é raro, mas também encontramos níquel, que é considerado raro. E lítio, que está ali no meio. Isto existe nos motores de praticamente todos os carros elétricos, em 90% deles. Um motor é feito de magneto, que é composto por um metal chamado neodímio, e o neodímio faz parte de uma família de metais que se chamam terras raras. As terras raras são uma classificação especial, uma família composta por uns 15 metais.
Portanto são ainda mais raras do que os outros metais raros.
Podemos dizer que sim, de certa forma. Estão muito diluídas, são muito difíceis de extrair da crosta terrestre e de serem refinadas. Nos painéis solares, por exemplo, encontramos índio e um metal raro que não é tão estratégico, que é a prata. Isto existe nos nossos smartphones, que são compostos por dezenas de metais. E também existem nas tecnologias de defesa. E, como estas também são digitais, essa parte também precisa destes metais. Por isso é que todas as indústrias de defesa estão à procura das propriedades magnéticas das terras raras. Por exemplo, um míssil de precisão precisa de um magneto de uma terra rara específica. Ou seja, não vivemos um minuto das nossas vidas sem estes recursos. E nem sabemos que eles existem, apesar de precisarmos muito deles.
▲ Guillaume Pitron fez uma série de documentários sobre a questão dos metais raros
Reda Settar
No seu livro explica bem como a China se tornou o maior ator nesta área, quer na extração, quer na distribuição. Uma fonte diz-lhe mesmo que, neste mercado, a China é como a “OPEP [Organização dos Países Exportadores de Petróleo] em esteroides”… Como é que o mundo tem vivido com este produtor e distribuidor que tem quase um monopólio?
Bem, até há pouco tempo toda a gente estava feliz. Esta é uma ordem mundial que se organizou desde os anos 70, numa altura em que a regulação ambiental no Ocidente estava a tornar-se mais apertada e não permitia a industrialização nos nossos países e a abertura de mais minas. Portanto, fechámos quase tudo, das minas às refinarias. Precisávamos dessas minas para cobrir as nossas necessidades, mas não foi isso que aconteceu.
Ao mesmo tempo, outros países que tinham estes recursos nos seus solos ofereceram-se para fazer o “trabalho sujo”, porque economicamente estavam mais atrasados em relação a nós. E então o mundo organizou-se entre os que produzem e os que compram e usam estes produtos nas suas tecnologias. Portanto a cadeia [de fornecimento] a montante foi ocupada pela China e por outros países e a cadeia a jusante foi ocupada pelos países europeus e pelos Estados Unidos da América (EUA), que compravam os metais e os incluíam nas suas tecnologias. Essa ordem mundial era perfeita, deixava todos felizes.
Na prática, fizemos outsourcing para a China?
Fizemos outsourcing de tudo: da produção, das minas, das refinarias — e da poluição. Havia aqui uma hipocrisia enorme. E ainda há, porque, como explico no livro, o mundo dividiu-se entre os que estão “sujos” e os que fingem ser “verdes”. Aquela altura também foi boa [para este fenómeno] porque a Organização Mundial do Comércio (OMC) estava a obrigar a que, segundo as leis do comércio, qualquer recurso produzido em qualquer parte do mundo, tinha de ser vendido pelo país que o estava a produzir. Por isso, “a mão invisível” do mercado garantiu que teríamos acesso a esses recursos. Os chineses produziam por um custo mais baixo, em média duas vezes mais baixo; os ocidentais tinham acesso a terras raras baratas, com uma boa margem, e sem ter a poluição. Ao mesmo tempo, os chineses aceleravam o seu desenvolvimento económico.
▲ Uma mina na província de Sandong, na China, país que dominou durante anos a extração e venda de metais raros
MARK R. CRISTINO/EPA
Esse mundo está a chegar ao fim. No que diz respeito aos metais raros, acho que acabou ao longo dos últimos dez anos. Esta história tem passado despercebida ao longo deste tempo e agora explodiu com tudo o que está a acontecer, com o acordo de [Donald] Trump com a Ucrânia e etc. Mas sobretudo está a mudar porque agora não é por um país ter estes recursos que tem obrigatoriamente de os vender, já que a OMC como a conhecíamos está praticamente morta. Na prática, um país que tenha tudo não tem de o vender ao resto do mundo. Pode mexer na sua cadeia de valor e alimentar o seu próprio mercado e as suas próprias tecnologias em vez de vender ao resto do mundo, o que estrategicamente faz sentido. É por isso que temos uma situação em que países como a China, sobretudo, mas também a República Democrática do Congo, o Chile, a Indonésia, usam o níquel, por exemplo. Precisamos de reiventar tudo, porque as regras do jogo da era pós-II Guerra Mundial estão a mudar completamente.
