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PAULO NOVAIS/LUSA

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Hospital Garcia de Orta apresentou escala de cirurgia sem cirurgiões /premium

Nenhum cirurgião geral estava escalado na urgência de Cirurgia Geral esta sexta-feira. Internistas das urgências demitiram-se por causa disso. Escala de setembro estará sempre incompleta.

Dez médicos internistas do Hospital Garcia de Orta (HGO) demitiram-se das suas funções de chefes de equipa da urgência da especialidade por estarem em desacordo com o facto de a escala de Cirurgia Geral para esta sexta-feira não estar completa — na verdade, por não ter um único cirurgião geral. O diretor clínico do hospital, Nuno Marques, garantiu ao Observador que a situação estava resolvida e que “o serviço de urgência está aberto nos moldes normais”. O secretário-geral do Sindicato Independente dos Médicos, Jorge Roque da Cunha, por sua vez, denuncia que em dia nenhum da escala de setembro estiveram ou estão escalados o número necessário de especialistas em Cirurgia Geral.

Marta Temido, ministra da Saúde, admitiu ter tido acesso à carta dos internistas demissionários onde, disse, se denuncia a falta do preenchimento da escala do dia 13 de setembro e a sobrecarga dos especialistas de Medicina Interna. Os signatários da carta mostraram-se preocupados com a possibilidade de o serviço de Cirurgia Geral sair das Urgências. “Uma decisão dessas nunca poderia ser tomada”, garante Marta Temido. E Nuno Marques assegura que o conselho de administração nunca colocou essa hipótese.

O Observador tentou entrar em contacto com algum dos médicos demissionários para esclarecer exatamente qual o conteúdo da carta de demissão e como estavam criadas as escalas, mas todas as fontes contactadas garantiram que os chefes de equipa fizeram um pacto de silêncio e não pretendem prestar declarações aos órgãos de comunicação social. O sindicato garante, no entanto, que mantém a decisão de se demitirem enquanto as promessas feitas pelo conselho de administração não forem cumpridas.

O serviço de urgência de Cirurgia Geral do Hospital Garcia de Orta vai encerrar?

A demissão em bloco de “10 chefes de equipa de urgência [de Medicina Interna] do Hospital Garcia de Orta e outros tantos internistas que exercem funções no Serviço de Urgência” chegou esta quinta-feira às redações pela mão de João Araújo Correia, presidente da Sociedade Portuguesa de Medicina Interna. Em causa estaria a “decisão do conselho de administração [do hospital] de retirar a Cirurgia Geral da presença física no serviço de urgência”.

Nuno Marques, diretor clínico do HGO, confirmou ao Observador que recebeu a carta de demissão dos médicos internistas, reuniu com eles e ouviu os motivos de queixa que apresentavam, mas garantiu que o encerramento do serviço de Cirurgia Geral nas Urgências não tinha qualquer fundamento. “Em momento algum, quer eu, na qualidade de diretor clínico, quer os restantes membros do conselho de administração, colocámos a possibilidade de a Cirurgia Geral deixar de estar em presença física nas 24 horas da nossa urgência.”

Este serviço nunca poderia deixar de existir num hospital com uma urgência polivalente (com várias especialidades de cirurgia, entre outras valências), confirma ao Observador Miguel Guimarães, bastonário da Ordem dos Médicos. Marta Temido justifica que “o que o conselho de administração tem procurado fazer é redefinir os circuitos de funcionamento do serviço de urgência no sentido de melhorar a qualidade do trabalho e do atendimento prestado”. A ministra repete palavras usadas pelo diretor clínico em conversa com o Observador.

Em 2015, as Comissões de Utentes de Saúde de Almada e do Seixal protestaram contra a falta de condições do Hospital Garcia de Orta. As reclamações mantém-se — Miguel A. Lopes/LUSA

Miguel A.Lopes/LUSA

“Em termos clínicos, temos de definir claramente qual a especialidade mais indicada para observar esse doente mediante as queixas que ele apresenta de modo a que todo o processo de atendimento e a qualidade do mesmo seja otimizada”, diz Nuno Marques. Ou seja, a ideia é melhorar o serviço de triagem e encaminhamento do doente. O Observador não conseguiu confirmar se este é o motivo de queixa dos médicos internistas da Urgência que receiam ficar sobrecarregados com as mudanças que o conselho de administração venha a apresentar.

Os chefes de equipa das Urgências de Medicina Interna continuam demissionários?

Antes de mais, é preciso esclarecer que os 10 chefes de equipa apresentaram a sua demissão do cargo de responsabilidade que ocupavam, tendo como objetivo deixar de liderar as equipas, mas mantendo-se como internistas no hospital e a cumprir os serviços de urgência para os quais estejam escalados. Quanto aos restantes especialistas de Medicina Interna não foi possível perceber qual o objetivo de fazerem parte da carta de demissão, além de se mostrarem solidários com os colegas.

Na noite de quinta-feira, e já depois da reunião com os médicos demissionários, o conselho de administração garantiu que “nenhum diretor de serviço do HGO se demitiu”. Jorge Roque da Cunha, secretário-geral do Sindicato Independente dos Médicos, por sua vez, garantia esta sexta-feira ao Observador que a reunião em nada mudou a decisão dos médicos e que este “continuam demissionários”.

O que levou à demissão dos médicos internistas do serviço de urgência?