As terras raras da Gronelândia e da Ucrânia. “De certa forma, agradeço a Donald Trump por estar a chamar a atenção para este tema crucial”
Falou de Trump e de como as suas políticas estão a afetar esta questão. Olhemos para elas: uma potencial guerra comercial, em particular com a China; foco em produzir petróleo norte-americano; um possível acordo sobre metais raros com a Ucrânia; o desejo de extrair minerais da Gronelândia… Estas políticas fazem sentido?
Sim e não. Em primeiro lugar, durante o primeiro mandato de Trump, ele politizou o tema. [Barack] Obama não tinha noção disto, o tema não estava politizado e Trump fê-lo, através do seu viés de “America First”. Era impossível estar dependente do fornecimento de terras raras e outros metais ao mesmo tempo que se mantinha uma guerra comercial com a China. Depois [Joe] Biden manteve esta política e fez muitas coisas. Biden teve um mandato que se focou no acesso a minérios, a abrir minas em território norte-americano e a obter acesso a estes recursos noutras partes do mundo. Agora com Trump de regresso ao poder, ele está a usar isto de forma muito oportunista.
Não tenho a certeza que ele queira a Gronelândia por causa dos minerais. Há muitas outras razões, como ter acesso às rotas de entrada nórdicas que são estratégicas para os EUA e garantir que os chineses não ocupam esse território. Os minerais também fazem parte, é claro. Mas o que acho muito impressionante é a forma como ele diz que era capaz de começar uma guerra para ocupar a Gronelândia. Para ser honesto, tenho sérias dúvidas de que faria sentido ocupar a Gronelândia por causa de minérios. Em primeiro lugar, os EUA têm muitos destes recursos. O Canadá também, o Chile e o México idem. O Canadá tem níquel, cobalto… O lítio é abundante no México. O continente americano tem tudo o que precisam, bastaria usarem a diplomacia para aceder a esses recursos. América do Norte, Central e do Sul… Os EUA têm mais do que o suficiente aqui. Também produzem terras raras, os EUA têm uma mina que as extrai, na Califórnia. O problema é que não têm refinarias e, portanto, estão a acelerar esse processo, para não terem de as enviar para a China para serem refinadas. Portanto, no caso da Gronelândia, parece-me muito difícil ter todas estas capacidades a curto-prazo. Eles têm muitos recursos, são aquilo a que chamamos um “depósito”, mas não é um local de mineração ativa. Abrir uma mina demora para caraças, uns 15 anos!
E implica muito investimento.
Sim! Só em eletricidade, são precisas barragens hidroelétrcas, o que iria custar imenso dinheiro até se obter qualquer lucro. Agora, olhemos para a Ucrânia: é tudo muito oportunista. Trump quer falar para o seu eleitorado, quer dizer “Sei que vocês perderam poder de compra e vamos recuperá-lo com estes recursos que a Ucrânia tem, vamos assinar um acordo”. Mas isto são só frases… Ele não diz nada sobre o facto de que demoraria 15 anos a abrir uma mina de terras raras na Ucrânia e outros 15 anos a extrair os recursos. E que demoraria muito até receberem um dólar que fosse em troca do investimento que fizeram. Portanto, é tudo muito espetacular, mas não tenho a certeza que vá acontecer. Os EUA não vão investir um dólar. Ou seja, tudo vai depender dos investidores privados e se os investidores privados norte-americanos querem investir ali.
O que é ainda mais interessante e o aspeto espetacular é que o acordo ainda nem foi assinado, mas isto colocou o foco na realidade de que estamos a entrar numa nova era, em que livrarmo-nos do petróleo significa que ficaremos dependentes de outros recursos. E, de certa forma, agradeço a Donald Trump por estar a chamar a atenção para este tema crucial, enquanto a maioria do mundo está a dormir.
▲ Donald Trump tem tentado promover um acordo com a Ucrânia para os EUA terem acesso às terras raras em solo ucraniano
Getty Images
Diz que estamos a atravessar uma revolução energética e uma revolução digital e que estes metais são essenciais para elas. Há pessoas na administração Trump, como Elon Musk, que estão muito a par destas revoluções. Acha que Musk pode estar a influenciar o Presidente nesta matéria?
Para ser sincero, não faço ideia [risos].
Ninguém sabe, não é?
Exato. Não me surpreenderia que Musk tivesse algo a dizer sobre isto, mas é só um palpite, apenas isso. Musk tem estado à procura destes metais em todo o lado. Tem desenvolvido aquilo a que um escritor francês chamou o “Teslismo”, inspirado no “Toyotismo”. Qual era o lema da Toyota? Não ter stock e ser o mais rápido a entregar. Na prática, não lhes interessava de onde vinham os recursos, bastava ter fornecedores de topo que garantiam que os componentes estavam disponíveis para serem integrados num carro. Há dez anos, Musk pensou “Meu Deus, o meu carro elétrico precisava de muitos destes recursos. Preciso de rejeitar este modelo de ‘Toyotismo’ e fazer antes como Henry Ford: ter acesso aos recursos, mas controlar a cadeia de abastecimento toda, até à mina”.
▲ Elon Musk percebeu desde cedo, através da Tesla, da importância de assegurar o fornecimento destes minérios
E ele tem desenvolvido este modelo muito interessante de garantir acesso aos recursos, como fez para as baterias dos seus carros elétricos. Não esqueçamos a quantidade de vezes que ele disse nos media que precisa de níquel. Até se refiriu ao níquel como uma “especiaria”, em referência ao livro Dune. Disse “preciso de especiarias” — e o que ele precisa é de níquel. Ele tem garantido acesso a níquel em várias partes do mundo e também a lítio. Teve uma estratégia muito inteligente no mercado automóvel muito antes de todos os outros e agora todos fazem o mesmo: a Volkswagen, a BMW, a Renault, todos tentam assegurar os seus recursos. Mas Musk está mais à frente, ele percebeu quão estratégicos estes recursos são. Não sei se soprou isto ao ouvido de Trump; mas se Trump fizer este acordo com a Ucrânia é potencialmente benéfico para uma empresa como a Tesla. É tudo o que posso dizer sobre isto.
Na Europa há cada vez mais consciência de que a autonomia é necessária, vemos isso agora na área da Defesa e armamento. O acesso aos metais raros nessa área está atrasado?
A necessidade de metais para a indústria da Defesa é muito estratégica, muito prioritária, mas tem percentagens muito baixas. Na prática, menos de 3% dos metais de que o Ocidente precisa são na área das tecnologias de Defesa. Ou seja, estamos a falar de volumes muito pequenos, mas muito estratégicos. Há um plano de 100 mil milhões de euros para reativar a base industrial de Defesa; mas é necessário alterar as mentalidades sobre como os metais raros também são precisos aqui.
Posso contar-lhe uma coisa. Não posso dizer quem me disse, mas sei que entre os produtores de Defesa europeus esta questão começa a ser tida em conta. Porque as grandes empresas de Defesa estão no topo da cadeia e dependem de milhares de fornecedores. E só agora começam a falar, em privado, sobre “A quem vamos buscar isto?”. Há um metal muito interessante: o titânio. O titânio é essencial na aeronáutica, para aviões civis, mas também para aviões militares. E a maioria dos aviões é feito com titânio que vem da Rússia. Em setembro, Moscovo disse que estava a considerar diminuir os níveis de fornecimento de titânio. E a questão coloca-se: onde vamos buscá-lo se os russos não o venderem? A Airbus foi alvo de uma grande investigação jornalística em França, por se ter descoberto que obtém o seu titânio da Rússia: foi criticada por pagar centenas de milhões de euros e estar a participar diretamente na ajuda à Rússia para alimentar a guerra na Ucrânia. Mas a Airbus não tem outra alternativa para obter titânio.
Isto não abre a porta a “cavalos de Tróia” em termos de espionagem? Não existe a possibilidade de países como a China e a Rússia usarem estes componentes para perturbar países do Ocidente?