O Observador não teve acesso à carta de demissão entregue pelos médicos internistas e o presidente da Sociedade Portuguesa de Medicina Interna, João Araújo Correia, que denunciou a situação na quinta-feira, preferiu “pôr as coisas como elas são sem estar a esgrimir exatamente os termos em que as coisas se passaram”. De forma geral, o que se passou foi a demissão de uma vintena de médicos internistas do serviço de urgência por, alegadamente, ter deixado de haver valência de Cirurgia Geral naquele serviço.

Mais de 50% dos doentes não deviam estar nas urgências

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Nuno Marques, diretor clínico do Hospital Garcia de Orta, admite que a sobrecarga do serviço de urgência é muito grande. “Temos uma grande pressão de doentes que são triados com verde ou azul, doentes com patologias não urgentes, e que de um modo genérico não deveriam ser atendidos num serviço de urgência hospitalar.” Estes doentes representam mais de metade das pessoas que procuram as Urgências naquele hospital.

Marta Temido, que também leu a carta, foi mais específica nas queixas dos médicos. “Há uma carta, assinada por um conjunto de chefes de equipa e um conjunto de médicos especialistas de Medicina Interna que invocam três aspetos no essencial: a falta de preenchimento da escala de hoje, dia 13 [na especialidade de Cirurgia Geral]; a redução do número de especialistas, concretamente na Medicina Interna; e falam na sobrecarga da atividade assistencial e na impossibilidade de retirar a cirurgia geral do banco de urgências.”

O conselho de administração nunca terá anunciado a extinção da Cirurgia Geral nas Urgências, mas a verdade é que a escala desta valência não tinha nenhum cirurgião geral nomeado para esta sexta-feira, segundo o Sindicato Independente dos Médicos. Marta Temido não deu uma dimensão tão grande ao problema. “Houve dificuldade em ter equipa para assegurar a escala hoje, dia 13 de setembro”, disse. “Foi possível preencher essa escala, com recurso à própria disponibilidade do diretor do serviço de cirurgia geral e consequentemente esse problema foi ultrapassado.”

Mas o problema não é só nesta sexta-feira, como alerta Jorge Roque da Cunha. Segundo o sindicalista, em nenhum dia do mês de setembro estão escalados cinco especialistas de Cirurgia Geral para as Urgências do HGO. Pior, em oito dos 30 dias do mês nem sequer dois cirurgiões gerais tinham sido escalados.

"Mantém o pedido de demissão. Foi apresentado e não foi retirado."
Jorge Roque da Cunha, secretário-geral do Sindicato Independente dos Médicos

Quantos especialistas de cirurgia geral deveria ter a escala?

Um hospital com urgência básica não precisa de ter especialistas em Cirurgia Geral nas Urgências, se for um hospital com urgência médico-cirúrgica terá de ter três cirurgiões desta área de especialidade e se se tratar de uma urgência polivalente, entre as várias valências de cirurgia e de outras especialidades, o hospital terá de ter um serviço de Cirurgia Geral com cinco especialistas (idealmente). Miguel Guimarães, bastonário da Ordem dos Médicos, diz que um destes cirurgiões na escala pode ser um interno do último ano (um médico que está a completar a especialização) e admite que, devido à falta de médicos, em muitos locais já se tenham nas escalas três médicos com a especialização completa e dois internos.

O Hospital Garcia de Orta é um hospital com urgência polivalente que serve cerca de 350 mil habitantes, logo deveria ter no serviço de urgência cinco cirurgiões gerais, como confirma o bastonário. Jorge Roque da Cunha diz que na escala de setembro isso nunca aconteceu.

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O Sindicato Independente dos Médicos apresenta três exigências:

  • Que sejam contratados especialistas em Cirurgia Geral para o serviço de urgência;
  • Que se verifique se os prestadores de serviço contratados para suprir as falhas na escala têm essa especialidade;
  • Que se confirme se os prestadores de serviço tiveram o período descanso necessário antes de entrarem na escala do serviço de urgência.

E porque é que uma equipa de três é insuficiente? Qualquer cirurgia que exija ir ao bloco operatório tem de ser feita por dois cirurgiões, mesmo que um deles seja um interno. O terceiro ficaria no balcão de urgência, para fazer diagnósticos ou atender casos de pequena cirurgia (como suturas), mas impossibilitado de abrir um segundo bloco de cirurgia por não ter outro elemento que acompanhasse. Pior, os cirurgiões gerais do serviço de urgência não dão assistência apenas aos doentes que se encontram naquele serviço, mas também aos que estão internados e que precisam de vigilância, de um diagnóstico ou de uma intervenção do cirurgião geral de urgência. Além disso, se alguma coisa correr mal numa cirurgia programa num serviço de especialidade, é o cirurgião geral de urgência que se deve dirigir a esse bloco operatório.

Nuno Marques confirmou ao Observador que têm tido constrangimentos na elaboração das escalas por causa da ausência de cinco cirurgiões gerais por motivos de doença e de licença. “Contudo devo dizer que o hospital tem respondido. Temos conseguido manter as nossas escalas de cirurgia geral com o número de elementos habitual. Não houve alteração do número de elementos”, garante. O diretor clínico não explica, no entanto, de que especialidade são estes elementos.

O Observador tentou confirmar junto do Hospital Garcia de Orta se estes cinco elementos são cirurgiões gerais ou de outras especialidades como denunciado pelos médicos e pelo sindicato, mas até agora não teve qualquer resposta. O Observador também questionou se as escalas do mês de setembro (e dos meses anteriores) têm sido feitas com cinco cirurgiões gerais como é suposto numa urgência polivalente.

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