Os norte-americanos têm este receio e ninguém tem ligado muito. Mas é difícil usar um magneto de terras raras como “cavalo de Tróia”, por isto: extrair isto é como cozinhar pão, põe-se no forno e cozinha-se a centenas de graus de temperatura — e nenhum “cavalo de Tróia” resiste a isto. Acho mais provável que seja usado através de microchips, por exemplo. Os chineses não estão muito evoluídos nesta área, não conseguem produzir os microchips de melhor qualidade. E as agências de segurança não têm estado muito a par. No livro até falo de um tipo da CIA que diz “O tema está na minha caixa de email, mas está muito lá para baixo”. Mas hoje em dia isso está a mudar. Não sei pormenores, mas sei que há agências de informação na Europa que se estão a formar nisto. Quando publiquei o livro em França, há sete anos, não faziam ideia de nada. Mas agora está a tornar-se prioritário e sabem que têm de ter um plano.
Democracias vs. autocracias. “Nunca será completamente limpo extrair lítio no norte de Portugal. Mas a nossa regulação é muito melhor”
Falou na hipocrisia do Ocidente, ao fazer outsourcing nesta área. No livro fala também de hipocrisia em relação à ideia de esta ser uma indústria ecológica, porque, na realidade, os custos de produção são elevados e os riscos ambientais enormes. Há outra forma de fazer isto ou esta indústria será sempre pouco “verde”?
Nunca será uma indústria “verde”. Mas pode ser mais responsável e menos suja do que tem sido até agora. O que fez dela tão suja é o facto de termos feito outsourcing de tudo. Externalizámos os custos sujos, toda a poluição associada à extração e ao refinamento, para países com menos regulação ou nenhuma. E é por isso que estávamos tão contentes. Era o mundo maravilhoso da globalização: os chineses ficam mais ricos e nós ficamos mais limpos. Mas é um teatro de sombras. Fingimos que vivemos num mundo “verde” maravilhoso, mas ele não o é: o lixo está escondido noutro lado, muito longe de nós, em sítios aonde os jornalistas não vão — porque se um jornalista chinês for lá, é preso. Isto já não é sustentável. Não podemos continuar a fingir que somos “verdes”.
Estamos cada vez mais a considerar relocalizar estas indústrias para os nossos territórios — por questões de soberania, mas também por questões “verdes”. Nunca será completamente limpo extrair lítio no norte de Portugal e nunca será completamente limpo extrair terras raras na Suécia. Mas a nossa regulação é muito melhor e melhor aplicada do que qualquer uma a que assisti na China. Portanto relocalizar é uma boa decisão ecológica. Não vai deixar toda a gente contente na Europa, mas eu prefiro mineração responsável aqui do que mineração irresponsável em países onde não consigo ver o que se passa.
Para além disso, na Europa temos muita regulação para as empresas, que são responsáveis pela forma como os seus recursos foram extraídos, mesmo que noutro país: és responsável pela forma como o teu ouro foi extraído numa mina colombiana, por exemplo. Se ele for parar a uma linda joia, como último elemento da cadeia és responsável pelo processo de mineração, terás as ONG e os media em cima de ti a dizer que não és sustentável. Há muita pressão sobre as empresas europeias, até na área do luxo, para que mapeiem as suas cadeias de fornecimento e tenham a certeza que tudo é “verde” do início ao fim. E, se não for, para mudarem de fornecedores. Já há uma diretiva europeia muito interessante para isso, a CS3D: não há acesso ao nosso mercado se não cumprirem as nossas regulações como consumidores. E isso já está a alterar a forma como as coisas são feitas até noutros países. Isso vai tornar as coisas melhores, mas nunca vai tornar tudo “verde”. Isso nunca vai acontecer. E acrescento isto: vamos extrair cada vez mais e mais. Há um efeito de ricochete: precisamos de abrir centenas, se não milhares, de minas ao longo dos próximos 20 anos para apoiar a transição energética.
Aquilo que está a dizer é que, se queremos manter o mundo o mais “verde” possível, devem ser os países democráticos a fazer a exploração de minerais?
[Hesita]
No sentido em que têm uma imprensa livre, escrutínio e consumidores mais informados.
Sim, sem dúvida. Prefiro ter uma mina de lítio num país democrático, onde as comunidades locais estão a par do processo. É aquilo a que se chama de “licença social” para operar. Agora, pensemos nisto: demora algum tempo a abrir uma mina em França ou em Portugal. Em França temos uma discussão sobre uma mina que dura há dois anos e pode demorar ainda mais porque não há essa “licença social”. Enquanto que na China temos outro modelo onde ninguém quer saber do que pensam as comunidades. Os “Coletes Amarelos” não existem na China, as pessoas são presas. Por isso é mais fácil a curto-prazo abrir minas na China para fazer essa transição energética. E isto coloca a questão: devem ser os Estados democráticos a fazê-lo ou devem ser os Estados autoritários, devido à urgência que há em fazer esta transição? Os chineses estão a passar uma mensagem de forma subtil: “Nós, os chineses, tornámos possível ao longo dos últimos 30 anos acelerar esta transição para o resto do mundo, ao fazer mineração pelo custo mais baixo. Se começarem a dar ouvidos a toda a gente, nunca vão abrir mina nenhuma.” Isto lança um debate, talvez até uma guerra entre valores. Que tipo de regime é o mais adequado para responder à urgência de mudar o modelo de energia que temos?
▲ Manifestação contra a construção de uma mina de lítio em Montalegre
ARMÉNIO BELO/LUSA
Porque é muito difícil convencer a opinião pública na Europa, por exemplo, de que abrir uma mina ‘no seu quintal’ é uma boa ideia?
Exatamente. E porque se disse às pessoas, durante 20 anos, que o “verde” seria perfeito. E agora dizemos-lhes que “Ok, para terem um carro ‘verde’ vai ser preciso escavar mais”. Se querem conduzir de forma ecológica, vamos ter de escavar mais a fundo e nos nossos quintais. E as pessoas não têm esta noção, porque há 20 anos que veem anúncios a carros elétricos onde se diz que se comprarem um estão a salvar o mundo. E ninguém lhes diz “Bom, na verdade é mais complexo do que isso”. Os políticos têm responsabilidade nisto. Há uma hipocrisia a todos os níveis, até dos partidos ecologistas. Poucos partidos querem falar disto, porque correm o risco de não serem eleitos. É necessária muita pedagogia. E este meu argumento a favor da mineração é um argumento pró-resiliência, pró-indústria, pró-criação de emprego e redução de dependência de outros, mas também é um argumento pró-ecologia. Temos de repensar a forma como explicamos isto, as pessoas precisam de ter todas as cartas na mão antes de tomarem decisões. É uma tarefa dantesca.
A greenflation está aí. “Queremos ser verdes, mas estamos dispostos a pagar o preço por isso?”
Há uma questão que deixa a pairar no fim do livro, que é o facto de algumas pessoas — e voltamos novamente a Elon Musk, por exemplo — acharem que uma possível solução é fazer esta exploração de minerais no espaço. Pareceu-me que é cético face a esta possibilidade. Porquê?
Sou totalmente cético. Se formos à lua e instalarmos lá uma estação permanente, vamos usar os seus recursos, incluindo água (para produzir oxigénio) e provavelmente alguns minerais. Mas isso vai ficar na Lua. Do ponto de vista económico, não faz qualquer sentido trazer esses recursos de volta para a terra. É muito mais competitivo apostar na reciclagem de todos os materiais que extraíamos da crosta terrestre do que ir buscar algo à Lua. Acho mais provável num futuro próximo que comecemos a extrair recursos do leito marítimo. Esta é a próxima fronteira.
Porque é uma solução mais tangível?
Mais tangível e mais acessível, mais vantajosa do ponto de vista económico. Há várias empresas a fazê-lo, norueguesas e também canadianas. Há uma empresa canadiana que está dedicada a tentar extrair recursos do Pacífico, por exemplo.
Ainda mantém a esperança de que haja formas de fazer isto de forma mais ecológica e autónoma, do ponto de vista dos europeus?
Sim. Mas temos de enfrentar a realidade: a não ser que decidamos não ter carro nem telefone, vamos ter de obter estes recursos de alguma forma. A melhor dinâmica parece-me ser a de tentar obter recursos produzidos por países “amigáveis”. O Canadá pode ser um excelente parceiro em termos de extração e acesso a esses recursos, é um dos países com mais depósitos e já tem uma estrutura mineira forte. Mas fazê-lo com países que têm condições de mineração responsáveis vai exigir que paguemos o preço de metais mais caros do que aqueles que temos comprado até agora. E isso vai ter reflexos no preço do nosso carro, é aquilo a que chamamos de greenflation (“inflação verde”). Queremos ser “verdes”, mas estamos dispostos a pagar o preço por isso? Há um fascinante mundo “verde” a nascer. E não me entenda mal, acho que devemos ir nessa direção, não acho de todo que devamos continuar a apostar no petróleo. Mas vai ser um mundo cheio de desafios.